Alma Sobrevivente
Sou Cristo, Apesar da Igreja
Philip Yancey


Ttulo Original: Soul Survivor - How my faith survived the Church
Traduo: Almiro Pisetta
Editora Mundo Cristo, 2004.
ISBN 85-7325-271-5
Digitalizao: BlacKnight
WWW.PORTALDETONANDO.COM.BR/FORUMNOVO/




Sumrio
       AGRADECIMENTOS
      APRESENTAO
      1. DEPOIS DO ABUSO
      PHILIP   YANCEY
      2. MARTIN LUTHER KING JR.
      A   LONGA   JORNADA NOTURNA   RUMO AO   DIA
      3. G. K. CHESTERTON
      RELQUIAS  BEIRA-MAR
      4 . DR. PAUL BRAND
      DESVIOS NO CAMINHO DA FELICIDADE
      5. DR. ROBERT COLES
      VIDAS CALMAS E AS AGRESSES DO UNIVERSO
      6. LEON TOSTOI E FYODOR  DOSTOIEVSKI
      EM BUSCA DA GRAA
      7. MAHATMA GANDHI
      ECOS EM UMA TERRA ESTRANHA
      8. DR. C. EVERETT KOOP
      SERPENTES E POMBAS EM PRAA PBLICA
      9. JOHN DONNE
      NO LEITO DE MORTE
      10. ANNIE DILLARD
      O ESPLENDOR DAS COISAS SIMPLES
      11. FREDERICK BUEGHNER
      O MOVIMENTO DAS ASAS
      12. SHUSAKU ENDO
      LUGAR DE TRAIDORES
      13. HENRI NOUWEN
      O FERIDO QUE CURA FERIDAS
      EPLOGO


Agradecimentos
      Neste projeto, minha agente, Kathryn Helmers, foi muito alm das responsabilidades esperadas de uma pessoa com essa funo. Em muitos aspectos, este livro
no existiria se no fosse por ela, que ajudou a formar e a refinar a viso em minha mente para, ento, estimular-me a cada passo, oferecendo-me tanto encorajamento
quanto direo. Estruturao de frases, organizao temtica, opes para a capa, acabamento, clusulas do contrato - ela participou alegremente de todas as fases
do processo de publicao. Em vrios momentos, menciono a psicose que  o processo de escrever; Kathryn ajudou a baixar esse estado para o nvel da neurose e at
conseguiu extrair alguns momentos saudveis de tudo isso.
      Meu editor na Doubleday, Eric Major, colaborou com a mesma presena calma e sustentadora que conheci 20 anos atrs, quando ele publicou no Reino Unido as edies
dos livros que escrevi com o Dr. Paul Brand. Minha assistente, Melissa Nicholson, passou horas a fio diante de uma tela de computador em bibliotecas e na internet
para pesquisar e verificar os fatos.
      Estes captulos retratam pessoas sobre as quais escrevi em outras obras, como jornalista. Em cada caso, mudei e ampliei bastante o material, alm de adicionar
um ponto de vista pessoal. Mas continuei me baseando em pesquisa e, s vezes, nas palavras originais dos trabalhos anteriores. Artigos sobre Martin Luther King Jr.,
Dr. Robert Coles,Mahatma Gandhi e Dr. C. Everett Koop apareceram em edies da revista Christianity Today. Artigos sobre Annie Dillard, Frederick Buechner, Leon
Tolstoi, Fyodor Dostoievski e Shusaku Endo apareceram em Books and Culture. Alm disso, escrevi algumas reflexes sobre G. K. Chesterton como prefcio de uma edio
de Orthodoxy, sobre o Dr. Paul Brand como prefcio de The Forever Feast, sobre Henri Nouwen em um captulo de Nouwen Then e sobre John Donne para um trabalho conjunto
intitulado Reality and the Vision. Alguns dos pensamentos que transcrevo aqui sobre King, Donne, Endo e Tolstoi tambm aparecem em meus livros O Deus (in)visvel,
Maravilhosa graa e O Jesus que nunca conheci} Agradeo aos detentores dos direitos dessas publicaes por permitirem que eu pesquisasse as frases e pargrafos dessas
obras para descobrir algumas que se encaixassem no propsito deste trabalho.
Apresentao
      Para alguns leitores, a leitura deste livro ser a ltima tentativa de salvar a sua f antes que tudo se ponha a perder. Foi para estes leitores -  beira
do precipcio espiritual - que editamos este livro.
      O conceito editorial sobre o qual foi construdo Alma Sobrevivente foge da frmula que normalmente se espera de um livro que procura resgatar os nufragos.
O autor no prope nada alm de contar a sua prpria histria. Afinal, ele sabe que as pessoas decepcionadas com a igreja institucional no agentam ouvir mais planos,
frmulas, passos, cartilhas, regras ou leis, pois foi justamente esta tentativa de doutrinao comportamental que as afugentou.
      Em outras obras ele j havia exposto a sua desiluso com os abusos da igreja institucional. Ele sempre encarou de frente temas como a hipocrisia dos evanglicos,
as prioridades confusas da igreja contempornea e a tendncia dos lderes cristos de oferecerem solues baratas para qualquer que seja o problema da condio humana.
Yancey nunca temeu as repercusses de suas crticas, pois sabe que so justamente as falhas da igreja que impedem que muitos aceitem o evangelho de Cristo.Neste
livro, entretanto, ele vai mais longe. Revela que, na sua juventude, quase abandonou a igreja, por consider-la racista, retrgrada, despropositada e abusiva. S
no renunciou  sua f crist porque descobriu que havia outros como ele, desiludidos com a igreja, mas profundamente comovidos pela mensagem central do cristianismo.
      Num olhar retrospectivo, ele hoje chama essas pessoas de "mentores". Ajudaram-no a enxergar a totalidade da proposta crist que existe por trs da organizao
eclesistica estabelecida. Ajudaram-no tambm a descobrir o verdadeiro Cristo do cristianismo, a discernir a causa nobre que fundamenta toda a histria da relao
Deus-homem e a entregar-se ao compromisso apaixonante de defender o nome de Cristo.
      O leitor desta traduo provavelmente no reconhecer os nomes de todos os conselheiros e mentores de Philip Yancey. Autores como Frederick Buechner e Annie
Dillard, por exemplo, so inditos no Brasil. Outros, apesar de terem algumas obras editadas em portugus, so desconhecidos pela maioria: Henri Nouwen, Shusako
Endo, Robert Coles, G. K. Chesterton. Algumas escolhas surpreendem, por no fazerem parte de nenhum panteo evanglico;  o caso de Mahatma Gandhi, que no foi cristo,
mas cujas atitudes como lder sincronizaram-se com o jeito essencialmente cristo de comportar-se diante das adversidades. H tambm algumas ausncias intrigantes;
onde esto C. S. Lewis, Dietrich Bonhoeffer e Dorothy Sayers?
      Para o leitor desta edio em portugus, cabe uma elucidao. A maioria dos leitores do livro original em ingls tambm desconhece esses autores e as suas
obras. Com base nas recomendaes de Yancey, muitos desses leitores esto procurando saber mais. Esperamos que a publicao de Alma Sobrevivente em portugus tenha
o mesmo efeito sobre os leitores e sobre o setor editorial como um todo. Desejamos despertar interesse nas obras desses indivduos e, mais do que isto, demonstrar
que a disciplina de procurar sabedoria nos bons livros ainda  o caminho mais curto para a compreenso da vida, para a aceitao dos paradoxos naturais que surgem
no cristianismo, e para a construo de um discernimento profundo entre o cerne e as circunstncias do evangelho.
      Mark Carpenter Editora Mundo Cristo

1. Depois do abuso
Philip   Yancey
      s vezes, em uma sala de espera ou num avio, inicio conversas com pessoas que no conheo, e  nesse momento que elas descobrem que escrevo livros sobre temas
ligados  espiritualidade. As sobrancelhas se erguem, as barricadas se levantam e, ento, passo a ouvir mais uma histria de horror sobre a Igreja. Creio que a expectativa
dessas pessoas  que eu defenda a Igreja, pois ficam surpresas quando digo: "Ah! mas a coisa  muito pior. Deixe-me contar a minha histria". Tenho passado a maior
parte de minha vida recuperando-me daquilo que a Igreja me fez.
      Uma das igrejas que freqentei, nos meus primeiros anos de vida na Gergia, na dcada de 1960, possua uma viso extremamente fechada do mundo. Um desenho
bem na frente da igreja orgulhosamente anunciava nossa identidade, expressa em palavras que irradiavam de uma estrela com vrias pontas: "Novo Testamento, comprados
pelo sangue, nascidos de novo, pr-milenaristas, dispensacionalistas, fundamentalistas..." Nosso pequeno grupo de 200 pessoas era extremamente preso  verdade, 
verdade de Deus, e todo aquele que discordasse de ns estaria brincando perigosamente na divisa com o inferno. Uma vez que minha famlia vivia num trailer estacionado
no terreno da igreja, nunca pude escapar da nuvem envolvente que bloqueava minha viso e determinava as fronteiras do meu mundo.
      Mais tarde, pude perceber que a igreja mesclava algumas mentiras com a verdade. Exemplo: quando subia ao plpito, o pastor pregava abertamente o racismo. Ele
dizia que as raas escuras eram amaldioadas por Deus, citando uma obscura passagem do Livro de Gnesis, segundo a qual os negros seriam muito bons como servos.
"Vejam como os garons de cor conseguem caminhar nos restaurantes, rodando seus quadris por entre as mesas com extrema habilidade enquanto carregam as bandejas",
dizia ele. Porm, como lderes, nem pensar.
      Armado com tais doutrinas, apresentei-me no primeiro emprego. Foi uma espcie de estgio durante o vero no Centro de Doenas Contagiosas, prximo  cidade
de Atlanta. Nesse hospital, encontrei meu supervisor, o Dr. James Cherry, Ph.D. em Bioqumica. E negro. Alguma coisa no batia.
      Depois de fazer o colegial, entrei para um seminrio em um Estado vizinho. Mais progressista que minha igreja, a escola havia admitido um estudante negro que,
para manter as coisas num nvel adequado de segurana, dividia o quarto com um aluno de Porto Rico. Essa escola acreditava em regras, muitas regras: todas contidas
num livro com nada menos do que 66 pginas delas, o qual precisvamos ler, estudar e cumprir. O corpo docente e a direo tinham dificuldades em ligar cada uma das
regras a princpios bblicos, o que envolvia certo grau de criatividade, uma vez que algumas das regras (como as que tratavam do comprimento do cabelo dos rapazes
e da saia das moas) mudavam a cada ano. Na parte final do curso, j noivo, eu s podia passar a hora do jantar - que ia das 17h40 s 19h - com a mulher que hoje
 minha esposa. Certa vez, fomos flagrados de mos dadas, o que fez com que ficssemos "sob restrio", proibidos de nos ver ou falar por duas semanas.
      Em algum lugar do grande mundo l fora, estudantes estavam protestando contra a Guerra do Vietn, marchando por direitos humanos em uma ponte prxima  cidade
de Selma, no Alabama, e reunindo-se para celebrar a paz e o amor em Woodstock, em Nova York. Enquanto isso, estvamos preocupados em nos aprofundar no supralapsarianismo
- o que aconteceu antes do pecado original - e em medir cabelos e saias.
      Pouco antes da virada do milnio, na primavera de 2000, passei por uma experincia de recapitulao de minha vida. No primeiro dia, participei de um painel
numa conferncia na Carolina do Sul sobre o lema "F e Fsica". Embora no tivesse conhecimento de fsica algum, fui escolhido, com um representante da Escola de
Divindade de Harvard, porque escrevo muito sobre assuntos de f. O painel pendia mais para o lado da cincia, pois inclua dois fsicos ganhadores do Prmio Nobel
e o diretor do Fermilab, um laboratrio de acelerao de partculas nucleares prximo a Chicago.
      Um dos laureados com o Prmio Nobel comeou dizendo que no via utilidade para a religio, considerando-a, na verdade, prejudicial e supersticiosa. "Dez por
centro dos americanos admitem que foram abduzidos por extraterrestres, metade da populao  criacionista e metade l horscopo todos os dias", disse ele. "Por que
deveramos nos surpreender se a maioria dissesse que cr em Deus?" Criado como judeu ortodoxo, ele  hoje um ateu convicto.
      Os outros cientistas usaram palavras mais amenas para se referir  religio, mas disseram que restringiram seu campo de observao quilo que pode ser visto
e comprovado, o que, por definio, exclui as questes ligadas  f. Quando chegou minha vez de falar, reconheci os erros que a Igreja cometera e agradeci aos colegas
por no terem queimado a ns, cristos, numa estaca, agora que o feitio estava virando contra o feiticeiro. Tambm agradeci pela enorme sinceridade de sua posio
no testa. Li um trecho de um artigo de Chet Raymo, astrnomo e cientista que escreveu sobre as probabilidades de nosso universo ter nascido, como ele acreditava,
do puro acaso:

   Se logo aps o big-bang a relao entre a densidade do universo e sua taxa de expanso tivesse se desviado do valor previsto apenas parcialmente em 1015 (que
significa um nmero 1 seguido de 15 zeros), o universo teria encolhido ou se expandido to rapidamente que no haveria possibilidade de as estrelas e as galxias
se condensarem em sua matria bsica... A moeda girou no ar 1015 vezes e caiu em p uma nica vez. Se todos os gros de areia de todas as praias da tara fossem universos
possveis - ou seja, universos que fossem consistentes com as leis da fsica como as conhecemos - e apenas um desses gros fosse uni universo que permitisse a existncia
de vida inteligente, ento esse nico gro de areia  o universo que habitamos.

      Depois do painel, dois outros ganhadores do Prmio Nobel, um em Fsica e outro em Qumica, juntaram-se  discusso, alm de alguns outros cristos esclarecidos.
Um dos fsicos pediu para ver a citao de Raymo, a quem ele conhecia pessoalmente. "Dez elevado  15a potncia, dez a 15... calculamos que existam 1022 estrelas
no universo - tudo bem, posso ficar com esta idia. Aceito esta probabilidade", disse.
      Caminhamos ento para a crtica  religio. Sim, ela causou muitos danos, mas tambm consideramos os muitos benefcios que ela trouxe. O prprio mtodo cientfico
nasceu do judasmo e do cristianismo, os quais apresentaram o mundo como um produto de um Criador racional e, portanto, compreensvel e sujeito  verificao. O
mesmo aconteceu nas reas da educao, medicina, democracia, obras sociais e questes legais, como a abolio da escravatura. Os fsicos ateus reconheceram abertamente
que no tinham bases reais para sua tica, e que muitos de seus colegas serviram a regimes nazistas e comunistas sem qualquer remorso. Tivemos momentos fascinantes
de troca de idias, uma experincia nica de dilogo verdadeiro que resultou de diferentes perspectivas sobre o universo.
      Um dia depois, eu e minha esposa acordamos cedo e viajamos 160 quilmetros para participar da 30a reunio da turma do seminrio. Ali, ouvimos nossos colegas
descreverem as trs ltimas dcadas de suas vidas. Um deles disse que se libertou da artrite depois de dez anos, quando finalmente lidou com um pecado no confessado
em sua vida. Outro exaltou as virtudes de dormir sobre ms. Vrios estavam sofrendo da sndrome de fadiga crnica, outros passavam por profunda depresso. Um casal
havia internado recentemente sua filha adolescente em uma clnica para doentes mentais. Essas pessoas no tinham uma aparncia saudvel, e senti tristeza e compaixo
enquanto ouvia suas histrias.
      Paradoxalmente, meus colegas de classe ressuscitavam frases que aprendramos no seminrio: "Deus est me dando a vitria"; "Posso todas as coisas em Cristo";
"Todas as coisas cooperam para o bem"; "Estou caminhando em triunfo". Sa dessa reunio com a cabea rodando. Fiquei imaginando qual seria a reao dos cientistas
se eles estivessem presentes ali. Imagino que teriam apontado a disparidade entre o que viam na vida das pessoas e o verniz espiritual que fora aplicado sobre elas.
      Logo na manh seguinte, um domingo, levantamos cedo mais uma vez e viajamos quase 300 quilmetros at Atlanta para participar do sepultamento da igreja fundamentalista
na qual cresci, aquela com a estrela de vrias pontas. Depois de mudar de prdio para se livrar de uma vizinhana em constante mutao, a igreja se viu mais uma
vez cercada de vizinhos afro-americanos 1 e com uma freqncia cada vez menor de pessoas. Em uma doce ironia, a igreja estava vendendo seu prdio para uma congregao
afro-americana. Fui espiar o derradeiro culto dessa igreja, anunciado como uma reunio aberta a todos aqueles que j haviam freqentado seus cultos.
      Reconheci muitas pessoas que fizeram parte de meu passado, uma perturbadora armadilha do tempo na qual vi meus colegas adolescentes agora barrigudos, carecas
e na meia-idade. O pastor, que era o mesmo de 40 anos atrs, enfatizou o slogan da igreja: "Batalhando pela f". Ele disse: "Combati o bom combate e completei a
carreira". Ele parecia mais baixo do que eu pensava. Estava menos aprumado, e seu cabelo, antes bem ruivo, estava totalmente branco agora. Agradeceu diversas vezes
 congregao pelo Oldsmobile que recebera como presente de gratido: "Nada mal para um pobre pastor como eu", repetia.
      Durante o culto, mais longo que o normal, uma procisso de pessoas se levantou e falou como havia encontrado Deus por meio dessa igreja. Enquanto os ouvia,
fiquei pensando nas muitas pessoas que no estavam presentes, como meu irmo, que se afastou de Deus em grande parte por causa dessa igreja. Hoje vejo seu esprito
contencioso com pena, ao passo que, na adolescncia, isso havia arrancado de mim a f e a vida. Naquele momento, a igreja havia perdido todo o poder que tinha sobre
mim: seu ferro no tinha mais veneno. Mas eu ficava lembrando a mim mesmo que quase abandonei a f crist como reao quela igreja e que sentia grande simpatia
pelas que haviam deixado o cristianismo.
      Aquele fim de semana me deu um breve resumo de minha vida. "A que perteno eu agora?", pensei. Havia muito tempo eu rejeitara o esprito de culto da igreja
que eu estava ajudando a sepultar. Mas eu tambm no poderia abraar o ceticismo materialista desses cientistas presentes no painel. Muito embora eles pudessem apostar
na veracidade daquele fantstico gro de areia que se ops s foras do acaso, eu no poderia faz-lo. Teologicamente,  muito mais provvel que eu me sinta mais
confortvel com o seminrio evanglico, pois temos em comum sede por Deus, reverncia pela Bblia e amor por Jesus. Todavia, no encontro ali muito equilbrio ou
sade. s vezes, sinto-me como a pessoa mais liberal no meio dos conservadores e, em outros momentos, o mais conservador entre os liberais. Como posso equilibrar
meu passado religioso com meu presente espiritual?

      J me encontrei com pessoas e ouvi muitas outras que passaram por um processo similar de procura pela verdade a partir de seu passado religioso. So catlicos
romanos que hesitam diante de uma freira ou de um padre, antigos membros da Igreja Adventista do Stimo Dia que no conseguem beber uma xcara de caf sem uma ponta
de culpa, menonitas que ficam preocupados se uma aliana de casamento pode ser um sinal de mundanismo. Hoje, alguns deles rejeitam totalmente a Igreja, considerando
os cristos como ameaas, ou mesmo repulsivos.
      Um dos personagens do livro A Segunda Vinda, de Walker Percy, 2 captou este pensamento de maneira apropriada:
      Estou cercado de cristos. Eles normalmente esto falando de um alegre e confortvel porvir, o que no  muito diferente de outras pessoas - muito embora eles,
os cristos do Sul, os Estados Unidos, o mundo ocidental tenham matado mais pessoas do que quaisquer outros povos juntos. Mas no posso afirmar que eles no tenham
a verdade. Mas, se eles tm a verdade, por que so to repulsivos, na mesma proporo em que abraam e propagam a verdade? Uma pessoa pode se tornar crist mesmo
que haja poucos ou nenhum cristo ao redor dela. Voc j viveu no meio de 15 milhes de batistas do sul? (...) Um mistrio: se as boas novas so verdadeiras, por
que algum no se agrada em ouvi-las?
      Sua ltima pergunta  bastante forte. Se o evangelho  considerado uma eucatstrofe - palavra usada por J. R. R. Tolkien para uma coisa espetacularmente boa
que acontece a algum terrivelmente ruim -, por que to poucas pessoas recebem essas notcias como sendo realmente boas?
      Hoje acredito que me tornei escritor para colocar no lugar certo algumas palavras usadas e abusadas pela igreja da minha juventude. Apesar de ouvir que "Deus
 amor", a imagem que eu fazia de Deus, a partir dos sermes que ouvia, estava muito mais prxima de um tirano irado e vingativo. Cantvamos: "Cristo ama as criancinhas
(...) quer loirinhas, quer hindus, esquims ou ndios nus". 3 Porm, a situao era outra quando uma dessas crianas diferentes de ns queria entrar na igreja. Os
professores do seminrio insistiam em dizer que "vivemos debaixo da graa, no mais debaixo da Lei", e por toda a minha vida nunca consegui entender com clareza
a diferena entre as duas coisas. Desde ento, tenho me lanado numa busca para desenterrar as boas novas, limpar as palavras originas do evangelho e descobrir o
que a Bblia realmente quis dizer quando usou termos como amor, graa e compaixo para descrever o prprio carter de Deus. Encontrei verdade nessas palavras, verdade
que precisa ser buscada com diligncia e habilidade, como os afrescos que esto ocultos por camadas de tinta e massa nas capelas antigas.
      Senti-me motivado a escrever porque, para mim, isso foi como se frestas de luz se transformassem em uma janela aberta para outro mundo. Lembro-me do impacto
causado por um pequeno livro chamado To Kill a Mockingbird (Para matar um tordo 4), que tratava da questo dos pressupostos segregacionistas de meus amigos e vizinhos.
Quando segui adiante e li livros como Black Like Me (Negro como eu 5), The Autobiography of Malcolm X (Autobiografia de Malcolm X 6) e Letterfrom Birmingham City
Jail (Carta de uma priso em Birmingham), de Martin Luther King Jr., meu mundo se despedaou. Senti o poder que permite que uma mente humana entre em outra sem qualquer
empecilho, como se fosse um bisturi. Percebi que aqueles textos poderiam avanar nas fendas, trazendo oxignio espiritual s pessoas presas em caixas hermticas.
      Comecei a valorizar, em especial, a qualidade libertadora da palavra escrita. Os oradores das igrejas que freqentei podiam levantar suas vozes e manipular
as emoes como quem toca um instrumento musical. Mas sozinho, em meu quarto, controlando cada virada de pgina, encontrei-me com outros embaixadores da f - C.
S. Lewis, G. K. Chesterton, John Donne -, cujas doces vozes atravessaram o tempo para convencer-me de que, em algum lugar, viveram cristos que conheceram a graa
e a Lei, o amor e o julgamento, a paixo e a razo. Tornei-me escritor por causa do meu prprio encontro com o poder das palavras, porque percebi que palavras estragadas
e distanciadas de seu sentido original poderiam ser recuperadas.
      Desde ento, tenho me apegado ferozmente  postura de um peregrino, pois  isso o que verdadeiramente sou. No tenho autoridade religiosa alguma. No sou nem
pastor nem professor, seno apenas um peregrino, uma pessoa que, como tantas outras, vive em meio a uma busca espiritual. Inevitavelmente (e tambm por instinto),
questiono e reavalio minha f a todo instante. Quando voltei daquele fim de semana de virar a cabea entre os fsicos, os colegas de classe do seminrio e os fundamentalistas
do Sul, perguntei a mim mesmo outra vez: por que ainda sou cristo? Por que continuo buscando um evangelho que veio a mim no meio de tanta distoro e apatia, que
normalmente mais parece notcia ruim do que boas novas?
      Todo escritor tem um tema principal, um rastro que fica perseguindo, uma coisa da qual vive buscando a origem. Se eu tivesse de definir meu prprio tema, ele
seria a histria de uma pessoa que absorveu algumas das piores coisas que a Igreja tem para oferecer, mas que, ainda assim, descansou nos braos amorosos de Deus.
Sim, passei por um perodo no qual rejeitei Deus e a Igreja, uma converso ao contrrio que fez com que eu sentisse certa liberdade por algum tempo. Contudo, no
tornei-me ateu ou um refugiado da Igreja, mas um de seus defensores. O que permitiu que eu resgatasse uma f pessoal a partir dos danosos efeitos da religio?
      As pessoas retratadas neste livro percorrem um longo caminho para responder a essa pergunta. Em 30 anos como jornalista, tive a liberdade de investigar todo
tipo de pessoa. J me encontrei com algumas que so verdadeiros personagens de um romance de Flannery O'Connor.7 Entrevistei o tele-evangelista Jim Bakker na poca
da exploso imobiliria de seus condomnios, do extravagante estdio de televiso e do parque temtico cristo, e o vi negar publicamente tudo aquilo que me dissera
e que estava gravado em fita. Ouvi uma garota de Las Vegas contar como se encontrara com Deus enquanto estava na mesa de operao "para aumentar os seios", e que,
sob anestesia, teve um sonho em que viu um caminho basculante feito de carne humana - "Tudo era feito de carne, at os pra-lamas" -, jogando um carregamento de
adolescentes americanos num lago de fogo.
      Em geral, porm, prefiro evitar essas pessoas, por mais interessantes que seus casos possam parecer. Elas lembram muito do meu passado, do qual ainda quero
fugir. Em vez disso, optei, desde o incio de minha carreira jornalstica, por procurar pessoas das quais eu pudesse aprender algo, pessoas que eu gostaria de imitar.
Como cresci cercado, em grande parte, de modelos negativos, estava ansioso por algum que fosse positivo. Encontrei alguns.
      Um rico empresrio chamado Millard Fuller cresceu desiludido com a competio no meio empresarial e, desafiado pelo pastor radical Clarence Jordan, abandonou
sua vida de luxo e fundou uma empresa de construo de casas populares - a Habitat for Humanity comemorou recentemente a marca de 100 mil casas construdas. Um presbiteriano
dedicado chamado Jack McConnell inventou um teste para tuberculose, ajudou a desenvolver o remdio Tylenol e aparelhos de ressonncia magntica e, quando se aposentou,
passou a recrutar mdicos aposentados para formar equipes de clnicas gratuitas que atendiam a pessoas pobres.
      Cicely Saunders entrou na faculdade de Medicina j na meia-idade porque as autoridades lhe disseram que, "nesta profisso, as pessoas somente do ouvidos aos
mdicos". Ela nunca praticou Medicina, mas, em vez disso, deu incio ao movimento moderno de tratamento de doentes terminais, introduzindo uma nova maneira de ajudar
os que esto  beira da morte.
      Durante o perodo em que dirigiu o Jardim Botnico de Nova York e o Jardim Botnico Real em Kew, Inglaterra, Sir Ghillean Prance fundou um instituto com o
bizarro nome Botnica Econmica, cujo propsito  mostrar aos pases com grandes extenses de florestas tropicais que eles podem lucrar muito mais colhendo e replantando
seletivamente alguns produtos do que devastando a floresta inteira.
      A partir de longas entrevistas com essas pessoas, fiquei grandemente impressionado com o papel que pessoas comuns podem desempenhar, quando esto cheias de
f, no avano das causas da justia e da misericrdia. "A glria de Deus  uma pessoa cheia de vida", disse Irineu, telogo do segundo sculo de nossa era. Infelizmente,
esta descrio no reflete a imagem que muitas pessoas tm dos cristos modernos. Certo ou errado, as pessoas os vem como discretos, nervosos e reprimidos, pessoas
que esto menos dispostas a comemorar e mais propensas a receber nossa reprovao. Como jornalista, porm, j me encontrei com pessoas que possuem uma vida realmente
mais positiva, em todos os aspectos, em funo de sua f. Elas tm vida abundante e, como passei tempo suficiente com elas, desejei beber eu mesmo dessa fonte de
vida e, ento, proclam-la a todo o mundo.
      As pessoas que so retratadas neste livro so representantes selecionados daqueles de quem aprendi e por quem fui desafiado. Eles nos sadam de pases to
diferentes quanto Japo, Holanda, Rssia, ndia e Inglaterra, assim como dos prprios Estados Unidos. Nem todos so cristos ortodoxos, e um deles, Mahatma Gandhi,
optou por ser contrrio  f crist. Mas todos eles foram permanentemente transformados por seu contato com Jesus. Conversei pessoalmente com boa parte deles e os
entrevistei, sendo que, em alguns casos, desenvolvi uma amizade eterna. Conheo a outra metade apenas indiretamente, por meio dos escritos que deixaram.  estranho,
mas aqueles que esto mais distantes do cristianismo ortodoxo - Gandhi, Tolstoi, Dostoievski, Endo - foram os que mais me ajudaram a compreender minha prpria f,
lanando luz sobre ela a partir de um ngulo que eu no havia considerado.
      Os escritores so parasitas, sugando vida de outras pessoas, e sou grato por ter recebido algo dessas vidas extraordinrias. Alguns deles ajudaram a mudar
a histria do planeta. Outros responderam fielmente a um chamado interior para se colocar na arena pblica. H ainda os que simplesmente sentaram-se em suas casas,
com um bloco de anotaes  mo, refletindo, separando idias, registrando suas vidas e seus pensamentos para a posteridade. Hoje, fao a mesma coisa, apresentando
esses meus mentores como se estivessem em uma galeria de retratos, na esperana de passar a outros o seu legado.
      As 13 pessoas que voc ver neste livro tm algo em comum: o impacto que causaram em mim. Por esta razo, a cada captulo pergunto qual a diferena que elas
fizeram em minha vida. De que maneira eu mudei em funo do contato, direto ou indireto, que tive com elas? Com o passar do tempo, as pessoas que retrato aqui se
tornaram os instrumentos que moldaram minha f; foram minha "nuvem de testemunhas" pessoal. Se eu fosse convidado a participar de uma conveno cheia de cticos
ou representantes de outra religio, e me fosse pedido para explicar minha f, elas seriam as companhias que eu gostaria de ter ao meu lado. Eu poderia simplesmente
apontar para elas e dizer: "Os cristos no so perfeitos, em todos os sentidos, mas eles podem ser pessoas cheias de vida.  isso o que eles so". Cada um se destaca
em seu campo e todos colocam a f como uma das razes de serem como so.
      Devo dizer que, para mim, escrever sobre esses atributos tem sido um exerccio de sade e at mesmo de alegria. No estabeleci uma meta, como sair por a para
converter a todos, defender a Igreja ou critic-la. Quero simplesmente apresentar a todos um grupo de pessoas excepcionais que no posso e no tenho desejo algum
de tirar de minha mente.
      Fred Rogers, o apresentador do show infantil Mister Rogers' Neighbor-hood (A vizinhana do senhor Rogers), segue uma tradio todas as vezes que fala em pblico:
ele pede s pessoas presentes em sua audincia que parem por um instante, em silncio, e pensem em todos aqueles que as ajudaram a se tornar o que so. Certa vez,
numa importante reunio na Casa Branca, foram-lhe dados apenas oito minutos para falar sobre a criana e, ainda assim, ele dedicou um de seus minutos ao silncio.
"Invariavelmente,  disso que as pessoas vo se lembrar", diz ele. "Aquele silncio."
      Normalmente, nos chega  mente uma pessoa do passado: um av, uma professora da escola primria, um tio ou uma tia excntrica. Passei vrios minutos pensando
na pergunta de Roger. Este livro representa minha resposta. Essas so as pessoas que me ajudaram a reencontrar os tesouros perdidos de Deus.

2. Martin Luther King Jr.
A   LONGA   JORNADA NOTURNA   RUMO AO   DIA
      No dia em que me formei no segundo grau, comecei a trabalhar num emprego de vero8 que consistia em cavar valas. Fiz aquilo apenas para economizar algum dinheiro
para a faculdade. Nossa equipe de trabalho era composta por quatro homens negros bastante musculosos e um garoto branco magricela: eu. O capataz, branco, deixava-nos
perto do local do trabalho, estacionava o caminho  sombra de uma rvore prxima, acendia um cigarro e comeava a ler a pgina de esportes. Embora comessemos
a trabalhar logo depois do nascer do Sol, o ar j era abafado e mido. Eu cavava com prazer, colocando ritmicamente minha p no cho, apertando com o p a parte
metlica com certa presso que fazia a terra se desprender. Ento, jogava a terra em um monte que ficava prximo. Os quatro homens negros olhavam aquele movimento
agitado com surpresa, como se eu tivesse inventado algum esporte extico. Finalmente, um deles veio a mim e disse: "Filho, voc vai se matar trabalhando deste jeito.
No vai durar nem at a hora do caf. Olhe como eu fao". Ele empurrou a lmina da p terra adentro, pisou nela, ento fez uma pausa, deu uma tragada no cigarro,
apoiando a mo no cabo da p. Um minuto ou dois depois, com total indiferena, ele jogou a terra na pilha que havia feito, colocou a p para baixo e deu mais umas
duas ou trs tragadas. Os outros trs homens fizeram o mesmo.
      Ansioso por impressionar o capataz logo no primeiro dia, decidi trabalhar de um jeito que estava no meio do caminho entre a tcnica desses homens e a minha.
Na hora da parada para o caf, pude concluir sem sombra de dvidas que meu mentor estava certo. Minha camiseta estava ensopada de suor e toda manchada pelo barro
da Gergia. As articulaes de meus ps doam. Sentia como se diversos lutadores de boxe tivessem pulado em cima de meus braos. Minhas costas estavam arcadas como
as de um homem velho, e fui andando assim, corcunda, para o caminho, em busca de gua.
      Fizemos fila atrs do caminho, alternando-nos para beber a gua que estava em um recipiente metlico que havia ficado sob o sol a manh inteira, deixando
a temperatura mais alta que a do ambiente. S havia um copo, amarrado ao balde por uma corrente metlica, e todo mundo bebia nele. De repente, de dentro da cabina
do caminho, o capataz olhou para mim pelo retrovisor e disse: "Garoto, o que voc est fazendo? Venha aqui". Obediente, dirigi-me  cabina. "Entre", disse ele,
com certo nojo. "Voc no deve beber aquela coisa. Aquilo  gua de negro! Aqui, comprei uma para ns." Ele abriu a tampa de uma garrafa trmica e colocou gua gelada
num copo de papel.

      Nasci em Atlanta, Gergia, em 1949, cinco anos antes de a Suprema Corte decidir a favor de escolas integradas, 15 anos antes de uma lei de direitos civis forar
os restaurantes e motis a atender pessoas de todas as raas e 16 anos antes de o Congresso americano garantir s minorias o direito ao voto. Os postos de gasolina
daquela poca tinham trs placas indicativas: "homens brancos", "mulheres brancas" e "negros". As lojas tinham dois bebedouros, um para brancos e outro para negros.
Muitos museus tinham um dia reservado  visitao dos negros; fora desse dia, eles eram barrados na porta. Quando andava de nibus, via trabalhadores e empregadas
domsticas sentarem-se obedientemente nos ltimos assentos. Pela lei, deveriam ceder seus lugares se algum passageiro branco quisesse sentar. No Estado vizinho,
Alabama, os negros tinham de entrar pela porta da frente, pagar ao motorista e, ento, descer e entrar novamente no nibus pela porta de trs. Alguns motoristas
malvados s vezes fechavam a porta de trs e partiam, deixando para trs passageiros negros que j haviam pagado a passagem.
      Meu av contava-nos histrias do passado, quando o av dele possua uma fazenda cheia de escravos, muitos dos quais adicionaram o nome "Yancey" depois de sua
emancipao. J tentamos encontrar alguns dos Yancey negros e saber seus nomes por intermdio da lista telefnica. Quando adolescente, ele viu vrios corpos negros
balanando em postes de iluminao durante os tumultos raciais de 1906, poca em que brancos vidos por vingana lincharam quase 50 homens negros depois de rumores
de insultos sexuais. Ele costumava levar meu pai e meus tios para visitar o Lar dos Veteranos Confederados, onde podia ouvir homens lamentando a "agresso blica
do norte", termo que usavam para se referir  Guerra Civil. Um desses meus tios mudou-se para a Austrlia depois que os tribunais foraram as escolas a integrar
todas as raas. Na poca do Natal, enquanto estvamos todos sentados  mesa da casa de nossa av sulista, comendo vegetais, pur de batatas, biscoitos, presunto
e peru, os empregados negros que trabalhavam carregando e descarregando caminhes costumavam ir at a porta dos fundos, bater e esperar, envergonhados, at que meu
av lhes desse alguns dlares de prata como gratificao de Natal.
      Vivamos em um regime de segregao racial. Embora Atlanta tivesse um nmero semelhante de habitantes negros e brancos, comamos em restaurantes diferentes,
brincvamos em parques separados e freqentvamos escolas e igrejas distintas. s vezes, via placas que diziam: "Proibida a entrada de ces e negros". Pela lei,
os negros no podiam fazer parte de jris, mandar os filhos para escolas de brancos, usar banheiros reservados a brancos, dormir em motis de brancos, sentar nos
melhores lugares de um cinema, nadar numa piscina de brancos. Pelo fato de os hotis de veraneio do Alabama no aceitarem negros, Martin Luther King Jr. passou sua
lua-de-mel na coisa que mais se aproximava de uma acomodao pblica: uma sala de velrios que pertencia a amigos da famlia. O governador do Estado pediu que o
Georgia Tech, um time de futebol americano, deixasse de participar de um jogo no estdio Sugar Bowl em 1955 porque descobriu que o time adversrio, de Pittsburgh,
tinha um jogador negro na reserva. Quando um professor universitrio negro fez sua entrevista para entrar na Universidade do Mississippi e, assim, tornar-se o primeiro
de sua raa a conseguir esse feito, as autoridades o entregaram a uma instituio de doentes mentais, alegando que somente um negro insano poderia querer lecionar
na chamada "Ole Miss".
      Por ser criana, nunca questionei o sistema no qual vivamos porque ningum ao meu redor o questionava. A pessoa mais famosa de nossa igreja, alm de tudo,
era um visitante ocasional chamado Lester Maddox, que s vezes falava na reunio da sociedade de homens. Com segundo grau incompleto, Maddox era o dono do Pickrick,
um restaurante especializado em frango. Colocava anncios nos jornais de Atlanta todas as semanas, denunciando uma tentativa do Governo Federal de tomar-lhe os direitos
quela propriedade. Quando o Governo insistiu que ele deveria servir refeies a negros e um grupo apareceu por l para conferir, seus clientes afugentaram o grupo
usando cabos de machados, enquanto Maddox brandia um revlver calibre 32. Em protesto, Maddox fechou o restaurante, publicou anncios ainda mais contundentes e inaugurou
um memorial  morte da livre iniciativa, o qual cheguei a visitar. Msica fnebre tocava ao fundo, enquanto os visitantes passavam diante de um caixo forrado de
preto no qual repousava uma cpia da Declarao de Direitos dos Estados Unidos.
      O museu de Maddox vendia lembranas em forma de cabos de picaretas, lembrando aqueles usados pelos policiais para acalmar os defensores dos Direitos Civis.
Eram oferecidos em trs tamanhos: "Papai", "Mame" e "Jnior". Comprei o tamanho Jnior com o dinheiro que ganhei fazendo entrega de jornais de porta em porta. Parecia-se
com um cassetete de policial, e guardei-o em meu armrio. Maddox, um heri popular dos brancos do Sul, foi adiante e tentou tornar-se governador do Estado da Gergia,
em 1967. Como no conseguiu, em 1972 concorreu  presidncia dos Estados Unidos pelo Partido Americano Independente, usando o escritrio de assistente do governador
como base.
      As pessoas negras permitiram que ns tivssemos algum para desprezar, algum de quem poderamos zombar e nos sentir superiores. Minha famlia mudava-se de
casa a cada ano ou dois, quando o aluguel ficava muito alto, e vivamos em projetos habitacionais do governo ou reas de trailers. Sociologicamente, poderamos ser
considerados como "pobre lixo branco". Mas, pelo menos, ramos brancos.
      Hoje em dia, quando os historiadores olham para as dcadas de 1950 e 1960 no Sul dos Estados Unidos, declaram que aquele foi um tempo que estava maduro para
mudanas sociais. Isto depende de sua perspectiva. Para minha famlia, amigos, vizinhos e membros de nossa igreja, a poca ainda estava muito verde. Vamos a ns
mesmos como presos em um cerco, com nossa maneira de viver sendo constantemente ameaada por agitadores externos.
      Quando o diretor da escola anunciou que o presidente John F. Kennedy levara um tiro, alguns alunos de minha escola levantaram-se e comemoraram. Como o presidente
que havia proposto a legislao sobre direitos civis e que a confirmou, enviando tropas federais para fazer a Universidade do Mississippi aceitar James Meredith,
seu primeiro aluno negro, Kennedy representava uma intolervel ameaa a nosso confortvel enclave de racismo. At aquele momento, republicanos como Eisenhower e
Nixon tinham sido inimigos dos direitos civis; os membros do Partido Democrata eram dependentes dos chamados dixiecratas9 , que controlavam 75% das cadeiras do Congresso
e dominavam o Senado por meio de obstrues aos trabalhos legislativos. Kennedy, portanto, era um inimigo do Sul que vivia na Casa Branca.
      Minha escola tinha o nome de um general confederado, John B. Gordon. Em 1966, ano em que me formei no segundo grau, nenhum aluno negro havia colocado os ps
naquele campus. Famlias negras haviam se mudado para a vizinhana, e os brancos estavam fugindo para a regio de Stone Mountain e para o Leste, mas nenhuma famlia
negra ousava matricular os filhos em nossa escola. Todos acreditvamos (e no tenho razes para descrer hoje) que Malcolm, um garoto com cabelo cortado como os recrutas,
que usava plaquetas de metal em seus sapatos e adorava uma briga, era quem mantinha os negros a distncia. Acreditava-se que ele era sobrinho do Grande Drago da
Ku Klux Klan.10 Malcolm proclamava que o primeiro negro daquela escola voltaria para casa em um carro funerrio.
      A Ku Klux Klan exercia uma influncia quase mstica em nossas mentes. Fiz trabalhos escolares sobre isto. Ouvamos que ela era um exrcito invisvel, a ltima
linha de defesa a preservar a pureza crist do Sul.

      Lembro-me de uma vez, ainda criana, em que vi um cortejo fnebre de um Drago ou Mago ou qualquer grando da KKK. Tivemos de esperar toda a carreata passar
para que pudssemos virar  esquerda numa rua. Dzias, dezenas, centenas de carros passaram diante de ns, cada um sendo dirigido por uma pessoa vestindo tnicas
brancas ou vermelhas e um gorro pontudo com pequenas aberturas para os olhos. Era um dia quente, e os cotovelos dos motoristas destacavam-se para fora das janelas
dos carros, formando ngulos agudos. Quem seriam eles, aqueles . druidas reencarnados? Eles podiam ser qualquer pessoa: o frentista do posto de gasolina, um dicono
da igreja, meu tio. Ningum sabia com certeza. No dia seguinte, o Atlanta Journal publicou que a carreata estendeu-se por mais de sete quilmetros.
      Tambm me lembro de um 4 de julho, Dia da Independncia dos Estados Unidos, quando houve uma reunio na rea de um autdromo. Os patrocinadores trouxeram luminares
como George Wallace 11 e um alto funcionrio da ultraconservadora Sociedade John Birch, assim como o filho da terra, Lester Maddox. Agitvamos pequenas bandeiras,
saudando os oradores todas as vezes que diziam que Washington estava esmagando os direitos do Estado. Um grupo de 20 homens negros, mostrando coragem como nunca
vira antes, compareceu quela reunio, formando uma notria mancha escura no meio daquela arquibancada alva, sem participar, apenas observavam.
      No vi ningum dar algum sinal, mas logo depois de uma entusiasmada execuo do Dixie, homens encapuzados da Klan levantaram-se do meio da multido e deram
incio a uma horrenda caminhada em direo queles homens negros, cercando-os. Os negros se levantaram e ficaram juntos, olhando desesperadamente ao redor, mas no
havia por onde escapar. Por fim, desesperados, alguns comearam a escalar uma cerca de arame de quase dez metros de altura que estava ali para proteger os espectadores
dos carros, com os homens da Klan atrs deles. O sistema de som ficou mudo e todos ns nos voltamos para ver os homens da Klan tirando os corpos que pendiam da cerca,
como quem tira a presa de uma armadilha. Comearam a bater neles com os punhos e com cabos de enxadas semelhantes aos que Lester Maddox vendia.
      Depois de um tempo, alguns poucos policiais da Patrulha Estadual da Gergia vagarosamente entraram no autdromo e fizeram os homens da Klan parar. Quarenta
anos se passaram, e ainda posso ouvir os gritos rebeldes, os apelos das vtimas e o soar dos punhos desnudos dos homens da Klan atingindo a carne daqueles homens.
E, com muita vergonha, ainda me lembro da vibrao adolescente que senti - minha primeira experincia diante do impulso da multido -, misturada com horror, enquanto
aquela cena se desenrolava diante de meus olhos.
      Atualmente sinto vergonha, remorso e tambm arrependimento. Anos se passaram at que Deus quebrasse a fortaleza do racismo descarado que havia dentro de mim
- fico pensando se todos ns nos livramos de suas formas mais sutis -, e hoje vejo aquele pecado como um dos mais nocivos, provavelmente com os mais txicos efeitos
na sociedade. Quando os especialistas discutem a questo dos excludos nas cidades da Amrica, costumam colocar a culpa nas drogas, na mudana de valores, na pobreza
provocada pelo sistema e na ruptura da famlia nuclear. s vezes fico pensando se todos esses problemas no so conseqncias de uma causa muito mais profunda e
fundamental: o pecado de sculos de racismo.
      Essas lembranas do racismo de minha juventude vieram a minha mente h pouco tempo, enquanto lia algumas biografias de Martin Luther King Jr., o cidado de
Atlanta que foi rotulado por Lester Maddox como "inimigo de nosso pas". Nos anos que se seguiram, dois longos trabalhos sobre a vida de King ganharam Prmios Pulitzer:
Bearing the Cross (Suportando a cruz), de David Garrow, de 1987, e Parting the Waters (Divisor de guas), de Taylor Branch, de 1989. As horas que passei diante deles
provocaram em mim um estranho sentimento, semelhante, mas no igual, a um dj vu.
      Embora eu estivesse viajando por lugares familiares, como Selma, Montgomery, Albany, Atlanta, Birmingham, St. Augustine e Jackson, toda a paisagem havia mudado.
Os historiadores registram estas cidades como sendo campos de batalha de uma corajosa luta moral, com o que concordo hoje. Contudo, durante minha fase de crescimento,
na dcada de 1960, aquela regio geogrfica mais parecia uma rea de cerco. Encrenqueiros do Norte, estudantes interessados em aventuras polticas, rabinos e pastores
protegidos por agentes federais, todos invadindo nosso territrio. E a pessoa que liderava as marchas em cada uma dessas cidades era o nosso inimigo pblico nmero
1: um nativo de minha Atlanta, a quem o Atlanta Journal constantemente acusava de "incitar a baderna em nome da justia". As pessoas de minha igreja cunharam um
nome para ele: "Martin Lcifer Nego".
      A apropriao que Martin Luther King Jr. fizera do evangelho cristo era o que mais perturbava a todos ns. Afinal, ele era um pastor ordenado, e at mesmo
minha igreja fundamentalista reconhecia a integridade de seu pai, Daddy King, respeitado pastor da Igreja Batista Ebenzer.  claro que tnhamos nosso modo de resolver
essa dissonncia de comportamento. Dizamos que o jovem King era comunista de carteirinha, um agente marxista que posava de ministro cristo. Afinal, Krushev no
havia decorado os Evangelhos quando era jovem? Stalin no havia freqentado um seminrio? George Wallace citou fontes do FBI para acusar King de pertencer a mais
organizaes comunistas do que qualquer outro homem nos Estados Unidos.
      Dizamos que Daddy King havia criado Martin de maneira adequada, mas que o Seminrio Crozer, situado no norte do pas e muito liberal, havia poludo sua mente.
Ele seguia o Evangelho social, se  que seguia algum evangelho (nunca nos perguntamos quantos outros seminrios conservadores haviam aceitado Martin como aluno).
Quando surgiram os rumores de uma conduta sexual inadequada, para ns o caso estava encerrado. Martin Luther King Jr. era uma fraude, uma imitao, jamais um cristo
verdadeiro.
      Biografias recentes de King tratam dessas acusaes de maneira detalhada. A maioria dos rumores est ligada a agentes do FBI, pois J. Edgar Hoover 12 tinha
uma vendeta pessoal contra King e, com autorizao de Robert Kennedy, colocou escutas nos telefones de King e seus colegas. O presidente John Kennedy pediu pessoalmente
a King que no fizesse contato com seus conselheiros mais prximos por causa dos alegados laos com o comunismo. King jamais teve qualquer simpatia pelo comunismo,
embora s vezes se cansasse das injustias praticadas debaixo do capitalismo democrtico. A verdade  que alguns de seus conselheiros de confiana realmente haviam
participado do Partido Comunista anos antes, mas King tinha amigos por todo o espectro poltico. Sua tendncia era a de julgar as pessoas com base no compromisso
que elas tinham com os direitos civis, e, a partir desta medida, os esquerdistas tinham muito mais a oferecer do que os, digamos, "clrigos" sulistas.
      Durante a poca de King, o FBI olhava com suspeita para todos os brancos que se misturavam facilmente com amigos de diferentes raas e grupos econmicos. Eles
eram comunistas em potencial. Se apenas os cristos, e no os comunistas, se encaixavam no perfil do FBI, hoje lamento muito. O que vamos era a imprensa comunista
de alm-mar trombetear a histria de segregao racial na "Amrica crist".
      Para piorar as coisas, as acusaes de imoralidade sexual de King refletiam fatos reais, no rumores. O FBI gravou inmeros episdios nos quartos de hotel
em que King se hospedara e, graas  Lei de Liberdade de Informao, os historiadores podem analisar as transcries verdadeiras. Ralph Abernathy revelou que King
manteve casos extraconjugais at a vspera de sua morte. Um agente do FBI (William Sullivan, que terminou chegando  posio de diretor assistente) enviou a King
algumas de suas gravaes com um bilhete pedindo que ele cometesse suicdio. "Voc est perdido. No h outra sada para voc.  melhor voc dar um fim nisso antes
que sua figura fraudulenta, suja e anormal seja revelada  nao."
      Alm da permissividade sexual, King tambm foi acusado de plgio. Ele inseriu em sua tese, com seus discursos e falas, material de outras fontes sem citar
os crditos. Sou franco em dizer que acho mais fcil compreender as falhas na conduta sexual de King, um pecado que ele no cometeu sozinho, do que o problema com
o plgio. Por que ele, um cativante mestre da prosa, teria necessidade de roubar o material de outra pessoa?
      Incansveis presses atacavam King de todos os lados. Ele enfrentou ameaas de morte tanto de segregacionistas quanto do FBI. Uma bomba explodiu em sua casa.
Igrejas de negros eram incendiadas todas as semanas nos Estados do Sul. Seus voluntrios eram ameaados, espancados e presos, e alguns deles estavam morrendo. Era
comum a Conferncia de Liderana Crist do Sul deixar de pagar seu salrio, e um de seus mais eficientes levantadores de fundos era um dos conselheiros que o presidente
Kennedy fora obrigado a demitir. Edies do Atlanta Journal e do New York Times condenavam seus atos. A NAACP 13 criticava-o por ser to radical, enquanto o SNCC
14 considerava seu programa tmido demais. Dezenas de manifestaes estudantis em grandes cidades pediam que ele os acompanhasse  cadeia. Voluntrios do Mississippi
imploravam que ele arriscasse sua vida com eles. Em que ele deveria se concentrar: no direito ao voto ou em restaurantes segregacionistas? Que leis injustas deveriam
ser violadas? E quanto a desafiar ordens judiciais? Ele deveria se ater aos direitos civis ou expandir sua atuao para a pobreza? O que dizer da Guerra do Vietn?
      Hoje sou capaz de entender melhor as presses que King enfrentou em toda sua vida adulta, presses que certamente contriburam para seus erros. As fraquezas
morais de King forneciam uma desculpa bastante conveniente para aqueles que queriam evitar sua mensagem e, por causa dessas fraquezas, alguns cristos ainda fazem
restries  genuinidade de sua f. Estes cristos deveriam rever a lista das excepcionais pessoas de f de Hebreus 11, uma lista que inclui desviados morais como
No, Abrao, Jac, Raabe, Sanso e Davi. J o desprezei pelo menos uma vez, mas hoje no consigo ler uma nica pgina de sua histria ou um pargrafo de seus discursos
sem sentir a centralidade de sua convico crist. Possuo uma coleo de fitas com seus sermes, e todas as vezes que as ouo sou tocado pelo poder arrebatador de
sua mensagem calcada no evangelho, transmitida com uma eloqncia jamais igualada.
      David Garrow constri seu livro em volta da chamada sobrenatural de King, no incio de sua carreira. "Foi a noite mais importante de sua vida", escreve Garrow,
"aquela  qual ele retornaria nos anos futuros todas as vezes que as presses tambm parecessem ser grandes demais". King fora levado  liderana da luta pelos direitos
civis na cidade de Montgomery, Alabama, depois que Rosa Parks tomou a corajosa deciso de no ir para o fundo do nibus. A comunidade negra formou uma nova organizao
para liderar o boicote aos nibus e,  revelia, escolheu como candidato a essa liderana o novo ministro da cidade, King, que, aos 26 anos, "parecia mais um garoto
do que um homem". Tendo crescido num ambiente de classe mdia, herdando a religio de seu pai pregador, King no se sentia qualificado para liderar uma grande cruzada
pela moralidade.
      To logo King foi proclamado lder do movimento, comearam as ameaas da Ku Klux Klan. Elas no vieram apenas da KKK: em poucos dias, King foi preso e colocado
na cadeia de Montgomery por dirigir a 48 km por hora, numa rea cuja velocidade mxima permitida era 40 km. Na noite seguinte, em sua casa, abalado por sua primeira
experincia na cadeia, King sentou-se em sua cozinha, pensando se poderia suportar aquilo tudo. Deveria desistir? Era quase meia-noite. Ele se sentia agitado e muito
temeroso. Poucos minutos atrs, o telefone havia tocado. "Negro, estamos cheios de voc e da baguna que voc est fazendo. Se voc no sair da cidade em trs dias,
vamos estourar seus miolos e acabar com sua casa." King sentou-se, olhando fixamente para uma xcara de caf na qual no tocara, pensando numa sada, uma maneira
de desistir da liderana e reassumir a vida tranqila de acadmico que havia planejado. Na sala ao lado estava sua esposa Coretta, dormindo, com sua filha recm-nascida,
Yolanda. Veja como King relatou esse momento em um sermo que pregou:

   E sentei-me  mesa, pensando naquela menina e no fato de que ela poderia ser tirada de mim a qualquer momento. Comecei a pensar na esposa dedicada, devotada e
leal que estava ali, dormindo... E conclu que no poderia suportar mais aquilo. Eu era fraco... Percebi ento que a religio precisava tornar-se algo real para
mim e que eu precisava conhecer Deus por mim mesmo. Curvei-me em orao diante daquela xcara de caf. Nunca vou me esquecer... Fiz uma orao e orei em voz alta
aquela noite. Eu disse: "Senhor, estou aqui tentando fazer o que  certo. Penso que estou certo. Penso que a causa que representamos  certa. Mas, Senhor, preciso
confessar que me sinto fraco agora. Estou vacilando. Estou perdendo a coragem". (...) E pareceu-me que, naquele momento, pude ouvir uma voz dentro de mim, dizendo:
"Martin Luther, levante-se em nome da retido. Levante-se pela justia. Levante-se pela verdade. Saiba que estarei com voc at o fim do mundo". Ouvi a voz de Jesus
dizendo calmamente que eu deveria continuar lutando. Ele prometeu que jamais me deixaria, nunca me abandonaria. Eu nunca estaria s. Nunca estaria sozinho. Ele prometeu
nunca deixar-me, nunca deixar-me sozinho.

      Trs noites depois, conforme prometido, uma bomba explodiu na varanda de sua casa, enchendo-a de fumaa, quebrando os vidros, mas no ferindo ningum. King
recebeu isso com tranqilidade: "Minha experincia religiosa de algumas noites atrs me deu a fora para enfrentar esta situao".
      Garrow tece sua narrativa ao redor da visitao ocorrida na cozinha, voltando a ela diversas vezes, pois King buscava foras nessa lembrana a cada situao
crtica de sua vida. Para ele, aquilo se tornou o fundamento da f pessoal, uma uno de Deus para uma tarefa particular.Quando leio relatos sobre a vida de King
e as muitas referncias que ele faz quela noite, sempre sou impactado pela simplicidade da mensagem que ele recebeu: "Estou contigo". Aquelas palavras contm um
tema marcante da Bblia: o Emanuel (Deus conosco), a presena de Deus. Nos 13 anos seguintes de sua carreira, King teve outras experincias religiosas e muitos momentos
de crise, mas nada comparvel quela noite,  mesa da cozinha. Aquela palavra foi suficiente.

      Enquanto isso, o extremo sul do pas via Martin Luther King Jr. por uma tica religiosa diferente. Freqentei duas igrejas durante minha adolescncia. A primeira,
uma igreja batista com mais de mil membros, orgulhava-se de sua identidade de "uma igreja que ama a Bblia e onde as pessoas so amveis", bem como do sustento de
105 missionrios em outros pases, cujos cartes de orao eram afixados num enorme mapa que ficava na parte posterior do santurio. Essa igreja era uma das principais
referncias de famosos oradores evanglicos. Conheci a Bblia ali. Ela no possua um lao muito forte com a Conveno Batista do Sul, uma denominao formada em
1845, quando os abolicionistas do Norte decidiram que os donos de escravos no se encaixavam no perfil de um missionrio, o que fez com que os sulistas se separassem
em protesto. At mesmo os batistas do Sul eram por demais liberais para ns, sendo esta a razo de mantermos laos no muito estreitos com eles. Alguns deles fumavam
e, a muito custo, a Conveno endossou a legislao de direitos civis.
      Na dcada de 1960, em funo do desejo de estudantes negros se filiarem s igrejas de Atlanta, nosso corpo diaconal mobilizou esquadres de observao que
se revezavam em turnos para patrulhar as entradas com o propsito de no permitir que nenhum "arruaceiro" negro aparecesse. Possuo ainda hoje um dos cartes que
os diconos imprimiram para dar a qualquer defensor dos direitos humanos que aparecesse:

   Crendo que os motivos ocultos de seu grupo sejam estranhos aos ensinamentos da Palavra de Deus, no podemos dar-lhes boas-vindas, e respeitosamente pedimos que
vocs deixem o recinto em silncio. As Escrituras NO ensinam "a irmandade de todos os homens e a paternidade de Deus". Ele  Criador de todas as coisas, mas  Pai
apenas daqueles que foram regenerados. Se algum de vocs est aqui com o sincero desejo de conhecer a Jesus Cristo como Salvador e Senhor, teremos um enorme prazer
em conversar individualmente sobre a Palavra de Deus.
   (DECLARAO UNNIME DO PASTOR E DOS DICONOS, AGOSTO DE 1960)

      Depois do caso "Brown versus Board of Education" 15, nossa igreja fundou uma escola particular que era um refgio para os brancos, pois ela bania expressamente
todos os alunos negros. Alguns membros saram da igreja em protesto quando o jardim de infncia se recusou a admitir a filha de um professor negro da Escola Dominical,
mas a maioria aprovou a deciso. Um ano depois, a igreja rejeitou a carta de transferncia de um aluno do Instituto Bblico Carver (seu nome era Tony Evans, e ele
se tornou um destacado pregador e orador da cidade de Dallas, no Estado do Texas).
      A outra igreja que freqentei era menor, mais fundamentalista e mais abertamente racista (aquela a cujo sepultamento eu havia assistido). Ali pude aprender
a base teolgica do racismo. O pastor ensinava que a palavra hebraica cam significa "queimado", "preto", fazendo do filho de No o pai de todas as raas negras.
Numa maldio imprecada por No, Cam deveria ser o mais baixo dos servos (veja Gn 9:18-27). Era isso o que eu ouvia quando meu pastor explicava por que os negros
eram bons garons e as negras, boas empregadas domsticas. Ele imitava seus movimentos na plataforma, mexendo os quadris como se estivesse evitando uma mesa, fingindo
agitar uma bandeja com comida acima de sua cabea, e todos ns ramos de suas brincadeiras. "Os garons negros so bons nesta profisso porque este  o trabalho
que lhes foi destinado por Deus por meio da maldio de Cam", dizia ele. Ningum se preocupava em destacar que a maldio fora pronunciada, na verdade, contra o
neto de No, Cana, e no contra Cam.
      Na mesma poca, o Baptist Record, uma publicao do Estado do Mississippi, publicou um artigo que defendia a idia de que Deus queria os brancos governando
sobre os negros porque "uma raa cuja inteligncia mdia beira  estupidez" est obviamente "privada de qualquer bno divina". Se algum questionasse essa doutrina
claramente racista, os pastores saam com o expediente infalvel da miscigenao (mistura de raas), que alguns especulavam ser o pecado que havia levado Deus a
destruir o mundo nos dias de No. A simples pergunta "voc quer que sua filha traga para casa um namorado negro?" silenciava todos os argumentos raciais.
      Voc pode ver distores teolgicas como estas em sites da internet patrocinados por defensores da supremacia branca. Poucas pessoas, porm, aceitam tais argumentos
hoje, e uma das principais razes (para mim, especialmente)  o papel proftico de Martin Luther King Jr. Foi preciso um homem com sua fora moral para despertar
igrejas daquilo que Reinhold Niebuhr chamou "o pecado da trivialidade" para, ento, enfrentar os clamores maiores do evangelho.
      A palavra "profeta" me vem  mente porque King, como os profetas do Antigo Testamento, esforou-se para mudar uma nao inteira por meio de um apelo moral
direto. A paixo e a intensidade dos profetas bblicos h muito me fascina, pois a maioria deles enfrentou platias inflexveis, preconceituosas e intratveis, como
eu era durante os anos de minha adolescncia. Com tal alavanca moral, ser algum capaz de mover uma nao inteira? Estudando os profetas, pude perceber que virtualmente
todos eles apresentaram uma abordagem dividida em duas partes.
      Primeiramente, eles apresentaram uma viso imediata daquilo que Deus requeria deles naquele momento. No Antigo Testamento, isto normalmente consistia de uma
exortao em direo a atos de fidelidade. "Reconstruam o Templo"; "Purifiquem seus casamentos"; "Ajudem os pobres"; "Destruam os dolos e coloquem Deus em primeiro
lugar". Os profetas, contudo, nunca paravam a. Eles tambm apresentavam uma viso de mais longo prazo para responder s perguntas mais profundas das pessoas. Como
podemos acreditar que Deus nos ama diante de to grande sofrimento? Como podemos acreditar num Deus justo quando o mundo parece ser governado por uma conspirao
maligna? Os profetas responderam a estas questes lembrando a seus ouvintes quem era Deus e pintando um maravilhoso quadro do futuro Reino de justia e retido.
      De acordo com uma autntica tradio proftica, Martin Luther King Jr. usava essa abordagem dupla. Para ele, essa viso mais concentrada apelava para uma coisa
acima de qualquer outra: no-violncia. King matriculou-se no seminrio no ano em que Mahatma Gandhi morreu, e dele (no de cristos americanos) recebeu uma viso
de como mudar uma nao. King dizia que Gandhi foi "a primeira pessoa na histria a viver a tica do amor de Jesus acima da simples interao entre indivduos".
De algum modo, Gandhi havia encontrado uma maneira de mobilizar um movimento em torno dos elevados princpios de Jesus quanto  esperana, ao amor e  no-violncia.
      Do mesmo modo que Gandhi, King via o Sermo do Monte como um livro-texto do ativismo:

   Quando fui para Montgomery como pastor, no tinha a menor idia de que um dia estaria envolvido numa crise na qual a resistncia baseada na no-violncia seria
aplicvel. Eu nem comeava nem sugeria os protestos. Simplesmente respondia aos apelos de uma multido perante seu porta-voz. Quando os protestos comearam, conscientemente
ou no, minha mente voltou-se para o Sermo do Monte, com seus sublimes ensinamentos sobre o amor, e para o mtodo de resistncia sem violncia de Gandhi.
   (Extrado do livro Stride Toward Freedom)16

      King viajou para a ndia com sua esposa em 1959, para observar in loco o impacto da revoluo sem violncia. "Deixei a ndia", disse ele, "ainda mais convencido
de que a resistncia sem violncia  a mais potente arma  disposio do povo oprimido em sua luta pela liberdade". Em busca de outros modelos, King seguiu o exemplo
de Daniel e seus trs amigos, os quais desobedeceram s leis de Nabucodonosor, e dos cristos da Igreja primitiva, que enfrentaram lees famintos em vez de se submeter
s injustas leis do imprio romano. Como ele mais tarde escreveu: "Algum que quebra uma lei injusta deve faz-lo de maneira aberta, amorosa e com disposio para
aceitar as conseqncias".
      O movimento dos direitos civis deu a King muitas oportunidades de testar sua filosofia de no-violncia. Uma mulher mentalmente perturbada atirou nele em Nova
York, e a bala se alojou a poucos centmetros de sua aorta. Um homem branco da cidade de Birmingham correu para a plataforma onde ele estava e o esmurrou. "No toquem
nele!", gritou King a seus companheiros, que cercaram o homem. "Temos de orar por ele." Xerifes do Sul se deliciavam em tratar mal seu famoso adversrio, enquanto
o levavam algemado em cambures. Batiam nos manifestantes com cassetetes, instigavam ces sobre eles, jogavam fortes jatos de gua que quebravam costelas e deixavam
corpos estendidos pelas ruas.Depois de quase meio sculo,  muito fcil perdermos a noo de quo enormes foram as dificuldades enfrentadas por King para manter
sua posio a favor da no-violncia. Depois de ter apanhado na cabea com um cassetete pela 12a vez, de receber outro golpe de aguilho de gado e de no ver progresso
algum apesar de todo seu sofrimento, voc comea a questionar a eficcia do mtodo de meiga submisso. Muitos negros abandonaram King neste aspecto. Os estudantes,
em especial, os intrpidos heris das Caminhadas pela Liberdade atravs do Alabama e do Mississippi, se desviaram na direo da retrica do black power depois que
seus colegas continuaram sendo assassinados. A SNCC, uma organizao que continha no-violncia em seu nome, encaminhou-se para a revolta armada, zombando de King.
Em Chicago, os seguidores do black power tiraram King do palco com suas vaias durante uma manifestao.
      Quando os distrbios comearam a acontecer em cidades como Los Angeles, Chicago e em bairros como o Harlem, King viajou de cidade em cidade, procurando acalmar
os nimos e lembrando os manifestantes de que a mudana moral no pode ser alcanada por meios imorais. Ele havia aprendido esse princpio no Sermo do Monte, e
quase todos os seus discursos reiteravam essa mensagem. "O cristianismo", dizia ele, "tem sempre insistido que a cruz que carregamos precede a coroa que usaremos.
Para ser cristo, algum precisa tomar sua cruz, com todas as dificuldades, agonias e tenses que ela contm, e carreg-la at que deixe sua marca em ns e nos redima,
levando-nos por um caminho ainda mais excelente que s se encontra por meio do sofrimento".
      King se apegou  no-violncia porque acreditava profundamente que somente um movimento baseado no amor poderia impedir que o oprimido se transformasse no
espelho de seus opressores. Ele queria mudar os coraes dos brancos, sim, mas de uma maneira que, em momento algum, pudesse endurecer o corao dos negros que ele
estava conduzindo  liberdade. Ele acreditava que a no-violncia poderia "impedir que o negro procurasse substituir um tirano por outro".
      Quando aceitou o Prmio Nobel da Paz de 1964, King referiu-se mais uma vez aos princpios que havia aprendido no Sermo do Monte. "Quando os anos se passarem
e quando a fulgurante luz da verdade concentrar-se sobre esta maravilhosa era na qual vivemos, homens e mulheres sabero, e as crianas aprendero, que temos uma
terra melhor, pessoas melhores e uma civilizao mais nobre, pois estes humildes filhos de Deus estavam dispostos a 'sofrer em nome da justia'."
      Os historiadores relatam o tenso encontro de King com o valente prefeito de Chicago, Richard J. Daley. Os defensores do movimento sentiam-se trados, acreditando
que haviam chegado a um entendimento com Daley que permitiria que eles marchassem por Chicago sob proteo policial em troca da revogao de um boicote. Mas Daley
os traiu, obtendo um mandado judicial que proibia outras marchas. Como era de seu feitio, King ficou em silncio na maior parte da agitada reunio, deixando que
os outros fizessem suas colocaes. O clima era hostil, e parecia que a reunio acabaria em meio a amarguras. Finalmente, King falou, de uma maneira que foi registrada
por um dos espectadores como sendo "de uma eloqncia grandiosa, cuidadosa e calma":

   Permitam-me dizer que, se vocs esto cansados de protestos, eu estou cansado de protestar. Estou cansado da ameaa de morte. Quero viver. No quero ser um mrtir.
E h momentos em que penso se vou conseguir escapar. Estou cansado de apanhar, cansado de receber golpes, cansado de ir para a cadeia. Mas o importante no  quanto
eu estou cansado; a coisa mais importante  nos livrarmos da condio que nos leva a marchar.
   Senhores, vocs sabem que no temos muita coisa. No temos dinheiro suficiente. Realmente no temos muito estudo e no temos poder poltico. Temos apenas nossos
corpos, e vocs esto pedindo que abdiquemos da nica coisa que possumos quando dizem: "No marchem".
   (Extrado de Bearing the Cross)

      O discurso de King mudou o clima da reunio e terminou levando a um novo acordo com o prefeito Daley.

      "Temos apenas nossos corpos", disse King - e, no fim de tudo, foi isso que levou o movimento dos direitos civis  vitria que era buscada havia tanto tempo.
Na poca em que eu fazia o segundo grau, os mesmos alunos que aplaudiram a morte do presidente Kennedy saudaram os encontros televisionados de King e os xerifes
do Sul, nos quais havia ces e jatos de gua. Mal tnhamos idia de que, fazendo isto, estvamos exatamente na estratgia de King. Ele procurava deliberadamente
pessoas como o xerife Bull Connor17e armava cenas de confrontao, aceitando prises, espancamentos e outras brutalidades porque acreditava que uma nao complacente
se uniria em torno de sua causa somente quando vissem o mal do racismo manifestado em sua mais horrenda expresso.
      King teve um sucesso espetacular nessa estratgia. Um juiz do condado de De Kalb, onde eu vivia, exigiu que King usasse no apenas algemas, mas tambm correntes
nos braos e nas pernas na sala do tribunal, quando foi sentenciado a quatro meses de trabalhos forados na construo de uma estrada estadual por dirigir um carro
registrado no Alabama, e no na Gergia. Um jri de Houston sentenciou um voluntrio da SNCC a 30 anos de priso por dar um cigarro de maconha a um policial disfarado.
Os tribunais do Mississippi cancelaram ttulos eleitorais dos voluntrios por "incitao  desordem" quando suas casas e suas igrejas foram alvo de tiros e bombas
jogadas pela Ku Klux Klan. Uma bomba matou quatro meninas pequenas durante a Escola Dominical numa igreja de Birmingham.
      "Preciso fazer isto - expor a mim mesmo - para que este dio seja conhecido de todos", explicou King, depois de ter sido nocauteado por uma pedra que atingiu
sua tmpora direita. At mesmo sua famlia questionava sua sabedoria em alguns momentos. "Bom, voc no herdou essa coisa de no-violncia de mim", disse Daddy King
diante de mais uma priso de seu filho em Birmingham. "Deve ter puxado  sua me."
      Ao expor o mal de maneira clara, King estava tentando provocar uma resposta nacional de indignao moral, um conceito que eu e meus amigos no ramos capazes
de entender. Muitos historiadores apontam para um momento no qual o movimento finalmente conquistou uma massa expressiva de apoio  causa dos direitos civis. Isto
aconteceu numa ponte perto da cidade de Selma, Alabama, quando o xerife Jim Clark18 permitiu que seus homens, armados, avanassem sobre manifestantes negros desarmados.
As tropas da cavalaria jogaram os animais a galope sobre a multido dos manifestantes, aoitando as pessoas com seus cassetetes, rompendo cabeas e jogando pessoas
no cho. Enquanto brancos gritavam em aprovao, as tropas jogaram bombas de gs lacrimogneo sobre a multido em pnico.
      A maioria dos americanos teve a primeira viso dessa cena quando a rede de televiso ABC interrompeu seu filme de domingo, Julgamento em Nuremberg, para mostrar
a cobertura do fato. O que os telespectadores viram sendo transmitido do Alabama guardava uma horrvel semelhana com aquilo que estavam assistindo sobre a Alemanha
nazista. Oito dias depois, o presidente Lyndon Johnson submeteu o projeto de Direito ao Voto de 1965 ao Congresso americano.
      "Temos apenas nossos corpos", disse King. Nem uma vez sequer algum oficial de Selma, Jackson, Albany ou Ccero respondeu s suas splicas, dizendo: "Sabe,
doutor King, o senhor est certo. Ns somos racistas, e estas leis discriminatrias so injustas, inconstitucionais, no bblicas e simplesmente erradas. Sentimos
muito. Ns vamos nos arrepender e comear tudo do zero". Nenhuma vez. Foi preciso muito mais do que as palavras profticas de King para extirpar os calos morais
de intolerantes como eu. Foi preciso haver corpos de manifestantes em Selma e em todos os outros lugares. Foi preciso ver o corpo do prprio King em Memphis. Martin
Luther King Jr. fez muitas coisas erradas, mas uma coisa ele fez certa: contra todas as adversidades, todo instinto de autopreservao, ele manteve firme a sua viso.
Ele no voltou atrs. Quando os outros clamavam por vingana, ele apelava pelo amor e pelo perdo.
      King registrou sua batalha com o perdo em Letter from Birmingham City Jail, um maravilhoso documento rabiscado nas margens de jornais ou de folhas de papel
higinico, e depois retirado de sua cela s escondidas por amigos. Fora da cadeia, pastores do Sul denunciavam King como sendo comunista, grupos gritavam "enforquem
o negro!" e os policiais ameaavam os manifestantes desarmados. Em tais circunstncias, King precisava jejuar por vrios dias para alcanar a condio espiritual
necessria para que perdoasse seus inimigos. Como ele mesmo explicou, "amamos os homens no porque gostamos deles, nem porque seus modos nos atraem, nem mesmo porque
eles possuem algum tipo de fagulha divina. Amamos todos os homens porque Deus os ama".
      Aqueles que defendiam os direitos humanos, porm, precisavam mais do que admoestaes breves sobre o amor e a no-violncia. Eles precisavam da viso ampla
de f de que o abuso que estavam sofrendo contribuiria para um triunfo definitivo. J convencidos da justia de sua causa, eles queriam algum que pudesse erguer-lhes
os olhos para alm da longa seqncia de fracassos desalentadores. Hoje, podemos olhar para trs e ver o movimento pelos direitos civis como uma poderosa onda em
direo  vitria. Naquele tempo, enfrentando confrontaes dirias com a estrutura de poder e sob constante intimidao dos policiais, dos juizes e at mesmo do
FBI, os defensores dos direitos civis no tinham certeza alguma de vitria. Esquecemo-nos de tantas noites passadas nas cadeias do Sul. Na maior parte do tempo,
o presente parecia desalentador e o futuro, ainda mais obscuro.
      A tropas to desmoralizadas, King ofereceu a viso de um mundo colocado nas mos de um Deus justo. Em 1961, ele exercia o mesmo papel que o dos profetas do
Antigo Testamento, 500 anos antes de Cristo: estava levantando os olhos do povo de Deus na direo de coisas permanentes. quela poca, os estudantes estavam ficando
impacientes. Veja o que King disse a eles:

   H uma coisa neste movimento estudantil que nos diz que venceremos. Antes de a vitria ser alcanada, alguns precisaro sofrer, mas venceremos. Antes de a vitria
da irmandade ser alcanada, alguns precisaro passar pela morte fsica, mas ns venceremos. Antes da chegada da vitria, alguns perdero seus empregos, outros sero
chamados "comunistas" e "vermelhos" simplesmente porque acreditam na unio dos homens. Alguns sero considerados incitadores e, agitadores simplesmente porque se
levantam para defender aquilo que  justo, mas ns venceremos. Esta  a base deste movimento, e, como gosto de dizer, h alguma coisa neste universo que faz com
que Carlyle diga que nenhuma mentira dura para sempre. Vamos vencer porque h alguma coisa neste universo que justifica o que diz William Cullen Bryant: "A verdade
que cai na terra germinar outra vez". Vamos vencer porque h algo no universo que apia o que diz James Russell Lowell: "A verdade sempre est na forca, e o erro
sempre se assenta no trono". Esta forca balana no futuro, e atrs do futuro obscuro, Deus levanta-se por trs da sombra, observando tudo o que lhe pertence.
   (Extrado de The New Yorker, 6 de abril de 1987)

      Para King, a viso ampla significava lembrar-se de que, independentemente da aparncia das coisas em determinado momento, Deus reina. Mais tarde, quando a
famosa marcha de Selma finalmente chegou ao edifcio-sede do Estado, o prdio que um dia serviu como a capital da Confederao e onde as bandeiras rebeldes ainda
tremulavam,
      King dirigiu-se queles assustados e fatigados manifestantes a partir da escadaria:

   Sei o que vocs esto perguntando: "Quanto tempo mais isso durar?" Venho a vocs hoje para dizer que, sejam quais forem as dificuldades do momento, por mais
frustrantes que sejam estas horas, no demorar muito, pois a verdade que foi jogada sobre a terra germinar novamente.
   Quanto tempo? No muito, porque mentira alguma dura para sempre. Quanto tempo? No muito, porque ainda se colhe o que se planta. Quanto tempo? No muito, porque
o brao da moral universal  longo, mas se dobra em direo  justia. Quanto tempo? No muito, porque meus olhos viram a glria do Senhor que vir, pisoteando as
vinhas onde esto plantadas as uvas da ira. Ele j enviou o fatdico raio de sua espada cortante. Sua verdade j est marchando. Ele j deu ordem s trombetas que
soem, as quais nunca chamaro as tropas para recuar. Ele est levantando os coraes dos homens diante de seu trono. , minha alma, seja rpida em responder-lhes.
Alegrem-se, meus ps. Nosso Deus est marchando.
   (Extrado de The New Yorker, 6 de abril de 1987)

      Discursos como este enchiam o movimento de esperana quando havia pouca coisa em que segurar. Foram eles que inspiraram uma voluntria de 72 anos a dizer,
com voz fatigada: "Meus ps esto cansados, mas minha alma est em paz".
      Um profeta convoca-nos diariamente a executar atos de obedincia, independentemente do custo pessoal, independentemente de sermos bem-sucedidos ou recompensados.
Um profeta tambm nos lembra que nenhum fracasso, nenhum sofrimento, nenhum desalento  definitivo para o Deus que se levanta nas sombras, olhando por aqueles que
so seus. Um profeta capaz de reunir essas mensagens pode simplesmente mudar o mundo. Enquanto Martin Luther King Jr. viveu neste mundo, eu, seu vizinho, no lhe
dei ouvidos. Sempre fui rpido em apontar suas falhas e lento em reconhecer meu prprio pecado. Mas ele se tornou um profeta para mim, o mais improvvel de seus
seguidores, porque se manteve fiel numa viso focada, oferecendo seu corpo como alvo, nunca como arma, e na viso mais ampla, apresentando-nos seu sonho, um sonho
de um novo Reino de paz, justia e amor.Em 1974, dez anos depois da Declarao de Direitos Civis que provocou tais conflitos, fiz minha primeira visita ao Mississippi,
o corao da resistncia sulista. Eu havia mudado do Sul, e queria deixar o passado para trs. Vivendo em Chicago, trabalhava como editor da revista Campus Life,
dedicada a pessoas jovens, que havia assumido uma postura progressista nas questes sociais. Graas a pessoas como o doutor King, pude ver que a igreja branca do
Sul, a minha igreja, havia obstinadamente defendido o mal, e no o bem. Por algum tempo, culpei Deus, e no a igreja, mas minha leitura dos profetas do Antigo Testamento
e de Jesus finalmente me convenceram de que Deus sempre se colocou ao lado do oprimido e da justia. Como escritor, fiz um voto de tentar e fazer correes.
      Ouvi dizer que a ferida entre as raas estava sendo curada, especialmente em minha cidade natal, Atlanta, mas fiquei pensando quanto realmente havia mudado
desde minha infncia. Para descobrir isto, aceitei o convite de John Perkins para visitar a pequena cidade de Mendenhall (trs mil habitantes), 51 quilmetros ao
sul de Jackson. Perkins, um pastor negro, vivera os piores pesadelos do movimento dos direitos civis. Ele conhecia as pessoas mais importantes do episdio no Mississippi:
Robert Moses, um estudante de Filosofia de fala mansa, da Universidade de Harvard, um dos primeiros voluntrios a se alinhar com King, que liderou a marcha dos eleitores
no Mississippi, alcanando uma posio quase legendria por sua calma persistncia diante de espancamentos, das prises e dos ataques com dinamite e rifles; Fannie
Lou Hamer, "a dama que sabia cantar", filha de um catador de algodo analfabeto, que apoiou a incluso dos eleitores negros no condado de Sunflower, Mississippi,
e que, por seus esforos, foi cruelmente espancada por xerifes locais, os quais causaram-lhe ferimentos que a levaram  morte, no antes de ela liderar uma delegao
alternativa do Mississippi  Conveno Democrtica de 1964; Medgar Evers, secretrio da NAACP que foi o primeiro a convidar King para visitar o Mississippi e que
foi assassinado a tiros na rua de sua casa, no exato momento em que sua esposa e suas filhas corriam para abra-lo.
      Ouvi estas e muitas outras histrias de John Perkins durante a semana que passei no Mississippi. Dormi num sof-cama na sala de estar de sua casa, o que significa
dizer que dormi muito pouco, pois Perkins deitava-se tarde e levantava antes do nascer do Sol para ler a Bblia e os jornais que se empilhavam na mesa de sua cozinha.
Mas isto tambm significava que tnhamos muito tempo para conversar  mesa do caf, em seu carro, enquanto passvamos pelos campos de algodo, e em seu escritrio.
Ele contou-me sobre sua infncia, sobre a noite em que seu irmo mais velho foi assassinado por um policial por estar fazendo muito barulho enquanto esperava na
fila dos negros para entrar no cinema, sobre sua luta para estudar, suas tarefas no Exrcito e sua promessa de nunca mais voltar ao Mississippi.
      Perkins manteve aquele voto por algum tempo, trabalhando como sindicalista na grande Los Angeles. Sua inesperada converso ao cristianismo, que ele considerava
"religio dos brancos", ps fim quela carreira. Incapaz de tirar de sua mente os vizinhos desafortunados que deixara para trs no Mississippi, foi gradualmente
entendendo o chamado de Deus para retornar, o que aconteceu em junho de 1960.
      Naquela poca, a maioria dos ministros locais da denominao de Perkins estava concentrada em pregar o evangelho, deixando as necessidades humanas nas mos
dos assistentes sociais e das agncias governamentais. Perkins fundou uma igreja e iniciou estudos bblicos, alm de lanar um programa de rdio chamado "Voz do
Calvrio". Mas ele tambm aceitou a misso mais abrangente proclamada por Jesus:

   Evangelizar os pobres Proclamar libertao aos cativos Restaurao da vista aos cegos Pr em liberdade os oprimidos, Apregoar o ano aceitvel do Senhor

      Adotando tal viso, Perkins deu incio a uma clnica de sade rural, uma cooperativa, um centro de treinamento vocacional, um centro de recreao para os jovens
de Mendenhall, uma escola e um programa de casas populares. No demorou muito e um espao cheio de ruas no pavimentadas numa regio pobre transformou-se num agitado
centro de servios s famlias pobres do Condado de Simpson. Perkins no se cansava de viajar pelo pas, buscando apoio financeiro de evanglicos brancos - "Devo
ter sido a primeira pessoa a integrar vrias centenas de lares nos quais pousei", dizia ele - e pedindo ajuda a enfermeiras, mdicos e professores que fizessem um
trabalho temporrio em Mendenhall.Com sua inspiradora vida pessoal, sua maneira sincera de falar e seu compromisso com a justia, Perkins capturava a ateno de
evanglicos por toda a nao. Ele tambm chamou a ateno das autoridades locais.
      Os brancos do Mississippi no se importavam com os servios sociais, mas eles representavam um significativo fluxo de imigrantes do Norte, especialmente quando
Perkins comeou a liderar uma campanha para o registro de eleitores. Naquela poca, apenas 50 eleitores negros estavam registrados no condado de Simpson, apesar
de os negros representarem 40% da populao. Esta proporo era tpica: somente sete mil dos 450 mil negros do Mississippi foram registrados, especialmente devido
a diversas barreiras legais. Os eleitores precisavam pagar uma taxa eleitoral, muito alm das possibilidades da maioria dos negros. Precisavam interpretar enigmticas
passagens da constituio do Estado do Mississippi para satisfazer os oficiais de registro, todos brancos.
       medida que as cortes federais comearam a desmantelar tais barreiras, o Estado levantava outras: a exigncia de que os nomes e endereos dos candidatos fossem
impressos em jornais locais (uma convenincia para as atividades da KKK, dos empregadores e dos vizinhos brancos) e uma permisso dada a qualquer eleitor registrado
no condado para argir qualquer candidato quanto a seu carter.
      Perkins e seus voluntrios deram prosseguimento ao trabalho, chegando a registrar 2.300 eleitores em seu condado. Contudo, quando ele liderou um boicote ao
centro da cidade de Mendenhall em protesto pela brutalidade da polcia, Perkins passou dos limites. Depois de um protesto na rua, em 1970, um branco, membro do staff,
chamado Doug Huemmer e 19 estudantes negros do Colgio Tougaloo foram parados pela Polcia Rodoviria do Mississippi e levados  cadeia de Brandon, nas proximidades,
o domnio de um notrio xerife. Huemmer chamou Perkins, que foi imediatamente para Brandon, caindo na armadilha.
      Uma dzia de policiais rodovirios e locais estavam determinados a ensinar uma lio a Perkins e a Huemmer. "Vocs no so mais cidados do condado de Simpson",
gritava um deles. "Vocs esto no condado de Rankin, onde sabemos como tratar negros espertos." Comearam a chutar Perkins e soc-lo na cabea, nos rins, na virilha,
e a pisar em suas pernas. Ele ficou inconsciente e, quando estava banhado em sangue, derramaram usque falsificado sobre as feridas de sua cabea, voltando a golpe-lo.
Fizeram-no limpar seu prprio sangue. Colocaram um garfo em seu nariz e cutucaram at que sasse sangue, fazendo depois o mesmo em sua garganta. Ento o indiciaram
por contribuir com a delinqncia de menores. Enquanto estava coletando suas digitais, um dos oficiais colocou uma arma na cabea de Perkins e puxou o gatilho. O
tambor vazio fez o barulho caracterstico, e todos riram daquela atitude cruel. Voltaram a bater nele logo depois.
      Perkins sobreviveu quela noite, apesar de os mdicos precisarem retirar, mais tarde, dois teros de seu estmago em funo dos ferimentos. Nos 18 meses de
recuperao que se seguiram, Perkins reconsiderou o chamado de Deus para voltar ao Mississippi. Estava ele realmente levando boas novas ao povo de Mendenhall? Os
habitantes negros tinham agora mais oportunidades,  verdade, mas seus esforos haviam endurecido as atitudes dos brancos. A reconciliao parecia mais remota que
nunca. Enquanto se recuperava, Perkins lia livros de Malcolm X, Rap Brown e Eldridge Cleaver, autores que haviam abandonado o evangelho e sua mensagem de reconciliao.
Mas ele mesmo no podia negar que seu ministrio havia atrado alguns compassivos voluntrios brancos: Doug Huemmer, que sofrera o mesmo tratamento na priso de
Brandon; Al Oethinger, que viera da Alemanha para ajudar, depois de ler livros de Martin Luther King; Vera Schwartz, uma enfermeira missionria que ficara no centro
de sade, em vez de retornar para a frica.
      "Aquele tempo foi, sem dvida, minha crise de f mais profunda", disse-me Perkins, enquanto passvamos pelas estradas vicinais dos condados de Simpson e Rankin
e pela infame cadeia e o tribunal, quatro anos depois do incidente. "Era hora de eu decidir se realmente acreditava naquilo que eu tanto professava: que somente
o amor de Cristo, no o poder da violncia, era a esperana para mim ou para o mundo. Comecei a ver como o dio poderia me destruir. No fim, tive de concordar com
o doutor King: Deus queria que pagssemos o mal com o bem. 'Amai vossos inimigos', disse Jesus. E eu estava determinado a faz-lo. O conceito de Jesus de que o amor
 muito superior ao dio  uma verdade misteriosa e profunda. Pode ser que eu no consiga v-lo em muitos momentos de minha vida, mas sei que  verdadeiro. Por causa
daquela cama, na qual fiquei cheio de hematomas e pontos, Deus fez com que isso se tornasse verdade em mim. Recebi uma transfuso de esperana.No podia desistir.
Estvamos apenas no meio do caminho ali em Mendenhall."
      Naquele momento de crise, Perkins veio a crer, com King, que "o dio e a amargura jamais podero curar a doena do medo; s o amor pode fazer isto. O dio
paralisa a vida; o amor a liberta. O dio confunde a vida; o amor a harmoniza. O dio escurece a vida; o amor a ilumina".
      Nos anos seguintes, Perkins mudou-se para Los Angeles, onde fundou uma organizao nacional para o desenvolvimento comunitrio, baseada naquilo que ele aprendera
em Mendenhall, voltando ao Mississippi para lanar um movimento de reconciliao racial. s vezes, ele aparece junto a Thomas Tarrants, um militante da KKK que cumpriu
pena por assassinato, converteu-se na priso e hoje pastoreia uma igreja multirracial em Washington.

      Quando visitei Mendenhall, em 1974, uma placa deu-me as boas-vindas na entrada da cidade: "Brancos unidos, derrotem os judeus e comunistas miscigenadores".
Pedi a John Perkins que me mostrasse um exemplo de racismo em ao. "Quando eu escrever sua histria, as pessoas vo me dizer que tudo  diferente", disse eu. "A
Declarao de Direitos Civis aconteceu h dez anos. Ainda existe discriminao aberta?"
      Perkins pensou por um minuto e, de repente, seu rosto brilhou. "J sei. Vamos comer no Restaurante Revolving Table", disse ele.
      Fomos a um restaurante elegante, famoso por um dispositivo chamado "Susan preguiosa", que girava vagarosamente sobre uma enorme mesa, sob o qual havia ervilhas,
vegetais, repolho, batata-doce, frango e bolinhos de vrios tipos, alm de outras comidas tpicas do sul dos Estados Unidos. Quando nos sentamos, todos os fregueses
brancos nos olharam, e ento, como se houvesse um sinal pr-combinado, todos se levantaram e foram para mesas menores. A exceo de Perkins e eu, ningum no restaurante
falou uma palavra durante a hora que l estivemos. Comi preocupado, olhando por cima de meus ombros e esperando ver um cassetete. Quando paguei e comentei com a
atendente sobre a deliciosa comida, ela simplesmente pegou meu dinheiro sem responder nem mesmo olhar para mim. Tive uma pequena viso da hostilidade que Perkins
vivera por toda sua vida.
      Dois meses depois, quando publiquei meu artigo sobre John Perkins, a filial do Mississippi da organizao crist na qual trabalhava exigiu que eu fosse despedido
por trazer  tona lembranas ruins. "As coisas mudaram", disseram eles. "Por que ficar remoendo o passado?" Realmente, por que fazer isto?
      Mais de trs dcadas se passaram desde a visita ao Mississippi, e as grandes vitrias dos direitos civis esto quase alcanando meio sculo de existncia.
Vivemos em outro pas atualmente, em um novo milnio, e realmente muita coisa mudou. Nos dias atuais, fregueses negros podem comer onde quiserem, beber gua em qualquer
bebedouro, dormir em qualquer hotel. As vitrias pelas quais lutaram pessoas como Martin Luther King Jr., Medgar Evers, Bob Evans, John Perkins e tantas outras foram
ganhas - ao menos legalmente - apesar de terem esperado praticamente um sculo desde a abolio da escravatura. Sulistas progressistas dos Estados de Gergia, Arkansas
e Texas j ocuparam o cargo de presidente do pas. Visitantes negros podem participar de igrejas brancas sem qualquer problema, muito embora raramente o queiram.
Todos esses sonhos pareciam coisas inatingveis para Martin Luther King Jr. h apenas quatro dcadas. Como sinal das enormes mudanas realizadas, hoje a nao reserva
um dia do ano para homenagear o prprio King, objeto de tanta controvrsia em seus dias, por meio de um feriado nacional. Ele  o nico afro-americano, o nico pastor
e, na verdade, o nico indivduo americano a receber tal honraria.
      As vitrias no chegaram facilmente, e a maioria delas no aconteceu durante sua vida. Roy Wilkins, da NAACP, um incansvel adversrio do doutor King, caoou
dele em 1963, dizendo que seus mtodos no haviam conseguido a integrao de Albany e Birmingham em momento algum. "Martin", disse ele, "se voc conseguiu dessegregar
alguma coisa com seus esforos, por favor, diga-me o que foi".
      King respondeu: "Bem, acho que a nica coisa que consegui dessegregar at aqui foi alguns coraes humanos". Ele sabia que a vitria derradeira seria conseguida
ali. As leis podiam evitar que brancos linchassem negros, mas nenhuma lei poderia exigir que as raas se perdoassem e se amassem mutuamente. O corao humano, no
as salas dos tribunais, eram seu supremo campo de batalha. Sendo um desses coraes transformados, sinto-me na obrigao de concordar com tal afirmao.King desenvolveu
uma sofisticada estratgia de guerra, travada no com armas, mas com graa. Ele atacou a violncia com a no-violncia e o dio com o amor. Um colega de King, de
nome Andrew Young, lembra-se daqueles anos turbulentos como um tempo em que eles buscavam "salvar corpos negros e almas brancas". King dizia que seu verdadeiro objetivo
no era derrotar os brancos, mas "despertar um senso de vergonha dentro do opressor e desafiar seu falso senso de superioridade (...) O fim disso tudo  a reconciliao;
o fim  a redeno; o fim  a criao de uma comunidade amorosa". E foi isto o que Martin Luther King Jr. finalmente fez, mesmo em coraes racistas como o meu.
      Apesar de todo o tumulto social gerado pelo racismo, de alguma maneira a nao permaneceu unida. Pessoas de todas as raas terminaram se aliando ao processo
democrtico nos Estados Unidos, at mesmo no Sul. J faz alguns anos que os moradores de Atlanta elegem prefeitos afro-americanos, entre eles o lder em direitos
civis Andrew Young. At mesmo a cidade de Selma, no Alabama, tem um prefeito negro que, em 2000, derrotou o prefeito que ocupava o cargo na poca da famosa marcha.
O autor da infame frase "segregao para sempre", George Wallace, compareceu em sua cadeira de rodas diante da liderana negra do Alabama para apresentar seu pedido
de desculpas por seu comportamento, ato que ele repetiu numa rede de televiso estadual. Quando Wallace foi  igreja batista em Montgomery, na qual King lanara
o movimento, entre os lderes que vieram lhe oferecer perdo estava Coretta Scott King, Jesse Jackson e o irmo de Medgar Evans, assassinado durante o movimento.
      Em 1995, quase 150 anos depois de ter apoiado a escravido, a Conveno Batista do Sul arrependeu-se formalmente de sua poltica de longo prazo de apoio ao
racismo. Um pastor da Igreja Batista Abissnia disse: "Finalmente, respondemos  carta de Martin Luther King Jr., enviada da priso de Birmingham em 1963. Infelizmente,
apenas 30 anos depois".
      At mesmo a grande igreja batista que freqentei durante minha infncia aprendeu a se arrepender. Quando fui a um culto, alguns anos atrs, fiquei chocado
em ver apenas umas poucas centenas de adoradores espalhados pelo enorme santurio que, em minha infncia, costumava abrigar mais de 1.500 pessoas. A igreja parecia
amaldioada. Finalmente, um pastor que fora meu amigo de classe durante a infncia tomou a iniciativa incomum de promover um culto de arrependimento. Antes da realizao
do culto, ele escreveu para Tony Evans e para o professor da Escola Dominical que fora afastado, pedindo seu perdo. Ento, publicamente, de maneira dolorosa, com
a presena de lderes afro-americanos, ele recontou o pecado do racismo da maneira como era praticado por aquela igreja no passado. Ele se arrependeu e recebeu perdo.
Apesar de ter-se a ntida sensao de que um fardo fora tirado da congregao naquele dia, isto no foi suficiente para salvar a igreja. Poucos anos depois, a congregao
branca mudou-se para a periferia, e hoje, uma congregao afro-americana chamada Asas da F ocupa o prdio e faz tremer as janelas mais uma vez.
      Analistas do Sul se referem a tudo isso como sendo um perodo em que as pessoas foram "assombradas por Cristo". Talvez devessem dizer "assombradas pelo racismo".
Todos ns, brancos ou negros que cresceram naqueles dias, temos nossas cicatrizes. Alguns negros, como John Perkins e Bob Moses, possuem cicatrizes fsicas. Ns,
brancos, temos cicatrizes espirituais. Embora eu no tenha vivido no Sul por 30 anos, vivo com minhas lembranas, tal qual os assassinos medievais que eram obrigados
a levar nas costas, amarrados a si, os corpos das pessoas que haviam assassinado. A nao inteira possui cicatrizes. Quem poderia dizer que havamos alcanado qualquer
coisa semelhante  "comunidade amorosa" com a qual sonhava King?
      Visitei a antiga igreja de King em Atlanta, a Igreja Batista Ebenzer, e chorei muito enquanto via com novos olhos o cerne da moral da comunidade negra que
havia lhes dado fora para lutar contra intolerantes como eu. Naqueles dias, eu estava do lado de fora, contando piadas, espalhando rumores, ajudando a sustentar
aquele sistema maligno. Dentro da igreja - e, durante um tempo, apenas dentro dela -, a comunidade negra permaneceu em p. Cegados pela intolerncia, meus olhos
no conseguiam ver o Reino de Deus trabalhando.
      Poucos anos antes de sua morte, King foi confrontado sobre os erros que havia cometido. Ele respondeu da seguinte maneira: "Bem, o pior erro que cometi foi
acreditar que, porque nossa causa era justa, poderamos ter certeza de que os pastores brancos do Sul se levantariam a nosso favor, uma vez que suas conscincias
crists haviam sido desafiadas. Pensei que os ministros brancos levariam nossas causas s estruturas de poder controladas por outros brancos. Terminei desiludido
e machucado,  claro. Conforme nosso movimento avanava e apelos diretos eram feitos aos pastores brancos, a maioria deles fechou suas mos, e alguns at as usaram
contra ns".
      Certa vez, escrevi um tributo a Martin Luther King Jr. na revista Christianity Today. Falei dele como sendo um profeta, usando algumas das palavras que usei
neste texto. Recebi opinies de vrios leitores, alguns apoiando, outros irados. Algumas das cartas mais ponderadas vieram de ex-reitores de universidades, do reitor
da Wheaton College, que freqentei, e de um dos diretores do seminrio onde estudei. Ambos perguntavam: "Como voc pode chamar o Dr. King de 'profeta'?" Um grande
lder moral, sim; um importante agente de mudana social, certamente; mas como um plagista e mulherengo poderia ser um profeta cristo? Eles reclamaram muito da
aplicao de tal rtulo a um homem com falhas to evidentes.
      Escrevi respostas detalhadas a ambos, mencionei alguns dos lderes problemticos que Deus claramente usara nos tempos bblicos. Salomo nos d um bom exemplo.
Honramos seus provrbios, mas no seu estilo de vida. Estaramos certamente em perigo se o mensageiro indigno invalidasse toda a mensagem. Tambm citei sermes maravilhosos
do Dr. King e mencionei que King exigia que seus voluntrios assinassem um termo de compromisso de meditar diariamente nos ensinos de Jesus, de orar com regularidade
e andar e falar em amor. Ento, veio a ironia: meu artigo havia recebido o nome "Confisses de um racista", mas quase todas as cartas que recebi concentravam-se
nos erros de King, e no nos meus prprios erros. Como  que eles poderiam questionar o direito de King de falar em nome de Deus, e no o meu, dado meu passado manchado?
      Muitos dos cristos que ainda rejeitam a idia de ver Martin Luther King Jr. como instrumento de Deus no tm problemas em freqentar igrejas que o viam como
inimigo, que se opunham a suas idias e que, direta ou indiretamente, perpetraram o pecado do racismo contra o qual ele se ops com seu prprio corpo. Vemos o argueiro
em seus olhos, mas no percebemos a trave em nossos prprios olhos.
      S existe uma coisa que me perturba mais do que os pecados do passado: o pecado que no enxergo hoje. Foi preciso que houvesse a grandeza de um Martin Luther
King Jr. para despertar a conscincia de uma nao no sculo passado. O que nos impede, neste novo sculo, de criar a comunidade amorosa de justia, paz e amor pela
qual King lutou e morreu? Em quais questes atuais a Igreja teima em estar do lado errado? Como King costumava dizer, a presena de injustia em qualquer lugar 
uma ameaa  justia em todo lugar.
      Houve um momento em que a graa e o poder desceram sobre grandes e imperfeitos lderes para que eles nos convencessem e liderassem. No fim das contas, no
foi o humanitarismo de King que me alcanou, nem seu exemplo de no-violncia baseado em Gandhi, nem seus sacrifcios, por mais inspiradores que possam ser. Foi
sua firmeza no evangelho de Cristo que finalmente deu-me conscincia da trave que havia no meu olho e que me levou a atender  mensagem que ele estava proclamando.
Terminei dando ouvidos a ele porque sempre citava Jesus. Nem sempre a Igreja entende - e pode levar sculos ou milnios para que seus olhos sejam abertos. Porm,
quando isto acontece, o amor e o perdo do prprio Deus fluem como um rio de guas vivas. Que triste foi perceber que, quando provei deste rio, King j estava morto.

   Como qualquer pessoa, desejo uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas no estou preocupado com isto agora. Quero apenas fazer a vontade de Deus. E ele
me permitiu que eu subisse ao monte. Olhei l de cima e pude contemplar a Terra Prometida. Pode ser que eu no entre l com voc, mas quero que voc saiba esta noite
que, como povo, ns entraremos na Terra Prometida. E por isso que estou feliz esta noite. No estou preocupado com nada. No temo homem algum. Meus olhos viram a
glria do Senhor que vem.
   (Extrado da ltima fala de King, na cidade de Memphis, na noite anterior a seu assassinato)

MARTIN LUTHER KING JR. PARA INICIANTES
      Como introduo  vida de King, recomendo The autobiography of Martin Luther King, Jr., um audiolivro produzido pela Time Warner. Montado a partir de textos
de King e lido por LeVar Burton, a biografia  incompleta e subjetiva, mas as fitas trazem tambm sermes e discursos feitos pelo prprio King em seu empolgante
e inimitvel estilo, com trechos de legtima msica gospel americana. A Testament of Hope: The Essential Writings and Speechcs of Martin Luther King, Jr. rene todos
os famosos discursos, com excertos da maioria dos escritos de King. Bearing the Cross, de David Garrow,  a melhor biografia de King em um nico volume. O completo
Parting the Waters, alm de Pillar of Fire, ambos de Taylor Branch, expandem a cobertura para incluir outros eventos paralelos do movimento pelos direitos civis.
Estes livros podem ser adquiridos pela internet.

3. G. K. Chesterton
Relquias  beira-mar
      Se, durante meu curso universitrio, voc me perguntasse o que eu iria fazer depois de me formar, "escritor cristo" seria a ltima das minhas opes. Contaria
novamente todas as mentiras que minha igreja havia me ensinado sobre raas e outros assuntos e zombaria de seu legalismo sufocante. Descreveria um evanglico como
um invejoso socialmente retardado, um fundamentalista que ganhava bem, com a mente s um pouquinho mais aberta e com um pouco mais de conhecimento das coisas. Teria
reclamado dos missionrios aposentados que lecionavam no seminrio em que estudei, os quais ensinavam disciplinas como Cincia e Filosofia, sabendo menos sobre estes
assuntos do que qualquer professor de escola primria. Aquela escola pendia mais para a punio do que para a recompensa da curiosidade intelectual. Um dos professores
disse-me abertamente que diminuiu minhas notas com o claro propsito de me ensinar humildade. "A maior barreira ao Esprito Santo  a sofisticao", costumava dizer
ele a seus alunos.Contudo, foi nesse mesmo seminrio que tive contato com os textos de C. S. Lewis e G. K. Chesterton. Apesar de estarem separados de mim por uma
imensido de mar e cultura, eles reacenderam em meu corao a esperana de que, em algum lugar, havia cristos que desatavam suas mentes em vez de cont-las, que
combinavam um sabor de sofisticao com a humildade que eles no exigiam de outros e, acima de tudo, que haviam experimentado a vida com Deus como uma fonte de alegria,
no de represso.
      Por meio de cpias caindo aos pedaos, disponveis em livrarias da Inglaterra, pude devorar todo o material que encontrava desses dois homens - um deles, um
acadmico de Oxford, e o outro, um jornalista da Fleet Street. Como o prprio Lewis escreveu depois de descobrir Chesterton, enquanto se recuperava num hospital
durante a Segunda Guerra Mundial, "um jovem que deseja permanecer como ateu convicto no pode ser muito cuidadoso com sua leitura".
      Suas palavras me sustentaram, foram um salva-vidas da f num mar de desordem e dvida. Tornei-me escritor, como j disse, em grande parte pelo fato de ter
percebido o poder das palavras em minha prpria vida, palavras que podiam navegar pelo tempo e pelo oceano e promover uma transformao calma e suave, que traziam
cura e esperana. Ainda se passaria muito tempo at que eu voltasse  f, mas pelo menos eu j tinha modelos de qual era a aparncia de uma f capaz de mudar a vida.
Martin Luther King Jr. havia tocado um acorde moral de f em mim; estes dois tocaram um acorde mais esttico.
      Na histria do filho prdigo, Jesus no aborda em detalhes os motivos da volta do prdigo. O filho mais jovem no sentiu remorso repentino algum, nem uma exploso
de amor pelo pai que insultara. Em vez disso, o que vemos  que ele se cansa de uma vida de misria e volta sem as motivaes egostas. Aparentemente, Deus no se
importa se nos ache-gamos a ele por causa do desespero ou do mais profundo anelo. "Por que voltei?"  uma pergunta que fao a mim mesmo.
      Meu irmo mais velho, que havia representado o papel de filho prdigo de maneira mais dramtica, demonstrou o que poderia acontecer se eu optasse por deixar
tudo para trs. Em uma tentativa de quebrar as cadeias de uma criao extremamente castradora, ele saiu numa grande busca pela liberdade, experimentando novidades
como quem troca de roupa: pentecostalismo, existencialismo atesta, budismo, espiritualismo da Nova Era, racionalismo tomslico. Uniu-se aos hippies da dcada de
1960, usando cabelos longos e culos de lentes redondas, vivendo em comunidade, praticando sexo e experimentando drogas. Durante algum tempo, enviou-me relatrios
exuberantes sobre sua nova vida. No fim, porm, um lado escuro comeou a se revelar.
      Precisei pagar fiana para tir-lo da cadeia depois que uma viagem com LSD no saiu como ele esperava. Ele rompeu relaes com qualquer outra pessoa da famlia
e passou por diversos casamentos. Atendi a ligaes no meio da noite, nas quais ele se dizia prestes a se suicidar. Olhando meu irmo, pude perceber que a liberdade
aparente pode, na verdade, estar mascarando uma enorme escravido, um clamor do corao pelas necessidades no atendidas. A pessoa mais musical que eu j conhecera
acabou afinando pianos, em vez de toc-los numa sala de concertos. Vi muito de perto o poder destrutivo de se lanar fora a f sem ter o que colocar em seu lugar.
      No mesmo perodo, mas de modo mais positivo, minha carreira jornalstica deu-me a oportunidade de analisar pessoas, como as que reuni neste livro, as quais
demonstram que uma conexo com Deus pode alargar a vida, em vez de faz-la encolher. Dei incio ao longo processo de separar Deus da Igreja. Embora eu tenha sado
das igrejas de minha infncia bem machucado, quando iniciei o processo de observar Jesus atravs dos olhos crticos de um jornalista, vi que o Salvador havia lutado
contras as coisas que mais me perturbavam - legalismo, auto-justificao, racismo, provincialismo, hipocrisia -, e que essas foram as causas mais provveis de ele
ter sido levado  crucificao. Quando conheci o Deus revelado em Jesus, reconheci que precisava mudar em muitos aspectos - sim, at mesmo me arrepender, pois percebi
que havia absorvido a hipocrisia, o racismo e a auto-justificao de minha criao, e eu mesmo havia contribudo com um nmero enorme de pecados por minha conta.
Comecei a ver Deus mais como um mdico que prescreve mudanas de atitude para o bem de minha sade do que como um juiz austero, que balana seu dedo diante da minha
teimosia.
      Sou o homem que, com a grande ousadia, descobriu o que j havia sido descoberto antes", declarou G. K. Chesterton, de maneira triunfante. "Tentei montar, sozinho,
uma heresia. Quando estava prestes a dar os retoques finais, descobri que ela era a ortodoxia." Guiado parcialmente por Chesterton, aterrissei num terreno similar
depois de uma jornada tortuosa. Quando lhe foi perguntado qual livro gostaria de ter consigo, se estivesse em uma ilha deserta, Chesterton parou por um breve instante
antes de responder e disse: "Ora, o Guia prtico de construo de navios,  claro". Se eu tambm fosse parar numa ilha deserta e pudesse escolher outro livro que
no a Bblia, escolheria Ortodoxia19, a autobiografia espiritual de Chesterton. Fico realmente desconcertado em imaginar por que algum escolheria um livro com este
ttulo, mas um dia eu mesmo fiz isto e minha f nunca mais foi a mesma. Ortodoxia trouxe frescor e um novo esprito de aventura  minha f,  medida que fui encontrando
estranhos paralelos entre minha prpria odissia e aquela realizada pelo autor, um desmiolado jornalista vitoriano de 150 quilos.
      Chesterton  com freqncia chamado "o mestre que no deixou nenhuma obra-prima", talvez devido  sua profisso. Durante a maior parte de sua vida (1874-1936),
ele trabalhou como editor de um semanrio de idias, escrevendo, nesse perodo, cerca de quatro mil estudos sobre assuntos tanto triviais quanto importantes. Ele
atravessou a passagem do sculo XIX para o XX, quando movimentos como o modernismo, o comunismo, o fascismo, o pacifismo, o determinismo, o darwinismo e a eugenia
ganharam espao. Depois de sobreviver a todos, Chesterton sentia-se cada vez mais pressionado em direo ao cristianismo, que era visto por ele como o nico reduto
contra tais foras. Terminou aceitando a vida crist no somente como um bastio de civilizao, mas como uma expresso das mais profundas verdades sobre o mundo.
Ele deu o ousado passo de ser batizado na Igreja Catlica Romana num pas de maioria protestante.
      Como pensador, Chesterton comeou bem devagar. Aos nove anos, mal podia ler, e seus pais o levaram a um neurologista para saber sobre sua capacidade mental.
Ele saiu da escola de artes e desistiu da universidade. Apesar disso, porm, tinha uma memria to prodigiosa que era capaz de, no fim da vida, recitar o enredo
de cada um dos dez mil romances que lera e revisara. Escreveu cinco romances e aproximadamente 200 contos, inclusive uma srie de histrias policiais centradas no
"Padre Brown"; arriscou-se em peas, poesia e baladas; escreveu biografias literrias de personagens como Robert Browning e Charles Dickens; escreveu uma histria
da Inglaterra; tambm abordou as vidas de Francisco de Assis, Toms de Aquino e do prprio Jesus. Escrevendo com velocidade assustadora, entendendo alguns fatos
de maneira errada, no obstante, ele abordou cada um desses assuntos com tal discernimento, entusiasmo e destreza que at mesmo seus crticos mais audazes tinham
de se levantar e aplaudir.
      Chesterton viajava ocasionalmente pela Europa, e atravessou o Atlntico para visitar os Estados Unidos (o que o levou a escrever o livro What I Saw in Amrica20),
mas passava a maior parte do tempo em casa, lendo muito; escreveu sobre praticamente tudo que lhe vinha  mente. As alegres aventuras se passavam em sua cabea grande
e cabeluda. No se pode, contudo, subestimar seu impacto sobre a vida de outras pessoas. Mahatma Gandhi baseou muitas de suas idias para a independncia da ndia
nas idias de Chesterton. Um de seus romances inspirou o movimento de Michael Collins pela independncia da Irlanda. C. S. Lewis via Chesterton como seu pai espiritual.
      Chesterton j havia morrido quase trinta anos antes quando o descobri, mas ele ressuscitou minha f moribunda. Hoje, quando olho para trs e pergunto de que
maneira ele me afetou, vejo que ajudou a despertar em mim um sentimento de alegria h muito suprimido.
      Albert Einstein fez, certa vez, a mais importante pergunta de todas: "O universo  um lugar amistoso?" Durante minha infncia e minha adolescncia, o que recebi
foram mensagens bastante misturadas. Como os filhos de alcolatras fazem - no fale, no confie e no sinta -, minha resposta emocional era praticamente nula. Mesmo
quando meu irmo se abriu e resolveu dar incio  sua grande jornada em busca da liberdade, eu me fechei, lacrando cada uma das avenidas pelas quais as pessoas podiam
chegar at mim, tanto para me manipular quanto para me causar dor. Li histrias como as de Sartre e Camus 21, cujos heris eram capazes de ferir suas prprias mos
ou assassinar algum na praia simplesmente pelo prazer de faz-lo. Li especialmente Nietzsche, que descrevia um super-homem impermevel ao sofrimento. Aprendi a
no rir, nem mesmo expressar um sorriso, assim como a no chorar. Procurei no me importar ou reagir diante de qualquer coisa: ao frio ou ao calor, aos bons aromas
ou aos cheiros desagradveis,  beleza ou  feira, ao amor ou ao dio. Numa experincia pervertida, quebrei meu prprio brao contra a armao de metal de um beliche
simplesmente para testar meu domnio sobre a dor.
      Hoje vejo o que no pude ver ento: estava erguendo uma fortaleza de pedra contra o amor, pois via a mim mesmo como inviolvel. No lugar mais improvvel -
o seminrio que eu via como um asilo -, essa fortaleza interior comeou a ruir. Encontrei conforto no na religio, onde todos ao redor diziam ter encontrado, mas
na msica. Tarde da noite, eu costumava fugir do dormitrio e caminhar at a capela, onde havia um fantstico piano de cauda Steinway. Vivendo  sombra de um irmo
naturalmente capacitado para a msica, nunca me apresentei em pblico, mas era capaz de ler razoavelmente bem peas de Mozart, Chopin, Beethoven e Schubert, passando
assim vrias noites, colocando alguma ordem em meu mundo desordenado. Eu estava criando algo e, apesar de mim mesmo, aquilo parecia belo ao ecoar pela capela escura
e vazia.
      Ento, apaixonei-me. Janet e eu nos aproximamos pela razo errada - sentvamos juntos para reclamar da atmosfera opressiva da escola -, mas, depois, a mais
poderosa fora do universo, o amor, terminou vencendo. Encontrara algum que apontava tudo o que era bom em mim, no apenas as coisas ruins. A esperana surgiu.
Eu queria conquistar os mundos e coloc-los a seus ps. Preparei a Sonata Pattica de Beethoven para tocar no seu aniversrio e perguntei, tremendo, se ela gostaria
de ser a primeira pessoa a ouvir-me tocar. Era uma oferta  nova vida e a ela, que a havia despertado.
      "O pior momento de um ateu  quando ele est realmente grato e no tem a quem agradecer", escreveu Chesterton. Tambm disse que "a alegria, que era a pequena
publicidade do pago,  o gigantesco segredo do cristo". Conheo muito bem aquele pior momento e tambm a primeira agitao da alegria que sopra ar fresco nas fendas
h tempos cerradas. A grande alegria traz dentro de si a insinuao de imortalidade. Repentinamente, eu queria viver, e viver para sempre.
      Tambm no posso esquecer-me da natureza. Em minha infncia, a natureza era meu lugar de refgio. Morvamos num trailer retangular de alumnio de 3x9m, estacionado
no terreno da igreja. Nosso lar vivia mais em torno da tenso do que da paz, mas eu sempre encontrava algum bosque por perto onde explorar as tocas dos esquilos
e as colmias, os troncos secos cheios de insetos exticos e os pntanos repletos dos sons de liblulas e pequenos sapos. Colecionava borboletas, abelhas e tartarugas,
e fui trabalhar durante um vero no Centro de Doenas Contagiosas, estudando mosquitos e carrapatos.
      Mesmo depois de me formar, a natureza sempre me atraiu como uma sinfonia que toca, quer eu pare ou no para ouvi-la. Se no podemos julgar com preciso se
o universo  amigvel ou no, pelo menos podemos consider-lo uma fonte ilimitada de beleza. Suba nos montes mais altos onde moro, no Colorado, e voc encontrar
o solo fino acarpetado de delicadas flores silvestres, que vicejam sem a ateno de qualquer pessoa que porventura passe por ali. Mergulhe perto dos recifes de Great
Barrier e voc ver coral e peixes tropicais com cores e desenhos mais brilhantes que aqueles mostrados em qualquer museu de arte no mundo, sem mencionar o fundo
do mar repleto de conchas e prolas, jias formadas a partir da secreo de animais primitivos.
      Fiquei observando borboletas nas Cataratas do Iguau, no Brasil, e pude ver maravilhosas espcies tropicais, portadoras aladas de arte abstrata, pousando em
meu brao para sorver a umidade. Agachei-me ao lado de uma baa no Alasca, enquanto um cardume de baleias beluga se alimentava, observando-as enquanto faziam um
contraste prateado com a gua verde escura. Sentei-me sob um baob no Qunia para ver as girafas trotarem incansveis sob as nuvens do pr-do-sol e um cortejo de
quase meio milho de animais que marchavam em fila indiana pela plancie. Dentro do Circulo rtico, pude ver uma manada de bois-almiscarados reunidos em crculo,
como as carroas dos pioneiros, para proteger as mes e os filhotes (aqueles que nascem no inverno precisam se adaptar a uma queda brusca de temperatura para mais
de 45C negativos no momento do nascimento). Tambm me sentei em sala de aula para ouvir professores de Teologia passarem horas a fio definindo os atributos da deidade:
oniscincia, onipotncia, onipresena etc. Pode aquele que criou tantas maravilhas ser reduzido a tais abstraes? No deveramos comear com o mais bvio fato da
existncia - de que, seja l quem for o responsvel, ele  um ardente e incomparvel artista diante de quem qualquer feito ou criatividade humana mingua como se
fosse um rabisco de criana?
      J falei anteriormente sobre um painel de que participei com trs cientistas, dois dos quais eram ganhadores do Prmio Nobel e ateus confessos. Vamos o mundo
de maneira bem diferente, mas concordvamos que a religio, no a cincia, pelo menos propunha uma resposta a duas questes: 1) por que existe alguma coisa l fora,
alm de um grande nada (ou, como disse Stephen Hawking, por que o universo "se importa" em existir)? E 2) por que as coisas so to belas e ordenadas? No  por
acaso que o Antigo Testamento foi a primeira literatura antiga a celebrar as glrias da natureza, pois seus autores reconheciam a obra do Criador.
      Sim, mas ele  amistoso? Outro cientista, o naturalista Loren Eiseley, fala de um evento que ele considera a mais significativa experincia de aprendizado
de sua longa vida. Surpreendido por uma tempestade repentina na praia, ele procurou abrigo sob um enorme tronco, onde encontrou um pequeno filhote de raposa, talvez
com dez semanas de vida, que at ento no tinha medo dos humanos. Em poucos minutos, ele j havia envolvido Eiseley numa brincadeira como um cabo de guerra, no
qual, numa ponta, estava Eiseley, segurando um osso de galinha com a boca, e do outro lado estava a raposinha. A lio que ele aprendeu, conforme o prprio Eiseley
disse,  que, no centro do universo, h um sorriso na face de Deus.
      J tive meus prprios encontros com raposas, especialmente agora que vivo no Colorado. Quando trs filhotes nasceram numa toca prxima a um barranco, imaginei-me
uma espcie de So Francisco de Assis e resolvi fazer amizade com eles. Sentava-me sobre uma almofada, colocada prxima  toca, e l escrevia meus artigos e meus
livros, at que eles se acostumaram comigo. No primeiro dia, anunciei minha presena com um "oi", o que os fez correr como se tivessem ouvido um raio. Olhavam para
mim com curiosidade, com os olhos dourados alertas, orelhas se movendo ao menor som, com seu plo avermelhado e sem marcas brilhando ao sol. Por fim, os trs comearam
a me seguir, e me senti como o personagem do conto O flautista de Hamelin, dos irmos Grimm. Se eu parava, eles paravam tambm e se escondiam atrs de uma rocha
ou de um arbusto. Se eu corria, eles corriam tambm. Se me sentasse para fazer um lanche, eles me cercavam e ficavam olhando.
      Conforme prosseguia o vero, passei a sentar-me na calada de minha casa e assobiar. Ao meu comando, as trs lindas e jovens raposas vinham saltando pela ravina.
Elas espreitavam borboletas que voavam ao redor de um arbusto com flores silvestres, tentando peg-las como um gato. Perseguiam, desajeitadas, alguns esquilos espertos.
Tentavam morder a gua que esguichava do regador que tnhamos no jardim. Ficavam em p sobre as patas traseiras e bebiam a gua de nosso bebedouro de pssaros. Certa
vez, pularam para trs quando o espelho d'gua refletiu suas faces. Se eu jogasse uma bola de tnis, uma delas saa em disparada, com as duas outras em uma alegre
perseguio.
      Eu sempre tinha trs acompanhantes no vero. Quando cuidava do jardim, cortava a grama ou lia a correspondncia em minha rede, l estavam elas, seguindo todos
os meus movimentos. Se eu almoasse cm nossa varanda de madeira, elas subiam os degraus para se juntar a mim. Se me sentava l fora para escrever, elas me observavam
por alguns instantes, ento se enrolavam, colocando a cauda de ponta branca sobre seus olhos, e dormiam. Sentia-me como se estivesse no den, quando o medo ainda
no havia surgido entre as espcies, ou me imaginava no Paraso, onde o cordeiro se assentar com o leo, e as raposas se deitaro aos ps dos escritores. Tal como
Eiseley, aprendi que no corao do universo pode se achar um sorriso. "A beleza do mundo", disse Simone Weil, " o carinhoso sorriso de Cristo para ns, mostrado
atravs da matria". Enxergamo-lo raramente neste planeta desfigurado, mas esse vislumbre revela tanta realidade quanto todos os livros de Teologia juntos.
      Gradualmente, a msica, o amor romntico e, em especial, a natureza comearam a suavizar a incessante monotonia do desespero interior que me importunava como
uma dor profunda. Passei a ver o desespero como um sintoma normal da humanidade decada e alheia a seu Criador. Eu precisava, de alguma maneira, me reconectar.
      Chesterton havia apontado para So Francisco de Assis, que desenvolvera seu modo de vida a partir do "Irmo Sol" e da "Irm Lua", e que via uma beleza inexorvel
na planta mais simples, como um dente-de-leo. Numa passagem memorvel, Chesterton contrasta nosso estado com o de Deus, que " forte o suficiente para se alegrar
na monotonia.  possvel que Deus diga a cada manh para o Sol: 'Faa novamente'; a cada noite, ele se volta para a Lua e diz: 'Faa outra vez".  possvel que no
seja uma necessidade automtica que produza as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas ele nunca se cansa de faz-las. 
bem possvel que ele tenha o eterno apetite da infncia, pois ns pecamos e envelhecemos, e nosso Pai  mais jovem do que ns mesmos". Pouco a pouco, a natureza
ajudou a rejuvenescer em mim aquele apetite da infncia.

      No entanto, no sou So Francisco, e diferentemente do santo de Assis, estou sempre encontrando mensagens misturadas na natureza. Que vislumbre do Criador
posso perceber em insetos cujos filhotes abrem caminho para sair de dentro de sua me literalmente comendo partes dela? Ou da mosca Xenon peckii, cega e incapaz
de voar, que passa a vida inteira nas vsceras de uma vespa, alimentando-se dela? Ou do pequeno peixe amaznico candiru, sem escamas, que penetra no corpo de um
banhista desavisado atravs da uretra e, uma vez l dentro, estica suas escamas, causando dor excruciante que s pode ser mitigada pela remoo cirrgica? At mesmo
minhas amadas raposas: por oito vezes pude v-las pegando um esquilo em meu quintal, um espetculo sangrento e estrepitoso que no se tira da mente com facilidade.
Ontem mesmo vi um enorme alce no cio, bufando, urinando, suando e atacando com os chifres abaixados todos os machos que visse pela frente, uma imagem nada encantadora
de amor romntico.
      Tambm neste aspecto, Chesterton mostra-se um guia bastante til. Ele se ope ao pantesmo e s modernas religies csmicas com a forte assertiva presente
em Ortodoxia, que diz: 'A natureza no  nossa me; a natureza  nossa irm". Deus criou tanto o mundo natural quanto os seres humanos como qualquer artista cria,
formando alguma coisa separada de si e, ento, deixando-a livre. "Deus havia escrito no um poema, mas uma pea; uma pea que ele planejara perfeita, mas que fora
necessariamente deixada para os atores humanos e para os diretores de cena, os quais, desde ento, deturparam-na completamente."
      Chesterton via este mundo como um tipo de naufrgio csmico. Uma pessoa em busca de sentido relembra um marinheiro que acorda de um sono profundo e descobre
tesouros espalhados, relquias de uma civilizao da qual mal pode se lembrar. Ele comea a pegar cada uma dessas relquias - moedas de ouro, uma bssola, roupas
finas - e tenta entender seu significado. A humanidade decada est neste estado. As boas coisas que existem na terra, como o mundo natural, a beleza, o amor e a
alegria, ainda possuem traos de seu propsito original, mas a amnsia desfigura a imagem de Deus em ns.
      Depois de Ortodoxia, li muitas outras obras de Chesterton (ele escreveu mais de 100 livros e, como escritor, fiquei deprimido por semanas ao saber que ele
ditou a maioria deles  sua secretria, fazendo pouqussimas mudanas depois dos primeiros rascunhos). Eu estava escrevendo sobre a questo da dor naquela poca
e encontrei muitas idias no tratamento ficcional que ele deu quele assunto obscuro na obra O homem que foi quinta-feira 22.  surpreendente saber que, considerando
as diferenas de estilo, esse livro foi escrito no mesmo ano de Ortodoxia. Mais tarde, ele explicou que estava lidando com o desespero, o mal e o sentido da vida,
e que havia chegado muito prximo de um colapso mental. Quando emergiu dessa melancolia, procurou fazer uma defesa do otimismo no meio da escurido de um mundo como
aquele. Ele estava estudando o livro bblico de J, e assim surgiram essas duas obras: uma delas, um livro de apologtica cheio de voltas e mudanas; a outra  melhor
descrita como uma combinao de suspense, espionagem e pesadelo.
      Em O homem que foi quinta-feira, Chesterton no despreza os incalculveis mistrios do sofrimento e do livre-arbtrio. Em vez disto, ele os transforma num
argumento minimalista de f. Na pior situao, nas condies em que quase no se pode encontrar bondade, quando a natureza revela apenas o outro lado de Deus, o
universo oferece razes para crer. No prprio discurso de Deus a J, o Senhor destacou a feroz selvageria da natureza - o hipoptamo e o crocodilo, tempestades e
nevascas, a leoa e a cabra, os animais selvagens e os avestruzes -, no o seu lado amigvel. Se isto j no bastasse, a natureza revela Deus como sendo misterioso,
incalculvel, todo-poderoso e digno de adorao. Podemos ter poucas pistas sobre os segredos da realidade, mas que magnficas pistas so essas! "At mesmo a prpria
existncia, reduzida a seu limite mais primrio, j era suficientemente extraordinria e empolgante. Qualquer coisa  magnfica quando comparada a nada", testificou
Chesterton, mais tarde. Tambm na vida dele, a natureza e o amor romntico soavam com altos e reverberantes acordes.
      Para Chesterton, e tambm para mim, os enigmas de Deus provaram ser mais satisfatrios do que as respostas propostas sem Deus. Tambm passei a crer nas coisas
boas deste mundo, primeiramente reveladas a mim atravs da msica, do amor romntico e da natureza, como relquias de um naufrgio e semelhantes a pistas muito claras
da natureza de uma realidade encoberta pelas trevas. Deus respondeu  pergunta de J com mais perguntas, como se dissesse que a verdade da existncia est muito
alm do alcance de nossa compreenso. Fomos deixados aqui com vestgios do plano original de Deus e com a liberdade, sempre a liberdade, de jogarmos nossa sorte,
apostando em Deus ou contra ele.
      Chesterton expressou sua prpria reao, um esprito de genuna gratido, num breve poema:

   Vai morrendo mais um dia
   Durante o qual tive mos, olhos, ouvidos
   E o vasto mundo ao meu redor;
   E amanh  outro dia.
   Por que tenho direito a dois?

      Alm da questo da dor, G. K. Chesterton parecia igualmente fascinado por seu oposto, o problema do prazer. Ele achava o materialismo pouco adequado para expressar
o senso de maravilha e deleite que d uma dimenso quase mgica a atos humanos bsicos como o sexo, o nascimento de uma criana, um divertimento ou uma criao artstica.
      Por que o sexo  to divertido? A reproduo certamente no exige prazer: alguns animais simplesmente se dividem em dois para se reproduzir, e at os humanos
usam mtodos de inseminao artificial que no envolvem tipo algum de prazer. Por que comer nos d tanto prazer? As plantas e animais menores obtm sua quota de
nutrientes sem precisar do luxo das clulas gustativas. Por que existem cores? Algumas pessoas vivem perfeitamente bem sem a capacidade de perceber cores. Por que
o restante de ns tem uma viso complexa?
      Depois de ler o ensimo livro sobre o problema da dor, fiquei intrigado por nunca, jamais ter visto um livro sobre o "problema do prazer". Tambm no me deparei
com filsofo algum que balance sua cabea em perplexidade diante da pergunta: por que sentimos prazer? Mas ela assoma como uma questo importante, o equivalente
filosfico para os ateus do problema da dor para os cristos. Na questo do prazer, os cristos conseguem respirar mais aliviados. Um Deus bom e amoroso naturalmente
gostaria que suas criaturas experimentassem deleite, alegria e satisfao pessoal. Os cristos partem desta premissa e depois procuram maneiras de explicar a origem
do sofrimento. Mas os ateus no deveriam ter uma obrigao similar de explicar a origem do prazer num mundo de coisas feitas a esmo e sem sentido?
      Depois de sua longa odissia, Chesterton voltou  f porque apenas o cristianismo deu as pistas para resolver o mistrio do prazer. "Sentia, primeiramente
em meus ossos, que este mundo no se explicava (...) Em segundo lugar, passei a sentir como se a mgica precisasse ter um significado, e o significado precisasse
de algum para express-lo. Havia algo de pessoal no mundo, como numa obra de arte (...) Terceiro, considerava este propsito maravilhoso em sua forma original,
a despeito de seus defeitos, como os drages. Quarto, que a maneira adequada de agradecer a ele  um tipo de humildade e moderao: deveramos agradecer a Deus a
cerveja e o vinho no bebendo muito dos dois (...) E, por ltimo, e mais estranho, tive em minha mente uma vaga e vasta impresso de que, de algum modo, todo o Bem
era uma sobra a ser guardada e preservada, como sacra, de alguma runa elementar. O homem salvara seus bens como Robinson Cruso salvou seus pertences: ele os recuperou
de um naufrgio."
      De onde vem o prazer? Depois de buscar diversas alternativas, Chesterton fixou-se no cristianismo como a nica explicao razovel para sua existncia no mundo.
Momentos de prazer so restos de um naufrgio jogados na praia, pedaos do Paraso que resistiram ao tempo. Devemos nos ater a essas relquias, sem muito apego,
e us-las com gratido e prudncia, nunca utiliz-las como rtulos.
      Como Chesterton pensava, a promiscuidade sexual nada mais  seno uma desvalorizao do sexo, em vez de ser uma supervalorizao. "Reclamar de que s posso
me casar uma vez  como reclamar que s nasci uma vez. Era incompatvel com a tremenda excitao de quem falava. Mostrava no uma exagerada sensibilidade ao sexo,
mas uma curiosa insensibilidade a ele (...) A poligamia  a falta de realizao no sexo;  como um homem que quer comer uma pra, mas colhe cinco s para se distrair."
      As igrejas que freqentei enfatizavam os perigos do prazer to exageradamente que perdi qualquer mensagem positiva que elas pudessem estar passando. Guiado
por Chesterton, passei a ver o sexo, o dinheiro, o poder e os prazeres sensoriais como boas ddivas de Deus. Todos os domingos, posso ligar o rdio ou a televiso
e ver pregadores censurando as drogas, a libertinagem sexual, a ganncia e o crime que esto "crescendo assustadoramente". Em vez de simplesmente balanar nosso
dedo diante de to bvios abusos das boas ddivas de Deus, talvez devssemos demonstrar ao mundo de onde esses presentes realmente vm e por que eles so bons. O
maior triunfo do mal pode ser seu sucesso em retratar a religio como uma inimiga do prazer, quando, na verdade, a religio aponta para sua fonte: todas as coisas
boas e agradveis so inveno do Criador, que doou liberalmente esses presentes ao mundo.
       natural que, num mundo distanciado de Deus, at mesmo as coisas boas devem ser tratadas com cuidado, como se fossem explosivos. Perdemos a imaculada inocncia
do den, e todo o Bem representa tambm um risco, possuindo dentro de si o potencial para o abuso. Comer se transforma em glutonaria, o amor se torna desejo e, durante
o processo, perdemos de vista Aquele que nos deu o prazer. Os antigos transformavam as coisas boas em dolos; ns, modernos, chamamo-las "vcios". Em ambos os casos,
aquele que deixa de ser servo transforma-se num tirano, um princpio que vi claramente em operao na vida de meu irmo e de seus amigos hippies.
      "Sou ordinrio no exato sentido da palavra", diz Chesterton, "o que significa aceitao de uma ordem, um Criador e uma Criao, o senso comum de gratido pela
Criao, vida e amor como ddivas permanentemente boas, com o casamento e o cavalheirismo como leis que o controlam de maneira adequada". Sob sua influncia, tambm
percebi a necessidade de me tornar mais "ordinrio". Havia concebido a f como um mudo e severo exerccio de disciplina espiritual, uma mistura de ascetismo e racionalismo
na qual a alegria no tinha espao. Chesterton restaurou em mim uma sede pela exuberncia que flui de uma ligao com o Deus que planejou todas as coisas que me
do prazer.

      "Existem vrios ngulos a partir dos quais algum pode cair, mas somente um sobre o qual a pessoa pode permanecer em p", disse Chesterton, e ele terminou
caindo pelo excesso, nunca encontrando o equilbrio que ele pregava de maneira to convincente. Ele no apenas colheu cinco pras s por distrao, como tambm as
comeu. Seu peso oscilava entre 130 e 180 quilos, o que, com uma sade geral ruim, o desqualificara para o servio militar. Este fato o levou a um encontro nada amigvel
com uma patriota durante a Primeira Guerra Mundial. "Por que voc no est no front?", perguntou uma indignada senhora enquanto espiava Chesterton pelas ruas de
Londres. Ele respondeu calmamente: "Minha senhora, se sasse um pouco mais s ruas, veria que eu estou".
      Esse fsico incomum fazia de Chesterton a vtima favorita dos cartunistas de Londres. Um bom desenhista precisa de apenas alguns traos para captar sua essncia:
de lado, ele parecia um enorme p maisculo. Chesterton completava sua reputao com outras excentricidades, a maioria das quais se encaixava no esteretipo de professor
relaxado e desatento. Ele era capaz de aparecer num casamento sem usar gravata e com a etiqueta de preo nos sapatos. Usando qualquer tipo de papel, at papel de
parede, ele rabiscava notas quando as idias lhe surgiam, s vezes em p, totalmente absorto, no meio do trnsito, um costume muito comum. Certa vez, enviou o seguinte
telegrama  esposa: "Estou no mercado Harborough. Para onde devo ir?" Ela telegrafou de volta, dizendo: "Para casa".
      Chesterton dedicava-se alegremente a debates pblicos com os agnsticos e cticos da hora, especialmente com George Bernard Shaw - isto num tempo em que um
debate sobre f conseguia encher uma sala de conferncias. Chesterton normalmente chegava tarde. Atravs de seu pincen, olhava seus papis sempre desordenados e
ia em frente, entretendo a multido, fazendo gestos nervosos, procurando alguma coisa nos bolsos, rindo de suas prprias piadas de maneira estridente e com voz de
falsete. Normalmente, ele cativava a audincia para si e, depois, festejava, levando seu oponente ao pub5 mais prximo. "Shaw  como a Vnus de Milo: tudo nele 
admirvel", saudava seu amigo, de modo carinhoso.
      Cosmo Hamilton, um de seus oponentes em debates, descreveu a experincia:

   Ouvir o grito de alegria de Chesterton (...) V-lo se dobrando de tanto rir de meus insultos pessoais, ver o efeito de seu esprito esportivo sobre uma audincia
impactada que ganhava com suas exploses de alegria que mais lembravam uma galinha cacarejando, era uma viso c um som dos deuses (...) E levei daquela sala um respeito
e uma admirao tal por aquele moleque travesso que vivia entre dicionrios, aquele Peter Pan filosfico, um doutor Johnson bem-humorado, aquele gentil e galante
querubim, aquele profundo estudioso e sbio mestre que crescia cada vez mais (...) Era gigantesco, monstruoso, maravilhoso, fatal, delicioso. Nada como aquilo fora
feito antes ou ser visto, ouvido ou sentido novamente.

      Nos dias de Chesterton, os sbrios modernistas estavam procurando uma nova teoria nica para explicar o passado e dar esperana ao futuro. Shaw, vendo a histria
como uma luta entre as classes, propunha o remdio da utopia socialista. H. G. Wells interpretava o passado como uma marcha evolucionria em direo ao progresso
e  iluminao (uma viso que o resto do sculo faria tudo para refutar). Sigmund Freud sustentava uma viso da humanidade livre da represso e do fardo do subconsciente.
Ironicamente, esses trs progressistas tinham em comum uma fisionomia bastante fechada. Com grossas sobrancelhas, olhos assombrados e culos de armao escura, eles
discutiam suas vises otimistas do futuro.
      Enquanto isso, bufando atravs de seu imprprio bigode loiro, com uma brilhante e rosada face e um brilho penetrante nos olhos, Chesterton defendia alegremente
tais conceitos reacionrios como sendo o pecado original e o Julgamento Final. Chesterton parecia perceber instintivamente que um profeta sisudo dificilmente se
destacaria numa sociedade cheia dos "cultos desdenhadores" da religio. Ele preferia assumir o papel de bufo.
      Chesterton pedia a todos que desconfiassem de "pessoas duras, frias e magras", e talvez seja por isso que cresci to afeioado a esse divertido e gordo apologista.
O que impera hoje em dia na Igreja  a falta de mentes sbrias. Os evanglicos so cidados responsveis que a maioria das pessoas gosta de ter como vizinhos, mas
com os quais no quer passar muito tempo. Telogos de aparncia sria discursam sobre "os imperativos da f". Os evangelistas da televiso, com todos os fios de
cabelo no lugar (s vezes, at tingidos), do nome ao anticristo, predizem o fim do mundo e anunciam como ter uma vida prspera e sadia enquanto tudo isso no acontece.
A direita religiosa clama pela regenerao moral, e os cristos comuns destacam que a temperana, a diligncia e a iniciativa so a prova de sua f. Ser possvel
que esses cristos, na nsia de mostrar quo bons eles so, rejeitaram o fato bsico de que o evangelho soa como boas novas apenas para pessoas ruins?
      Preciso perdoar a Igreja da mesma maneira que o filho de uma famlia disfuncional perdoa a seus pais e seus irmos pelos erros cometidos. Sendo um otimista
irreprimvel, G. K. Chesterton ajudou-me muito nesse processo, tambm. "O ideal cristo no foi tentado nem  desejado. Considera-se que ele  difcil e, assim,
ele permanece intocado", disse ele. A verdadeira pergunta no : "Por que o cristianismo  to ruim, quando ele se diz to bom?" E sim: "Por que as coisas humanas
so to ruins, embora aleguem ser to boas?" Chesterton prontamente admitiu que a Igreja havia enfraquecido o evangelho. Na verdade, disse ele, um dos mais fortes
argumentos em favor do cristianismo  o fracasso dos cristos, os quais, em ltima instncia, provam o que a Bblia ensina sobre a Queda e o pecado original. Enquanto
o mundo caminha de modo errado, prova que a Igreja est certa em sua doutrina bsica.
      Quando o jornal London Times solicitou a diversos escritores que mandassem ensaios sobre o assunto "O que h de errado com o mundo?", Chesterton respondeu
mandando a carta mais curta e direta de todas:

   Prezados Senhores
   Eu.
   Atenciosamente
   G. K. Chesterton

      Por essa razo, quando as pessoas contam-me suas horrveis histrias por terem crescido num ambiente eclesistico repressivo, no sinto necessidade alguma
de defender as aes da Igreja. A igreja da minha infncia, assim como a do presente e a do futuro, consiste de seres humanos profundamente falhos que lutam por
um ideal inatingvel. Admitimos que nunca alcanaremos nosso ideal nesta vida, uma caracterstica distintiva que a Igreja defende, enquanto a maioria das outras
instituies humanas tenta negar. Com Chesterton, assumi meu lugar entre aqueles que reconhecem que ns somos a coisa errada no mundo. O que  o meu esnobismo em
relao  igreja da minha infncia, seno uma forma invertida do duro julgamento que ela fez de mim? Todas as vezes que usamos a f como um ttulo ou como um padro
de medida, estamos jogando as sortes com os fariseus, e a graa lentamente se esvai.
      No fim de tudo, voltei para casa como um humilhado prdigo, para a mesma instituio de onde fugira em meio  dor e  rebelio.
   O fim de toda a nossa explorao Ser chegar ao ponto de partida E conhec-lo pela vez primeira.
   - T. S. ELLIOT

      Acho que hoje poderamos usar outro Chesterton. Em um tempo em que a cultura e a f se afastaram ainda mais, poderamos usar seu brilho, seu estilo alegre
e, acima de tudo, seu esprito generoso. Quando a sociedade fica polarizada, como est a nossa,  como se os dois lados se colocassem a distncia e gritassem um
para o outro. Eventualmente, um profeta como Martin Luther King Jr. se levanta com poder e eloqncia suficientes para falar aos dois lados ao mesmo tempo. Chesterton
usava outra abordagem: ele se dirigia ao meio de uma ponte oscilante, desafiava qualquer um dos combatentes solitrios e ento fazia os dois lados rirem a valer.
      Por todas as suas idiossincrasias, ele conseguiu expor a f crist com tanta perspiccia, tanto bom humor e uma alegre fora intelectual quanto ningum o faz
nos dias atuais. Com o zelo de um cavaleiro defendendo seu ltimo reduto, ele lastimou, de maneira pessoal ou por intermdio de textos, todo aquele que ousava interpretar
o mundo  parte de Deus e da Encarnao.
      O prprio Chesterton disse que a era moderna  caracterizada por uma tristeza que apela para um novo tipo de profeta - no como os profetas do Antigo Testamento,
que lembravam as pessoas que elas iriam morrer, mas algum que lhes lembre que elas ainda esto vivas. O profeta de grande alegria e grande circunferncia encaixava-se
nesse papel de maneira esplndida. T. S. Elliot considerava que "ele fez mais, creio, do que qualquer outro homem de sua poca (...) para manter a existncia de
uma importante minoria no mundo moderno". Eu sei que ele fez isso por mim. Todas as vezes que sinto minha f secando outra vez, vou a uma prateleira e apanho um
livro de G. K. Chesterton. Toda a aventura comea outra vez.

G. K. CHESTERTON PARA INICIANTES
      Naturalmente, sugiro que voc comece com Ortodoxia. Se gostar deste livro, deve prosseguir e ler The Everlasting Man, que  o resumo que Chesterton fez da
vida de Jesus, e suas biografias So Francisco de Assis e So Toms de Aquino23: H vrias colees impressas de seus ensaios, e, para o leitor insacivel, a Ignatius
Press tem se engajado h algum tempo na enorme tarefa de publicar a obra Collected Works de Chesterton, em 45 volumes, a maioria dos quais j est disponvel. E,
certamente, os amantes da fico apreciaro seu O homem que foi quinta-feira e as histrias do Padre Brown. Existem vrias biografias de qualidade sobre a vida de
Chesterton, mas nenhuma  mais interessante (ou mais loucamente seletiva) que sua prpria Autobiography. Para obter uma variedade de ensaios e resenhas, tanto de
autoria de Chesterton quanto sobre ele, veja tambm o informativo trimestral The Chesterton Review, produzido pela Seton Hall University.

4 . Dr. Paul Brand
Desvios no caminho da felicidade
      Fui estudante universitrio durante os quatro ltimos anos da dcada de 1960. Tudo o que acontecia nos Estados Unidos parecia estar desmoronando: a guerra
do Vietn havia destrudo nossos ideais nacionais, revelaes de abuso contra o meio ambiente desafiavam a tica das indstrias que haviam construdo nosso pas
e a contracultura juvenil exps o vazio do materialismo e da mdia. Atualmente, essas questes tornaram-se familiares e at mesmo banais, mas para aqueles de ns
que estavam formando uma viso do mundo de ento, a dcada de 1960 deixou uma marca profunda e permanente. Lembro-me dos sentimentos que tive nos anos seguintes,
resumindo-os como sendo raiva, solido e desespero. Vi amigos brilhantes e talentosos abandonarem a sociedade e buscarem um novo caminho atravs do LSD e da mescalina.
Outros jamais voltaram das florestas do Vietn. Eu oscilava entre os ridos romances existencialistas e os relatos nada ficcionais do Holocausto e do Gulag sovitico.24
Olhando para a Igreja com olhos to pessimistas, eu via basicamente sua hipocrisia e sua irrelevncia para o mundo exterior. Apesar de pessoas como G. K. Chesterton
terem me levado de volta a Deus, eu ainda tinha dificuldades para separar Deus da Igreja e cultivar uma f pessoal estvel. As perguntas giravam como redemoinhos.
Mesmo sendo editor de uma revista crist, escrevi livros como Deus sabe que sofremos, Decepcionado com Deus e Unhappy Secrets of the Christian Life, projees exteriores
de minhas prprias lutas com a f.
      Hoje vejo que minha parceria na produo de livros com o Doutor Paul Brand ajudou-me a resistir naqueles perodos de volatilidade. Passei horas a fio interrogando-o
sobre questes globais, sobre a vida e sobre Deus. Pude fazer um registro de sua vida atravs de viagens  ndia e  Inglaterra, conversando com antigos pacientes
e colegas (descobri que as enfermeiras que faziam a limpeza das salas de operao eram as pessoas que tinham a viso mais perspicaz do carter de um cirurgio).
Orgulhoso possuidor de um dos primeiros computadores do tipo laptop, uma monstruosidade de mais de seis quilos, entrevistei o prprio Brand no meio de suas atividades,
mantendo meus dedos no teclado de modo que pudesse continuar digitando mesmo quando nosso Jeep sacolejava ao atravessar as esburacadas estradas da rea rural da
ndia, ou quando nos sentvamos e ramos gentilmente embalados pelo movimento de um trem do metr de Londres.
      Aprendi as primeiras coisas sobre Brand enquanto escrevia Deus sabe que sofremos. Enquanto eu hibernava em bibliotecas, lendo livros sobre o problema da dor,
minha esposa, ao organizar documentos num escritrio de uma empresa de produtos medicinais, viu um intrigante estudo que ele havia escrito, intitulado "O dom da
dor". A abordagem de Brand, conforme o prprio ttulo deixava implcito, era sobre a paradoxal qualidade que havia me atrado a Chesterton. Ele tinha uma concepo
de prazer e dor completamente diferente das outras que eu havia encontrado. Eu j entrevistara uma multido de pessoas que queriam desesperadamente se livrar da
dor; Brand, por sua vez, falava de gastar milhes de dlares para tentar criar um sistema de dor para seus pacientes.
       medida que caminhava e conversava com pessoas que conheciam Brand pessoalmente, ficava cada vez mais cativado. Em um repente, liguei para ele de Chicago,
pedindo uma entrevista. "Bem, as pessoas me mantm bastante ocupado por aqui", respondeu ele, um pouco embaraado, "mas tenho certeza de que podemos abrir um espao
entre as reunies e meu trabalho na clnica. Se voc topar, venha".
      Tivemos nosso primeiro encontro no nico leprosrio dos Estados Unidos. Depois de voar para Nova Orleans e alugar um carro, dirigi por duas horas pelas margens
do rio Mississippi, passando por velhas fazendas, lanchonetes especializadas em siri e reluzentes refinarias de petrleo. Meus olhos estavam ardendo por causa da
fumaa das fbricas poluidoras que encontrei no caminho, quando descobri a estrada que me levaria ao povoado de Carville e, ento, para uma pequena estrada que terminava
no Hospital e Centro Nacional de Pesquisa sobre Hansenase.
      As autoridades de Louisiana que fundaram o hospital colocaram-no bem longe dos centros populacionais. Devido a mitos sobre a hansenase, os sentimentos afloram
quando a construo de um leprosrio  proposta. Construda num estilo colonial amplo e cercada por um enorme bosque de carvalhos, Carville lembrava o cenrio de
algum filme sobre uma plantao nas Filipinas. Pude ver pacientes usando muletas ou andando em cadeiras de rodas, caminhando lentamente pelos corredores cheios de
arcos que interligavam os prdios mais importantes. Cercando o hospital em trs lados diferentes, havia um campo de golfe e campos de beisebol, uma horta e o prdio
dos escritrios. A oeste ficava o poderoso Mississippi, oculto  viso por uma barragem de seis metros. Abri o carro e caminhei por um nevoeiro tpico da umidade
do delta.
      Fiquei sabendo da respeitabilidade de Brand entre a comunidade mdica antes de minha visita: as ofertas que recebera para cuidar de centros mdicos importantes
na Inglaterra e nos Estados Unidos, as famosas prelees por todo o mundo, os procedimentos cirrgicos batizados com seu nome, o prestigioso prmio Albert Lasker,
sua nomeao como Comandante da Ordem do Imprio Britnico pela Rainha Elizabeth II, sua escolha como o nico ocidental a trabalhar para a Fundao Mahatma Gandhi.
Mas esperei por nossa entrevista num cubculo chamado "escritrio", que pouco tinha a ver com tal nome. Pilhas de jornais mdicos, slides e correspondncia que no
havia sido respondida cobriam cada centmetro de uma horrvel mesa de escritrio verde. Um velho aparelho de ar-condicionado de parede funcionava com o mesmo nvel
de rudo de uma motocicleta sem escapamento.Finalmente, um homem esguio, de estatura abaixo da mdia e postura firme, entrou na sala. Ele tinha cabelos grisalhos,
sobrancelhas grossas e um rosto que enrugava demais quando ele sorria. Com um sotaque britnico - um gritante contraste com a pronncia desleixada que se ouvia pelos
corredores do hospital -, aquele homem desculpou-se pelas manchas de sangue em seu avental, explicando que acabara de dissecar tatus, o nico espcime no humano
conhecido por abrigar o bacilo da hansenase.
      Aquela primeira visita durou uma semana. Acompanhei Brand pelas rondas hospitalares, espremendo-me nas paredes para dar lugar s cadeiras de roda eltricas
e bicicletas conjugadas com carrinhos. Sentei-me no ambulatrio enquanto ele examinava os ps e as mos inflamados e ulcerados de seus pacientes, os quais ele entrevistava
como um detetive, no esforo de determinar as causas dos ferimentos. Tivemos momentos de conversa breve em seu escritrio, s vezes interrompidos por chamadas internacionais:
um cirurgio da Venezuela, da ndia ou da Turquia gritando no meio do rudo da linha telefnica para pedir conselho sobre algum caso difcil.
       noite, em seus aposentos de madeira na propriedade do hospital, compartilhei uma refeio de arroz com curry com ele e Margaret, sua esposa, uma respeitada
oftalmologista. Ento, Brand esticava seus ps descalos (uma marca registrada dele), eu ligava o gravador e comevamos uma conversa que abordava desde teologia
e lepra at fome mundial e conservao do solo. Ele comentava cada tpico que eu levantava, ainda que em diferentes nveis de profundidade. Suas viagens lhe deram
uma perspectiva global: ele viveu um tero de sua vida na Inglaterra, outro tero na ndia e, agora, quase um tero nos Estados Unidos. Durante as pausas, ele me
ensinou coisas como o modo de escolher um figo maduro ("Veja aqueles sobre os quais as borboletas pousam com mais freqncia, provando o fruto"), como bater na pele
com uma escova de cabelos dura para estimular as clulas nervosas e aliviar a dor, como fazer um milkshake de manga.
      Eu e o Doutor Brand ramos uma dupla estranha. Eu era um jovem punk com pouco mais de 20 anos e cabelo cheio, parecido com o de Art Garfunkel. Brand era um
nobre cirurgio de cabelos grisalhos, caracterizado pelo tpico comportamento reservado dos britnicos. No meu papel de jornalista, precisava abordar diversos assuntos:
atores e msicos, polticos, executivos bem-sucedidos, atletas olmpicos e profissionais, ganhadores dos prmios Nobel e Pulitzer. Alguma coisa me atraa mais em
Brand do que os outros assuntos que eu j havia trabalhado. Talvez pela primeira vez eu tenha encontrado verdadeira humildade.
      Brand ainda estava se ajustando  vida nos Estados Unidos. Ele estava preocupado com o impacto da televiso e da cultura da msica popular sobre seus filhos.
Os luxos do dia-a-dia o deixavam nervoso, e ele preferia a vida simples e ligada  terra que tinha na ndia. Quando fomos a um restaurante  noite, ele quase no
conseguia se conter ao ver o desperdcio de comida tirada dos pratos dos clientes, sem ter sido sequer tocada. Ele conhecia presidentes, reis e pessoas famosas,
mas raramente os citava, preferindo falar sobre seus pacientes. Falou abertamente de seus defeitos, e sempre procurava atribuir seu sucesso a seus parceiros. Ele
se levantava cedo todos os dias para estudar a Bblia e para orar. Humildade e gratido fluam naturalmente dele, e, durante o tempo que passamos juntos, senti uma
enorme falta dessas caractersticas em mim mesmo.
      A maioria dos oradores e escritores que conhecia estava no circuito, apresentando as mesmas idias em livros diferentes e pronunciando os mesmos discursos
para distintas platias. Enquanto isso, Paul Brand, que tinha maior profundidade espiritual e intelectual que qualquer pessoa que eu j tivesse visto na terra, fazia
muitos de seus discursos para um punhado de pacientes leprosos na capela protestante do hospital. Cedendo  insistncia de Brand, compareci ao culto de quarta-feira
 noite na semana em que estive em Carville. Se bem me lembro, havia cinco pessoas no coro e oito no auditrio. Margaret Brand implorou para que eu me sentasse no
coro: "Faz muito tempo que no temos uma voz masculina conosco. Paul vai pregar e, por isso, ele no poder cantar.  s sentar e cantar conosco". Agindo assim,
ela pulverizou meus mnimos protestos. "No seja tolo", disse ela. "Metade das pessoas que freqentam o culto so surdas por causa da reao de uma droga que usamos
contra a hansenase. Mas um corista convidado  algo inusitado para eles. Vo ficar felizes s em v-lo sentado ali!"
      Brand prosseguiu, entregando quele grupo to heterogneo uma mensagem digna da Abadia de Westminster. Estava claro que ele havia passado horas meditando e
orando por aquele nico sermo.No importava se ramos um pequeno grupo de annimos quase surdos numa aconchegante mas sonolenta capela do interior. Ele falou como
um ato de adorao, como algo de algum que realmente acredita em Deus e mostra quando dois ou trs esto reunidos em nome do Senhor.
      Mais adiante, naquela mesma semana, Brand admitiu, um pouco timidamente, que j havia tentado escrever um livro. Alguns anos antes, quando ele proferiu uma
srie de palestras numa escola mdica em Vellore, ndia, outros membros do corpo docente o incentivaram a transcrev-las para que fossem publicadas. Ele fez um esforo
extra, mas o material ocupou apenas 90 pginas, o que no era suficiente para um livro. Vinte anos se passaram, e ele no havia tocado nos manuscritos desde aquela
poca. Eu o persuadi a procurar nos armrios e nas gavetas at que encontrasse os j borrados originais daquelas palestras da capela.
      Naquela noite, fiquei at tarde lendo seus notveis comentrios sobre o corpo humano. Eu estava acomodado na sala de hspedes do hospital, e o ventilador de
teto de vez em quando espalhava aquelas folhas finas por todo o recinto. Fiquei recolhendo as folhas e classificando-as o tempo todo, pois sabia que havia encontrado
ouro. No dia seguinte, perguntei a Brand se poderamos trabalhar em conjunto e, no fim, aquelas pginas se transformaram em dois livros completos.
      Algum tempo depois, trabalhamos num terceiro volume, The Gift of Pain (A ddiva da dor). Segui o caminho do Doutor Brand por anos.  comum sentir-me como James
Boswell, que seguiu os passos do grande Samuel Johnson25 e fielmente registrou cada bocado de sabedoria que saa de seus lbios. Pauline, a filha de Brand, certa
vez me agradeceu por trazer alguma ordem " feliz confuso que eram a vida e os pensamentos de meu pai". Mal sabia ela do grande papel desempenhado por seu pai ao
trazer alguma ordem  infeliz baguna que era a minha prpria vida. Os bons amigos sabem apreciar o valor que, com o tempo, um exerce sobre a vida do outro. Quando
comparo a pessoa que eu era em 1975, em nossa primeira reunio, e a pessoa que sou hoje, percebo as mudanas ssmicas que ocorreram dentro de mim, sendo que Brand
 o responsvel por muitos desses tremores.
      Paul Brand  um homem tanto bom quanto grandioso, e serei eternamente grato pelo tempo que passamos juntos. Num estgio em que eu no tinha a menor confiana
em escrever sobre minha f to incipiente, tive absoluta certeza de escrever sobre sua f. Minha f cresceu enquanto observava, com o olho crtico de um jornalista,
uma pessoa que se aperfeioava, em todos os aspectos, em funo de seu relacionamento com Deus. Vim a conhec-lo como um verdadeiro modelo vivo que eu podia ver
em ao: em Carville, com seus pacientes; nos vilarejos da ndia, como marido e pai; como orador tanto em conferncias mdicas quanto bblicas.
      Depois de se aposentar da Medicina, o Doutor Brand mudou-se para uma pequena casa de campo de frente para Puget Sound, em Seattle, a nica casa que ele realmente
possuiu. Ocupou algumas vezes o cargo de presidente da Sociedade Crist Internacional de Medicina e Odontologia, prestou consultoria  Organizao Mundial de Sade
e, mesmo na casa dos 80 anos, continuou a apresentar palestras por todo o mundo. Com o passar dos anos, foi inevitvel que nossos papis se invertessem. Ele comeou
a me pedir conselhos em assuntos como qual o melhor processador de textos a usar, como organizar suas notas e como lidar com as editoras. Sofreu um derrame numa
viagem  Turquia e um ataque cardaco leve em Londres (uma reao solidria a um ataque mais srio, sofrido por sua esposa). Durante um tempo, seus discursos eram
notadamente confusos, e sua habilidade de lembrar nomes e fatos havia diminudo. Nossas conversas mudaram para questes como envelhecimento e mortalidade.
      Conforme prossegui nos vrios estgios da vida, agora me aproximando da idade que Brand tinha quando nos encontramos pela primeira vez, tenho diante de mim
sua figura frgil, mas ao mesmo tempo forte, mostrando-me o caminho a seguir. Privado de meu prprio pai na infncia, recebi de Brand, quando adulto, muito mais
do que eu havia perdido. Como ningum mais, ele contribuiu para que eu me colocasse no rumo certo em questo de perspectiva, esprito e ideais. Olho para o mundo
natural e para as questes ambientais especialmente atravs de seus olhos. Dele tambm obtive a certeza de que a vida crist sobre a qual ouvira em teoria pode verdadeiramente
revelar-se na prtica.  realmente possvel viver na sociedade moderna e alcanar sucesso sem penalizar a humildade, servir aos outros de maneira sacrificial e,
ainda assim, emergir com alegria e contentamento. Nos dias atuais, quando bate a dvida, olho para trs, para o tempo que passei com Paul Brand."O universo  um
lugar amistoso?", perguntou Einstein. Como cientista, ele procurou uma resposta na vastido do cosmo. Todo aquele que tenha sobrevivido s feridas causadas por uma
famlia ou por uma igreja desestruturada conhece o lado mais pessoal desta questo. Um tio ou um sacerdote abusa sexualmente de uma criana pequena; uma me que
se refugia no alcoolismo; um irmo de seis anos de idade que contrai leucemia. Para algum que cresce em tal ambiente, as perguntas nunca desaparecem. O mundo 
um lugar amigvel? Pode-se confiar nas pessoas? E em Deus?
      No preciso meditar muito sobre minha infncia para reconhecer que estas perguntas fundamentais consomem minha alma. Na adolescncia, quando lia livros como
A nusea,26 de Jean-Paul Sartre, A peste,27 de Albert Camus, e A noite,28 de Elie Wiesel, poucas eram minhas razes para ter otimismo. Ento, vi-me ajudando um homem
que passara a maior parte de sua vida entre os mais rejeitados seres humanos do planeta. Inesperadamente, em vez de intensificar meus questionamentos, o Doutor Brand
apontou para algo que parecia uma resposta.
      Brand alcanou fama no mundo mdico principalmente por intermdio de suas pesquisas pioneiras sobre a mais antiga e temida doena do mundo. Antes de ir para
o hospital de Carville, ele dirigiu uma escola mdica e um hospital em Vellore, ndia, e fundou um leprosrio conhecido como Karigiri. A incidncia de lepra  desproporcionalmente
favorvel aos pobres. Deixadas sem tratamento, suas vtimas podem desenvolver desfigurao facial, cegueira e a perda dos membros, que tanto assusta as pessoas que,
em troca, respondem com abuso e maus-tratos. Num lugar como a ndia, as pessoas com lepra so duplamente expulsas da sociedade, pois so consideradas membros da
casta dos intocveis.
      Nos tempos bblicos, as pessoas mantinham uma distncia segura e gritavam "impuro!" a qualquer um que se aproximasse. Nos tempos medievais, elas viviam fora
dos muros das cidades e usavam sinos de advertncia. At mesmo nos dias atuais, na ndia moderna, lar de quatro milhes de leprosos, uma pessoa que mostra sinais
da doena pode ser chutada- literalmente - para fora de sua famlia e sua vila para levar uma vida de pedinte. Quando entrevistei antigos pacientes de Brand, ouvi
histrias de crueldade humana que beiravam o inacreditvel. Se algum devesse ter direito  amargura ou ao desespero, essa pessoa deveria trabalhar com esses desafortunados.
Ao contrrio disso, o que mais me impressionou em Paul Brand foi seu firme senso de gratido. Para ele, o universo , seguramente, um lugar amistoso.
      Lembro-me de nossa primeira conversa, na qual, por alguma razo, negligenciei a necessidade de apertar o boto vermelho de "gravar" do equipamento que eu estava
usando. Naquela noite, depois de descobrir o erro que cometera, tomei uma balsa que cruzava o Mississippi, sentei-me num caf e freneticamente tentei me lembrar
de tudo o que havamos conversado. Eu tinha uma lista de todas as perguntas que fizera, e suas respostas haviam me impressionado tanto que eu achava que seria capaz
de reconstru-las quase que textualmente. Enquanto colocava uma das mos na vasilha cheia de siris vermelhos, escrevia com a outra, como um louco, registrando tudo
o que me vinha  lembrana, eventualmente derrubando azeite nas pginas do meu bloco de anotaes.
      Como um Deus to bom poderia permitir a existncia de um mundo to maculado? Brand havia respondido a todas as minhas reclamaes. Doenas? Porventura sabia
eu que, das 24 mil espcies de bactrias, apenas poucas centenas so nocivas? As plantas no poderiam produzir oxignio nem os animais seriam capazes de digerir
os alimentos sem a ajuda de uma bactria. O fato  que as bactrias constituem metade de toda a matria viva. A maioria dos transmissores de doenas tem pouqussimas
diferenas - chamadas mutaes - desses organismos to necessrios, conforme explicou o Dr. Brand.
      E quanto aos bebs defeituosos? Brand se lanou na descrio da complexa bioqumica envolvida na produo de uma criana saudvel. A grande maravilha no 
um beb nascer defeituoso, mas sim o nascimento de milhes deles saudveis. Seria possvel criar um mundo  prova de erros em que o genoma humano, com seus bilhes
de variveis, nunca cometesse um erro no momento de sua transmisso? Nenhum cientista  capaz sequer de imaginar tal sistema infalvel em nosso mundo de rgidas
leis fsicas.
      "Achei muito til pensar como o Criador", disse-me Brand. "Minha equipe de Engenharia em Carville tem feito exatamente isto. Por vrios anos, trabalha com
a mo humana. Que perfeio de engenharia encontramos ali! Tenho uma estante cheia de livros sobre cirurgia que descrevem operaes que as pessoas imaginam para
mos feridas:formas diferentes de arranjar os tendes, msculos e juntas, maneiras de substituir partes de ossos por junes mecnicas, milhares de procedimentos.
Mas no conheo nenhum procedimento que tenha sido bem-sucedido em melhorar um membro sadio. Os melhores materiais que usamos, por exemplo, em juntas artificiais,
tm um coeficiente de atrito 80% menor que o das articulaes do corpo, mas duram apenas alguns anos. Todas as tcnicas corrigem os desvios, aquela mo em cem que
no funciona como Deus planejou. Depois de operar milhares de mos, devo concordar com Isaac Newton: 'Na falta de qualquer outra prova, s o polegar j me convenceria
da existncia de Deus'."
      Eu ficava propondo excees, e Brand lidava com cada uma delas. Mesmo nos piores casos, dizia ele, nosso mundo natural mostra evidncias de um projeto cuidadoso.
Como um guia num museu de arte, ele descrevia com entusiasmo a belssima maneira pela qual as fibras musculares rompidas se reconstituam depois de um ferimento.
"E voc conhece o ductus arteriosus? Sendo um vaso de desvio, ele leva sangue diretamente s extremidades em desenvolvimento de um feto, em vez de lev-lo aos pulmes.
No momento do nascimento, repentinamente o sangue precisa comear a passar pelo pulmo para receber oxignio, pois o novo beb est respirando ar. Num relance, uma
aba desce como uma cortina, desviando o fluxo sangneo, e um msculo contrai o ductus arteriosus. Depois de executar esta funo, esse msculo gradualmente se dissolve
e  absorvido pelo restante do corpo. Sem este ajuste instantneo, o beb jamais poderia sobreviver fora do tero."
      Nossa conversa foi a primeira de muitas lies de anatomia que eu teria com o Doutor Brand. Sua capacidade de relembrar o que havia estudado na faculdade de
Medicina 30 anos antes certamente me impressionava, mas uma coisa a mais se destacava: um entusiasmo de criana, um efervescente senso de maravilha diante da criao
de Deus. Ao ouvi-lo, meu prprio senso de maravilha chestertoniano se reavivou. Eu estava me concentrando nas aparentes falhas da Criao; apesar de ter passado
a maior parte da vida lidando com aqueles problemas, aquele mdico, ao contrrio, tinha uma atitude de apreciao, at mesmo de reverncia. Tal atitude, conforme
viria a descobrir, levava de volta a uma infncia vivida prximo  natureza.
      Filho de pai missionrio na distante e montanhosa ndia, Brand cresceu num mundo de rvores com frutas tropicais e borboletas, pssaros e outros animais. Sua
me, artista, tentava captar tal beleza nos quadros que pintava. Seu pai, Jesse, um naturalista autodidata, via em qualquer canto da natureza a impresso digital
do Criador. Ele era capaz de levar seu filho ao alto de um cupinzeiro e explicar as maravilhas da cooperao na organizao social daqueles insetos. "Dez mil pernas
trabalhando juntas, como se fossem comandadas por um nico crebro, todas em frentico movimento,  exceo da rainha, grande e redonda como uma salsicha, que fica
deitada inerte, pondo seus ovos."
      Ele lhe mostrava o funil arenoso de um formigueiro, ou o ninho de um joo-de-barro, ou um enxame de abelhas em volta de um galho de rvore. Paul fazia seus
trabalhos escolares numa casa de madeira montada no alto de uma enorme rvore frutfera, e, s vezes, estudava  noite sob a pulsante luz de um pote cheio de vaga-lumes.
      Os estudos trouxeram um fim ao paraso de Paul Brand, quando ele foi enviado  Inglaterra com a idade de nove anos. Cinco anos depois, na condio de adolescente
longe da famlia e do lar, recebeu um telegrama anunciando que seu pai havia morrido de malria. Logo chegou uma carta, enviada de navio algumas semanas antes da
morte de seu pai, a qual se tornou para ele um tipo de legado final. Jesse Brand descrevia as colinas ao redor de sua casa e conclua: "Deus deseja que nos deliciemos
com este mundo. Isto no quer necessariamente dizer que precisamos conhecer biologia, botnica ou zoologia para apreciarmos a diversidade de vida da natureza. Apenas
observe. Lembre-se. Compare. E sempre olhe para Deus com gratido e adorao por ter colocado voc em um lugar to agradvel do universo quanto o planeta Terra."
      O filho de Jesse Brand seguiu seu conselho e o manteve, seja fazendo caminhadas  beira-mar, observando pssaros nos pntanos da Louisiana ou lecionando para
estudantes de Medicina, contando-lhes as maravilhas dos corpos dos quais estaro cuidando. Primeiramente nas colinas da ndia, depois por intermdio de seu estudo
sobre o corpo humano, ele veio a perceber que o mundo natural esconde traos de Deus, e que o Deus que ele encontrou ali era bom. Era uma mensagem que eu precisava
ouvir, vinda de um mensageiro em quem eu aprendera a confiar.A carreira de Brand se concentrava no talvez mais problemtico aspecto da Criao, a existncia da dor.
Eu estava escrevendo o livro Deus sabe que sofremos. Ele me convidou a considerar um mundo alternativo, sem dor. Brand insistia na grande importncia da dor, baseando
seu argumento nos terrveis resultados da hansenase - rostos desfigurados, cegueira e perda de dedos e membros -, tudo em decorrncia da ausncia de dor. Ainda
como um jovem mdico, Brand anunciou a importante descoberta mdica que constatou que a hansenase fazia isso simplesmente destruindo as terminaes nervosas. As
pessoas que haviam perdido a sensao de dor feriam-se simplesmente por executar aes como pegar um cabo de vassoura lascado ou usar um sapato muito apertado. Hematomas
se formam, a infeco tem incio e nenhuma dor os alerta para que tratem da rea afetada. Vi esses danos pela primeira vez em minha vida no consultrio de Brand.
      "Agradeo a Deus pela dor", declarou Brand, com a mais pura sinceridade. "No posso pensar num presente maior a dar para meus pacientes de hansenase." Ele
prosseguiu, descrevendo a complexidade do sistema de dor que protege o corpo humano. Voc precisa apertar uma agulha contra a planta do p com uma fora razovel
para sentir dor, ao passo que a crnea  capaz de perceber uma presso equivalente a um milsimo daquela usada no p, dando incio ao reflexo que faz com que o olho
pisque, fazendo com que os clios trabalhem como uma espcie de vassoura, limpando a superfcie. Os intestinos no sentem dor por serem cortados ou queimados - perigos
aos quais os rgos internos normalmente no esto expostos -, mas enviam o importante sinal da clica quando so distendidos.
      "Ns, mdicos, enfrentamos um brutal despertamento quando samos da faculdade", continuou Brand. "Depois de estudar as maravilhas do corpo humano, fui colocado
numa posio muito parecida com a do atendente do balco de reclamaes de uma loja de departamentos. Nenhum paciente vem ao meu consultrio para expressar sua admirao
por ver um rim ou um pulmo funcionando adequadamente. Eles vm para reclamar de algo que no est trabalhando direito. Somente muito tempo depois, pude perceber
que aquelas coisas das quais eles reclamavam eram seus grandes aliados. A maioria das pessoas v a dor como uma inimiga. Porm, como meus pacientes no leprosrio
comprovam, ela nos fora a dar ateno a ameaas a que nossos corpos esto submetidos. Sem ela, um ataque cardaco, um derrame, um apndice rompido ou lceras estomacais
aconteceriam sem aviso. Quem iria visitar um mdico se no estivesse sentindo dor?
      Notei que os sintomas dos quais reclamavam meus doentes eram, na verdade, uma prova da cura que o prprio corpo estava promovendo. De modo geral, todas as
reaes de nossos corpos que vemos com irritao ou nojo - bolhas, calos, inchaos, febre, espirro, tosse, vmito e, especialmente, a dor - demonstram um reflexo
em direo  cura. Em todas essas coisas, normalmente consideradas nossas inimigas, podemos encontrar uma razo para sermos agradecidos."
      Eu ficava muito perturbado ao ler a cena dramtica em que J, o prottipo do sofredor inocente, confronta Deus com suas reclamaes sobre o sofrimento. O discurso
que Deus fez em resposta tem permanecido como uma das grandes passagens sobre a natureza encontradas na literatura, uma soberba celebrao  Criao. Porm, Deus
no d resposta direta alguma ao problema da dor, apresentando apenas um desafio a J: "Se eu, como Criador, produzi um mundo to maravilhoso como este, o qual voc
pode observar claramente, como  que voc no pode confiar em mim naquelas reas que no consegue compreender?"
      Enquanto ouvia Brand, pude perceber que eu estava me aproximando de Deus como um paciente doente - como se o Criador estivesse atrs do balco de reclamaes.
Ficava angustiado com as tragdias, doenas e injustias, e enquanto estava assim, ignorava todas as coisas boas que me cercavam neste mundo. Seria possvel, pensava
eu, manter um entusiasmo chestertoniano pelas maravilhas do mundo natural, a despeito de suas aparentes falhas? Tal como o salmista, poderia eu aprender a louvar
e lamentar ao mesmo tempo, sem que nenhuma das duas entoaes influenciasse a outra?
      Brand reagiu a esse mesmo dilema com um esprito de gratido e de confiana - gratido por coisas que ele podia ver e apreciar e confiana diante daquelas
que ele no podia. Lembrei-me da descrio de Chesterton de uma pessoa "comum", que aceita o mundo como um dom, cuja resposta adequada a ele  a gratido. Para surpresa
de Brand, a f na integridade de Deus aprofundou-se at mesmo enquanto ele trabalhava com as pessoas com menores probabilidades de sentir gratido, como vtimas
de hansenase na ndia, pois ele vira transformaes no mais vil dos mais vis, resultantes de simples atos de compaixo e de toque curador.
      Desde que comecei a trabalhar com Brand e a segui-lo pelo mundo afora, encontrei outros cristos dedicados que devotaram suas vidas para curar as feridas da
humanidade. Na ndia, por exemplo, onde menos de 3% da populao professa a f crist, quase 20% de todo o servio de sade  executado por mdicos e enfermeiros
cristos, muitos dos quais treinados no velho hospital de Brand, em Vellore. Acompanhei-os em visitas a vilas, onde cuidavam de doenas tropicais, fixavam e engessavam
ossos e faziam pequenas cirurgias, normalmente ao ar livre, embaixo de um p de tamarindo. Cuidavam de hindus, muulmanos, sikhs, jainas, parses e comunistas. Se
voc disser a palavra "cristo" a um campons indiano - mesmo que ele nunca tenha ouvido falar de Cristo -, a primeira imagem que vir  sua cabea ser, muito provavelmente,
a de um hospital ou de um ambulatrio volante que pra em seu vilarejo uma vez por ms para prestar assistncia pessoal gratuita.
      Assistindo a essas pessoas servindo em meio a dificuldades extremas, com baixos salrios e quase nenhum benefcio, pude ver um enorme contraste entre sua viso
e a minha. Sentei-me em minha casa em Chicago e escrevi livros exigindo respostas de Deus sobre os problemas do mundo. Aqueles homens e mulheres foram voluntariamente
para a linha de frente da batalha, numa atitude tpica de quem encarna o evangelho. Tal como a famlia Brand, eles mostravam um nvel de satisfao pessoal e at
mesmo de felicidade que eu no havia encontrado entre as muitas pessoas famosas que j entrevistara.
      Aprendi que parte da resposta  minha pergunta - "Onde est Deus quando sofremos?" - tem relao com outro questionamento: "Onde est a Igreja quando sofremos?"
Conforme escreveu o telogo judeu Abraham Heschel: "a questo primordial - por que o Deus da justia e da compaixo permite que o mal exista? - est atrelada ao
problema de como o homem deveria ajudar Deus de modo que a justia e a compaixo prevalecessem". A partir do toque curador de profissionais da sade como Paul e
Margaret Brand, os pacientes de hansenase da ndia tm aprendido que as castas no so uma sina, e que doenas no so o seu destino. Nesse mesmo toque, muitos
sentem pela primeira vez a realidade palpvel do amor de Deus.

      Apesar de ter um grande respeito pelo Doutor Brand e pelo servio que ele presta a Deus, tambm confesso que me sinto aliviado pelo fato de ele no ser um
"santo" tirado do molde de um Francisco de Assis ou de uma Madre Teresa. Eu precisava de um modelo para o qual pudesse olhar e me relacionar mais naturalmente.
      Paul Brand conversou com Madre Teresa, serviu em comits com discpulos de Gandhi e conheceu alguns dos mais tradicionais "santos" da ndia. Em sua prpria
vida, porm, ele preferiu equilibrar o material e o mstico, o proftico e o pragmtico. Alguns amigos mais velhos do hospital em Vellore lembram-se dele no apenas
por sua profundidade espiritual e servio sacrifical, mas tambm por suas piadas, pelo amor a marmelada e manga e por dirigir muito rpido. Depois de emergir da
dcada de 1960, uma dcada que jamais foi acusada de possuir senso de equilbrio, eu precisava do exemplo de algum que vivesse uma vida abrangente no meio da sociedade
moderna, no num mosteiro ou numa ermida.
      Brand lutara com as tenses que as civilizaes modernas enfrentavam, e ainda assim no cedeu a nenhum dos dois lados. De um lado, viveu um estilo de vida
semelhante ao da contracultura, muito antes de esta expresso pertencer ao vocabulrio comum. Na ndia, ele insistia em receber o salrio indiano, no os salrios
muito maiores, normalmente pagos aos mdicos estrangeiros. Os Brand sempre tiveram hbitos alimentares simples, comendo normalmente pes feitos em casa e vegetais
cultivados em sua horta. O Doutor Brand admite algumas razes para se desfazer de uma roupa - peas que no podem mais ser remendadas, por exemplo -, mas estar fora
de moda certamente no faz parte de sua lista de razes. A moblia em sua casa e em seu consultrio , por assim dizer, despretensiosa. Ele se ope ao desperdcio
de qualquer espcie. Brand admite abertamente que no derramaria lgrima alguma se todos os avanos da revoluo industrial repentinamente desaparecessem. Ele prefere
a vida rural da ndia, fechada ao resto do mundo.
      De outro lado, aprendeu a usar as ferramentas disponibilizadas pela moderna tecnologia. Sob sua liderana, um hospital na poeirenta cidade de Vellore cresceu
e se transformou na mais moderna e sofisticada instalao hospitalar do sudoeste da sia. Mais tarde, Brand chegou a Carville, nos Estados Unidos, porque aquele
centro de pesquisa oferecia o suporte tecnolgico necessrio para beneficiar milhes de pacientes com hansenase em todo o mundo. Quando os computadores pessoais
surgiram, em 1980, ele colocou seu nome numa lista de interessados na compra do primeiro PC da IBM com a alegria de um garoto. Ele agradecidamente usava microscpios
eletrnicos, termgrafos e avies a jato, crendo que a tecnologia usada com sabedoria, e no de maneira destrutiva, podia servir aos mais altos ideais da compaixo
humana.
      Minhas conversas com Brand com freqncia se desviavam para a questo do estilo de vida, pois suas experincias na ndia, na Inglaterra e nos Estados Unidos
haviam lhe fornecido uma perspectiva nica. Ele vivera num dos pases mais pobres do mundo e em dois dos mais ricos. A influncia ocidental, dizia ele, sempre nos
oferece uma tentao mortal. A enorme diferena de poder aquisitivo pode ampliar o fosso que separa o Ocidente do resto do mundo, tornando-nos insensveis aos clamores
de necessidade e justia.
      A eterna tenso sobre o estilo de vida remonta  infncia de Brand na ndia. Depois de seu pai ter morrido de malria, a me de Paul assumiu o estilo de santa
no sentido tradicional. Ela passou a viver de ofertas, devotando sua vida a levar cura fsica e espiritual aos habitantes das vilas que se espalhavam por cinco montanhas
prximas. No se importava com sua aparncia pessoal, a ponto de se livrar de todos os espelhos de sua casa. Continuou empreendendo perigosas jornadas montada em
seu pnei, mesmo depois de sofrer fraturas e concusses provocadas pelas quedas. Apesar de doenas tropicais terem afligido seu prprio corpo, ela dedicou todas
as suas energias ao tratamento de doenas e feridas das pessoas ao seu redor.
      s vezes, vov Brand deixava Paul embaraado com exploses emocionais. Durante um jantar oficial em Vellore, por exemplo, ela foi capaz de perguntar, horrorizada:
"Como  que vocs podem comer alimentos to requintados aqui, enquanto h pessoas nas montanhas que esto morrendo de fome exatamente nesta noite?" Ela morreu aos
95 anos, e em seu enterro, milhares de aldees caminharam vrios quilmetros para honr-la na capela que seu marido havia construdo com suas prprias mos.
      De seus pais, Paul aprendeu a duradoura lio de que o amor s pode ser exercido de uma pessoa para outra. Eles deixaram atrs de si algumas instituies e
as impresses permanentes em milhares de vidas a quem ensinaram cuidados de sade, saneamento, agricultura e o evangelho de Cristo. Sozinha, vov Brand livrou extensas
reas de uma infeco que resistia por vrios sculos, provocada por um verme. Ela despertou tamanha confiana que os aldees seguiram suas instrues e construram
paredes de pedra ao redor de poos abertos, onde a larva se desenvolvia. Nenhum programa governamental foi to bem-sucedido.
      Seu filho Paul, porm, causou seu mais duradouro impacto atravs de rgidas disciplinas cientficas. Em Vellore, ele disputava com Margaret, sua esposa, um
espao no refrigerador para preservar mos humanas nas quais podia praticar tcnicas cirrgicas  luz de um lampio. Por vrios anos, ele se perturbou com a fisiologia
dos sintomas da hansenase: quais clulas a doena ataca, e por qu? A resposta - sua mais importante descoberta mdica - veio durante uma autpsia, quando descobriu
que o bacilo da hansenase atacava somente tecidos nervosos. Provar aquela teoria exigiria muitos anos de pesquisa, nos quais ele tinha de identificar a causa precisa
de todos os ferimentos de seus pacientes. Os resultados de tais estudos tiveram um efeito significativo no tratamento da hansenase e de outras doenas em todo o
mundo. Quinze milhes de vtimas de hansenase passaram a ter esperana de que, com tratamento adequado, poderiam preservar seus dedos e sua viso. Mais tarde, ele
aplicou os mesmos princpios nos pacientes diabticos que sofriam de falta de sensibilidade nos ps, ajudando a impedir uma estimativa de cerca de 70 mil amputaes
apenas nos Estados Unidos.
      Brand falou-me sobre um comentrio feito por Madre Teresa quando ela o consultou sobre uma clnica para doentes de hansenase que estava abrindo em Calcut:
"Temos drogas para as pessoas que sofrem de doenas como a lepra", disse ela, "mas elas no tratam do problema principal: a doena de se tornar indesejadas.  isto
o que eu e minhas irms esperamos oferecer".
      Em uma de nossas conversas, Brand refletiu sobre a existncia de misses crists que se dedicam exclusivamente aos leprosos. Muito de seu trabalho na ndia
era patrocinado pela Misso aos Leprosos da Inglaterra, uma organizao co-irm da Misso aos Leprosos da Amrica. "No conheo Misso alguma aos Pacientes de Artrite
ou Misso aos Diabticos", disse ele. "Creio que a resposta se relaciona ao terrvel estigma que tem cercado a lepra por tantos sculos. Trabalhar com os leprosos
exigia muito mais do que um instinto natural de compaixo: requeria um tipo de chamado sobrenatural. Pessoas como o padre Damien, que ministrava aos portadores de
hansenase no Hava e terminou ele mesmo contraindo a doena. Ele acreditava que os seres humanos, independentemente de sua aflio, jamais deveriam ser afastados
da sociedade. Era tarefa da Igreja cuidar dos doentes, dos excludos e dos indesejados."
      Conforme estudei a histria da lepra enquanto escrevia com Brand, fiquei familiarizado com aqueles poucos santos que, desafiando o estigma da sociedade, ignoravam
os sintomas invisveis e ministravam s vtimas da doena. Quando a doena se alastrou pela Europa, durante a Idade Mdia, ordens de freiras dedicadas a Lzaro,
o padroeiro dos leprosos, criaram lares para os doentes. Aquelas mulheres corajosas no podiam fazer nada alm de enfaixar as feridas e mudar as roupas, mas os lares
em si, chamados lazarettos, podem ter ajudado a interromper o ciclo de disseminao da doena na Europa, isolando os doentes e melhorando suas condies de vida.
Nos sculos XIX e XX, missionrios cristos se espalharam pelo globo, estabelecendo colnias para portadores de hansenase, e o resultado foi que os maiores avanos
cientficos no tratamento dessa doena vieram de missionrios.
      O prprio hospital de Carville (recentemente fechado por uma medida de conteno de despesas do governo) tem sua histria de leprosrio com atuao mundial.
Os sete primeiros pacientes, expulsos de Nova Orleans, foram trazidos ao Mississippi s escondidas por autoridades num navio de transporte de carvo, uma vez que
as leis do sculo XIX proibiam as pessoas com lepra de viajar em qualquer forma de transporte pblico. Eles desembarcaram numa plantao abandonada e destruda,
escolhida com cuidado pelas autoridades do Estado da Louisiana. Algumas poucas cabanas de escravos ainda estavam em p, habitadas principalmente por ratos, morcegos
e cobras. Os sete pacientes mudaram-se para a Casa da Lepra de Louisiana, mas o Estado tinha dificuldades em recrutar trabalhadores para o leprosrio at que, finalmente,
as Filhas da Caridade, uma ordem de freiras catlicas, se voluntariou. Aquelas mulheres, apelidadas "chapus brancos", fizeram muito do trabalho inicial. Levantando-se
duas horas antes do nascer do Sol para orar, usando engomados uniformes brancos em meio ao calor do interior, as freiras drenaram pntanos, nivelaram estradas e
reformaram prdios para o novo leprosrio. Suas sucessoras ainda serviam em Carville quando visitei Brand naquele local.
      Na ndia, um enorme caldeiro religioso, Brand observou como as outras religies reagiam ao problema da dor. Os budistas ensinavam uma serena aceitao do
sofrimento, uma atitude que ns, moradores do ocidente hipocondraco, certamente poderamos aprender. Os hindus e os muulmanos com freqncia encaram o sofrimento
com um esprito fatalista: para o hindu, ele resulta dos pecados de uma vida anterior; para os muulmanos,  a vontade de Al. Em contraste, o cristianismo tem tradicionalmente
respondido com o paradoxo apresentado por Jesus: devemos confiar na bondade de Deus, a despeito do sofrimento c da injustia que vemos ao nosso redor, e, ainda assim,
fazer tudo que estiver ao nosso alcance para aliviar esse sofrimento enquanto vivemos nesta terra. Paul Brand deu-me um exemplo vivo dessa atitude.

      J no ocaso de sua vida, o Dr. Brand aceitou muitos convites de escolas mdicas que queriam ouvi-lo falar sobre a desumanizao da Medicina. Nos dias atuais,
a Medicina de alta tecnologia, as polticas de planos e seguros de sade e a crescente especializao conspiram para esmagar os prprios instintos que atraram muitos
dos melhores alunos a esse campo. Brand expressou o princpio orientador de sua carreira mdica da seguinte maneira: "O bem mais precioso do ser humano  o seu esprito,
seu desejo de viver, seu senso de dignidade, sua personalidade. Embora possamos ser descritos em termos de tendes, ossos e terminaes nervosas, jamais devemos
perder de vista a pessoa que estamos tratando".
      Apesar de nossas conversas cobrirem uma ampla gama de assuntos, inevitavelmente elas se direcionavam para histrias de pessoas, normalmente antigos pacientes
de Brand. Com muita freqncia, esses pacientes eram pessoas esquecidas, abandonadas por suas famlias e expulsas de suas vilas por causa da doena que tinham. Uma
junta mdica pode reparar boa parte do dano fsico. Tambm pode prover uma das mais bsicas necessidades humanas, o toque fsico. Mas o que eles podem fazer pelo
esprito do paciente, pela auto-imagem que foi corroda? Durante vrias horas, a cada encontro, eu me sentava e ouvia Brand contar histrias desses pacientes e de
suas famlias o excelente tratamento que recebiam no leprosrio de Karigiri. Fico espantado em saber que um cirurgio ortopedista se lembra de tantas coisas sobre
pacientes dos quais cuidou trs dcadas antes, e ainda mais surpreso com as lgrimas que correm livremente enquanto ele conta suas histrias. Fica claro que elas
causaram um grande impacto, tanto nele quanto nas pessoas que tratou.
      Deter o progresso da hansenase exige apenas alguns centavos, usando-se as drogas sulfonadas. So necessrios milhares de dlares e cuidado esmerado de profissionais
capacitados para restaurar a inteireza de um paciente cujo corpo sofreu o ataque desenfreado da doena. Brand comeou a trabalhar no tratamento de mos enrijecidas,
fazendo experincias com transplantes de tendes e msculos, at encontrar a melhor combinao para restaurar completamente alguns movimentos. As cirurgias e sesses
de fisioterapia se estendiam por meses, e at anos. Ele aplicou procedimentos similares aos ps, corrigindo deformidades causadas por anos de caminhada sem o sentido
da dor para guiar o corpo e distribuir o peso e a presso.
      Ps e mos restaurados davam ao portador de hansenase a capacidade de se sustentar por intermdio do trabalho, mas quem daria emprego a uma pessoa que tivesse
as cicatrizes dessa apavorante doena? Os primeiros pacientes voltavam a ele desesperados, pedindo que revertesse os efeitos da cirurgia para que pudessem mendigar
novamente, uma profisso que se valia das deformidades mais aparentes.
      Paul e Margaret Brand trabalharam juntos para corrigir o dano esttico. Eles aprenderem a refazer um nariz humano penetrando no espao entre a gengiva e o
lbio superior, esticando a pele e irrigando-a, construindo depois uma nova estrutura nasal interna por intermdio de um implante de osso. Eles procuravam impedir
a cegueira restaurando a capacidade de piscar. A hansenase mata as pequenas clulas que fazem que uma pessoa sadia pisque vrias vezes por minuto; a secura dos
olhos termina levando  perda da viso. Margaret aprendeu a redirecionar um msculo que normalmente  usado apenas para a mastigao e a lig-lo  plpebra. Mascando
chiclete o dia inteiro, os pacientes simultaneamente mexem as plpebras para cima e para baixo, lubrificando os olhos e, assim, evitando a cegueira. Por fim, os
Brand substituam as sobrancelhas de seus pacientes enxertando pedaos do couro cabeludo, intactos, com seus nervos e veias, sob a pele da lesta, costurando-os sobre
os olhos. Os primeiros pacientes orgulhosamente deixaram suas sobrancelhas crescerem, deixando-as grossas e longas.
      Todas essas elaboradas tcnicas mdicas eram dedicadas a desconhecidos, vtimas da hansenase que passaram a maior parte de suas vidas mendigando. Muitos que
chegavam ao hospital mal lembravam seres humanos. Ombros cados, encolhiam-se de medo diante de outras pessoas. O brilho h muito fugira de seus olhos. Meses de
tratamento compassivo por parte dos funcionrios de Karigiri podiam devolver a luz a seus olhos. Por vrios anos, as pessoas se afastavam delas em terror; em Karigiri,
enfermeiras e mdicos seguravam suas mos e conversavam com eles. Sem revolta, sem medo, o corpo clnico ouvia as histrias dos novos pacientes e usava a magia do
toque humano. Com pouco mais de um ano, esses pacientes que se pareciam com Lzaro saam do hospital para, com orgulho, aprender algum ofcio.
      Como Brand considera hoje, o processo de acompanhar o paciente por todo o ciclo de reabilitao desafiou toda a viso que tinha da Medicina. Em algum lugar,
talvez numa escola de Medicina, os mdicos adquirem uma atitude que se parece por demais com a arrogncia: "Voc chegou na hora certa. Conte comigo. Creio que serei
capaz de salvar voc". Trabalhar em Karigiri destrua esta arrogncia. Ningum podia "salvar" um paciente com hansenase. O corpo mdico podia deter a doena, sim,
alm de reparar alguns danos. Por conseguinte, todo paciente tinha de voltar para casa e, contra todas as dificuldades, precisava tentar construir uma nova vida.
Brand comeou a perceber que sua principal obrigao era algo que ele no havia estudado na faculdade: juntar-se a esse paciente como um parceiro na tarefa de restaurar
a dignidade e o esprito abatido. "Estamos cuidando de uma pessoa, no de uma doena", costuma dizer ele. "Este  o verdadeiro significado da reabilitao."
      As grandes sociedades ocidentais esto cada vez mais longe da crena fundamental no valor da alma de um ser humano. Nossa tendncia  ver a histria em termos
de um grupo de pessoas: classes, partidos polticos, raas, agrupamentos sociais. Aplicamos rtulos uns aos outros, explicamos comportamentos e atribumos valores
baseados nesses rtulos. Depois de um prolongado contato com o Dr. Brand, percebi que tenho visto os grandes problemas da humanidade a partir de um modelo matemtico:
percentuais do Produto Interno Bruto, renda per capita, taxa de mortalidade, quantidade de mdicos por mil habitantes. O amor, porm, no  matemtico; jamais poderemos
calcular com preciso qual  a quantidade de bem a ser aplicada igualmente aos mais pobres e necessitados do mundo. A nica coisa que podemos fazer  alcanar uma
pessoa, depois outra, e mais outra, como objetos do amor de Deus.
      Eu estava lutando com questes que abordavam a humanidade. Mas ainda no tinha aprendido a amar pessoas - indivduos criados  imagem de Deus. Jamais consideraria
um leprosrio na ndia como o lugar mais provvel onde aprenderia o valor infinito do ser humano, mas  impossvel no aprender isso depois de uma visita quele
lugar.

      Na minha ltima viagem  ndia com Paul Brand, em 1990, ele me mostrou a casa onde viveu sua infncia nas montanhas Kolli Malai. Nosso carro subiu uma estrada
fantstica, com 70 curvas muito fechadas (cada uma numerada: 38/70, 39/70, 40/70). Uma motocicleta passou por ns, tendo na garupa uma mulher, agarrada ao piloto.
Seu sari voava como se fosse uma bandeira. As curvas fechadas trouxeram muitas lembranas a Brand. "No havia estrada alguma naquela poca", disse ele. "Quando eu
era beb, viajava numa geringona que parecia um estilingue. Ia sentado dentro daquela coisa, sendo que as pontas eram presas em varas de bambu e carregadas nos
ombros dos carregadores. Quando j tinha crescido o suficiente para andar, ia cambaleando prximo dos carregadores, sendo que meu campo de viso eram as pernas deles.
Ficava de olho nas sanguessugas que caam das plantas e se grudavam nas pernas deles, inchando conforme bebiam do sangue daqueles homens."
      Nesta viagem, porm, estvamos mais preocupados com o superaquecimento do motor do que com as sanguessugas. Finalmente, a estrada ficou plana e prosseguiu
por um enorme plat, permitindo que tivssemos uma vista maravilhosa dos verdejantes arrozais abaixo e das plidas linhas curvas no horizonte que destacavam outras
cadeias de montanhas a distncia. Ento, acabou o asfalto e a estrada mergulhou num pequeno vale. O cascalho deu lugar  lama, e a estrada se resumiu a dois sulcos
na terra que corriam ao lado de grandes eucaliptos. Seguimos os sulcos por meia hora, sem ver uma pessoa sequer, e comeamos a pensar se nosso motorista sabia realmente
onde estava.
      De repente, nosso carro atingiu o cume de uma pequena colina c uma maravilhosa vista se descortinou. Cerca de 150 pessoas estavam esperando ao largo da estrada
- e estavam ali, conforme descobrimos depois, havia mais de quatro horas. Cercaram nosso carro, fizeram saudaes bem no estilo indiano, com as palmas das mos juntas
e a cabea curvada. As mulheres, mais parecidas com pssaros tropicais, vestidas com seus brilhantes saris de seda, colocaram sobre nossos pescoos colares de flores
e nos ofereceram um banquete servido em folhas de bananeira. Depois da refeio, todos se reuniram na capela de paredes de taipa construda pelo pai de Paul Brand
e nos alegraram com um programa de uma hora em que cantaram hinos, fizeram homenagens e executaram danas cerimoniais.
      Lembro-me de maneira especial das palavras de uma mulher que falou da me de Paul. 'As tribos das montanhas no praticavam aborto", disse a mulher. "Elas se
desfaziam das crianas indesejadas deixando-as  beira da estrada. A vov Brand recolhia essas crianas, tratava delas, criava e tentava educ-las. Eu fui uma dessas
crianas deixadas para morrer. Havia dzias de ns, mas ela nos tratava mais como me adotiva do que como a diretora de um orfanato. Ns a chamvamos 'me da montanha'.
Quando eu estava na idade escolar, ela pagou para que eu fosse para uma escola adequada e, por fim, consegui um diploma de mestre. Atualmente, leciono enfermagem
na Universidade de Madras. Hoje viajei centenas de quilmetros para honrar os Brand por aquilo que fizeram por mim e por tantos outros."
      Depois de fazer um pequeno discurso e secar as lgrimas dos olhos, o Dr. Brand levou-me para fora para mostrar o legado que seus pais haviam deixado. Mostrou-me
a casa de madeira cortada  mo que seu pai construra, colocando nas estacas da fundao panelas viradas com a boca para baixo para impedir a entrada dos cupins.
Uma clnica ainda funcionava, com uma escola - seus pais haviam fundado nove delas nas montanhas - e uma carpintaria. Um dos projetos agrcolas de vov Brand eram
pomares de frutas ctricas que se espalhavam pelas colinas. Seu marido, Jesse, havia criado meia dzia de fazendas com plantaes de amora, banana, cana-de-acar,
caf e mandioca. Paul no parava de dizer quanto os jacarands haviam crescido desde que seu pai os plantara, sete dcadas antes. As flores de alfazema que caam
deles acarpetavam o cho. Quando chegou a hora de partir, ele me levou ao local em que seus pais estavam enterrados, num declive prximo  cabana onde ele cresceu.
"Seus corpos esto aqui, mas seus espritos continuam vivos", disse. "E s dar uma olhada em volta."
      Paul optou por um curso diferente em sua vida, escolhendo ser um cirurgio ortopedista no lugar de missionrio. Visitei seus antigos pacientes para verificar
o legado que ele estava deixando. Um homem, chamado Namo, tinha na parede de sua casa uma foto de Paul aos 24 anos de idade, com a inscrio: "QUE O ESPRITO QUE
VIVE NELE POSSA VIVER EM MIM". Quando Namo contou-me sua histria, pude entender facilmente a razo da afeio que aquele homem tinha por seu cirurgio.
      Quando era jovem, Namo precisou deixar o ltimo ano da universidade. Indicadores de hansenase comearam a aparecer em sua pele, e sua mo estava se retraindo,
como uma pata de caranguejo. Rejeitado por sua escola, sua vila e, finalmente, por sua famlia, Namo foi ao leprosrio no Sul da ndia, onde um jovem mdico estava
fazendo algumas cirurgias experimentais nas mos de seus pacientes. Havia quatro milhes de portadores de hansenase na ndia, e 15 milhes ao redor do mundo, mas
Brand era o nico cirurgio ortopedista que estava tentando tratar suas deformidades.
      Namo se recorda daquele dia horrvel. "Estava to indignado com minha condio que mal conseguia falar. Soluando, disse ao Dr. Brand que minhas mos eram-me
inteis. Sabia que logo meus ps estariam na mesma condio. Eu no me importava se ele as amputasse", contou. Namo fez um gesto como que de corte em direo ao
outro pulso. "Ele poderia fazer qualquer coisa que quisesse, se aquilo servisse para ele aprender algo sobre a doena."
      Felizmente, Namo estava errado quanto a seu diagnstico. As drogas impediram o avano da doena. Depois de se submeter a uma srie de delicados procedimentos
cirrgicos num perodo de cinco anos, ele recobrou o movimento de suas mos e seus ps. Fez inmeras sesses de fisioterapia, comeou a trabalhar com outros doentes
de hansenase e se tornou o Chefe de Terapia Fsica do Instituto All-India.
      Mais tarde, naquele mesmo dia, visitei Sadan, outro antigo paciente. Ele parecia uma miniatura de Gandhi: magrrimo, careca, culos grossos, empoleirado na
beira de uma cama com as pernas cruzadas. A porta daquele modesto apartamento estava aberta, e pequenos pssaros entravam e saam o tempo todo. Um cachorro sarnento
estava deitado na entrada. Sadan mostrou-me seus ps, os quais terminavam em pequenos tocos arredondados, no lugar de dedos. "Conheci os Brand tarde demais para
conseguir salvar estes aqui", disse ele, "mas eles me deram sapatos que me permitem caminhar".
      Numa voz aguda e meio cantada, Sadan contou-me tristes histrias de rejeio no passado: os colegas de classe que riam dele, o motorista que o ps para fora
do nibus, os muitos empregadores que se recusaram a contrat-lo, apesar de seu treinamento e seu talento, os hospitais que impediram sua entrada com rispidez: "No
tratamos de leprosos aqui".
      "Quando cheguei a Vellore, passei a noite na varanda de Brand porque no tinha para onde ir", relatou Sadan. "No se ouvia falar de uma pessoa com lepra naquela
poca. Ainda posso me lembrar do momento em que o Dr. Brand tocou meus ps sangrentos com suas mos. Eu j estivera em muitos outros mdicos. Alguns examinaram minhas
mos e ps a distncia, mas o Dr. Paul e a Dra. Margaret foram as primeiras pessoas da rea mdica que ousaram me tocar. J havia praticamente esquecido como era
o toque humano. Ainda mais impressionante foi o fato de eles me deixarem ficar em sua casa naquela noite, isto numa poca em que os funcionrios da sade estavam
terrivelmente amedrontados com a lepra."
      Sadan ento contou a elaborada seqncia de procedimentos mdicos: transplante de tendes, seco de nervos, amputao de dedos e remoo de catarata - tudo
feito pelos Brand. O transplante dos tendes de seus dedos tornaram possvel a Sadan escrever novamente, e hoje ele elabora relatrios para um programa que presta
assistncia gratuita a portadores de hansenase por intermdio de 53 clnicas mveis. Ele falou por cerca de meia hora. Seu passado era um catlogo de sofrimentos
humanos. E o estigma continua at os dias de hoje: recentemente, ele assistiu ao casamento de sua filha sentado sozinho num carro, temendo que sua presena pudesse
perturbar os convidados.
      Enquanto eu e os Brand degustvamos nossa ltima xcara de ch antes de irmos ao aeroporto para pegar nosso vo para a Inglaterra, Sadan fez esta espantosa
declarao: "Digo ainda que sou feliz por ter tido essa doena". Perguntei, incrdulo: "Feliz?" Ele me respondeu: "Sim. Se no fosse a hansenase, eu teria sido
um homem normal, com uma famlia normal, buscando a riqueza e uma posio mais alta na sociedade. Nunca teria conhecido pessoas to maravilhosas quanto o Dr. Paul
e a Dra. Margaret, e jamais teria conhecido o Deus que vive neles".

      Dois dias depois, nossa recepo na Inglaterra foi um impressionante contraste em relao quelas boas-vindas dignas de um rei que recebemos na ndia. Ali
tambm eu e Brand revivemos momentos do passado. Visitamos a casa em que seus pais passavam os dias, quando estavam licenciados. Sua me vinha de uma famlia rica,
e a casa, localizada numa das melhores regies de Londres, valia, seguramente, um milho de dlares. A moradora da casa saiu para perguntar o que estvamos olhando,
e Brand a conduziu por uma visita por todos os quartos, descrevendo a aparncia da casa 60 anos antes.
      Naquela tarde, subimos ao terrao do hospital em que, como residente, ele assistiu ao bombardeio alemo. Ningum nos recebeu com colares de flores, nem se
reuniram  nossa volta, ou sequer cantaram hinos e deram testemunhos. Para os guardas e para a equipe mdica do hospital, Brand era apenas um velho confuso que estava
interferindo em seu trabalho. Os escritrios tinham mudado de lugar, alas foram demolidas, havia muitos procedimentos de segurana. No meio do cenrio do incio
de sua carreira mdica, a nica coisa que Brand parecia ser era um anacronismo. Caminhamos pelos corredores, perguntando a diversas recepcionistas do University
College Hospital sobre antigos colegas. "Quem? Como se soletra o seu nome?" era a resposta tpica. Finalmente, num corredor escuro, encontramos uma galeria com fotos
de alguns dos professores de Brand - doutores que, em seus dias, eram to famosos quanto Christian Barnard e C. Everett Koop o so atualmente.
      Peguei-me pensando em como a carreira de Brand teria se desenvolvido se ele tivesse ficado em Londres. Mesmo trabalhando numa vila remota da ndia com leprosos
banidos da sociedade, ele conseguiu alcanar renome mundial. Se tivesse ficado num centro de pesquisas com um laboratrio bem equipado, quem pode saber que honrarias
ele teria recebido? Quem sabe um Prmio Nobel?
      Mas, e da? Sua foto estaria junto s dos outros mdicos naquele corredor escuro, empoeirada e comeando a amarelar. Seu nome, como o deles, apareceria numa
nota de rodap de alguns livros de Medicina. A fama nos anais da Medicina raramente dura um longo tempo. As tcnicas de microcirurgia h muito suplantaram a maioria
dos procedimentos considerados inovadores na juventude de Brand. Em contraste a isso, seu trabalho como cirurgio missionrio na ndia continua a produzir frutos
nas vidas transformadas de Namo e Sadan, e em centenas de outros iguais a eles.
      Por estarmos to prximos, os encontros na ndia e na Inglaterra tornaram-se, para mim, um tipo de parbola, contrastando a transitoriedade da fama com a perenidade
do investimento no servio aos outros. Quer vivamos nossos dias na ndia, na Inglaterra ou em Clarkston, Gergia, a verdadeira medida de nosso valor depender no
de um curriculum vitae ou da herana que deixamos, mas do esprito que passamos aos outros. "Quem acha a sua vida perd-la-; quem, todavia, perde a vida por minha
causa ach-la-", disse Jesus, no provrbio mais repetido nos Evangelhos (Mt 10:39). Cada carreira oferece suas prprias recompensas. Mas depois de sentar com Brand
nas casas de Namo e Sadan, alm de passar pelo Hall da Fama no Royal College of Surgeons, no tenho dvidas de qual recompensa  mais duradoura.
      Em uma de nossas ltimas conversas, o Dr. Brand ficou pensativo. "Nunca ganhei muito dinheiro com a Medicina, especialmente em funo dos lugares onde a pratiquei.
Mas lhe digo que, olhando para trs, para uma vida toda dedicada  cirurgia, vejo que a multido de amigos que um dia foram meus pacientes traz-me mais alegria do
que qualquer riqueza poderia dar. Encontrei-os pela primeira vez quando eles estavam sofrendo e com medo. Como seu mdico, compartilhei de sua dor. Agora que estou
velho,  seu amor e sua gratido que iluminam o caminho de minha vida.  estranho. Aqueles de ns que se envolvem com lugares em que existe o maior sofrimento olham
para trs surpresos por descobrir que ali foi o lugar onde conheceram a realidade da alegria."
      Ento ele citou outras palavras de Jesus: "Felizes so aqueles que levam consigo uma parte das dores do mundo. Durante a longa caminhada, eles sabero mais
coisas sobre a felicidade do que aqueles que a evitam" (traduo de J. B. Philips).

PAUL BRAND PARA INICIANTES
      O Dr. Brand e eu escrevemos trs livros juntos: Fearfully and Wonderfully Made e A imagem e semelhana de Deus. Mais recentemente, The Gift of Pain, que costura,
em uma mesma obra, a histria de sua vida e suas teorias sobre a dor. H uma biografia missionria mais tradicional, escrita por Dorothy Clarke Wilson, intitulada
Ten Fingers for God, concentrada especialmente em seu tempo na ndia, e Granny Brand, tambm de Wilson, que conta a histria do trabalho de sua me. Brand tambm
publicou mais alguns pensamentos em God's Forever Feast.

5. Dr. Robert Coles
Vidas Calmas e as Agresses do Universo
      Quando trabalhava como editor da revista Campus Life, na dcada de 1970, mais de 200 revistas passavam pela minha mesa regularmente. Eu costumava empilh-las
at que formassem torres altas e inclinadas para, ento, passar um fim de semana inteiro virando suas pginas, num esforo para poder ver novamente a cor do tampo
de minha escrivaninha.
      Cerca de metade das revistas vinha de organizaes crists, inclusive misses, denominaes, associaes de jovens, universidades, grupos de aconselhamento
e de estudos. A outra metade era de fontes seculares, as revistas que voc encontra em qualquer banca de jornal. Ficava surpreso com o enorme abismo que havia entre
os dois grupos. Os crticos de Nova York certamente j tinham ouvido que 30 a 40 milhes de cristos nascidos de novo viviam em algum lugar dos grandes centros,
mas qual deles j havia se encontrado com algum desses cristos? Era at bem possvel que eles sequer existissem, apesar de toda meno feita a eles. Enquanto isso,
os cristos estavam muito ocupados, construindo uma contra-sociedade - completa, com escolas, livrarias, estaes de televiso e rdio, at mesmo anncios de negcios,
numa espcie de Pginas Amarelas crist - e visando, com isto, se proteger dos ataques do mundo secular, cujo objetivo era sua destruio.
      Passando pela pilha em uma tarde, deparei-me com o nome de Robert Coles no fim de um breve artigo intitulado "Por que voc ainda acredita em Deus, na promessa
da cruz?" na mais improvvel das publicaes que estavam ali, na Harper's. Que tipo de pessoa poderia abordar uma questo to transcendente em um artigo sobre f
pessoal numa publicao especializada em Nova York? Com o passar dos anos, pude ver o nome de Coles aparecendo nos mais improvveis contextos: uma resenha do escritor
catlico francs George Bernanos no New York Times Book Review; uma discusso sobre Kierkegaard e Pascal no New England Journal of Medicine; um tributo a Dorothy
Day e ao movimento do Obreiro Catlico na New Republic; outra resenha sobre Flannery O'Connor no Journal of the American Medical Association.
      Enquanto outros cristos lamentavam a tendncia contrria da imprensa secular em relao a artigos baseados em questes de f, Robert Coles, um nome desconhecido
para a maioria deles, estava escrevendo sobre o que queria, onde queria e a partir de um ponto de vista abertamente cristo. Comecei a v-lo como um construtor de
pontes, um escritor zeloso em quem eu podia confiar para me levar a outras pessoas, muitas das quais se tornariam meus pastores virtuais, Para toda uma gerao de
alunos de Harvard, o professor Coles apresentou o cristianismo como uma incrvel opo para o mundo moderno, e por intermdio de seus escritos ele fez o mesmo por
mim.
      Em 1972, numa reportagem de capa, a revista Time chamou Coles "o mais influente psiquiatra vivo dos Estados Unidos". Eu pensava: "Quando  que ele acha tempo
para exercer a psiquiatria?" Ele dava aulas na Harvard Medicai School, sim, mas tambm dava palestras sobre "a literatura da transcendncia", o nome que ele dava
 sua lista de romances preferidos que tratavam de temas espirituais. Ele parecia ser um homem com milhares de interesses, e todas as vezes que descobria um novo,
escrevia um livro a respeito: um livro sobre o dilogo com o padre radical Daniel Berrigan; um livro de crtica literria sobre o romancista Walter Percy e outros
sobre James Agee e George Eliot; biografias de Erik Erikson, Anna Freud, Simone Weil e Dorothy Day; um livro sobre Flannery O'Connor's South, colees de conversas
sobre os pobres, outras sobre direitos civis, trabalhadores rurais, esquims, crianas ricas - mais de 60 livros ao todo, alm de, pelo menos, mil artigos.
      Seu mais impressionante trabalho, a srie Children of Crisis, com cinco volumes, possui mais de um milho de palavras, e deu a Coles um Prmio Pulitzer em
1973. Mais tarde, ele foi escolhido pela Fundao McArthur para receber a Medalha de Gnio, que inclua uma gratificao em dinheiro que permitiu a ele ainda mais
tempo livre para pesquisar e escrever. Em 1999, quando completou 70 anos, ainda estava produzindo, em grande quantidade, tanto livros quanto artigos. O presidente
Clinton reconheceu seus feitos, dando a ele a Medalha da Liberdade, a mais alta condecorao civil dos Estados Unidos.

      Durante o perodo que acompanhei a carreira de Coles, ele me ajudou a entender uma das peculiaridades da profisso de escritor: a sndrome do observador. Escrever
 um ato executado na solido. Sou tentado a cham-lo um ato psictico, pois ns, escritores, construmos uma realidade artificial, habitada somente por ns, e que
normalmente nos parece mais real que o prprio mundo "l fora". Depois de ter hibernado por uma semana num projeto intensivo de escrita, sinto que preciso passar
por uma coisa parecida com uma reentrada na atmosfera, pois praticamente me esqueci como  manter uma conversao normal e como conduzir a sutil negociao que compe
o relacionamento humano. Fico lidando com as palavras e idias por um longo tempo, e, por mais difcil que possa parecer,  um processo muito mais ordeiro e controlado
do que interagir com os seres humanos. O resultado  que ns, escritores, temos a tendncia de nos afastar, segregarmos a ns mesmos, observando a vida sem verdadeiramente
participar dela.
      Por causa de meu histrico jornalstico, levo uma vida mais agitada que muitos escritores. Tenho viajado por lugares como Somlia, Rssia, Chile e Myanmar,
sempre para coletar material para escrever,  claro, mas a sndrome do observador nunca desaparece. Visitei um campo de refugiados na Somlia no auge da fome que
aquele pas enfrentou. Trinta mil pessoas viviam em tendas improvisadas naquele campo nomeio do deserto. A cada dia, morriam de 40 a 50 crianas. Nunca me senti
to fraco. Enfermeiras aplicavam injees, mdicos administravam antibiticos e os capeles enterravam os mortos, enquanto eu, um jornalista, ficava ao lado, rabiscando
notas e tirando fotos. Jamais meu trabalho me pareceu to deslocado, nem minha existncia to perifrica.
      A condio vicria, afinal,  coisa de escritor. Embora nem todo mundo possa visitar um campo de refugiados na Somlia, se eu for bom o suficiente no meu trabalho,
os leitores tero alguma idia de como ele  e podero at se dispor a ajudar. Visitei John Perkins no Mississippi e o Dr. Paul Brand na ndia. Mesmo tendo entrado
em suas vidas por apenas alguns dias ou semanas, abro uma fenda atravs da qual as pessoas podem observar um mundo que, de outra forma, elas no veriam.
      Em seu trabalho chamado adequadamente Conjectures of a Guilty Bystander, Thomas Merton fala sobre uma viagem que fez de seu mosteiro at uma cidade prxima.
"Em Louisville, na esquina da Fourth com a Walnut, no centro de um distrito de compras, fui repentinamente atingido pela percepo de que amava todas aquelas pessoas;
que elas eram minhas e eu, delas; que no poderamos ser como estrangeiros uns aos outros, embora fssemos totalmente estranhos (...) embora os 'fora do mundo' [os
monges] estejam no mesmo mundo que o restante das pessoas, o mundo das bombas, do conflito racial, da tecnologia, da comunicao de massa, dos grandes negcios,
da revoluo e do todo o resto."
      Esse momento singular tornou-se uma epifania para Merton, que prosseguiu dizendo que a funo da solido  perceber algumas coisas -a unidade da raa humana,
a maravilha da vida, a gloriosa impossibilidade de se reproduzir uma pessoa qualquer - com a clareza que seria impossvel a qualquer pessoa completamente envolvida
no mundo, a no ser que esteja postada na borda, observando. "No h forma de dizer s pessoas que todas elas esto caminhando, brilhando como o sol", disse ele.
      Realmente no h. E, embora raro e com freqncia inconsciente, mesmo o escritor hbil pode, rendendo-se aos detalhes das vidas comuns, refletir de volta para
o leitor alguma coisa dessa radincia. Robert Coles fez isto por mim. Com seu estilo peculiar e pouco ortodoxo, ele rompeu a barreira existente entre o observador
e o participante, entrando em outras vidas, depois se afastando para uma solido que permitia que as apresentasse a todos ns.
      Apesar da origem em Harvard, Coles dificilmente se encaixaria no molde de um acadmico que vive numa torre de marfim. Ele pratica um estilo pouco comum de
pesquisa de campo, seguindo crianas de um lugar para outro, sentando-se no cho de suas casas, fazendo algumas perguntas, ganhando sua confiana. Ele vai para a
escola no mesmo nibus das crianas, sentando em pequenos bancos sem forrao e segurando as barras enferrujadas do assento da frente, enquanto o veculo sacoleja
em seu caminho para a escola e na volta dela. Ficou conhecido como o "homem do lpis de cera" por pegar papis de sua pasta e pedir que as crianas fizessem desenhos.
Normalmente, os desenhos revelavam mais coisas do que as palavras que elas diziam. Uma garotinha negra desenhava pessoas brancas mais altas que ela e com um alto
grau de detalhes, como o nmero correto de dedos nas mos e nos ps, enquanto retratava a si mesma faltando um olho, uma orelha ou at mesmo um brao.
      De alguma forma, Robert Coles sempre conseguiu que as coisas em sua vida acontecessem da maneira correta. Ele atribui muita coisa  sorte dos primeiros anos.
Sorte de ter despertado para a literatura nos primeiros anos da escola; sorte de um artigo sobre o mdico e escritor William Carlos Williams t-lo levado a conhecer
o prprio Williams e, assim, faz-lo escolher a Medicina como carreira; sorte de, como residente, ter tratado e conversado com Enrico Fermi; sorte de ter se ligado
a Dorothy Day e  comunidade dos Obreiros Catlicos; sorte de ter feito amizade com psicoterapeutas como Anna Freud e Erik Erikson, de ter estudado com telogos
como Reinhold Niebuhr e Paul Tillich e de ter se envolvido com Martin Luther King Jr. e o movimento dos direitos civis.
      Contudo, as decises tomadas depois de ter alcanado renome ele no atribui  sorte. Fez escolhas conscientes para penetrar nos pontos mais importantes do
mundo, entrando s escondidas no distrito de Soweto durante o tempo do apartheid na frica do Sul, visitando famlias brancas iradas durante os agitados dias da
"Boston school busing", ouvindo catlicos e protestantes amaldioarem uns aos outros na Irlanda do Norte, entrevistando famlias nas favelas do Rio de Janeiro e
nos pores dos dissidentes da Polnia.Coles gosta de citar a obra Madame Butterfly, de Flaubert. "O discurso humano  como uma chaleira quebrada na qual tamborilamos
ritmos primitivos para que os ursos dancem, enquanto desejamos fazer uma msica que seja capaz de fundir as estrelas." H momentos em que os discursos que ele coletou
de crianas do mundo inteiro executam um ritmo primitivo e, s vezes, derretem as estrelas. De um jeito peculiar, as crianas lidam com questes profundas que tm
atormentado a humanidade por toda a sua histria. Na primeira vez que encontrei Coles, eu escrevia livros sobre o problema da dor, citando principalmente filsofos
e telogos. Encontrei nas entrevistas do psiquiatra expresses mais simples e pungentes sobre o problema. "Quando olho para o Jesus l em cima [no alto do Corcovado,
no Rio de Janeiro], fico imaginando o que ele est pensando", medita Margarida, de sua casa na favela. Sua me, doente, com tosse e sangramentos, trabalha num hotel
em Copacabana, onde os ricos se divertem. Do alto daquela montanha, flutuando acima da neblina, Jesus deve ver tanto a favela quanto os hotis de luxo, bem como
o sacerdote que dirige um carro de luxo e mora numa casa bem grande. Por que ele se mantm calado?
      Ou ento, de volta a Massachusetts, no muito longe da casa de Coles, um menino judeu de nove anos de idade tem problemas com o conceito de justia divina.
Um advogado que se hospedou em sua casa mostrou-lhe o nmero que foi tatuado em seu brao quando esteve num campo de concentrao nazista. O homem disse que, naquela
poca, deixou de acreditar em Deus pois Hitler quase venceu a guerra, o que fez o garoto ficar preocupado desde ento. "Acho que ele nunca interfere;  isso que
nosso professor de hebraico nos ensina, que Deus nem mesmo tenta parar ou comear alguma coisa. No entendo como ele pde ficar sentado e no ter feito nada para
impedir Hitler. Se os judeus so o seu povo, ento ele poderia ter-nos perdido. Perguntei ao meu pai: 'Ento Deus teria chorado se todos os judeus tivessem morrido
naqueles campos de concentrao?' Papai disse que no sabe; ele no sabe se Deus ri ou chora ou o que ele faz."
       a mesma pergunta feita por Coles, numa escala mais ampla, durante uma de suas primeiras entrevistas, na poca em que foi residente na ala peditrica, durante
o apogeu da epidemia de poliomielite. Coles perguntou a Tony, um garoto de 11 anos de idade, se poderia gravar a conversa. "Por favor, grave todas as palavras que
vou dizer", respondeu o menino, com uma surpreendente paixo. "Posso estar morto amanh, e esta ser uma chance de minhas palavras viverem alm de mim!"
      Numa gravao de baixa qualidade tcnica,  possvel ouvir com dificuldade as palavras de Tony, entremeadas pela pulsao do pulmo mecnico que o engolfava.
"Quando ouvi que havia uma epidemia de plio, eu disse: 'Que chato, algum vai ficar doente'. Nunca  voc!  assim que a gente pensa: outra pessoa! Agora, sou eu;
eu sou o 'algum' (...) Voc precisa estar aqui para entender como  que se sente numa situao assim!  como uma priso - s que voc no pode andar de um lado
para outro na cela. Voc no pode sequer respirar sem que a mquina faa isto para voc! Fao uma pergunta: 'OK, Deus, eu devo ter feito alguma coisa para merecer
isto. Diga-me o qu'!"
      Em um museu prximo ao escritrio de Coles, em Cambridge, existe um trptico pintado por Gauguin durante o fim de sua vida no Taiti, uma espcie de resumo
final de sua arte. Por meio de palavras reais em francs, Gauguin rabiscou o verdadeiro significado da mensagem que ele queria transmitir, em trs perguntas: "De
onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?" Os artistas no se expressam mais to diretamente, os filsofos abandonaram estas perguntas to importantes h alguns
anos, os cientistas oferecem respostas que no satisfazem e as universidades evitam a todas. Quase sozinho no mundo acadmico, Robert Coles, o mdico, vai contra
a corrente, lanando tanto perguntas quanto respostas - ironicamente, por intermdio da voz de crianas.  evidente que a carncia ainda existe: por vrios anos,
suas aulas tm sido as opcionais mais procuradas em Harvard, com algo como 600 alunos se espremendo, em p, num auditrio.
      Em todos os aspectos, Coles tem forjado seu prprio caminho de iconoclastia e contradio. Sendo psiquiatra, ele exps as iluses de Freud e valorizou os "desequilibrados":
mrtires, So Francisco, Simone Weil, os profetas hebreus. Como acadmico, ele desdenhou os jarges e foi aclamado por seus relatos coloquiais de conversas com crianas.
Na condio de professor de Harvard, tomou nibus escolares e se sentou no cho de pernas cruzadas com as crianas que ele cuidava nas escolas dos guetos. Mdico
melindroso demais para exercer a Medicina, terminou dando aulas de literatura. Apesar de ser um cone cultural, respeitado por organizaes favorveis ao direito
de a mulher escolher se quer abortar e por organizaes pr-homossexuais,   falava contra o aborto ("Uma afronta ao Senhor") e o movimento gay.
      Ao explicar sua dialtica pessoal sobre a f, Coles cita Pascal: "A natureza refuta os cticos e a razo confunde os dogmticos". Um bom resumo do "homem do
lpis de cera".
      O prprio Robert Coles admite que sua vida s faz sentido quando 'vista em seqncia. Seu pai veio da Inglaterra, de uma herana meio judaica, meio catlica.
Fsico formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), via tudo que se relacionava  religio com ceticismo. Se o jovem Bob citasse Shakespeare na questo
do cu, seu pai dizia: "Que cu? Mostre-me!" Se algum falasse no Esprito Santo, ele perguntaria, pela milionsima vez, o que era o Esprito Santo. Em contraste
a isto, a me de Bob, nascida na Igreja Episcopal, em Iowa, tinha uma inclinao religiosa, at mesmo mstica. Ela levava os dois filhos  igreja enquanto o pai
esperava do lado de fora, no carro, lendo jornal. Ela conhecia a Bblia e o Livro de oraes comunitrias, citando-os livremente a seus filhos.
      Na adolescncia, Bob Coles sentia-se puxado em direes opostas: por um lado, para o pragmatismo teimoso de seu pai; por outro, para o pietismo amoroso de
sua me. Ele nunca sabia em que acreditar com relao a Deus. Me e pai, porm, estavam alinhados em seu amor pela literatura. Os dois liam George Eliot em voz alta
para Bob e seu irmo, instilando nele um grande amor por Tolstoi e Dickens. Quando se tratava de questes morais, Bob aprendeu a pensar em termos de histria, em
vez de conceitos abstratos. Apesar de suas diferenas religiosas, seus pais expressavam compaixo de maneira concreta. Sua me dedicava tempo a clnicas freqentadas
por pessoas pobres, distribua sopa a moradores de rua e a crianas que sofriam de cncer. Seu pai visitava os pobres e idosos nos leitos de hospitais e nas casas
de repouso.
      Bob foi to bem nos estudos a ponto de poder entrar em Harvard, onde se formou em Literatura Inglesa. Ali ficou fascinado com a vida de William Carlos Williams,
que exercia as carreiras de mdico e poeta. A combinao tocou o jovem Coles no sentido de poder ajudar as pessoas atravs da Medicina e, ento, refletir sobre aquelas
experincias por intermdio de seus textos. Decidiu-se pela carreira mdica, de maneira especial, pela influncia de Williams.
      Coles concluiu seus estudos em Medicina, mas foi se tornando cada vez mais perturbado. Passava muito mais tempo conversando com seus pacientes do que trabalhando
no laboratrio. Tarefas como dissecar corpos causavam-lhe repulsa; ele era incapaz de inserir agulhas em bebs sem ficar nervoso com seus gritos. Certa vez, quando
pediram que retirasse sangue de uma veia no pescoo de uma criana, ele recuou. As exigncias do trabalho o levaram a uma completa exausto, e ele se pegou um dia
olhando distante para as estrelas e as rvores. Leu poemas de Thomas Merton e se retirou para o Mosteiro Trapista de Merton no Kentucky para um perodo de contemplao
e quietude. Deveria voltar para Harvard e estudar literatura? Ou deveria ser voluntrio para trabalhar no Hospital Albert Schweitzer, na frica? Seus professores
recomendaram que ele fizesse psicanlise como uma maneira de ajud-lo a reconsiderar seu futuro na Medicina.
      A anlise ajudou, mas de uma maneira inesperada. Coles sabia muito pouco de psicanlise - nada tinha lido sobre Freud -, mas a idia de praticar Medicina conversando
com as pessoas chamou sua ateno. Ele decidiu tornar-se psiquiatra. Coles saiu daquela residncia com mais perguntas do que respostas. Ficava intrigado pelo fato
de algumas pessoas ficarem doentes enquanto outras que tinham um histrico igualmente atribulado permaneciam razoavelmente sadias. A arrogncia de sua prpria profisso
tambm o preocupava. Seus professores tinham uma tendncia de explicar comportamentos colocando rtulos neles, ao passo que, para Coles, cada pessoa era inescrutavelmente
complexa e misteriosa. Ele se lembra das visitas a pacientes que fazia com Williams e o respeito que aquele mdico havia mostrado por pessoas que viviam em um mundo
carente, em total oposio ao seu prprio. Enquanto ouvia seus pacientes recitarem suas histrias, Coles considerava to importante honrar suas vidas quanto buscar
uma "cura".
      Mesmo enquanto estudava psiquiatria, ele se sentia cada vez mais atrado pelos romancistas. Paul Tillich havia recomendado Walker Percy, um mdico que virou
romancista. Coles devorou sua obra e encontrou nela uma representao da humanidade mais acurada do que a que via em seus livros sobre comportamento. Enquanto lia
cada vez mais textos diferentes, Coles ficou abismado com o fato de um romancista como Fyodor Dostoievski ter mais insight sobre a psiqu humana do que qualquer
outro psiquiatra que ele j encontrara.
      Coles comeou a perder a confiana no mtodo tradicional de psiquiatria, que consistia em um especialista sentado a uma mesa, ouvindo seu paciente, por isso
optou por um tratamento adequado. Ele precisava entrar na vida de seus pacientes para entender sua famlia, seu lar, sua cultura e sua condio econmica. Precisava
atravessar a ponte entre o observador e o observado, entre mdico e paciente. Conforme disse mais tarde, "precisava dar vida ao interior daquelas vidas", inclusive
seus sonhos, suas crenas e seus preconceitos particulares, suas piadas repentinas e seus comentrios eventuais. Como Dorothy Day disse-lhe certa vez, "tenho uma
noo de realidade aguada em minha mente, mas ela se perde no caminho quando estou sentada numa mesa conversando com algum, ouvindo tudo o que aconteceu naquela
vida em especial".
      Em resumo, ele aprendeu a dar ateno, ativa e agressivamente. Cada vida tem seu prprio mistrio, sua prpria histria para ser contada. Ele estava determinado
a descobrir qual era essa histria e tentar traduzi-la para os outros. Sua abordagem estava grandemente afastada da tradio. Freud dissera que, quando voc comea
a perguntar sobre o sentido da vida, ento est realmente doente. Robert Coles raramente perguntava outra coisa que no fosse isto.

      No comeo da dcada de 1960, houve dois momentos da vida de Coles que pareceram simples acidentes naquele momento, como interrupes no planejadas em seus
compromissos. Mas agora eles se colocam como momentos crticos que o transformaram para sempre. Coles estava servindo na Fora Area, dirigindo uma unidade psiquitrica
prxima de Biloxi, Mississippi, quando, numa tarde de domingo, resolveu dar um passeio de bicicleta pela costa do Golfo do Mxico. Dobrando uma esquina, ouviu sons
de luta. Meneou a cabea em desaprovao, pensando por que algum estaria brigando numa to bela tarde de primavera, e resolveu parar para ver.
      Uma guerra racial em miniatura estava se desenrolando. Algumas pessoas negras haviam tentado dar um mergulho numa praia reservada apenas a brancos, e uma multido
de brancos as cercou. Os dois lados estavam gritando uns para os outros. Ele viu um branco pisar sobre os culos de uma mulher negra e quebrar seu relgio. O clima
estava esquentando, e Coles temia que a violncia fsica pudesse irromper a qualquer momento. Sendo um ianque 29 magro e assustado, distante milhares de quilmetros
de casa, ele preferia no se envolver com qualquer afronta moral. Pegou sua bicicleta e foi embora.
      Durante seu turno no hospital da base, Coles ouviu dois policiais conversando sobre um incidente na praia. Eles eram amigos, policiais gentis e corteses que
haviam alcanado respeito. Mas naquela noite eles falavam em um tom ameaador. "Eles estariam mortos agora se no chamassem tanta ateno", disse um deles. "Mas
morrero se tentarem fazer isso de novo." Coles no disse nada, mas sentiu-se profundamente tocado pelo drama que era vivido no Sul. Que princpio moral fazia com
que aquelas pessoas negras arriscassem suas vidas simplesmente para serem os primeiros de sua raa a pisar na areia numa insignificante praia do Mississippi? E que
fora era capaz de colocar tanto dio nos olhos de dois homens brancos to pacficos? Ele guardou para si estas duas perguntas.
      Enquanto isso, a vida pessoal de Coles estava  deriva. Ao se juntar  Fora Area, ele esperava ir para algum lugar extico em que pudesse dar vazo aos desejos
da juventude: So Francisco, talvez Hava ou Japo. Designado para o Mississippi, sempre se viu um pouco fora do estilo militar. Bebia bastante e lutava contra surtos
de depresso. Na maior parte do tempo, estava melanclico e isolado, mais como uma pessoa que precisava de terapia do que algum apto a aplic-la. Preocupado, descobriu
um psiquiatra em Nova Orleans e foi se consultar, dirigindo seu Porsche branco em alta velocidade todas as semanas, saindo da base no Mississippi e indo para a distinta
regio de Nova Orleans.
      Certo dia, porm, ele teve problemas ao passar pelo distrito industrial de classe pobre de Gentilly. Tropas estaduais haviam interditado as principais estradas
em funo de um protesto racial. Ele se dirigiu ao centro de toda a comoo, uma escola primria. Ali, a primeira pessoa que viu foi Ruby Bridges, uma pequena menina
negra de seis anos de idade. Ruby era a primeira criana negra a freqentar a Escola Frantz, e todos os alunos estavam boicotando a escola em protesto. Escoltada
por agentes federais (as polcias da cidade e do Estado se recusaram a proteg-la), a menina tinha de andar por entre uma multido de pessoas brancas que gritavam
obscenidades e ameaas, balanando os punhos em sua direo. Coles descobriu que ela sofria essas ameaas todos os dias, freqentando uma escola vazia para se sentar
sozinha em sua sala de aula.
      Enquanto observava aquela criana valente, ocorreu a Coles que ela era um caso ideal para se estudar os efeitos do estresse em crianas pequenas. Levou algum
tempo para que ele ganhasse a confiana da famlia da menina, uma vez que nenhum branco havia entrado em sua casa antes. Ruby, porm, concordou em cooperar. Quando
paravam de conversar, Coles pedia que ela fizesse desenhos.
      Uma coisa impressionante aconteceu nos meses seguintes. O Dr. Robert Coles surgira como um especialista, um pediatra e psiquiatra com todo o prestgio de Harvard,
Columbia e da Universidade de Chicago a lhe respaldar. Ele j havia tratado de uma criana negra desprotegida e sem estudo em Nova Orleans. Com o passar do tempo,
porm, comeou a perceber uma inverso de papis. Ele era o aluno, no Ruby, e ela estava lecionando um curso avanado de tica.
       noite, Coles discutia com sua esposa, Jane, como ele reagiria em circunstncias semelhantes. E se um grupo de homens e mulheres irados se alinhasse em frente
ao Clube de Harvard para bloquear a entrada? O que ele faria? Chamaria a polcia, naturalmente. Mas em Nova Orleans, os agentes federais entraram em cena porque
a polcia no estava do lado de Ruby, e ele se lembrou da conversa que ouvira daqueles dois policiais na base area. Ele chamaria seu advogado e conseguiria um mandado.
A famlia de Ruby no conhecia advogado algum e no podia pagar por um. Por ltimo, ele se levantaria diante da multido, explicando seu comportamento numa linguagem
de psicopatologia e, talvez, at mesmo escreveria um condescendente artigo sobre eles. Ruby no conhecia tais palavras: ela estava simplesmente aprendendo a ler
e escrever.
      Ento, o que fez Ruby Bridges em circunstncias to atemorizantes? Ela orou. Por ela mesma, para que fosse forte e no tivesse medo, e tambm por seus inimigos,
para que Deus os perdoasse. "Jesus orou por isso na cruz", disse ela a Coles, como se isto encerrasse o assunto. "Perdoai-os, porque no sabem o que fazem."
      Trs outras meninas estavam freqentando outras escolas sob as mesmas condies adversas. Coles comeou a se encontrar com elas tambm, duas vezes por semana.
Ele conheceu Tessie de maneira especial, bem como sua av materna, que saudava os agentes federais todos os dias s oito da manh com a expresso "Senhor Poderoso,
outra bno!", e ento lhes entregava a pequena Tessie, que carregava sua lancheira para a escola entre os dois homens vestidos com ternos escuros e revlveres
em seus cintos. Depois de enfrentar a multido por dois meses, Tessie sugeriu que talvez devesse ficar em casa. Sua av lhe deu um sermo: "Olhe, minha netinha,
voc precisa ajudar o Bom Senhor com seu mundo! Ele nos colocou aqui e nos chama para que possamos ajud-lo (...) Voc pertence  Escola McDonogh, e h de chegar
o dia em que todos sabero disto, at mesmo aquelas pobres pessoas -Senhor, eu peo por elas! -, aquelas pobres, pobres pessoas que esto l fora gritando para voc.
Voc  uma filha de Deus, e ele tem colocado sua mo sobre voc. Ele tem um chamado para voc, um chamado para servir, em seu nome!"
      Nos grficos que Coles possua sobre o desenvolvimento moral, o amor magnnimo pelos inimigos aparecia no topo, sendo um nvel atingido apenas por pessoas
como Jesus, Gandhi e um punhado de santos preciosos. Ele no tinha esperana alguma de encontrar tal filosofia sendo vivida diariamente por meninas de seis anos
de idade e suas famlias "privadas de cultura".
      "Todas as suas notas eram A, mas ele era sempre reprovado no viver cotidiano", disse o romancista Walker Percy sobre um de seus personagens em The Second Corning.
O Dr. Robert Coles comeou a pensar se tal descrio no se aplicava tambm a ele.

UMA VOZ DE UM DOS LIVROS DE COLES:
   No ano passado, fomos para uma pequena igreja de Nova Jersey (...) Todos os nossos filhos estavam l, inclusive o beb. O reverendo Jackson estava l - no consigo
esquecer seu nome -, e pediu a todos que ficassem quietos. Disse que deveramos estar felizes por morar neste pas, pois ele  cristo e no "mpio". Continuou falando
sobre os outros pases, no me lembro de quantos, que eram todos "mpios". Ento, meu marido perdeu a pacincia: acho que alguma coisa aconteceu com seus nervos.
Ele se levantou e comeou a gritar, sim senhor. Levantou-se e falou com o reverendo Jackson, dizendo que ele calasse a boca e nunca mais falasse - no a ns, os
migrantes. Meu marido disse a ele que voltasse para sua igreja, seja l qual fosse, nos deixasse sozinhos e que no ficasse ali em p, olhando para ns com aquela
cara de bonzinho, como se estivesse nos fazendo um favor. Ento ele fez a pior coisa que poderia fazer: pegou um beb, a pequena Annie, e a segurou bem na cara do
pastor, e berrou, gritou e esperneou, como nunca vi ningum fazer. No me lembro do que ele disse, as palavras exatas, mas ele falou ao pastor que aquela era a nossa
pequena Annie, e que ela nunca tinha ido a um mdico, e que estava doente, e eu e ele sabamos disso, porque seu estmago no segura nenhuma comida e ela tem tremores,
"e eu tenho medo que ela morra", mas que "com a graa de Deus ela vai sair dessa" e que "ns no temos dinheiro nem para Annie nem para ns mesmos".
   Ento ele levantou a Annie, colocando-a numa posio mais alta que o reverendo, e perguntou por que ele no orava pela Annie e orava para que os fazendeiros fossem
punidos por aquilo que estavam fazendo a todos ns, os migrantes. O reverendo no respondeu, porque acho que ficou assustado. Ento meu marido comeou a gritar um
pouco mais, sobre Deus e por que ele nos desprezava, enquanto tomava conta de todas as outras pessoas por a (...) E segurou a Annie o mais alto que podia, perto
da cruz, e disse a Deus que era melhor que ele no tivesse mais pastores falando por ele, e que ele deveria vir e ver com seus prprios olhos, e no deixar que os
"pregadores" - ele os chamava "pregadores" - falassem por ele.
   (Extrado de Migrants, Sharecroppers, Mountaineers)

      Deixando em sua casa de Massachusetts todos os seus diplomas e licenas para exercer a Medicina, fornecidos pelas mais famosas universidades do pas, Robert
Coles comeou a se dedicar ao trabalho que tem executado nos ltimos 40 anos. Alguns poucos contatos com pessoas como Ruby e Tessie o haviam inspirado. Ele comeou
a visitar a periferia, os trailers e as fazendas do Sul. Ele e sua esposa Jane, uma professora, comearam a conhecer as crianas, a visitar suas salas de aula e
a dizer, tanto a elas quanto a seus pais, que eles queriam conhecer a vida das pessoas.
      As primeiras entrevistas foram desajeitadas e desconfortveis, pois as famlias viam os estranhos com suspeita. Durante as primeiras visitas, Jane e Robert
no receberam sequer a oferta de um copo com gua. Um amigo negro lhes disse: "Nenhum branco esteve por aqui, exceto aqueles que vieram tirar alguma coisa". No comeo,
os Coles apenas ouviam; depois de um tempo, comearam a tomar nota. Quando finalmente acharam que tinham ganhado a confiana deles, pegaram o gravador. Gradualmente,
a famlia inteira se abria, como a esposa da famlia dos meeiros j mencionado.
      Coles nem sempre conseguia - nem tentava - manter uma distino entre observador e participante. Na cidade de Atlanta, enquanto estudava os primeiros dez adolescentes
negros a integrar a escola pblica dessa cidade, Coles ouviu falar do Comit Coordenador de No Violncia Estudantil, conhecido pela sigla SNCC e liderado por James
Foreman e Stokely Carmichael. Ele lhes ofereceu seus servios como mdico e psiquiatra, e pediu permisso para entrevistar os alunos que trabalhavam. Eles o deixaram
arrasado. Oprimido, ele perguntou se havia alguma coisa que pudesse fazer para ajudar a causa. Jim Foreman respondeu: "Sim, voc pode nos ajudar mantendo este lugar
limpo!"
      Nas semanas e meses que se seguiram, chegando ao perodo de um ano, ele serviu como zelador residente, varrendo o cho, passando aspirador de p, lavando a
loua, esfregando o banheiro. Ao fazer isto, ele percebeu que metade dos pais negros que ele conhecia faziam o mesmo tipo de trabalho como sua principal ocupao.
Agindo assim, ganhou o respeito relutante e a confiana dos estudantes, ouviu suas histrias ao longe e se juntou ao movimento em seu nvel mais baixo. Chegou at
mesmo a passar um perodo na cadeia, quando a Casa da Liberdade do SNCC, no Mississippi, foi bombardeada e, pela lgica kafkiana 30 daquela poca, seus moradores
foram presos por perturbarem a paz. Em 1964, no ltimo momento, ele mudou seus planos de acompanhar trs defensores dos direitos civis que estavam empenhados em
registrar eleitores no Mississippi, os quais foram encontrados mortos no fundo de um pequeno aude.
      A partir dessas experincias, surgiu um fluxo de palavras que se tornou uma cascata. Coles e sua esposa editaram as transcries das fitas, colocaram as idias
numa ordem lgica e tiraram concluses sobre aquilo que haviam aprendido. Um livro sobre os moradores do Sul dos Estados Unidos chamado Children of Crisis: A Study
of Courage and Fear transformou-se no primeiro volume de uma srie que inclua migrantes, meeiros e montanheses (volume 2); habitantes dos Apalaches e os pobres
das cidades do Norte (volume 3); esquims, latinos e ndios (volume 4); e os filhos de ricos (volume 5). Baseando-se em conversas verdadeiras com crianas, ele procurava
chegar a uma voz nica, agindo meio como transcritor, como Studs Terkel, 31 e meio intrprete, como Bruno Bettelheim.32 Pelo menos ele tinha encontrado uma forma
de combinar sua paixo pela literatura com seu treinamento cientfico.
      O trabalho com pessoas comuns deu a Coles uma segunda formao. Ele comeou a conhecer as pessoas como indivduos, no como membros de um grupo social. Encontrou,
em diversas pessoas desamparadas, uma reserva de fora interior que ele no havia encontrado em moradores de bairros de classe mdia ou nas escolas dos mais favorecidos.
Um trabalhador analfabeto, por exemplo, levado de caminho por diversas fazendas pelo Sul do pas, confinado em celeiros e galinheiros  noite, que recebe um dlar
por hora como pagamento por um trabalho opressivo - de onde uma pessoa como essa tira foras para sobreviver? De acordo com o behaviorismo 33 que Coles aprendeu,
essas pessoas deveriam ter se enfraquecido pelas circunstncias que viveram, ou, na melhor das hipteses, ficariam totalmente exasperadas. Em vez disto, tal como
muitos portadores de hansenase que o Dr. Brand tratou na ndia, os pobres norte-americanos tambm mostravam momentos de transcendncia e graa que desafiam qualquer
explicao.

      Os livros de Coles esto repletos de retratos verbais de pessoas que, de alguma maneira, colocam-se acima da misria de suas vidas, como nufragos que, pela
graa, encontram uma bia salva-vidas. Como eles falavam muito de Deus, Coles comeou a freqentar a igreja com os pobres. Num primeiro momento, tendo em mente a
idia de que a igreja era um lugar solene, no qual se vivia uma experincia at certo ponto intelectual que no extrapolava uma hora, considerou a informalidade
e a alta dose de emocionalismo algo assustador. Ele ia aos cultos, ouvia o canto e assistia  congregao e ao pastor com olhos frios e impassveis, alerta a algum
sinal indicativo da operao das foras psicossociais na religio dos pobres.
      Por diversas vezes, ele viu migrantes e negros pobres e, sim, operrios brancos, profundamente transformados por aquilo que acontecia dentro de suas igrejas.
Coles tinha de admitir que alguma coisa muito poderosa flua livremente naqueles cultos, algo no facilmente explicado pelo jargo que ele aprendera na faculdade
de Medicina. Pessoas cansadas saam renovadas; a fora da opresso parecia aliviada; o dio estava um pouco abrandado. Ele no encontrava categorias, a partir do
treinamento que recebera, que pudessem explicar o que via:

   Vou, porem, tentar. Meu palpite talvez esta seja a melhor forma de dizer -  o animado esprito do Esprito, como aconteceu de algum como eu ver, ouvir e sentir
esse Esprito atuando, tornando-se um evento. Ele  um evento: alguma coisa acontece, alguma coisa  feita; o adorador se sente tomado, sente-se no mais como algum
que fala sobre o Esprito, que apenas usa essa palavra, mas, ao contrrio, como algum que pelo menos est no caminho, pelo menos se prope a fazer algo. Eu diria
at ir a algum lugar. Nas igrejas rurais, algumas pessoas so movidas e transportadas, outras so elevadas e chamadas, outras usam os braos, as mos e as pernas,
outras se curvam, se esticam, do voltas e, sim, definitivamente sim, chegam l.
   (Extrado de Migrants, Sharecroppers, Mountaineers)

      O pobre no tinha respostas para as injustias da vida. Teria sido apenas resultado de um nascimento acidental que o condenava a um ciclo de sofrimento e pobreza?
Aquelas pessoas tinham pouco tempo livre para analisar tais questes. Mas quando eram perguntadas sobre a fonte da fora de suas vidas, normalmente apontavam para
Jesus. Para elas, a religio no era uma muleta, mas uma fonte de inspirao. Elas encontravam em Jesus e na imagem da cruz um raio de esperana que os convencia
de que Deus sabia de seu sofrimento. Como Fannie Lou Hamer costumava cantar nos campos de algodo do Mississippi e, mais tarde, na priso: "O Senhor, tu sabes exatamente
como me sinto".
      Uma mulher expressou seu estado desta maneira, em termos quase kierkegaardianos:34

   Minha vontade no  o que importa: a vontade de Deus  que  importante. Se ele quer que eu sofra assim, acho que ele tem suas razes. Voc est aqui para provar
sua confiana nele. Se algum me oferecesse um milho de dlares e dissesse que eu poderia ter tudo o que eu e meus filhos quisssemos para comer, mas que tivesse
de parar de pensar nele e comeasse a pensar apenas em mim, ento eu teria certeza de que estava realmente entrando numa encrenca. Comearia a me preocupar comigo
mesma. Eu "espero" que o faria. Eu espero que me lembraria de Jesus. Ele nos advertiu sobre pensarmos em ns mesmos, e no nele. Ele pediu muito de ns.
   (Extrado de Migrants, Sharecroppers, Mountajneers)

      Coles refletiu sobre as circunstncias peculiares da vida que Deus havia escolhido para vir  Terra. Como sua me costumava lembr-lo, ele veio como carpinteiro,
associou-se a pessoas simples e pescadores, no como um doutor, advogado ou professor universitrio. Nas palavras do pai de Annie, Deus veio para "ver com seus prprios
olhos".
      "Ns temos a mente de Jesus Cristo em nossas cabeas", disse um agricultor migrante numa entrevista, e, naquele tempo, Coles pensava como um doutor, imaginando
que aquele homem estava bbado, era louco, estava delirando ou era lento no pensamento. Somente mais tarde, quando Coles parou para refletir como a mente de Jesus
Cristo podia ser realmente vivida - em solido e afastamento, em dor, em escrnio, isolamento, solido, a "mente" do kenosis, ou vazio -,  que ele conseguiu enxergar
a profunda verdade daquilo que o homem havia dito. "Voc sabe que ele no precisava vir aqui", disse uma menina, referindo-se a Jesus.
      Em seu trabalho com os pobres, Coles tentou evitar a armadilha de romantizar a pobreza e ver a religio como uma consolao que mantinha os pobres calmos.
Ele fez lobby no Congresso e escreveu em jornais liberais para apoiar os programas sociais e o programa Guerra  Pobreza. Mesmo assim, ele no podia negar a realidade
da vida de f entre as pessoas com as quais vivera. Entretanto, quando ele escrevia sobre o efeito da religio sobre os pobres, os revisores o saudavam com um educado
silncio. Aplaudiam suas pesquisas de campo e seu refinado retrato da experincia da pobreza. Citavam-no com freqncia. Mas o ignoravam nesta rea - a da religio
-, que parecia a Coles ser mais importante para os pobres.
      Coles chegou a acreditar que aquilo que aprendera na escola sobre religio - que, como "pio do povo", ela anulava a indignao moral e poltica - era um mito
perpetrado pelos cientistas sociais sem religio que tinham pouco contato real com os pobres. Junto aos pobres que ele visitava, quer estivessem na frica do Sul,
no Brasil, no norte da Irlanda ou nos Estados Unidos, a f religiosa normalmente aguava, em vez de anular, a indignao e a afronta. Ele leu outra vez os pronunciamentos
dos profetas hebreus e os de Jesus. E viu pessoalmente o resultado prtico daquela mensagem entre as "comunidades de base" na Amrica Latina, entre os negros da
frica do Sul e os inflamados pastores que lideraram o movimento dos direitos civis no Sul dos Estados Unidos.
      Como lhe disse um jovem que protestava em Birmingham, Alabama, em 1965: "No sei por que disse 'no'  segregao. Sou apenas mais um sulista branco, ensinado
desde pequeno a no concordar com a integrao racial. Mas fui ensinado a amar a Jesus Cristo, e quando vejo os policiais da cidade atiando ces contra o povo,
pergunto a mim mesmo o que Jesus teria feito - e isso  tudo o que sei sobre ter chegado at aqui, na linha de fogo".

      Com o passar dos anos, enquanto lia os textos de Robert Coles, eles surtiam um efeito peculiar em mim. Coles deixa que as pessoas que ele entrevista falem
por si mesmas, o que leva alguns leitores a reclamar, dizendo que o acmulo de vozes pode ter um efeito de entorpecimento. Para mim, porm, elas so acompanhantes
que me levam a fazer uma nova visita ao meu passado, dessa vez com os tapa-olhos retirados.
      Cresci num dos lugares onde Coles trabalhou. Enquanto ele aconselhava os dez adolescentes negros matriculados em escolas pblicas em Atlanta, eu freqentava
o segundo grau no municpio vizinho de De Kalb, numa rea to infestada pela Klan que nenhum estudante negro ousava quebrar a barreira da cor.
      Na igreja, eu ouvia James Foreman, Stokely Carmichael e os voluntrios da SNCC serem denunciados como agitadores estrangeiros, agentes comunistas enviados
para fomentar a revoluo. Anos mais tarde, atravs dos olhos de Coles, pude v-los como realmente eram: jovens idealistas, comumente motivados por sua f, que incluam
o termo "no-violncia" tanto no nome de sua organizao quanto em sua misso. Treinavam como soldados, porm nas tticas de no-violncia aperfeioadas por Gandhi
e pelo Dr. Martin Luther King Jr. O grupo chamado Freedom Riders (Cavaleiros da Liberdade), muitos deles adolescentes, mostrou enorme bravura ao entrar em um nibus
da Greyhound,35 determinado a ficar nas salas de espera do Alabama e do Mississippi. Em cada parada, uma turba de brancos os recebia com garrafas, tijolos e canos
de ferro. s vezes, o nibus no parava, passando velozmente pela multido e se dirigindo  prxima parada. Em outros momentos, o nibus fazia a parada e os voluntrios
desciam desarmados para enfrentar a violncia. Ento, com bandagens improvisadas sobre suas cabeas ensangentadas e costelas quebradas, eles entravam novamente
no nibus e continuavam sua jornada, interrompida quando uma bomba explodia  beira da estrada.
      Encontrei no apenas defensores dos direitos civis nos livros de Coles, mas tambm vi brancos pobres e preconceituosos, como as pessoas entre as quais cresci.
Tentei me desvencilhar delas, ficar acima delas, dissociar-me delas e coloc-las para fora de minha mente; e consegui, em parte, colecionando diplomas e me mudando
para Chicago. Quando ouvia as vozes de Coles, pessoas de minha infncia voltavam  minha mente, especialmente os vizinhos do trailer em que vivi. Meu amigo Neal,
que nos procurou em busca de abrigo quando seu pai bbado avanou para cima de sua me com uma garrafa de cerveja, estilhaando os vidros de um carro enquanto ela
apertava a buzina em desespero, gritando por socorro. Gypsy Joe, o lutador profissional de visual ensebado que usava rabo-de-cavalo e que tinha um estacionamento
para trailers na estrada, sujeito que se acostumara a fazer lutas falsas, mas, ainda assim, perigosas todas as semanas no centro de Atlanta. Meus colegas de 12 anos
de idade que fumavam nos bosques e brincavam de guerra em volta da estao de tratamento de esgoto perto de casa, e que arrombaram um trailer em que um homem havia
morrido de tanto beber e estava prostrado, morto, havia uma semana, at que o cheiro invadiu todo o parque.
      So pessoas assim que aparecem nos livros de Robert Coles. Durante a viagem de recapitulao pela qual ele me levou, pude perceber que eu havia trocado o velho
fundamentalismo por um de outro tipo, que nascera do esnobismo, em vez da ignorncia. Quo alegremente eu apontava os pecados e falhas das igrejas da minha infncia,
e como raramente eu me detinha nas coisas boas que tambm encontrava ali. Costumava desprezar os negros; hoje, desprezo os racistas. Uma grande parte da histria
oscila em torno de polaridades: pobres contra ricos, brancos contra negros, catlicos contra protestantes, muulmanos contra hindus, israelenses contra rabes, sendo
que a religio ergue uma ou mais barreiras. Coles, quase sozinho, tem tentado avaliar a dignidade presente nos dois lados simplesmente deixando que eles falem, valorizando
cada ser humano em toda a sua plenitude.
      Coles fala de um sermo improvisado que Martin Luther King Jr. proferiu um dia "aos irmos e irms do movimento", no escritrio do SNCC. Os voluntrios estavam
cansados da oposio implacvel e tinham poucas vitrias para mostrar por todos os esforos no registro de eleitores e na luta contra o desmantelamento das leis
de integrao. King temia que os estudantes ficassem amargurados e, em represlia, devolvessem aos seus oponentes o mesmo esprito de hostilidade que estavam recebendo
- em outras palavras, tornar-se inimigos. King lhes disse:

   Um grande perigo para ns  a tentao de imitar as pessoas a quem nos opomos. Elas nos xingam, ento ns tambm as xingamos. Talvez no chamemos ningum de "peo"
ou "z-ningum"; para eles h nomes com um verniz sociolgico ou psicolgico, certo lustro; mesmo assim, porm, so nomes- "ignorante" ou "mente fraca" ou "pateta"
ou "histrico" ou "branco-pobre" ou "consumido pelo dio". Eu sei que vocs podem me apresentar muitas provas defendendo essas categorias. Mas eu lhes peo encarecidamente
que as considerem como tais - como categorias; e lembro-lhes que em muita gente, em muita gente chamada de segregacionista, h outras coisas que fazem parte da sua
vida: esta ou aquela pessoa, que est aqui ou acol, pode ser outra coisa tambm - bondosa com os vizinhos e a famlia, prestativa e jovial no trabalho.
   Vocs sabem, penso eu, o que estou querendo dizer - que devemos fazer um esforo para no acabar usando esteretipos em relao queles a quem nos opomos, exatamente
como eles nos enfiam a todos ns nos seus esteretipos. Quem somos ns? No vamos proceder em relao a ns mesmos como outros (no papel de nossos opositores) fazem
conosco: tentar encaixar a todos ns numa categoria nica que tudo abrange - os virtuosos em oposio aos maus, os decentes em oposio aos maliciosos, preconceituosos,
os bem instrudos em oposio aos ignorantes. Vocs podem ver que eu poderia encompridar e muito essa lista - e ali est o perigo: a mentalidade "ns" ou "eles"
predomina, e ns de fato corremos o risco de cerrar fileiras exatamente com as pessoas a quem nos opomos. Eu me preocupo muito com isso nestes dias.
   (Extrado de The Call of Service )

      Lendo as palavras de King e a reao de Coles, percebi que o prprio Coles havia me alertado sobre essa tentao. Eu havia me tornado o iluminado, pensador
e culto observador cultural - a perigosa posio contra a qual Coles havia batalhado a vida toda, a arriscada postura do fariseu. Eu precisava redescobrir a verdade
niveladora do evangelho de Jesus, que tem mais atrao pelo filho prdigo do que por seu irmo responsvel e bem-sucedido. Carecia de uma mudana tanto no corao
quanto no pensamento. Assim como King buscava perdoar aqueles que o feriam, eu precisava perdoar a igreja que havia me machucado, ou ento seria deixado com um evangelho
de Lei, e no de graa; de diviso, em vez de reconciliao. Em seu trabalho prtico, Coles tinha inconscientemente descoberto um Jesus radical que havia exposto
minha prpria necessidade, at ento mascarada.
      Coles recorda uma viagem que fez de carro para Boston, saindo da Flrida, onde havia passado um tempo com trabalhadores migrantes. Por vrios meses, ele foi
o modelo de sensibilidade e compaixo, entrando nas cabanas dos migrantes, ganhando sua amizade, tratando-os com respeito, extraindo palavras deles, dando-lhes conselhos
mdicos. Mas quando atravessou a divisa estadual e parou por um instante para fazer um lanche num caf da Gergia, ele se pegou desprezando a garonete que levou
tempo demais para colocar mais caf em sua xcara. Pouco tempo se passara, e ele j estava se apoderando dos direitos ao privilgio. Logo estaria de volta  sua
casa amarela em Cambridge, com uma BMW estacionada na garagem.
      Com Coles, perteno a uma minoria privilegiada. Todos aqueles que esto lendo esta frase pertencem, na verdade, a uma pequena porcentagem das pessoas do mundo
que tm tempo e habilidade para ler e possuem recursos para comprar um livro. Como  que ns, os privilegiados, agimos como mordomos da graa que recebemos? Podemos
comear, conforme dito por Coles, tirando os rtulos que to imprudentemente colocamos naqueles que so diferentes de ns. Podemos comear buscando uma comunidade
que valoriza a compaixo pelos fracos, um instinto que o privilgio tende a suprimir. Podemos comear com humildade, gratido e reverncia, e ento prosseguir orando
sem cessar pelo maior dos dons, o amor.
      Como Martin Luther King Jr. disse a Coles, em uma entrevista:

   Comecei a pensar na dificuldade que tantas pessoas tm de viver sem algum a quem possam desprezar, mas desprezar mesmo. No se trata de aplicar um golpe em algum.
Trata-se de sentir compulso a olhar para dentro de si e ver aquilo que gosta. Meu corao se condi por pessoas que so chamadas "caipiras". Elas tm to pouco
- quando tm algo -, e o dio  uma posse na qual elas podem confiar, e que funciona para elas. Tenho menos pena de pessoas abastadas e estudadas por causa de seus
comentrios maliciosos, espertamente racionalizados, pela forma como mobilizam suas justificativas polticas e at mesmo morais para alcanar seus propsitos. Ningum
pede que elas se justifiquem. A Klan  seu bode expiatrio. Algum dia, todos veremos que, quando comeamos a perseguir uma raa, uma religio, uma etnia, uma regio
ou qualquer setor da humanidade do Senhor, estamos enfiando uma faca em seu corao, e ns mesmos sangraremos.
   (Extrado de Simone Weil: A Modern Pilgrimage, de Coles)

      Depois dos quatro volumes de Children of Crisis, concentrando-se nos grupos menos favorecidos em termos de direitos, Coles faz uma mudana em seu quinto volume,
chamado The Privileged Ones: The Well-off and the Rich in America. Apesar de seguir o mesmo estilo de entrevista que havia aperfeioado em seu trabalho com os pobres,
ele teve mais dificuldades para se aproximar dos ricos: barreiras de suspeitas efetivamente se levantaram e impediram que ele alcanasse o interior de suas vidas.
      Por 15 anos, Coles ouvira os pobres falar "deles", os privilegiados, os abenoados, aqueles que tinham comida sobre a mesa, mdicos  disposio, educao,
alguns carros e uma casa prpria, sem nenhum senhorio. Mas o que tal conforto produziu? Eram os ricos mais felizes? Tinham mais paz? Eram mais agradecidos? Mais
uma vez, o psiquiatra Coles encontrara paradoxos na natureza humana que pareciam desafiar as mais elaboradas formas behavioristas que ele aprendera - o mesmo paradoxo
que romancistas como Tolstoi e Dickens haviam explorado to magistralmente. Entre os pobres, ele esperava encontrar derrota e desespero; encontrou um pouco, sim,
mas tambm encontrou fora, esperana e coragem. Entre os ricos ele esperava satisfao e, em vez disto, encontrou fastio, alienao e decadncia.
      Coles explicou a ironia de seu ttulo, Os privilegiados, a um jornalista:

   H uma viso de que a ansiedade, a dor e o medo so partes integrantes da vida, que o prprio Deus assumiu uma vida assim, que ele viveu sob constante ansiedade,
dor e medo, e terminou como um criminoso comum pendurado numa cruz para morrer. Agora, se voc considera este tipo de existncia como uma coisa muito importante
e como um modelo de destino, ento ter dificuldades para se tornar uma pessoa bem-sucedida, pois trata-se de um contraponto ao que aprendeu sobre o que significa
ser de uma famlia de classe mdia. Voc enfrenta um dilema moral.
   (Extrado da revista Sojourners)

      Muitos dos defensores dos direitos civis da dcada de 1960 que Coles entrevistou vieram de tais famlias de classe mdia. Seus pais os perturbaram com a idia
de conseguir um bom trabalho e ter uma boa renda. Um deles reagiu da seguinte maneira s oraes preocupadas de sua me a seu favor: "Fico pensando o que Jesus diz
ao ouvir suas oraes. Fico com vontade de responder a ela, perguntando se Jesus teve algum emprego fixo, ou at mesmo se ele encontrou uma vocao. Jesus, o pregador
migrante, aquele que se tornou to impopular e perturbou tanto os grandes e importantes que foi crucificado".
      Ao trabalhar com os pobres e oprimidos, Coles ficou maravilhado com a maneira pela qual as suas vidas refletiam os profetas e o prprio Jesus. Talvez tenha
sido por isso que eles encontraram conforto na religio, sendo tambm a razo pela qual os crticos to cuidadosamente ignoravam o que eles tinham a dizer sobre
isso. As igrejas de classe mdia normalmente so agradveis, tranqilas e inofensivas, com cultos de adorao previsveis e controlados. O prprio Coles, um produto
da minoria privilegiada, comeou a se admirar com sua prpria resistncia ao poder de um evangelho radical. Ele no podia fechar os olhos  discrepncia entre os
ensinamentos bblicos sobre justia e integridade e as vidas que as pessoas privilegiadas tendem a ter, marcadas pela ganncia, pela competio e pelo status. Qual
era a mensagem do evangelho para os abastados? E para ele mesmo? Enquanto estudava a mente dos privilegiados, Coles percebeu que estava explorando a sua prpria.
Para sua vergonha, descobriu dentro de si muitas das mesmas tendncias problemticas.
      Ele notou que as pessoas confortveis estavam inclinadas a ter um sentimento de compaixo atrofiado, provavelmente mais dispostas a amar a humanidade como
um todo do que a se envolver com uma pessoa em particular. Ele mostrava compaixo? Como aluno de Harvard, lembra-se, com profundo remorso, que tratava a faxineira
do alojamento como uma servial inferior, mesmo obtendo nota "A" nas disciplinas ligadas  tica.
      E quanto  arrogncia? Como mdico, sofria essa tentao todos os dias. Alm do mais, ele era um especialista, o curandeiro que viera para salvar os inferiores.
Orgulho? O que realmente o motivava a conseguir os diplomas, receber os prmios, escrever todos os livros? Egosmo? Ele era generoso,  bom dizer, mas ele se dava
ao luxo de ser generoso. Nunca passara por necessidades, que  a situao diria de muitas pessoas pobres.
      Coles refletiu sobre estes assuntos em seu quinto volume, o livro que ele considera o melhor da srie, mas o mais desprezado pelos crticos. Por fim, ele passou
a crer que a mais perigosa das tentaes  a tentao da fartura. A riqueza amaldioa com uma das mos aquilo que abenoou com a outra. A concluso de Coles  que
ser privilegiado leva a um abafamento da compaixo, a uma restrio da comunho e ao crescimento da ambio.
      Filhos ricos que tentam romper com seu ambiente seguro e respondem ao chamado da conscincia representam uma ameaa aos outros. Coles entrevistou um filho
de uma famlia muito rica da Flrida que tivera contato com os ensinamentos de Jesus com a idade de dez anos. Comeou a repetir algumas das afirmaes de Jesus na
escola - como  difcil um rico entrar no cu e que os pobres herdaro o Reino. Suas perguntas se tornaram um tormento para os pais, os professores e o mdico da
famlia. Seus pais deixaram de lev-lo  igreja e marcaram consulta com um psicoterapeuta para curar seu "problema".
      Analisando os ricos e pobres que veio a conhecer, Coles ficou chocado com as ironias. Era verdade que os pobres eram amaldioados. Ele havia tratado de mineiros
com doenas pulmonares e crianas mal-nutridas como Annie, que fora apresentada pelo pai diante da cruz (ela morreu aos trs anos de idade). Mas, de uma maneira
estranha, porm inegvel, os pobres tambm eram abenoados, por qualquer que seja a razo, com qualidades como coragem, amor e uma grande disposio para depender
de Deus. A ironia: os bons humanistas trabalham a vida inteira para melhorar a condio dos desfavorecidos, mas para qu? Para elev-los ao nvel das classes superiores?
Para que eles tambm possam experimentar o enfado, a alienao e a decadncia?
      Na poca em que o ltimo volume de Children of Crisis foi publicado, Robert Coles chegara no a um novo lugar, mas a um lugar bem antigo. Viajou milhares de
quilmetros, gravou inmeras fitas e escreveu milhes de palavras, todas apontando de volta ao Sermo do Monte. Ele descobrira que os pobres eram misteriosamente
abenoados e que os ricos viviam em perigo. Ele tinha aprendido que o mais importante no vinha de fora - as circunstncias da vida -, mas do interior, de dentro
do corao de um homem, de uma mulher ou de uma criana. Ele havia comeado sua pesquisa com a cabea cheia de frases como "complexo de culpa", "distores de carter",
"resposta a estmulos". Saiu do trabalho com palavras da moda antiga como conscincia, pecado e livre-arbtrio.
      O que ele poderia fazer com tudo isso? Coles ousou no glorificar a pobreza, pois seu campo de pesquisa lhe mostrara a tolice desse romanticismo. Tambm ousou
no glorificar a riqueza, o que ele hoje v como uma distrao ou verdadeiro impedimento quilo que  mais importante. Foi ento que ele se voltou a alguns homens
e mulheres selecionados que haviam feito dos assuntos espirituais o foco de suas vidas. O Dr. Robert Coles, o cientista social, continuou a perseguir seu trabalho
diligentemente, mesmo quando um novo papel surgiu em sua vida: professor de Literatura Espiritual em Harvard.

      Depois de ter sido indiretamente influenciado por Robert Coles durante vrios anos, pedi-lhe uma entrevista pessoal, e ele graciosamente concordou. Ele me
disse que gostava de se encontrar com visitantes num restaurante popular prximo ao seu escritrio, longe de interrupes, e, assim, nos encontramos no Bartlee's
Famous Hamburgers. Internamente, o lugar era decorado como um cenrio hollywoodiano demais para um estabelecimento prximo de Harvard: lambris de madeira, cadeiras
plsticas vermelhas, um menu estilizado como uma lousa, com as letras imitando giz, um violino quebrado pendurado na parede. E psteres, muitos psteres. "No critique
o caf: voc tambm ser velho e fraco um dia", advertia um desses cartazes. Outro, de 40 anos atrs, mostrava o ator Ronald Reagan autografando caixas de cigarros
Chesterfield, indicando-os como presentes de Natal para seus amigos.
      O prprio Coles parecia mais um aluno do que um professor de Harvard: estava usando uma camisa de algodo azul toda amarrotada, cala cqui, com uma bolsa
bem colorida pendurada no ombro esquerdo.
      Ele tem estatura mediana e  magro. Seu rosto  queimado do sol e enrugado, com um cabelo despenteado como o de algum que fica o dia inteiro passando as mos
sobre ele. Fala de maneira anasalada, com um sotaque do Nordeste dos Estados Unidos, e ri alto e com facilidade diante de qualquer coisa que tenha a mnima pitada
de humor. Tradicionalmente ele toma apenas um copo de ch gelado no almoo antes de voltar para o seu escritrio, situado a apenas um quarteiro de Harvard. A universidade
lhe fornece o escritrio num espaoso canto de um antigo edifcio de tijolos. Uma placa na parede destaca que Franklin Roosevelt 36 (9) usou a sala como seu dormitrio
no perodo de 1900 a 1904. Na parede tambm est uma coleo de peas memorveis: um pster de Simone Weil, fotos de Bonhoeffer, Walker Percy, Dorothy Day, Erik
Erikson e James Agee. O escritrio  tranqilo, um bem-organizado lugar de retiro, uma base a partir da qual Coles planeja suas pesquisas de campo e prepara suas
palestras para as vrias escolas associadas a Harvard.
      Coles leciona tanto em Harvard quanto na Duke University, mas em nenhum dos dois lugares ele oferece um curso em sua rea de especializao - nada sobre pediatria,
psiquiatria infantil, sociologia ou mesmo tcnicas de entrevista. Em vez disso, ele fala sobre os grandes romancistas e os pensadores cristos. Sua leitura inclui
Tolstoi e Dostoievski, Pascal, Weil, Merton, Joo da Cruz, Dickens, Flannery O'Connor, Emily Dickinson, Robert Frost, Thomas  Kempis, Teresa de vila, Kierkegaard,
Bernanos, Silone, Agee, William Carlos Williams, Orwell, George Eliot e o amigo de longa data de Coles, Walker Percy. A partir desta lista, ele elabora cursos de
literatura de acordo com as necessidades de uma especialidade: "Literatura de Reflexo Crist", na universidade; "Literatura e Medicina", para a faculdade de Medicina;
"Moral e Pesquisa Social Atravs da Fico", para a escola de Administrao; e "Dickens e a Lei", para as turmas de Direito.
      O que transformou um mdico e cientista social num devoto da literatura? O prprio Coles responde: "Um homem como Tolstoi sabia mais de Psicologia do que todo
o cenrio cientfico da atualidade jamais saber. Para saber todas essas coisas sobre estgios da morte que esto aparecendo agora  s ler A morte de Ivan Ilych
37 - est tudo l. E quem pde adicionar mais sabedoria  questo dos problemas conjugais desde Ana Karenina? 38 Sem falar em Dickens, meu Deus, o que Dickens sabia
sobre a natureza humana! Eu simplesmente vou de um lugar a outro ensinando sobre esses romances e tentando, de alguma maneira, desfazer o mal nas faculdades de Medicina,
Administrao e Direito".
      Por que as escolas o convidam? "Eu no sei. Provavelmente por razes idlatras. Um nome escrito num panfleto, este tipo de coisa. Alguns dos alunos entendem
o propsito: ouo-os falar e percebo que eles foram tocados por aquilo que li. Mas aqui  difcil. Sabe, esta  a cidadela do "humanismo secular".
      "Mas a literatura tem seu poder", diz Coles. "Flannery O'Connor escreveu um maravilhoso livro de ensaios chamado Mystery and Manners, e o ttulo sozinho j
atinge em todas as cincias sociais: os romances reverenciam os mistrios e os costumes de indivduos. Por que no aprendemos isto, no lugar de todos aqueles jarges
ridculos e todas aquelas teorias elaboradas - a lngua morta e as absurdas simplificaes que com freqncia recebemos dos especialistas? Os romancistas no esto
interessados em teoria ou em transformar seus crebros em divinos rgos pontificais. Ao contrrio, eles evocam e louvam a complexidade, a ironia, a ambigidade,
o paradoxo. Eles descobrem e reconhecem que cada pessoa  um mistrio separado e finito, no alguma coisa que pode ser colocada em uma categoria ou outra."
      Robert Coles est recostado num sof marrom, com a luz do sol invadindo o recinto e as cortinas balanando com a brisa. Mas ele tambm poderia estar empertigado
numa plataforma, atrs de uma mesa - ou plpito, se voc preferir - em uma de suas aulas em Harvard. E  o que ele est fazendo agora: alunos com as melhores notas
do processo de admisso, com seus pedigree e roupas informais de grife, colegas do corpo docente com seus currculos, suas indicaes de comits e suas incontestveis
teorias, explicando a Economia, o comportamento humano e qualquer outra coisa do universo. E ele mesmo: Coles com freqncia volta-se para si, expondo a idolatria,
o orgulho e a dependncia em si que tem alimentado sua prpria vida.
      Os alunos tentam transform-lo num heri. Eles o aplaudem pelos anos que passou junto aos colonos migrantes. "Mas o que acontecia no fim do dia?", relembra
Coles a seus alunos. "Eles voltavam para suas cabanas e seus trailers e eu entrava pela portaria do Holiday Inn. Certamente eu sentia culpa, e acho que realmente
devia sentir.
      Posso imaginar o que alguns de ns, com nossa fobia pela culpa, diramos a Jesus: "Ei, rapaz, isso  fcil! No se preocupe com essas pessoas que precisam
de po. Por que voc est visitando prises? Est passando bem? Deve haver algum psiquiatra na Galilia com quem voc possa falar".
      Coles fala bastante de seus fracassos e imperfeies. Ele acha que deve pensar nisso para manter sob controle os pecados do orgulho e da arrogncia que brotam
de um lugar como Harvard. "Todo mundo quer encontrar uma forma de solucionar um problema ou silenciar uma questo", diz. "Os alunos esto sempre protestando por
uma coisa ou outra. S que estes mesmos alunos no vo atravessar a cidade e conversar com as pessoas que vivem em condies semelhantes s das pessoas em nome de
quem elas esto protestando.
      Tal como os fariseus, queremos provar que somos limpos e corretos. Mas Jesus e os profetas mantm as perguntas no ar: 'E a, voc no matou ningum? Odeia
alguma pessoa? Voc no comete adultrio? No tem nenhum desejo pecaminoso?' Gostamos de analisar a 'questo dos pobres'. Mas o que estamos fazendo por alguma pessoa
pobre, em particular? Fui ao Mississippi num momento de crise, esperando aprender sobre 'o problema do Mississippi'. Descobri que h um pouco do Mississippi em todos
ns - assim como um pouco de Massachusetts, frica do Sul e Irlanda do Norte, tambm."
      Para seus alunos em Harvard, para o grande pblico que compra seus livros, para os milhes que lem sobre ele em revistas e jornais, Robert Coles tenta manter
vivas as questes. "Est muito claro", disse ele a um reprter do Washington Post que preparava uma matria de primeira pgina, "que sou maluco por religio. O que
mais voc faz quando fica velho e pra para pensar sobre o sentido desta vida?" E, por causa de suas credenciais, as pessoas precisam parar e dar ouvidos ao que
ele est dizendo.
      "Em muitos aspectos, Bob  uma espcie de pastor", disse Phillip Pulaski, assistente de Coles, ao reprter. "Ele provavelmente  o professor mais influente
de Harvard em termos de impacto sobre a vida das pessoas."
      Se Coles estivesse na sala, teria colocado Pulaski para correr, depois de ouvir tamanho elogio. Ele teria se lanado numa forte crtica aos perigos do orgulho
e das idolatrias modernas. Porm, seus arquivos possuem diversas cartas de ex-alunos dizendo que ele foi o nico que pediu que eles considerassem as mais importantes
questes da vida enquanto estiveram em Harvard.
      Coles gosta de citar Kierkegaard. "Ele dizia que Hegel explicava tudo na vida, exceto como sobreviver a um dia comum."  por isso, mais do que qualquer outra
razo, que Robert Coles ensina Literatura para alunos de Administrao, em vez de lecionar Psiquiatria para estudantes de Medicina. Temos sistemas aqui para explicar
tudo, exceto como viver. Tambm temos categorias para cada habitante da Terra, mas quem  capaz de explicar uma nica pessoa?"
      Robert Coles consegue explicar uma nica pessoa? Depois de uma carreira dedicada a ouvir e a entrevistar, o que ele aprendeu sobre os seres humanos?  ele
capaz de destilar tudo isso e chegar a um grande resumo? Ele pensa por um instante, e ento aponta para uma Bblia em sua mesa. "Nada daquilo que aprendi sobre a
composio de um ser humano contradiz em qualquer aspecto aquilo que aprendi de profetas hebreus como Isaas, Jeremias e Ams, e do Livro de Eclesiastes, de Jesus
e das vidas daqueles que foram tocados por ele. Qualquer coisa que eu possa dizer sobre minha pesquisa no campo do comportamento humano  uma simples nota de rodap
referente quelas vidas do Antigo e do Novo Testamento."
      Ele prossegue: "Conheci seres humanos que, diante do insuportvel estresse do dia-a-dia, resistem e at reagem com nobreza. Tambm conheci outros que vivem
num ambiente confortvel e luxuoso, e, mesmo assim, parecem totalmente perdidos. Temos os dois lados dentro de ns, e  isto que a Bblia diz, no ? A Bblia nos
mostra tanto a esperana quanto o juzo, a possibilidade e a traio. Em suas histrias, h momentos em que o favorito  fatalmente tentado e o humilde e obscuro
se transforma num agente de esperana e at de salvao. Creio que essas histrias so uma parte de cada um de ns. Andamos numa corda bamba, oscilando entre a melancolia
e a perda da f, por um lado, e a tentao de se dar muita importncia ou valor, por outro. Os dois extremos levam ao pecado.
      Alguns crticos me atacam por dizer as mesmas coisas antigas sobre a natureza dos seres humanos: que somos uma mistura de bem e mal, de luz e trevas, potencialmente
inclinados  destruio e  redeno. Quero crer que eles desejam uma nova teoria. Mas a minha pesquisa simplesmente ratifica aquilo que a Bblia tem dito esse tempo
todo sobre os seres humanos.
      "Se eu puder tomar um estudante que, pela virtude de freqentar uma escola de prestgio,  seduzido pelo pecado do orgulho, se puder lev-lo a pensar em si
e em seu vizinho do modo como Jesus nos ensinou, ento terei servido a algum tipo de propsito aqui na Terra. Posso estar parecendo um pouco melodramtico, mas acho
que talvez Jesus no se importasse em entrar nessa escola de Medicina por intermdio das histrias de Flannery O'Connor.  assim que mantenho a tradio bblica
desta universidade, pois ela realmente lhe pertence e  um privilgio resgat-la como professor."
      A cada ano, quando comea suas aulas de literatura, Coles l uma citao do romancista James Agee. "Minha vontade era sair lendo o Evangelho de Lucas logo
de cara, mas isto no funcionaria aqui. Assim, recorro a um grande trecho da literatura que aborda a mesma mensagem, tal como esta citao de Agee: 'Tudo que uma
pessoa , experimenta e sempre experimentar, seja no corpo ou na mente, tudo isso so diferentes expresses de si mesmo e de uma raiz, e so idnticas: e nenhuma
dessas coisas ou nenhuma dessas pessoas  passvel de ser duplicada, nem substituda, nem mesmo teve um precedente; mas cada um  uma vida nova e incomunicavelmente
afvel, ferida a cada suspiro e quase to facilmente morta quanto ferida, sustentando, por um momento, sem qualquer defesa, as enormes agresses do universo'."
      O que Robert Coles costuma falar em todos esses anos  sobre a inerente dignidade do ser humano, a imagem de Deus que vive em todos ns, negros ou brancos,
estudados ou analfabetos, ricos ou pobres, saudveis ou doentes - a fagulha que torna imortal aquilo que  mortal. Ele no comeou acreditando nisto, mas foi o que
as crianas lhe disseram, depois os romancistas e, por fim, o que ele mesmo confirmou em sua pesquisa.  isso o que ele est tentando dizer a todos ns agora:

   s vezes, quando paro e vejo uma criana tentando desenhar a face de Deus, seus atributos, a forma de sua cabea, os traos de sua fisionomia, lembro dos dias
nos quais trabalhei na cozinha dos Obreiros Catlicos de Dorothy Day. Certa tarde, depois de vrios de ns termos um enorme trabalho com um bbado, um cachaceiro,
um homem irado, truculento e boca suja na casa dos 50 anos, com um longo cabelo grisalho, uma barba cheia e irregular, com uma enorme cicatriz no lado direito do
rosto, uma boca sem nenhum dente, olhos vermelhos, um dos quais tinha um terrvel tique, Dorolhy nos disse: 'At onde sabemos, ele poderia ser o prprio Deus vindo
at ns para nos testar; portanto, vamos trat-lo como um convidado de honra e olhar para sua face como se fosse a mais linda que pudssemos imaginar'.
   (Extrado de The Spiritual Life of Children)

ROBERT COLES PARA INICIANTES
      A srie de cinco volumes intitulada Children of Crisis apresenta a marca registrada de Robert Coles - entrevistas, reflexes, interpretaes -, e os volumes
2 e 3 receberam o Prmio Pulitzer. Os leitores que acharem a leitura cansativa podero escolher obras mais concisas que foram reunidas: A inteligncia moral das
crianas 39, The Political Life of Children e The Spiritual Life of Children, The Call of Service e The Call of Stories tambm so representativos de sua abordagem.
      Alm disso, procure textos de Coles como se voc estivesse numa biblioteca. Crticas literrias? Experimente seus trabalhos sobre William Carlos Williams,
Walker Percy e os vitorianos ingleses. Biografias? Veja as vidas de Dorothy Day e Simone Weil, ou de Erik Erikson e Anna Freud. Teologia? Considere The Geography
of Faith, seu livro de conversas com Daniel Berrigan. Ou ento, seu livro de 1999, The Secular Mind, no qual Coles ousa questionar a mais consagrada premissa da
modernidade, aquela que diz que encontramos sentido dentro de ns mesmos, e no "l fora". Livros para crianas? Para uma biografia intelectual do prprio Coles,
o livro Intellect and Spirit, de Bruce Ronda,  o que apresenta o melhor panorama. E, para algum que no tem tempo para procurar, A Robert Coles Omnibus rene amostras
de diferentes obras, especialmente de ensaios sobre literatura.

6. Leon Tostoi e Fyodor  Dostoievski
Em Busca da Graa
      Minhas mais profundas dvidas sobre a f podem ser resumidas numa nica pergunta: por que ela no funciona? Por viajar pelo mundo todo, vejo que o cristianismo
traz uma srie de melhorias  cultura. Educao, cincia, medicina, direitos humanos, democracia, arte, caridade -todas essas coisas se desenvolveram com maior vigor
a partir de razes crists e permanecem estagnadas em alguns dos pases no cristos que visitei. Porm, quando falo com muulmanos ou hindus devotos, eles citam
as diversas guerras que assolaram a Europa durante sua fase predominantemente crist e o crime, a decadncia e a ruptura da famlia que caracterizam o ocidente cristo
atual. No tenho defesa contra esses argumentos.jamais encontrei algum seguidor de qualquer religio que no lenha apreciao por Jesus, mas e quanto  Igreja? Como
um amigo judeu me disse certa vez: "Jesus pregou um evangelho maravilhoso. A admirao por Jesus est crescendo cada vez mais entre ns, judeus. Porm, mostre-me
o prometido Reino de Deus. Olhe para a Histria, especialmente a perseguio que os cristos empreenderam contra os da minha raa. Este lugar realmente se parece
com um mundo redimido?" O judeu olha para o mundo e pergunta por que o Messias ainda no veio; o cristo, que acredita que o Messias j veio, fica espantado com
o mal que ainda  abundante.
      Em sua autobiografia espiritual, chamada Uma confisso, Leon Tolstoi menciona que os cristos s vezes tratam uns aos outros de maneira pior que as pessoas
de outras crenas. Ele cresceu pacificamente entre catlicos, protestantes, ortodoxos e pessoas semelhantes aos anabatistas, mas a Igreja Ortodoxa Russa lhe disse
que "estas pessoas so flagradas em mentiras, o que lhes d a fora vital  uma tentao do demnio, e somente ns possumos a nica verdade possvel". "E vi que
aqueles que no professassem uma f idntica eram considerados hereges pelos ortodoxos, assim como os catlicos e as outras igrejas chamavam de hereges os prprios
ortodoxos."
      Quando penso nos indivduos cristos que conheo, vejo algumas pessoas que mudaram para melhor por causa de sua f, mas tambm encontro alguns que pioraram
bastante. Para cada cristo gracioso, animado e perdoador, posso apontar um que  orgulhoso, malvado e julgador. Em minha prpria experincia, pude perceber que
aqueles que mais se esforam e crem de maneira mais fervorosa geralmente so as pessoas menos atraentes. Como os fariseus dos tempos de Jesus, eles se envolvem
numa competio e terminam mais hipcritas que justificados. Os polticos dizem que as cartas mais srdidas que recebem vm de pessoas que citam a Bblia e clamam
para si a autoridade de estar falando em nome de Deus - o que eu realmente acredito, pois minha caixa de correio est repleta de cartas que seguem o mesmo padro.
Como  possvel resolver a tenso entre os ideais do evangelho e a realidade daqueles que o professam?
      Hoje em dia, vejo adolescentes usando pulseiras com as letras, em ingls, "WWJD" (What would Jesus do?) para lembrar-lhes a terrvel pergunta: "Em seus passos,
o que faria Jesus?" 40  Esta pergunta est baseada no ttulo do livro de Charles Shekion In His Steps (Em seus passos, o que faria Jesus? 41), que conta a histria
de um grupo de pessoas comuns que solenemente votou agir como Jesus agiria, baseando suas aes nos captulos 5 a 7 de Mateus. Como adolescente da dcada de 1960,
muito antes de os marqueteiros descobrirem o potencial de vendas do WWJD, li o livro de Sheldon e fiz a mesma pergunta a mim mesmo todos os dias. Quase fiquei louco.
Se eu desse esmolas a todo o mundo que me pedisse, logo ficaria sem dinheiro. Num lampejo de raiva, chamava meu irmo "bobo" ou alguma coisa pior, e logo depois
ficava preocupado por ter me arriscado a arder no fogo do inferno. Ser que eu deveria arrancar um olho por dar uma olhadela na revista pornogrfica do meu vizinho?
Deveria eu no reclamar quando os meninos da escola me jogavam para fora do nibus ao chegar no meu ponto? Tentei fazer isso at o dia em que me cansei de chegar
em casa com o nariz sangrando.
      Havia uma mulher perfeita na igreja em que cresci. Pelo menos era este o ttulo que ela dava a si, insistindo que nunca havia pecado em 12 anos. Posso me lembrar
do meu tempo de criana, muito ciente de todos os meus pecados, quando olhava para aquele maravilhoso estado de perfeio. Nunca duvidei de sua sinceridade, pois
como uma pessoa perfeita poderia mentir? Durante os cultos, s vezes ficava olhando para ela, tentando descobrir seu segredo. Agora, porm, olho para trs com pena
daquela mulher. O apstolo Joo no poderia ter sido mais direto: "Se dissermos que no temos pecado nenhum, a ns mesmos nos enganamos, e a verdade no est em
ns" (1 Jo 1:8). Apesar de aquela mulher ter conseguido evitar os pecados abertos e bvios, duvido que ela tenha obedecido ao p da letra aquilo que Jesus chamou
de primeiro e maior mandamento: amar a Deus com todo o seu corao, alma e entendimento. Sua atitude presunosa e superior denunciava que ela provavelmente j havia
sido vtima do pecado do orgulho.
      Vrias passagens do Novo Testamento, notadamente o Sermo do Monte, falam de altos ideais ticos - dar a todo aquele que pede, amar os inimigos, nunca cobiar,
no odiar, perdoar sempre, receber a perseguio com alegria -, o que inevitavelmente se ope  repugnante realidade do comportamento humano vigente. Tenho sentido
uma tenso constante e sem soluo quanto s falhas do cristianismo.
      Como jornalista, tenho observado de perto tanto os aspectos espetaculares quanto os mais vis de proeminentes lderes espirituais, muitos dos quais nunca vieram
a pblico. Quando decido escrever sobre mim mesmo, em vez de escrever sobre os outros, logo descubro que escrevo muito melhor sobre disciplinas espirituais do que
as pratico. Somos chamados a lutar por ideais que nunca podero ser alcanados?
      No havia encontrado maneira alguma de abordar a dissonncia cognitiva que me manteve num estado de inquietao espiritual, at que me deparei com os escritos
de dois romancistas russos do sculo XIX. Minha compreenso da tenso entre os ideais cristos e a realidade agora  formada parte por Tolstoi, parte por Dostoievski.
      No incio da dcada de 1970, Malcolm Muggeridge 42 ouviu, para sua surpresa, que membros da elite intelectual da Unio Sovitica, ainda sob o regime comunista,
estavam experimentando um reavivamento espiritual. Um dissidente russo que vivia exilado na Inglaterra disse-lhe que virtualmente todo escritor, artista ou msico
de renome estava explorando questes espirituais. Muggeridge relata: "Perguntei-lhe como aquilo poderia estar acontecendo, dados os intensos esforos de lavagem
cerebral anti-religiosa sobre os cidados e a ausncia de literatura crist, inclusive os Evangelhos. Sua resposta foi memorvel. Ele disse que as autoridades esqueceram
de suprimir as obras de Tolstoi (1828 - 1910) e Dostoievski (1821 - 1881), as mais perfeitas exposies da f crist dos tempos modernos".
      Exatamente na mesma poca, eu morava no ocidente, cercado de cristos, saturado de literatura religiosa e, francamente, incapaz de entender a maioria delas.
Esses dois romancistas russos, que ningum poderia acusar de serem equilibrados ou at mesmo psicologicamente sadios, ajudaram a restaurar em mim um senso de equilbrio.
Assim como Robert Coles havia descoberto que os romancistas sabiam mais sobre o comportamento humano do que todos os seus professores de Psicologia, eu tambm descobri
que eles sabiam mais de Teologia que a maioria dos telogos. Em um estgio crucial de minha peregrinao, eles se tornaram os orientadores espirituais que me levaram
 resoluo de um problema que atormenta todo cristo zeloso - ou o seguidor de qualquer religio, no que diz respeito a este assunto, conhecido como o grande hiato
entre a vida como ela deveria ser e a vida como ela ; entre a teoria da f e sua prtica.

      Na histria da literatura, ningum superou a Leon Tolstoi na habilidade de retratar a completa essncia da vida. Virgnia Woolf expressou assim:

   Nada parece lhe escapar. Nada passa diante dele sem ser registrado (...) Cada folha, cada pena  atrada por seu m. Ele nota o azul ou o vermelho das vestes
de uma criana; a maneira como o cavalo abana sua cauda; o som de uma tosse; o ato de um homem colocar as mos num bolso que j foi remendado. Quando seus olhos
infalveis registram uma tossidela ou a habilidade de mos, seu crebro infalvel se refere a algo escondido em seu carter, de modo que passamos a conhecer quem
so seus personagens no apenas atravs da maneira como eles amam ou como vem a poltica ou at a imortalidade da alma, mas tambm pela maneira como eles assoam
o nariz e ficam sufocados. Sentimos como se fssemos colocados no topo de uma montanha e tivssemos um telescpio ao alcance de nossas mos. Tudo fica impressionantemente
claro e absolutamente ntido.

      Um dos bigrafos de Tolstoi comentou que quando terminou de ler Guerra e paz e voltou " vida normal", teve a sensao de voltar a algo mais plido e menos
verdadeiro do que a prpria arte de Tolstoi. Tive exatamente a mesma experincia. Meu mundo criou vida nos romances deste escritor, separado de mim por metade do
mundo e por quase um sculo. Quando Tolstoi descreveu a primavera, a maravilha das delicadas flores desabrochando pela tundra que derretia, atribuiu  mesma exuberncia
o significado que deu  descrio do xtase religioso. Ao fazer isso, ele me ensinou como ir alm de mim mesmo.
      Hoje, quando olho para trs e vejo o claustro do fundamentalismo do Sul dos Estados Unidos, em que cresci, fico pensando se talvez no estivesse sofrendo de
uma disfuno narcisista (talvez todos os adolescentes sofram disto, no ?). Via o mundo atravs das venezianas fechadas da igreja e da famlia, sem a capacidade
de projetar fora de mim e compreender o ponto de vista de, digamos, um meeiro na rea rural do Alabama ou de um imigrante polons do Bronx; quanto mais um membro
da aristocracia russa ou um campons da Rssia do sculo XIX. Tolstoi abriu as cortinas, mostrando para mim um mundo do qual no conhecia nada. De maneira especial,
ele criou em mim compaixo pelos pobres.Na poca em que ele escreveu, a Rssia tinha 50 milhes de servos; quase metade da populao vivia como verdadeiros escravos,
possudos por seus senhores. Com as terras antigas onde ele vivia e escrevia, Tolstoi herdou centenas desses camponeses, um nmero que flutuava enormemente quando
ele perdia ou ganhava essas almas em rodadas de apostas. Ao contrrio da maioria dos donos de terras, porm, ele caminhava entre os camponeses e os conhecia. Tolstoi
concluiu que os camponeses tinham vida mais rica e muito mais interessante que sua prpria vida na aristocracia:

   A vida de um trabalhador, com sua infindvel variedade de formas de trabalho e os perigos ligados a esta atividade no mar e sob a terra; suas migraes, as relaes
com os empregadores, supervisores e pares, e com os homens de outras religies e nacionalidades; suas lutas com a natureza e os animais selvagens, as associaes
com animais domsticos, o trabalho na floresta, nas estepes, nos campos, no jardim, no pomar (...) Para ns, que no temos esses interesses e no possumos percepo
religiosa alguma, tudo isso nos parece montono em comparao com aquelas pequenas alegrias e insignificantes cuidados de nossa vida - uma vida sem labor e sem produo,
mas de consumo e destruio daquilo que outros produziram para ns. Pensamos que os sentimentos experimentados pelas pessoas de nossos dias e de nossa classe so
muito importantes e variados; mas, na realidade, quase todos os sentimentos das pessoas de nossa classe se resumem em no mais do que trs sentimentos bastante insignificantes
e simples: o sentimento do orgulho, o sentimento do desejo sexual e o sentimento de enfado da vida. Estes trs sentimentos, com suas conseqncias, formam quase
que a essncia nica da arte da classe rica.
   (Extrado de What is Art? 43)

      As diferenas entre a vida simples dos camponeses e a vida de tolerncia das pessoas ricas como ele mesmo comeavam a corroer Tolstoi, paralisando sua capacidade
de escrever. Seus camponeses, ao que parece, conheciam o significado da vida e do trabalho, sabiam como suportar o sofrimento e conheciam o significado da morte,
coisas totalmente desconcertantes para ele. Tolstoi estudou a filosofia de Buda, Schopenhauer e Jesus em busca de suas prprias respostas para esses mistrios, e
no encontrou alvio. Por fim, concluiu que o problema principal no estava to ligado ao modo errado de pensar, mas na maneira de agir. Sendo um parasita nas costas
de seus trabalhadores, ele mal podia dizer que vivera uma vida. "Meu corao estava oprimido por um sentimento doloroso, que somente posso descrever como uma busca
por Deus", escreveu ele. "Era um sentimento de medo, orfandade, isolamento numa terra estranha e a esperana de ajuda de algum."
      A busca tornou-se to intensa, na verdade, que Tolstoi se desviou de sua misso artstica e buscou quase que unicamente resolver as importantes questes sobre
o sentido das coisas. Para o desalento dos crticos literrios e dos leitores que ansiavam por mais romances grandiosos, ele dedicou os melhores anos de sua vida
 especulao religiosa. Como escritor e peregrino, lutou com a tenso entre o mundo como ele  e como ele deveria ser. Escreveu centenas de pginas em cadernos
de anotao, transformando-os em seu dirio espiritual. Desenvolveu uma esttica altamente moralista (em sua obra What is Art?) e escreveu livros nos quais exps
suas crenas religiosas.
      Assim como Tolstoi tinha a capacidade nica de retratar o mundo como se fosse a primeira pessoa que verdadeiramente tivesse visto um arado removendo enormes
torres de terra ou tivesse ouvido o gelo trincando num rio congelado, ele tambm agiu como se fosse a primeira pessoa a verdadeiramente levar os Evangelhos a srio.
Ele leu os mandamentos diretos de Jesus e tentou coloc-los em prtica. "Vai, vende tudo o que tens, d-o aos pobres e ters um tesouro no cu", disse Jesus ao jovem
rico (Mc 10:21). Depois de ler isto, Tolstoi liberou seus trabalhadores, cedeu os direitos de suas obras e comeou a se desfazer de todos os seus imveis. Para se
identificar com as pessoas comuns, vestiu roupas de campons, fez seus prprios sapatos e comeou a trabalhar nos campos.
      Os escritos espirituais de Tolstoi, diferentemente de sua fico, levantam argumentos de todos os lados. Mahatma Gandhi, achou-os profundamente tocantes, e
considerava a obra The Kingdom of God Is Within You (O reino de Deus est dentro de voc) como sendo a fonte de inspirao que orientou seus princpios de no-violncia,
simplicidade e pobreza intencional. Nos dias de Tolstoi, uma legio de idealistas, revolucionrios, pretensos santos e anarquistas quis ouvir de sua prpria boca
as fortes palavras sobre justia e dignidade humana. Para cada Gandhi motivado pelos altos ideais de Tolstoi, porm, outro leitor era repelido pela forma to pobre
quanto ele mesmo os vivia. O que Tolstoi encontrou nos Evangelhos o atraiu como uma chama; seu fracasso em realiz-los terminou por consumi-lo.

      Tolstoi era atormentado pela mesma tenso que todos os cristos sentem em alguma escala, a tenso que afligiu minha adolescncia. Quando escreveu sobre sua
f religiosa ou procurou viv-la, o antagonismo entre o ideal e o real o assombrou como um dybbuk. 44 O romancista John Updike mostra o outro lado em seu comentrio
sobre o dirio de 13 volumes de Tolstoi: "A luz da arte de Tolstoi raramente atinge a cela de monge de seu incessante moralismo e desprezo a si mesmo".
      As tentativas de Tolstoi na direo da honestidade e da mudana causaram infindveis problemas em sua prpria famlia. Como jovem oficial do Exrcito, ele
colecionara uma enorme lista de amantes, freqentara bordis, participara de orgias regadas a bebida e contrara doenas venreas diversas vezes. Ele diligentemente
registrou todas essas desventuras em seu dirio e, quatro dias antes de seu casamento, insistiu que sua noiva, uma recatada moa de 18 anos de idade, lesse o lgubre
relato. Ela nunca se recuperou de tal experincia.
      "Quando ele me beija, penso: no sou a primeira mulher que ele amou", escreveu Snia Tolstoi, em seu prprio dirio. Suas aventuras no Exrcito ela podia perdoar,
mas no o seu caso com Axinya, uma mulher camponesa que ainda trabalhava nas terras de Tolstoi. Todas as vezes que olhava para o filho de Axinya, via as feies
de seu prprio marido. Quando ele comunicou sua inteno de abdicar dos direitos de seus livros, ela queixou-se, dizendo que ele estava dando uma fortuna a excntricos
enquanto "po preto seria suficiente para seus filhos e netos". Seu desprezo pelas propriedades arruinou a renda da famlia; a abdicao dos direitos privou seus
herdeiros. Aquilo que Tolstoi considerava passos rumo  santidade, Snia via como tolice e abuso de sua famlia.
      Quando leio os dirios de Tolstoi, vejo flashbacks de minhas arremetidas rumo ao perfeccionismo. Os dirios registram muitas das dificuldades de Tolstoi com
sua famlia, mas principalmente as lutas de Tolstoi consigo. Seu desejo de alcanar o perfeccionismo o levou a delinear listas de regras ainda mais abrangentes.
Ele abandonou a caa, o tabaco, o lcool e a carne. Decidiu vender ou doar qualquer coisa suprflua - piano, moblia, carruagens - e tratar todas as pessoas da mesma
forma, de governadores a pedintes. Ele esboou regras para o desenvolvimento da vontade emocional, para o desenvolvimento dos sentimentos elevados e a eliminao
dos inferiores, e para subordinar a vontade ao sentimento de amor.
      Mas Tolstoi nunca conseguiu alcanar a autodisciplina necessria para viver de acordo com suas prprias regras. Terminou mantendo o piano e a moblia. Passou
as terras para o nome de sua esposa, mas continuou vivendo nelas e fazia suas refeies vegetarianas sendo servido por criados de luvas brancas. Mais de uma vez,
Tolstoi fez votos pblicos de castidade (Jesus no havia elogiado isso?) e pediu quartos separados. Ele nunca conseguiu manter estes votos por muito tempo pois,
para sua vergonha, as 16 gestaes de Snia evidenciavam isto ao mundo. Escreveu em seu dirio que sua esposa estava impedindo sua realizao espiritual ao insistir
numa maneira "normal" de viver a vida e, depois de ceder a seus apelos sexuais, ele adicionava um comentrio como "era to repugnante quanto a sensao de ter cometido
um crime". Snia continuou lendo esses dirios por toda sua vida, o que lhe infligia constante dor.
      s vezes, Tolstoi conseguia fazer um grande bem. Quando a fome assolou sua regio, passou dois anos organizando programas de atendimento, criando hospitais
de campanha e cuidando dos necessitados. Depois de um longo hiato literrio, ele escreveu seu ltimo romance, Resurrection (Ressurreio 45), j com 71 anos de idade,
em apoio aos Dukhobors, um grupo de 12 mil anabatistas que sofriam perseguio do czar, doando todo o lucro para financiar a emigrao daquele grupo para o Canad.
A filosofia de no-violncia de Tolstoi, tirada diretamente do Sermo da Montanha, teve um impacto que se prolongou para alm de sua prpria vida, por intermdio
de seus descendentes ideolgicos, como Gandhi e Martin Luther King Jr. Em todos os aspectos, porm, a busca que Tolstoi empreendeu pela santidade foi um total desapontamento.
Em resumo, ele no praticava aquilo que pregava. Sua esposa relata de maneira adequada (ainda que claramente tendenciosa):

   H pouco afeto genuno nele. Sua bondade no vem de seu corao, mas simplesmente de seus princpios. Suas biografias vo dizer como ele ajudou os trabalhadores
a carregar baldes de gua, mas nenhuma delas dir que ele jamais deu descanso  sua esposa e nunca, nestes 32 anos, deu a seus filhos um copo d'gua ou passou cinco
minutos ao lado de suas camas para que eu pudesse ter uma chance de descansar de meus trabalhos.
   (Extrado do Dirio de Snia)

      "Onde est seu amor?", perguntava ela depois de uma briga recheada de gritos. "Sua no resistncia? Seu cristianismo?" Ele jamais mostrou afeio aos filhos
que consumiram tanto da vida de sua esposa. Aquele que professava tamanho amor pela humanidade tinha dificuldades para amar qualquer indivduo em particular, at
mesmo os membros de sua prpria famlia.
      Os firmes passos rumo  perfeio nunca resultaram em qualquer aparncia de paz ou serenidade. At o momento de sua morte, seus dirios e cartas mantiveram-se
recordando o pesaroso tema do fracasso, expondo o distanciamento entre os ideais do evangelho e as contradies de sua prpria vida. Honesto demais para enganar-se,
ele no era capaz de silenciar a conscincia que o convencera. Alguns o chamaram hipcrita, mas o hipcrita finge ser algo que no ; Tolstoi sabia melhor do que
qualquer pessoa quais eram suas falhas.
      Leon Tolstoi foi um homem profundamente infeliz. Disparou contra a Igreja Ortodoxa Russa e recebeu em troca a excomunho.46Todos os seus planos de melhoria
pessoal naufragaram. Houve momentos em que ele precisou esconder as cordas de sua propriedade e se livrar de suas armas para resistir  tentao do suicdio. No
fim da vida, Tolstoi afastou-se de sua fama, sua famlia, suas posses, sua identidade. Morreu como um vadio numa estao de trem do interior, cercado por aldees
curiosos e jornalistas do mundo inteiro. Um reprter conseguiu tirar uma tocante foto de Snia olhando ansiosamente atravs de uma vidraa suja para o interior do
lugar onde seu marido jazia  morte. Seus discpulos impediram a presena da esposa para que isto no o perturbasse.
      Diante de tantos fracassos, o que posso aprender da trgica vida de Leon Tolstoi? Li muitos de seus textos religiosos e, sem exceo, sa inspirado por sua
reverncia ao ideal absoluto de Deus. Tolstoi me lembra que, ao contrrio daqueles que dizem que o evangelho resolve nossos problemas, em muitas reas - questes
de justia, dinheiro, preconceito racial, orgulho e ambio pessoais -, ele na verdade nos adiciona um fardo.
      Em tempos modernos, pode ser muito fcil confundir o evangelho com o "sonho americano" de contentamento, prosperidade c uma existncia livre de problemas.
Tolstoi viu que Jesus nos chama para algo alm de uma bela casa com vizinhos simpticos. Ele havia provado da fortuna, do talento, da educao e da fama mundial:
"Eu diria a mim mesmo: 'Muito bem, voc ser mais famoso do que Gogol, Pushkin, Shakespeare ou Molire, ou mais do que todos os escritores do mundo; e da?' E sairia
sem resposta alguma". Tolstoi levava muito a srio a pergunta feita por Jesus: "Pois que aproveitar o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mt
16:26).
      No  fcil desprezar um homem disposto a libertar seus servos e distribuir suas posses em obedincia ao mandamento de Jesus. Outros nobres russos compravam
e vendiam seus servos como quem negocia gado, agredindo violentamente aqueles que desobedeciam a suas ordens - isto numa nao que se considerava o lar da pura Igreja
de Cristo. Tolstoi libertou seus servos voluntariamente. Se outros tivessem seguido a liderana dele nas questes de justia,  possvel que o pesadelo da revoluo
de 1917 jamais tivesse acontecido.
      Como teria sido bom se Tolstoi tivesse vivido de acordo com seus ideais - ou se eu pudesse viver  altura deles! Apesar de ter estabelecido diversas regras
para si, Tolstoi nunca descambou para um legalismo raso. O ttulo de seu livro The Kingdom of God is Within You fala corretamente, pois ele buscava absorver a lei
moral ideal dentro de si.
      Tolstoi dizia que os sistemas religiosos tendiam a promover as regras exteriores: o judasmo fez isto, assim como o budismo, o hindusmo e o islamismo. Mas
Jesus apresentou uma nova abordagem ao se recusar a definir um conjunto de regras exteriores que seus seguidores pudessem suportar com um senso de autojustificao.
Em uma passagem magistral, Tolstoi mostra essa distino entre a abordagem de Cristo e as das outras religies:

   O teste da observncia dos ensinos religiosos exteriores c se nossa conduta se conforma ou no com seus decretos (observar o sbado; ser circuncidado; entregar
o dzimo). Tal conformidade  realmente possvel.O teste da observncia dos ensinos de Cristo  a conscincia de nosso fracasso em atingir a perfeio ideal. O quanto
nos aproximamos dessa perfeio no  mensurvel; tudo que podemos ver  o tamanho de nosso desvio. Um homem que professa uma lei exterior  como algum que est
diante da luz de uma lanterna pendurada num poste. H luz em toda a sua volta, mas ele no pode ir a lugar algum. Um homem que professa os ensinos de Cristo  como
algum que carrega uma lanterna diante de si em um poste longo, ou mesmo no to longo: a luz est adiante dele, sempre iluminando lugares novos e sempre encorajando-o
a ir mais alm.

      Apesar das prolas de sabedoria de passagens individuais, os textos de fundo religioso de Tolstoi, na maior parte, so errticos e instveis. Ele via "o tamanho"
de seu desvio, e pouca coisa mais. Ao diagnosticar seus prprios esforos interiores, o que viu apenas o encheu de desgosto: fracasso moral, hipocrisia, infidelidade.
Talvez seja exatamente por isso que poucas pessoas lem atualmente suas reflexes espirituais. Como conselheiro, ele oferece mais desnimo do que esperana. Se Tolstoi
mal podia ajudar-se, como podemos esperar que ele nos ajude?
      Em resposta a tal crtica, Tolstoi respondeu que no devemos julgar os santos ideais de Deus pela inabilidade que tinha o escritor em cumpri-los; no julgar
a Cristo a partir daqueles de ns que, de maneira imperfeita, carregamos o seu nome. Uma passagem em especial, extrada de uma carta particular, mostra como Tolstoi
respondia a tais crticas no fim de sua vida. Ela se coloca como um resumo de sua peregrinao espiritual, ao mesmo tempo que  uma gritante afirmao da verdade
na qual ele acreditava com todo seu corao, e um plangente apelo pela graa que ele nunca conheceu plenamente.

   "E quanto a voc, Lev Nikolayevitch, voc prega muito bem, mas faz aquilo que prega?" Esta  a mais natural das perguntas, uma que sempre me  feita. Normalmente,
 feita de maneira vitoriosa, como se fosse uma forma de calar minha boca. "Voc prega, mas como vive?" E respondo que no prego, que no sou capaz de pregar, ainda
que deseje apaixonadamente faz-lo. Posso pregar apenas atravs de minhas aes, e minhas aes so vis (...) E respondo que sou culpado, e vil, e digno de receber
as crticas por meu fracasso em cumpri-las.
   Ao mesmo tempo, sem ter o propsito de me justificar, mas simplesmente visando explicar minha falta de consistncia, digo: olhe para minha vida atual e para minha
vida passada, e voc ver que no tento defend-las. E verdade que no tenho cumprido a milsima parte deles [os preceitos cristos], e me envergonho disto, mas
deixei de cumpri-los no porque no quis, mas porque fui incapaz de faz-lo. Ensine-me como no ser enredado pela tentao que me cerca, ajude-me, e eu os cumprirei;
mesmo sem ajuda, eu desejo e espero cumpri-los.
   Ataque-me - eu mesmo fao isto -, mas ataque a mim, em vez de culpar o caminho que sigo e que indico a todos aqueles que me perguntam onde acho que ele esteja.
Se conheo o caminho de casa e ando por ele embriagado, o caminho no deixa de ser certo simplesmente porque ando por ele cambaleante! Se no  o caminho correto,
ento mostre-me um outro; mas se cambaleio e perco o caminho, voc deve me ajudar, deve manter-me na senda da verdade, assim como eu mesmo estou disposto a ajud-lo.
No me leve por caminhos errados, no fique feliz por eu me perder, no se rejubile dizendo: "Olhe para ele! Disse que estava indo para casa, mas est se arrastando
para um pntano!" No, no se regozije, mas d-me seu apoio e sua ajuda.

      Fico triste ao ler os textos religiosos de Tolstoi. A viso de Raios X lanada sobre os coraes humanos, que fez dele um grande romancista, tambm o transformou
num cristo torturado. Como um salmo na poca da desova, ele lutou correnteza acima em sua vida, desmoronando por exausto moral. Quando criana, ele acreditava
numa varinha verde, com a qual se entalhava palavras que iriam destruir todo o mal nos coraes do homem, fazendo-lhe bem. Ele nunca encontrou essa varinha, jamais
chegou a um acordo sobre a condio de decadncia da humanidade, inclusive ele mesmo. Ele achava que sua prpria vontade seria suficiente para expulsar o mal, e
ela o traiu. Em seu ltimo romance, Ressurreio, um de seus personagens percebe "muito claramente que o nico meio seguro de salvao dos terrveis erros em que
cara a humanidade  que todo homem se reconhecesse um pecador diante de Deus e, portanto, incapaz tanto de punir quanto de restaurar a outros".
      Mas tambm sou grato a Tolstoi pela busca incansvel de f autntica, que causou impresso indelvel sobre mim. Tive meu primeiro contato com seus romances
numa poca em que estava sofrendo os efeitos retardados do abuso praticado pela Igreja. As igrejas nas quais cresci apresentavam muitas fraudes, ou pelo menos era
assim que eu enxergava na arrogncia da juventude. Quando percebi a fenda que separava os ideais do evangelho e as falhas de seus seguidores, fiquei profundamente
tentado a abandonar aqueles ideais, considerando-os desesperadamente inatingveis. Ento descobri Tolstoi. Ele foi o primeiro que, para mim, cumpriu a mais difcil
das tarefas: tornar o bem to crvel e atraente quanto o mal. Descobri em seus romances, fbulas e contos uma fonte de poder moral.
      A maioria dos escritores modernos explora a depravao e alguma coisa mais. Tolstoi, que bebera dessa depravao, mantinha-se acima dela, na direo de uma
viso daquilo que poderia e deveria ser, rumo a uma regra de amor que ele sempre anelou e nunca descobriu. Sua luta v ajudou a me convencer que meu completo fracasso
em perceber a verdade no desvalorizava a prpria verdade, mas, ao contrrio, destacava minha necessidade de continuamente entregar-me  misericrdia de Deus. Uma
idia no pode ser considerada responsvel por aqueles que dizem acreditar nela. Com Tolstoi, aprendi a responder aos crticos: "Ataque a mim, em vez de culpar o
caminho que sigo". Graas a seu passado devasso, Tolstoi sabia que outros caminhos levavam para ainda mais longe da verdade.
      "No serei rfo nesta terra enquanto este homem viver", disse Maxim Gorky, um dos mais talentosos contemporneos de Tolstoi. Ele ergueu os olhares de uma
nao inteira, e at hoje seus escritos levam essa mensagem ao mundo todo. Poucos anos atrs, um amigo meu, professor de Literatura, recebeu um desesperado pedido
de ajuda de uma ex-aluna que servia num miservel campo de refugiados na Tailndia. Todos os dias, ela entrevistava pessoas que haviam escapado do Camboja e do Vietn,
ouvindo suas histrias de brutalidade e mal. Ela disse que quase no conseguia mais acreditar na bondade humana. Quase no conseguia mais acreditar em Deus, tambm.
Ser que meu amigo poderia enviar-lhe alguns livros que fossem capazes de ressuscitar-lhe a f? Ele escolheu cinco livros, sendo que o primeiro da lista era Ressurreio,
de Tolstoi. Este ltimo romance fala do incansvel e insacivel amor de uma ex-prostituta que fora abusada por um homem que se sentia, agora, extremamente culpado
pelo que fez. Essa obra representa o ponto mais prximo que Tolstoi chegou de entender o que  graa.
      Um dos melhores romances de Tolstoi, Ana Karenina, termina com dois pargrafos que comentam o despertamento espiritual de Levin, um dos personagens principais.
Levin diz: "O conhecimento alcanvel atravs da razo foi-me revelado pessoalmente, ao meu corao, abertamente e sem sombra de dvida, e tento obstinadamente expressar
esse saber por intermdio de palavras e de minha razo". Ao ler as palavras finais de Levin, no consigo deixar de ver nelas a projeo do prprio Tolstoi, tanto
no que se refere  sua desesperada esperana quanto aos seus sonhos no realizados.

   Este novo sentimento no me transformou, no me fez feliz nem me iluminou repentinamente como imaginei que fosse fazer - assim como o sentimento que tenho por
meu filho. No houve qualquer surpresa em relao aos dois. Mas quer ele seja f ou no - e no sei o que ele  -, este sentimento entrou to imperceptivelmente
em minha alma atravs do sofrimento, e se alojou ali firmemente.
   Ainda ficarei irado com meu cocheiro, Ivan, ainda discutirei e expressarei meus pensamentos em momentos inoportunos. Ainda haver uma parede entre o santo dos
santos de minha alma e as outras pessoas, at mesmo minha esposa, ainda a culparei por meus prprios medos e tambm me arrependerei. Continuarei sendo incapaz de
compreender com minha razo por que estou orando e continuarei a orar. Mas minha vida, minha vida inteira, independentemente de qualquer coisa que possa acontecer
a mim, cada momento dela no ser mais sem sentido, mas possuir um incontestvel significado de bondade, com o qual tenho o poder de investi-lo.

      Eu poderia aceitar para mim este credo, reconhecendo, ao mesmo tempo, uma teimosa imperfeio e incontestvel bondade.

      Ler Tolstoi e Dostoievski transformou minha viso daquilo que pode ser comunicado pelas palavras. Eu j havia lido muitos livros de Teologia e Apologtica,
com algum benefcio e muita frustrao. Alguns dos argumentos dos filsofos ateus, afinal, pareciam igualmente constrangedores num nvel racional. Porm, quando
li os dois russos, o cerne da f crist me alcanou mais profundamente. Conheci o poder da histria, a verdade sendo expressa numa forma corprea, indiscutvel,incontestvel.
Conceitos como graa e perdo, que constituem o corao do evangelho, tinham pouco espao em muitos livros de Teologia. Comecei a entender por que Jesus gostava
tanto de parbolas. O filho prdigo nos conta quase tudo que precisamos saber sobre redeno; o bom samaritano, o que precisamos conhecer sobre tica. Jesus contrastou
um fariseu - que estava muito bem sintonizado com a Teologia - com um pecador que s podia clamar por ajuda; e era o clamor do pecador, naturalmente, que Deus ouvia.
      Os prprios escritos de Tolstoi trazem o mesmo princpio,  medida que atravessam de um gnero para outro. Seus textos religiosos contradizem-se uns aos outros
e se baseiam em racionalizaes gritantes. Em suas melhores histrias, porm, o perfume da propaganda evapora. Os romances apresentam doutrina e tica no como idias
abstratas, mas como foras de vida encarnadas dentro de personagens reais. Seu retrato ficcional da vida, a verdade sobre homens e mulheres que ele conhecera, observando-os
com seu olho fotogrfico, continham dentro de si o corao do evangelho que havia sempre escapado  sua busca racional. Tolstoi era muito melhor pintando um quadro
sobre redeno do que a explicando.
       triste constatar que Tolstoi nunca permitiu que o evangelho trouxesse conforto para sua prpria vida. A. N. Wilson, um bigrafo de Tolstoi, comenta que "sua
religio era uma coisa mais ligada  Lei do que  graa; um plano para a benfeitoria do homem, em vez de uma viso de Deus alcanando o mundo cado". Com uma claridade
cristalina, Tolstoi podia ver sua prpria inadequao  luz do ideal de Deus. Mas ele no pde dar o passo seguinte, de confiar na graa de Deus para superar essa
limitao.
      Pouco depois de ler Tolstoi, descobri seu compatriota Fyodor Dostoievski. Estes dois, os mais famosos e completos de todos os escritores russos, viveram e
trabalharam durante o mesmo perodo da Histria. Apesar de considerarem o trabalho um do outro com admirao, jamais se encontraram. Tal qual planetas que gravitavam
ao redor das mesmas cidades, atraindo ateno e exercendo poderosa fora, suas rbitas nunca se cruzaram. Talvez exatamente por isto: eles eram opostos em tudo.
      Enquanto Tolstoi escrevia romances brilhantes e ensolarados, Dostoievski produzia peas introspectivas e soturnas. Tolstoi criava esquemas ascticos para sua
prpria melhoria, e Dostoievski periodicamente desperdiava sua sade e sua fortuna em casos, lcool e apostas. Tolstoi mantinha uma agenda de trabalho bastante
disciplinada; Dostoievski normalmente trabalhava  noite, produzindo histrias num ritmo frentico com o objetivo de pagar suas dvidas de jogo. Milhares de peregrinos
passaram pela casa de Tolstoi, buscando sabedoria; ningum sequer pensava em ir ao desordenado Dostoievski para buscar conselhos. Ele era socialmente inepto. Administrava
to mal o dinheiro que, s vezes, sequer podia pagar as despesas de postagem para enviar um romance completo para o editor. Sofria de epilepsia, e um ataque era
capaz de deix-lo prostrado por vrios dias.
      Dostoievski cometeu muitos erros na vida, mas conseguiu uma grande faanha na arte. Seus romances comunicam graa e perdo, o cerne do evangelho cristo, com
uma fora tolstoiana. Dostoievski ensinou-me o remdio para os seguidos fracassos de Tolstoi.
      Logo no comeo de sua vida, Dostoievski passou por uma ressurreio. Ele fora preso por pertencer a um grupo considerado traidor pelo czar Nicolau I, que,
para mostrar aos jovens radicais a gravidade de seus erros, encenou uma execuo fictcia. Depois de passar oito meses na cadeia, aguardando a sentena, repentinamente,
numa manh fria, trs dias antes do Natal, os conspiradores foram tirados de suas celas e transportados a uma praa pblica onde, para desespero do grupo, um oficial
lia a sentena que os condenava  morte. Eles no tiveram tempo de absorver a notcia nem a possibilidade de apelar. Um esquadro de fuzilamento estava pronto para
a execuo. Com as cabeas descobertas, vestidos em mortalhas brancas, mos firmemente atadas para trs, foram levados na neve, diante de uma multido estpida.
      Um oficial pronunciava as palavras "o salrio do pecado  a morte" para cada prisioneiro e uma cruz era levantada para que fosse beijada. Os trs primeiros
foram selecionados para morrer e, ento, foram atados a postes. No ltimo instante, quando a ordem "preparar, apontar" foi dada, com os tambores rufando, rifles
armados e colocados nos ombros, um cavaleiro galopando trouxe uma mensagem pr-escrita pelo czar: por misericrdia, o soberano comutava suas penas para trabalhos
forados. Dostoievski, membro da nobreza, teve uma espada quebrada sobre sua cabea em sinal de vergonha. Um dos prisioneiros caiu de joelhos e exclamou: "O bom
czar! Vida longa ao nosso czar!" O outro teve um colapso nervoso do qual nunca mais se recuperou.
      Ainda que de maneira diferente, Dostoievski tambm jamais se recuperou dessa experincia. Ele viu a morte muito de perto, e aquele momento de sua vida tornou-se
incomparavelmente precioso. De volta  priso, andava de um lado para o outro, cantando em absoluta alegria o fato de ter tido sua vida restaurada. Escreveu as seguintes
palavras a seu irmo: "Nunca fervilhou em mim um tipo to abundante e saudvel de vida espiritual como agora (...) Agora minha vida vai mudar, nascerei de novo numa
nova forma". Dobrou cuidadosamente a mortalha para guard-la como lembrana daquele episdio.
      Sua prxima provao estava relacionada ao transporte para a Sibria. Na badalada da meia-noite do dia de Natal, os guardas ataram pesadas correntes, com quase
cinco quilos, s suas pernas e fizeram com que ele puxasse um tren aberto como se fosse um cavalo. Por 18 dias, sob um frio congelante que lhe causou diversas ulceraes
na pele, ele suportou esse trabalho cruel por toda a jornada. O comboio parou por alguns dias na Sibria antes da disperso final dos prisioneiros, e o comandante
permitiu a visita de trs mulheres, esposas de outros prisioneiros polticos, que haviam se estabelecido ali para ficarem prximas a seus maridos. As trs se lanaram
 misso de dar boas-vindas aos novos prisioneiros e tentar trazer-lhes um pouco de conforto. Uma delas, uma mulher devotada que havia estudado Filosofia alem e
conhecia quase a Bblia toda de cor deu a Dostoievski um Novo Testamento, o nico livro permitido dentro da priso. Ela sussurrou-lhe que ele deveria procurar com
ateno; dentro do livro, ele encontrou dez rublos.
      Crente de que Deus havia lhe dado uma segunda chance para cumprir seu chamado, Dostoievski meditou sobre o Novo Testamento durante seu confinamento. "Ele estudou
aquele precioso volume de capa a capa, ponderando cada palavra; decorou grandes partes do texto e nunca as esqueceu", escreveu sua filha Aimee, anos mais tarde.
"Todas as suas obras esto saturadas dele, e  isso que d poder a seus escritos." Mesmo depois de sua libertao, Dostoievski levava consigo aquele exemplar do
Novo Testamento, e, em casa, mantinha-o numa gaveta de sua escrivaninha, sempre ao alcance da mo.
      Dostoievski passou os quatro anos seguintes em trabalhos forados e mais outros seis em exlio. No fim daquela dcada, ele emergiu com inabalveis convices
crists, conforme expressas num credo que foi escrito  mulher que lhe dera o Novo Testamento: "Este Credo  muito simples e aqui est: acreditar que nada  mais
belo, profundo, simptico, razovel, varonil e mais perfeito que Cristo (...) Alm do mais, se algum me provasse que Cristo est fora da verdade, preferiria estar
com Cristo a permanecer com a verdade".

      Dostoievski sofreu terrivelmente enquanto esteve na priso. Seu problema com os nervos era to grave que os ataques de epilepsia o atiravam ao cho, produzindo
fortes grunhidos, espumando pela boca, com os membros em movimentos convulsivos. Era comum v-lo internado no hospital, tratando do reumatismo e da epilepsia. Ele
lamentava profundamente no ter algo para ler, curvado diante da constante luta, machucado pelas correntes e ansioso por um momento de solido, distante do burburinho
- uma necessidade que ele considerava to premente quanto comer ou beber. Durante os anos da priso, ele no recebeu uma carta sequer de sua famlia.
      Alguns de seus companheiros de sofrimento reagiam  punio com dio e sede de vingana.  digno de nota o fato de Dostoievski ter voltado  sociedade com
uma alegria renovada na vida e com otimismo em relao  natureza humana. Ele guardava lembranas de permanecer por horas num vo da cerca, com a cabea apoiada
numa das estacas, olhando a grama verde e o profundo cu azul. Um dos locais de trabalho era "o nico lugar em que vamos o mundo de Deus: um horizonte puro e brilhante,
as imensas estepes desertas, cuja simplicidade sempre causou em mim uma estranha impresso".
      Ele se lembrava da bondade da mulher que lhe havia dado o Novo Testamento e de uma menina que viera correndo em sua direo quando andava pelas ruas na companhia
de um guarda, gritando e dizendo: 'Aqui, pobre homem, tome um kopek, em nome de Cristo!" Ele manteve aquela moeda de pouco valor, bem como o Novo Testamento e a
mortalha, como um tipo de memorial. Ele se lembrava de um perodo de confinamento solitrio, quando toda noite a janela da porta de sua cela se abria e uma voz annima
dizia: "Coragem, irmo, ns tambm sofremos". Aquelas pequenas notas de graa, interpostas no meio do sofrimento, encontrariam lugar em seus romances posteriores.Acima
de tudo, Dostoievski tinha uma satisfao imensa em celebrar o dom da vida. "A vida  um dom", escreveu ele horas depois da falsa execuo. "A vida  felicidade;
cada minuto pode ser uma eternidade de felicidade (...) A vida est em todo lugar, em ns mesmos, no no exterior." Depois de ser liberto, ele escreveu:

   Ame cada folha, cada raio de luz.
   Ame os animais, ame as plantas, ame cada coisa.
   Amando tudo, voc perceber o mistrio de Deus em tudo.

      Eu no esperava este surto de alegria em Dostoievski. Li seus romances em um perodo obscuro de minha vida, depois de ter mergulhado em romances existenciais.
Vivia numa ermida emocional. Afastei-me das pessoas e as julguei, aproximando-me de novos amigos com extrema cautela. As pessoas podiam me conquistar, sim, mas era
exatamente isto, uma conquista. Vi meu carter dormente na obra Underground Man (Memrias do subsolo), de Dostoievski, e depois prossegui para me encontrar com seus
outros personagens, cuja bondade transbordante fazia que eles se colocassem em total contraste. Era impossvel deixar de notar o paradoxo: Tolstoi, que tinha tudo,
acabou irascvel e amargurado, enquanto Dostoievski, que havia perdido tudo, terminou agradecido e exuberante.
      A priso ofereceu a Dostoievski uma oportunidade nica que,  primeira vista, parecia uma maldio. Ela o forara a viver muito prximo de ladres, assassinos
e camponeses bbados. A verdade  que, mais tarde, ele refletiu que a pior dor que sofrera na priso fora o dio inclemente que confrontou em camponeses presos que
o viam como algum da classe superior que fora desprezado. Esta revelao veio como um grande choque, pois seus amigos aristocratas estavam liderando um movimento
de reforma que visava restaurar direitos s prprias pessoas que, como ele via agora, desprezavam aqueles que lutavam por elas. A vida compartilhada com aqueles
prisioneiros mais tarde o levou  criao de personagens incomparveis em seus romances, como o do assassino de Raskolnikov, em (Crime e castigo).
      A viso liberal de Dostoievski sobre a bondade inerente da humanidade no era capaz de explicar o mal em estado puro que ele encontrou em seus colegas de cela;
sua teologia precisava se ajustar a essa nova realidade. Com o tempo, porm, ele tambm percebeu a imagem de Deus no mais vil daqueles prisioneiros. Como Tolstoi,
ele descobriu que resqucios do cristianismo tradicional haviam sobrevivido nos camponeses, o que ele comeou a ver como a nica esperana de um novo comeo. Ele
passou a acreditar que uma pessoa  capaz de amar somente quando  amada. Dostoievski via como parte de sua misso a "restaurao dos vis". Nos brilhantes e complexos
romances que continuaria a escrever, ele fez exatamente isto, redimindo diante dos olhos dos russos letrados uma classe de camponeses e criminosos proscritos. Ele
mesmo comeou a se ver como o filho prdigo no exlio, vivendo num pas distante, entre as lavagens e os porcos. Todo condenado, concluiu ele, sente-se como o filho
prdigo, que no est em casa, mas apenas de visita. A esperana - "estranha, impaciente e intensa esperana" -de que alguma coisa o espera fora dos muros da priso
 que mantm o prisioneiro vivo, literalmente. Para Dostoievski, a esperana por trs das barras tornara-se um smbolo da esperana eterna que ele sentira num relance
quando ouviu a sentena de morte em praa pblica. "Estaremos com Cristo", disse ele instintivamente a um amigo a seu lado ("Somos apenas um punhado de p", respondeu,
laconicamente, o amigo ateu). Dostoievski passou a crer na imortalidade como a nica forma de entender a vida como qualquer coisa, menos algo sem sentido.
      Naquela poca, os intelectuais russos estavam flertando com a nova e empolgante filosofia do niilismo, a crena de que nada importa, que toda moralidade 
arbitrria, que no existe um Deus benevolente governando o mundo, que todas as aes so determinadas por nossa biologia, que o amor  uma sensao fsica inseparvel
do desejo sexual. Depois de ser libertado de seu exlio, Dostoievski foi contrrio a cada uma dessas colocaes em seus textos. Em vez de discutir com eles, preferiu
mostrar as conseqncias da disseminao daquelas idias. Seu romance The Possessed (Os possessos), por exemplo, narra a histria (baseada em fatos reais) de dedicados
revolucionrios que mataram um membro de seu prprio grupo por considerarem que esta seria a melhor maneira de resolver as diferenas com ele. Crime e castigo apresenta
o resultado de um "homem extraordinrio", seguidor da filosofia de Nietzsche, que vivia acima dos padres convencionais de moralidade e cometeu dois assassinatos
simplesmente para saber como seria a experincia de matar algum.Contudo, sempre existe uma nota tocante a soar. Foi nos romances de Dostoievski, na verdade, que
pela primeira vez comecei a entender a graa no como um conceito teolgico, mas como uma realidade viva, implementada num mundo em que ela est ausente. Apesar
de Crime e castigo retratar um ser humano desprezvel que comete um crime desprezvel, o blsamo lenitivo da graa penetra na vida de Raskolnikov por intermdio
da pessoa da prostituta convertida chamada Snia, que o segue por todo o caminho at a Sibria e o leva  redeno. "O amor os ressuscitou", escreve Dostoievski.
"O corao de um proveu infinitas fontes de vida para o corao do outro." Em The Idiot (O idiota), Dostoievski apresenta uma figura de Cristo na forma de um estranho
e imprevisvel prncipe. Quieta e misteriosamente, o prncipe Myshkin movimenta-se entre os crculos da classe alta da Rssia, expondo sua hipocrisia, enquanto tambm
ilumina suas vidas com bondade e verdade. A cena final de O idiota apresenta, talvez, a mais tocante descrio de graa de toda a literatura: o prncipe "idiota"
compassivamente abraa o homem que acabara de matar a mulher que ele amava.
      Em um mundo regido pela Lei, a graa se levanta como um sinal de contradio. Queremos justia; o evangelho nos d um homem inocente pregado numa cruz, que
clama: "Pai, perdoa-lhes". Queremos respeitabilidade; o evangelho exalta coletores de impostos, prdigos e samaritanos. Queremos sucesso; o evangelho inverte os
termos, movendo o pobre e o oprimido para o centro das atenes e os ricos e famosos para os bastidores. Tendo recebido a Cristo no desconforto de uma priso siberiana,
entre colegas de cela que zombavam de sua enfermidade e desdenhavam de seus avanos, Dostoievski compreendeu a graa em sua forma mais contraditria. Ela avana
sorrateiramente em seus romances, sem aviso, silenciando os cticos e desarmando os cnicos. Eles acham que tm a vida sob controle at que, de repente, um encontro
com a pura graa os deixa sem flego.
      Isto acontecera com o prprio Dostoievski. Pendurado em dvidas de jogo e com uma loja falida, ele havia se iludido com o plano inescrupuloso de um editor
que passaria a deter todos os direitos de suas obras antigas se ele no entregasse um romance at certa data. Dostoievski postergou, sentindo sua criatividade totalmente
bloqueada at que o prazo restante era de apenas trs semanas. A tarefa parecia impossvel, e ele estava totalmente desesperado at que Ana, uma estengrafa de 19
anos de idade, apareceu para ajud-lo, Tendo sofrido um ataque epiltico poucos dias antes, estava de pssimo humor. Tratou-a asperamente na primeira vez, xingou-a
e reclamou de sua velocidade. Ela escrevia todas as suas palavras, trabalhando durante a noite indo depois para casa para copi-las e, depois, apresentando uma cpia
escrita a mo no dia seguinte. Com tais esforos sobre-humanos, ela o conquistou e tirou dele um romance, The Gambler (O jogador), que foi entregue duas horas antes
do prazo final.
      Neste ponto, Dostoievski j havia reconhecido todos os encantos daquela estengrafa e lhe propusera casamento. Ana no sentia atrao fsica alguma por ele,
um vivo desajeitado, 25 anos mais velho do que ela, com uma notria fraqueza pelo lcool e pelo jogo. Mas sentiu pena, e sabia que ele precisava dela. Com um considervel
sacrifcio pessoal, ela concordou com a unio, mudou-se para organizar sua carreira e seu lar, dando a ele 15 anos de felicidade - "os anos milagrosos", como seus
bigrafos chamam esse perodo, pois foi nessa poca que Dostoievski produziu todas as suas obras-primas.

      O ltimo trabalho de Dostoievski, Os irmos Karamazov, um dos maiores romances j escritos, traa o contraste entre Ivan, o brilhante agnstico, e seu devotado
irmo Alyosha. Ivan  capaz de analisar as falhas da humanidade e criticar qualquer sistema poltico criado para lidar com esses fracassos, mas no conseguia apresentar
solues. Alyosha no tinha resposta para os problemas intelectuais que Ivan levantava, mas dispunha de uma soluo para a humanidade: amor. "Eu no sei qual  a
resposta para o problema do mal", disse Alyosha, "mas conheo o amor". Ivan articula o caso e o expe a Deus de uma maneira to poderosa quanto ningum jamais fizera
depois de J. Alyosha, sem palavras e cheio de compaixo, se levanta e o beija suavemente nos lbios - como Cristo fizera com seu atormentador no grande poema de
Ivan, O grande inquisidor.
      Os irmos Karamazov contm todos os importantes elementos da prpria vida trgica de Dostoievski: o brutal assassinato de seu pai nas mos de seus servos,
a experincia de ser desprezado no mundo da literatura, a priso e a execuo vexatria, os anos num campo de prisioneiros, casos extraconjugais, a tortura do amor
no correspondido,epilepsia, enfisema, um casamento conturbado, a morte de filhos em funo de doenas, o fardo de grandes dvidas, o jogo. Ele eslava estudando
o Livro de J quando escreveu este romance, e no deixou de fora nenhuma de suas agonias pessoais. Dois meses depois de completar seu romance, como se no tivesse
mais nada a dizer, Dostoievski morreu, praticamente sem dinheiro. Em seu colo, no momento de sua morte, estava o Novo Testamento que lhe fora dado na Sibria tantos
anos antes.
      O escritor Frederick Buechner resume Karamazov como "um livro que  um enorme caldeiro em ebulio.  digressivo e expansivo, com diversos personagens, muito
longo, mas  um livro que, justamente por Dostoievski ter deixado cheio de espaos abertos,  preenchido aqui e ali por, talvez, nada mais, nada menos que o prprio
Esprito Santo, tornando-se, portanto, at onde posso entender (...) um romance que fala menos sobre a experincia religiosa do que um romance cuja leitura  uma
experincia religiosa: de Deus, tanto em sua presena subterrnea quanto em sua apavorante ausncia".
      Quando li Os irmos Karamazov pela primeira vez, percebi que me dava bem com Ivan. Eu tinha uma longa lista de reclamaes contra o mundo. Meus argumentos
contra a injustia e a deslealdade de Deus eram bastante fortes. Sentia dio e ressentimento por Deus. Para citar Dostoievski, "no posso simplesmente ser devorado
sem esperar que aquele que me devora seja louvado?" Torturado pela falta de amor no mundo, eu, porm, no estava fazendo nada sobre isto. Sentia falta do instinto
de Alyosha pela bondade comum, por uma reao compassiva.
      Foi ento que comecei a ver o que Dostoievski havia aprendido na priso: o Evangelho da graa permeia o mundo no primariamente por intermdio de palavras
e argumentos racionais, mas atravs de atos, atravs do amor. As pessoas que eu estava aprendendo a admirar mais, como Paul Brand e Robert Coles, estavam expressando
sua f atravs de aes, de maneira encarnacional. Quando viajei para outros pases - Brasil, Nepal, Filipinas, Qunia -, encontrei pessoas humildes que a cada dia
enfrentavam problemas muito mais srios do que eu podia imaginar, que no reagiam com paralisia ou ressentimento, mas com compaixo e amor. Dostoievski mostrou-me
as conseqncias lgicas de uma vida baseada no niilismo e na dvida. Servos cristos me mostraram as conseqncias lgicas de uma vida baseada em f e amor. Aprendi
que seguir a Jesus no significa resolver todos os problemas humanos - o prprio Cristo no tentou fazer isto -, mas, ao contrrio, reagir como ele mesmo fez, contra
toda a razo para dispensar graa e amor queles que menos mereciam.
      Em geral, os intelectuais dos dias de Dostoievski no o consideravam muito convincente. Sua f no cristianismo latente das classes menos favorecidas, seu apelo
 caridade e  compaixo, sua desconfiana quanto s mais recentes teorias da engenharia social, tudo isso o expunha como um moralista  moda antiga, totalmente
incapaz de abordar os problemas da Rssia moderna. Eles escolheram outro caminho, a trilha da moralidade baseada no utilitarismo, separado da transcendncia. "Sem
Deus, tudo  permitido", advertiu Dostoievski em Os irmos Karamazov. O sculo xx mostraria quo presciente fora o escritor. "Os homens devem se curvar diante de
alguma coisa", tambm escreveu ele. No caso da Rssia do sculo xx, os homens optaram por se curvar uns diante dos outros, conservando Lenin como uma relquia num
mausolu e tratando Marx e Stalin como profetas. Na condio de ateus, adoraram homens-deuses, no lugar de adorar o Deus que se fez homem, obtendo os mais trgicos
resultados que nosso planeta j presenciou.
      No Templeton Address 47 de 1983, 102 anos depois da morte de Dostoievski, Alexander Solzhenitsyn reviu a trgica histria da Rssia no sculo xx. Foi por intermdio
da leitura de Dostoievski, disse Solzhenitsyn em outra oportunidade, que ele comeou a entender pela primeira vez a primazia do espiritual sobre o material. Isto
o levou a uma experincia de converso, tambm em um campo de prisioneiros, o que mudou o rumo de sua vida e, por fim, afetou o destino de sua nao. Eis o que ele
disse no Templeton Address:

   Lembro-me que, meio sculo atrs, quando eu ainda era uma criana, ouvia vrias pessoas mais velhas apresentarem a seguinte explicao para os grandes desastres
que haviam atingido a Rssia: "Os homens se esqueceram de Deus;  por isso que aconteceram todas essas coisas". Desde ento, tenho passado quase 50 anos estudando
a histria de nossa revoluo. Durante esse processo, li centenas de livros, colecionei centenas de testemunhos pessoais e contribu com oito volumes de minha prpria
lavra no esforo de transpor o entulho deixado por aquele levante. Mas se hoje me pedissem para formular da maneira mais concisa possvel a causa principal da perniciosa
revoluo que deu cabo de mais de 60 milhes de compatriotas, no poderia faz-lo de modo mais preciso do que repetir: 'Os homens se esqueceram de Deus;  por isso
que aconteceram todas essas coisas'."

      Por que ela no funciona? Comecei com esta pergunta sobre a Igreja crist, a fonte de muitas de minhas dvidas essenciais. Os ideais cristos suscitam admirao
at mesmo de descrentes, mas como posso considerar esses ideais como bons se no sou capaz de coloc-los em prtica? Dois grandes pensadores russos apareceram com
diferentes respostas a essa pedra de tropeo da f. Tolstoi fundou sua filosofia numa crena na perfectibilidade da natureza humana. Ela no funciona porque no
nos esforamos o suficiente, concluiu, apesar de ter tentado mais do que qualquer pessoa e nunca ter conseguido resolver as contradies dentro de si, quanto mais
as de outras pessoas. Dez anos na Sibria tiraram de Dostoievski qualquer iluso desse tipo: "Em todo homem, naturalmente, h um demnio escondido", diz seu personagem
Ivan Karamazov. Ele no discordava em aspecto algum de Tolstoi quanto ao caminho que a Rssia deveria trilhar, mas tinha, sim, muitas diferenas sobre como chegar
l.
      Durante o perodo de exlio na Sibria e antes de se casar com Ana, Dostoievski havia se casado por impulso com uma viva que tinha um filho pequeno. Voltaram
para So Petersburgo juntos, mas no foi um casamento mais feliz que o de Tolstoi. A epilepsia e o desleixo de Fyodor causavam repulsa a Maria. Ela entrava em surtos
de dio histrico, o que apenas pioraria a epilepsia do marido. Ele fez diversas viagens  Europa, parcialmente em busca da cura de seu mal, mas tambm para ficar
afastado dela. Os dois no formavam um casal feliz.
      Depois de sete anos de casamento, Maria Dostoievski morreu de tuberculose. Como lhe era caracterstico, seu marido passara a maior parte do tempo em que a
esposa esteve doente viajando pela Europa com uma moa de 20 anos de idade. Agora, voltando em funo da morte da esposa, ele se senta na sala, ao lado daquela onde
est o corpo, tomado pela saudade dos momentos felizes do passado, lamentando sua morte e arrependido de seu comportamento. Passa a noite toda em viglia ao lado
do caixo, fazendo anotaes  luz de velas. "Masha est sobre a mesa", comea a escrever. "Ser que verei Masha outra vez?"
      Suas melanclicas reflexes daquela noite levam-no a uma singular discusso sobre a imortalidade. Ao responder  pergunta se veria sua esposa novamente, Dostoievski
ignora os argumentos tradicionais - da ressurreio de Jesus, digamos, ou da necessidade de equilibrar os pratos da balana da justia - e transforma o documento
numa espcie de confisso pessoal. Ningum consegue viver  altura do ideal, admite. No h quem seja capaz de amar seu prximo como a si mesmo. Ningum pode cumprir
a lei de Cristo. Deus no poderia pedir tanto e se satisfazer com to pouco. Somos feitos para algo que  muito maior que ns.  exatamente por isto, conclui ele,
que devemos acreditar numa vida futura. Sem esta crena, nossa luta v para satisfazer a lei de Cristo no teria razo de ser.  nosso prprio desejo, nosso fracasso,
nosso senso de imperfeio que faz que nos entreguemos  misericrdia de Deus. Nossa imperfeio nesta vida clama por uma realizao mais completa deste ideal.
      Assim, Dostoievski adiciona uma nota de melanclico clamor, de graa, ao ideal cristo que ele compartilhava com Tolstoi.
      Atualmente considero esses dois russos como minhas referncias em espiritualidade porque eles ajudaram a responder a minhas dvidas interiores, lanando luz
sobre um dos paradoxos centrais da vida crist. De Tolstoi, aprendo a necessidade de olhar para dentro, para o Reino de Deus que est em mim. Nesta viso, percebo
quo miseravelmente distante estou dos ideais do evangelho. Mas a partir de Dostoievski, conheo a extenso total da graa. No apenas do Reino de Deus dentro de
mim: o prprio Deus habita ali. "Mas onde abundou, o pecado, superabundou a graa"  a forma como o apstolo Paulo expressa esta verdade em Romanos 5:20.
      S existe uma maneira de todos ns resolvermos a tenso entre os altos ideais do evangelho e a triste realidade de todos ns: aceitar que nunca estaremos 
altura, mas que tambm no temos de estar nesse patamar. Tolstoi acertou em partes: qualquer coisa que me faa sentir confortvel com o padro moral de Deus, algo
que me faa dizer "finalmente cheguei l",  uma cruel decepo. Dostoievski acertou a outra parte: qualquer coisa que me faa sentir desconfortvel com o amor perdoador
de Deus tambm  uma cruel decepo. "Agora, pois, j nenhuma condenao h para os que esto em Cristo Jesus", insistiu Paulo em Romanos 8:1. Tolstoi nunca entendeu
isto completamente.
      Ideais absolutos e graa absoluta. Depois de aprender os contrapontos das mensagens dos romancistas russos, voltei a Jesus e percebi que isto  o que permeia
seu ensinamento. Em sua resposta ao jovem rico, na parbola do bom samaritano, em seus comentrios sobre o divrcio, o dinheiro e qualquer outra questo moral, Jesus
nunca rebaixou os ideais de Deus. "Sede vs perfeitos como perfeito  o vosso Pai celeste", disse ele em Mateus 5:48. "Amars o Senhor, teu Deus, de todo o teu corao,
de toda a tua alma e de todo o teu entendimento" (Mt 22:37). Nem Tolstoi, nem Francisco de Assis, nem Madre Teresa de Calcut, nem ningum cumpriu totalmente estes
mandamentos.
      Mas o mesmo Jesus oferece, com ternura, a graa absoluta, talvez a mais notvel caracterstica distintiva da f crist. Deus nos ama no por aquilo que somos
ou que fizemos, mas por aquilo que Deus . A graa flui para todos aqueles que a aceitam. Jesus perdoou uma adltera, um ladro na cruz, um discpulo que o negou,
mesmo conhecendo-o. A graa  absoluta e abrange todas as coisas. Ela se estende inclusive para as pessoas que pregaram Jesus na cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque
no sabem o que fazem" est entre as ltimas palavras que ele disse aqui na terra (Lc 23:34).
      Hoje, leio o Novo Testamento, especialmente as passagens como o Sermo da Montanha, com um esprito diferente daquele de minha adolescncia. Jesus no pronunciou
aquelas palavras exaltadas para que ns, como Tolstoi, enrugssemos a testa diante de nosso fracasso em alcanar a perfeio. Ele as proclamou para nos comunicar
o ideal de Deus pelo qual nunca devemos deixar de lutar, e tambm para mostrar que nenhum de ns vai alcan-los algum dia. O Sermo da Montanha nos fora a reconhecer
a grande distncia entre Deus e ns, e qualquer tentativa de reduzir essa distncia atravs da diminuio de suas exigncias  em vo. Estamos desesperados, e este
, na verdade, o nico estado apropriado a um ser humano que deseja conhecer a Deus. Tendo falhado em cumprir o ideal absoluto, como Tolstoi, no temos outro lugar
em que aportar seno em Dostoievski, no ninho tranqilo da graa absoluta.

LEON TOLSTOI E FYODOR DOSTOIEVSKI PARA INICIANTES
      Os maiores romances de Tolstoi so Guerra e paz e Ana Karenina. Os dois, porm, so bastante longos, e os iniciantes podem preferir comear com suas obras
mais curtas, que so igualmente encantadoras. Recomendo A morte de Ivan Ilyich, Master and Man (Mestre e homem), e The Kreutzer Sonata (A sonata a Kreutzer), assim
como algumas de suas fbulas. Das muitas biografias de Tolstoi, a de Henri Troyat  considerada um clssico, enquanto o recente esforo de A. N. Wilson  mais arejado
e subjetivo. William L. Shirer habilmente colocou o ttulo de Amor e dio no trabalho que focaliza o tortuoso casamento de Tolstoi, contando mais do que voc gostaria
de saber. Wilson tambm compilou selees dos textos religiosos de Tolstoi em um volume fino chamado The Lion and the Honeycomb (O leo e o favo de mel), do qual
extra vrios trechos deste captulo.
     Dostoievski produziu uma grande quantidade de romances longos, sendo os mais importantes Os irmos Karamazov, O idiota, Crime e castigo e Os possessos. A casa
dos mortos traz informaes sobre seus dias na priso; Notas do subsolo teve um impacto maior na literatura existencialista posterior. Joseph Frank publicou quatro
volumes de uma biografia de Dostoievski planejada originalmente para ter cinco volumes, um relato magistral de sua vida que nos apresenta o pano de fundo histrico
e cultural, lanando luz sobre aquilo que aconteceu posteriormente na Rssia. Um livro produzido pela Hutterian Brethren 48, chamado The Gospel of Dostoevsky (O
evangelho de Dostoievski), extrai explicitamente passagens religiosas de seus romances.

7. Mahatma Gandhi
Ecos em Uma Terra Estranha
      O que aconteceria se um jovem se deparasse com as palavras de Jesus num texto de Leon Tolstoi e, a partir disto, levasse a srio a pergunta "em seus passos,
o que faria Jesus?" Como seria se ele se propusesse a tratar todas as pessoas que encontrasse - o mendigo sem teto que visse na rua, o milionrio, o prefeito, a
mulher que limpava seu banheiro - com ateno, dignidade e respeito? O que aconteceria se ele distribusse suas posses e ficasse apenas com o estritamente necessrio,
de modo que tudo coubesse numa mochila colocada nas costas? E se ele insistisse em longos perodos de meditao diria, jamais permitindo que uma agenda hertica
interferisse em seus momentos de silncio e solido? Como seria se ele se afastasse de todas as convenincias modernas, permanecesse imune aos estilos e s modas
e dedicasse sua vida ao cultivo de uma fora espiritual interior?
      Alm disso, e se sua figura solitria se tornasse, a despeito de todas as excentricidades, uma das pessoas mais famosas do mundo,o lder moral da segunda nao
mais populosa do planeta? E, para complicar as coisas, se esse homem, que havia optado por modelar sua vida a partir do exemplo de Jesus, decidisse, em sua vida
adulta, permanecer deliberadamente fora do aprisco cristo? Assim  a vida de Mohandas K. Gandhi (1869-1948), um homem que viveu de forma destacada. No houve ningum
como ele: ningum foi mais disciplinado, teimoso, inconsistente, criativo, desconcertante, amvel ou enfurecedor. Muitos dos princpios polticos que aceitamos hoje
se originaram na mente desse homem que levou um quinto da humanidade  independncia. Ele rompeu todas as regras do manual de poltica e, no meio do processo, ajudou
a fundar a maior democracia da histria do mundo.
      Cinqenta anos depois de sua morte,  possvel ao menos comear a avaliar Gandhi perguntando qual  a relevncia que ele tem em nosso mundo acelerado de sites
de internet e msseis intercontinentais. Em minhas viagens  ndia com o Dr. Brand, fiquei surpreso em perceber quo pouco os compatriotas modernos de Gandhi sabem
sobre esse homem notvel. Pelo fato de ele ser chamado "santo" - um santo hindu, certamente, mas algum estrategicamente formado no cristianismo -, ns, ocidentais,
deveramos parar e analisar que mensagem ele tem para ns. Ele se assenta nos ombros da Igreja ocidental como um superego, fazendo a todos ns a pergunta que Tolstoi
fez a si mesmo: por que no praticamos aquilo que pregamos?
      Gandhi morreu trs anos depois de os Estados Unidos terem jogado a bomba atmica sobre o Japo, um evento que o deixou convencido de que, se o mundo quisesse
sobreviver, precisaria olhar para o Oriente em busca de solues. Gandhi acreditava que o Ocidente havia perdido sua capacidade de liderar a raa humana e representava
um futuro de decadncia, materialismo e conflito armado.49 Ele procurava um novo caminho, baseado na fora espiritual, no na material. Poucos, poucos mesmo esto
dando ateno a este chamado nos dias atuais. Os Estados Unidos permanecem como a nica superpotncia mundial, e sua cultura de sexo e dinheiro continua a se espalhar
pelo mundo todo. A ndia moderna honra, mas dificilmente segue Gandhi. Tecelagens gigantes substituram as pequenas rocas. Complexos de escritrios sofisticados
cospem programas que rodam nos computadores do mundo inteiro. Trs guerras sangrentas depois, sua nao exibe a coligao de poder que tanto o aterrorizava: armamentos
nucleares.
      Ainda assim, a ndia no consegue tirar aquele homem pequeno e esquisito de sua conscincia.
      Se algum fizesse um concurso de beleza para selecionar quem no seria um lder mundial, Gandhi ganharia com facilidade. Com pouco mais de um metro e meio
de altura, pesava apenas 50 quilos e suas pernas e braos magricelas brotavam de seu tronco como os membros de uma criana desnutrida. Suas orelhas se projetavam
para fora de sua cabea raspada. Seu nariz, grosso e grande, parecia falso, como aqueles narizes de borracha montados sobre armaes de culos que as pessoas usam
em festas e brincadeiras. culos de aro metlico estavam sempre caindo de seu nariz, pendendo sobre sua boca de formas estranhas, especialmente pelo hbito de usar
dentaduras apenas enquanto comia. Seus lbios se curvavam sobre gengivas quase sem dentes. "Ele  quase igual a um pequeno pssaro", disse Lord Mountbatten, o ltimo
vice-rei da ndia, "um tipo de pardal doce e triste, empoleirado em minha poltrona".
      Quando andava, Gandhi se apoiava ou em uma vara de bambu ou nos ombros de suas "muletas", o nome que dava a suas jovens sobrinhas-netas. Ele usava as mesmas
roupas todos os dias: uma espcie de tanga indiana e, s vezes, um xale de algodo, ambos feitos de material rstico tecido em sua prpria roca. Carregava todos
os seus pertences num pequeno saco, exceto um relgio de bolso Ingersoll que ele orgulhosamente usava com uma corrente. Gandhi seguia uma agenda rgida, e ningum,
nem mesmo o rei do Imprio Britnico, os lderes da ndia ou seus amigos mais chegados, poderiam alterar. Ele levantava todos os dias s 2h para ler escritores hindus
ou cristos e fazer oraes, passando as tranqilas horas seguintes respondendo a correspondncia, terminando com a abluo ritualstica, inclusive um enema com
gua e sal. Ao meio-dia, ele fazia uma pausa para outro ritual, colocando um saco de algodo poroso contendo uma infuso sobre seu abdome e sua testa. Os historiadores
modernos, sempre procurando levantar os defeitos das pessoas famosas, falam sobre as exigncias que Gandhi fazia das pessoas prximas, seus hbitos pessoais bizarros,
sua teimosia irritante. Ele testava seu voto de castidade dormindo com jovens mulheres nuas. O homem que atrara milhes de pessoas falhara como lder de sua prpria
famlia, maltratando sua esposa e criando um filho que se rebelou a ponto de se tornar um bbado fraudador, jogador e pobre.Quando sua esposa estava  beira da morte
em funo de bronquite aguda e os britnicos enviaram um frasco de um tipo raro de penicilina que poderia ter salvado sua vida, Gandhi no permitiu que o mdico
lhe aplicasse a injeo intravenosa para que a violncia da agulha no violasse seu corpo. Como resultado, ela morreu.
      Todavia, depois de as fofocas serem ouvidas, de a imagem de Gandhi ser corroda e de ver sua prpria nao no dando importncia a muitas das coisas pelas
quais ele viveu e morreu, mesmo depois de tudo isso, Gandhi ainda irradia uma qualidade nica, que nunca deixou de afetar aqueles que o conheciam. Mountbatten, um
experiente comandante militar, resumia sua fora moral com uma frmula simples e estratgica, num tempo em que a guerra civil estava se espalhando pela ndia: "No
meu front ocidental, tenho 100 mil soldados e um derramamento de sangue que no cessa. No meu lado oriental, tenho apenas um velho homem, e nenhuma gota de sangue
foi derramada".
      De alguma maneira, Gandhi mobilizava seus seguidores, milhes deles, a se unir numa cruzada de um modo nunca visto no mundo. "Aqueles que esto em minha companhia",
alertava, "devem estar prontos a dormir no cho, usar roupas rsticas, levantar em horrios estranhos, subsistir com comida simples e nada convidativa e at mesmo
a lavar seus banheiros". Eles lutavam com as armas da orao, do jejum, das prises e dos corpos dilacerados por espancamentos. No fim de tudo, seus mtodos ajudaram
a libertar meio bilho de pessoas.
      Os mtodos ensinados por Gandhi foram adaptados por Martin Luther King Ir. no Sul dos Estados Unidos. Eles tambm se mostraram eficazes na frica do Sul e
no Leste europeu, onde, certa noite, milhares de pessoas marchando, carregando velas e cantando hinos, colocaram abaixo a Cortina de Ferro que fora levantada 40
anos antes. Quando Benigno Aquino 50 saiu de um avio em Manila para enfrentar a bala de um assassino, tinha em suas mos um discurso em que citava Gandhi: "O sacrifcio
voluntrio do inocente  a mais poderosa resposta  insolente tirania que j foi concebida por Deus ou pelo homem". O poder do povo nas Filipinas logo confirmou
Gandhi mais uma vez: os tanques de 50 toneladas do exrcito foram forados a parar diante de manifestantes desarmados que se ajoelharam na rua.
      Tenho me fascinado por Gandhi desde minhas visitas  ndia. Ouo opinies completamente opostas tanto dos cristos de l quanto dos cristos ocidentais. Aprendi
que, mesmo que voc o despreze, no  fcil tir-lo da cabea. A pincelada que ele deu na Histria  simplesmente grande demais para ser ignorada. No escrevo sobre
Gandhi porque ele tinha as respostas para o planeta. Ao contrrio, volto-me a ele porque ele fez as perguntas mais provocativas. Podemos rejeitar suas respostas,
certamente, mas ser que podemos fazer isto sem considerar primeiramente suas perguntas?
      Apesar de no ser um cristo por crena ou prtica, Gandhi tentou, num grau de impressionante profundidade, viver alguns dos princpios de Jesus. A Igreja
crist, nascida no Oriente, mas moldada no Ocidente, compartilha muitas das crises da civilizao ocidental, como um todo. Apesar de alguns lderes cristos terem
abordado essas questes, crescemos to acostumados a nossos prprios profetas que no conseguimos mais ouvir sua mensagem de maneira clara. Quando um som est muito
alto, s vezes  mais fcil discerni-lo por meio de seu eco.

      A mais famosa contribuio de Gandhi, a tcnica da desobedincia civil, evoluiu gradualmente. Nascido na ndia, estudou e praticou advocacia em Londres, mudando-se
posteriormente para a frica do Sul. Ele liderou marchas, teve sua cota de surras, passou algumas centenas de dias na cadeia e conheceu os desencorajadores resultados
do protesto sob um regime opressivo. Em seu retorno  ndia, confrontou-se com uma situao muito diferente: no se tratava de uma minoria de indianos vivendo numa
terra estranha, mas a maioria, cerca de 500 milhes de cidados, todos vivendo num subcontinente governado pelos ingleses. Os indianos esperavam que os britnicos
retribussem os leais servios a eles prestados durante a Primeira Guerra Mundial dando-lhes maior independncia, mas, ao contrrio, o poder colonial foi mais severo,
com uma srie de duras leis no muito diferentes da legislao discriminatria do Sul dos Estados Unidos.
      Enquanto o Imprio Britnico apertava os parafusos, Gandhi passava longas horas meditando sobre uma reao apropriada. A idia veio-lhe  mente numa madrugada,
nos momentos entre o sono e a conscincia. Ele decidiu conclamar um dia quando no haveria nenhum tipo de atividade. A ndia responderia a seus senhores simplesmente
recusando-se a cooperar. As lojas ficariam fechadas, o trfego pararia, o pas ficaria fechado por um dia. Ns, que vivemos numa poca posterior  dele, depois de
dzias de adaptaes ao redor do mundo, podemos facilmente perder de vista a extraordinria natureza desse movimento. Nada semelhante havia sido tentado antes.
      A seguir, Gandhi atacou o sistema econmico colonial. A Gr-Bretanha plantava algodo na ndia, transportando-o para a Inglaterra para moagem e manufatura,
e ento exportando o produto manufaturado de volta para a ndia, para ser vendido a altos preos. Para quebrar esta cadeia, Gandhi pediu a todo indiano, quer do
campo, quer da cidade, que passasse pelo menos uma hora por dia numa roca, fiando. Ele prprio deu o exemplo, encontrando uma velha roca de madeira que ele usaria
pelo restante de sua vida.
      Em resposta ao monoplio britnico sobre o sal, um gnero necessrio a todo o mundo, Gandhi contra-atacou com a famosa Marcha do Sal, uma dolorosa e lenta
viagem de 380 quilmetros at o mar. Como os oficiais de Londres seguiam cuidadosamente cada passo, um milho de camponeses juntaram-se a seu sqito por todo o
caminho. Chegando  costa, Gandhi caminhou com dificuldade pelas rasas piscinas de evaporao e tirou uma das mos cheia de sal, segurando-o no ar como um cetro
que representava o desafio ao imprio. Que a ndia boicote o imprio e recolha seu prprio sal!
      Para apreciar com mais detalhe a marca de Gandhi na Histria, basta contrastar a Marcha do Sal com a reao dos colonos americanos aos selos de taxas impostas
pelos britnicos. Tivemos uma guerra por causa disto. Como Gandhi pesquisou a histria da Europa, da Europa crist, viu uma srie de guerras travadas em funo de
diferenas raciais, pontos especficos de doutrina religiosa, fronteiras de terras e atos de agresso colonialista. Mas o prprio Jesus havia pregado o amor pelos
inimigos e mostrado um esprito de sacrifcio, no de violncia. Gandhi buscava uma nova forma de mudana, algo mais prximo do esprito de Jesus.
      Gandhi colocou-se como um espinho no Imprio Britnico porque os meios formais de controle no tiveram efeito contra seus protestos nada ortodoxos. Quando
os policias tentavam barrar os manifestantes batendo neles com cassetetes, os rebeldes colocavam-se em fila para receber os golpes. Os indianos logo encheram as
cadeias at superar sua capacidade, o que era exatamente seu intento. Quando as autoridades levaram o prprio Gandhi aos tribunais e o ameaaram com priso, ele
calmamente pediu a pena mxima. Longe de ser uma punio, a priso dava a ele mais luxo do que ele se permitia quando livre, proporcionando-lhe perodos mais longos
para a reflexo e a produo de textos. Ao todo, Gandhi passou 2.338 dias nas cadeias britnicas.
      Quando os britnicos tentaram mtodos mais brutais de opresso, como abrir fogo contra os manifestantes, criaram mrtires e involuntariamente uniram a nao
contra eles. No famoso incidente de Amritsar, tropas sob liderana britnica apontaram rifles na direo de um ajuntamento pacfico, mas ilegal, de homens, mulheres
e crianas desarmados, disparando 1.650 tiros em dez minutos e provocando 1.516 mortes. A cruzada pela independncia reuniu ainda mais adeptos.
      Mais tarde, Gandhi imaginou uma forma de protesto que se mostrou a mais poderosa de todas: ele simplesmente se recusou a comer. Planejou seu jejum com o mesmo
cuidado que um general elabora sua estratgia militar, s vezes jejuando por um perodo de tempo especfico, e em outras ocasies alertando que faria um jejum at
a morte, caso certas exigncias no fossem atendidas. A ironia desafia a compreenso: jejum voluntrio numa nao de famintos, o sacrifcio de um nico homem opondo-se
ao mais abrangente imprio de toda a histria da humanidade.
      Contra todas as possibilidades, a ttica funcionou. Churchill irritou-se com "o nojento e humilhante espetculo daquele homem que um dia fora um advogado em
nossa corte, agora um sedicioso faquir, caminhando seminu pelos corredores do palcio do vice-rei, indo at ali para negociar e conferenciar em termos iguais com
o representante do rei imperador". Enquanto isso, Gandhi ganhava entre sua nao a reputao de Mahatma - "Grande Alma". Quando ele publicamente colocou sua prpria
vida na mesa de negociaes, ningum estava disposto a correr o risco de ser o responsvel pela morte da "Grande Alma". Um a um, generais, vice-reis, primeiros-ministros
e, finalmente, o rei imperador cederam diante daquele faquir seminu que jejuava.
      O compromisso de Gandhi com a questo da no-violncia desenvolveu-se enquanto ele trabalhava como advogado na frica do Sul. Protestando em favor dos direitos
civis, ele era jogado para fora de trens, expulso de hotis e restaurantes, acusado pela polcia montada e preso. Seus protestos pareciam ter pouco efeito sobre
as pessoas que faziam e impingiam a lei. Somente depois de ler Kingdom of God is Within You e de se corresponder com Tolstoi, o autor da obra,  que Gandhi decide
aceitar o princpio literal do Sermo da Montanha, especialmente suas palavras sobre pacificao e amor aos inimigos.
      O filme Gandhi, de Richard Attenborough, contm uma cena belssima em que Gandhi tenta explicar sua nova filosofia ao missionrio presbiteriano Charlie Andrews.
Andando juntos numa cidade da frica do Sul, os dois repentinamente vem seu caminho bloqueado por uma gangue de jovens. O reverendo Andrews d uma olhada para os
marginais ameaadores e decide enfrent-los. Gandhi o impede. "O Novo Testamento no diz que, se um inimigo lhe bater na face direita, voc deve oferecer-lhe tambm
a esquerda?", pergunta Gandhi. Andrews resmunga, dizendo que ele achava que a frase fora usada no sentido metafrico. "No estou bem certo", responde Gandhi. "Suspeito
que ele quis dizer que voc deve mostrar coragem, estar disposto a receber um golpe, vrios golpes, simplesmente para mostrar que voc no vai revidar nem ser dissuadido.
Quando voc faz isto, algo apela  natureza humana, algo que faz seu dio diminuir e seu respeito aumentar. Acho que Cristo compreendia isto muito bem, e eu vejo
que isto funciona."
      A profunda sensibilidade de Gandhi gradualmente tomou forma como uma doutrina bem estabelecida. Violncia contra outro ser humano, mesmo direcionada a um soldado
atirando contra uma multido desarmada, contrariava tudo que ele acreditava sobre a dignidade universal humana. Voc no pode mudar a convico de uma pessoa por
meio da violncia, acreditava. A violncia brutaliza e divide: ela jamais reconcilia. Se algum de seus seguidores tornava-se violento durante suas campanhas, Gandhi
pedia que ele se retirasse. Nenhuma causa, por mais justa que fosse, justificava derramamento de sangue. "Eu morreria pela causa", afirmou, "mas no existe causa
pela qual eu esteja preparado para matar".51
      Desde Gandhi, outros lderes polticos adotaram suas tticas. Martin Luther King Jr., que considerava a si mesmo um sucessor espiritual, visitou a ndia e
importou os mtodos para os Estados Unidos. Ele e muitos outros provaram que a no-violncia pode mover montanhas em sociedades relativamente abertas, mas o que
dizer de lugares como a Alemanha nazista, a China moderna, Myanmar/Birmnia, onde regimes militares anulam qualquer protesto? Ironicamente, alguns lderes hindus,
os verdadeiros herdeiros religiosos de Gandhi, sugerem que este princpio surgiu de sua influncia crist, e no tinha lugar no hindusmo. Especialistas em tica,
polticos e telogos continuaro a discordar sobre onde e quando a fora armada  justificada. Mas depois de Gandhi, ningum pode negar o poder da no-violncia
de promover mudanas. Afinal, ela trouxe liberdade  segunda nao mais populosa da Terra.

      Nos tempo de Gandhi, um sexto da populao da ndia parecia-se mais com animais do que com seres humanos. Viviam em favelas miserveis, entre esgotos a cu
aberto, nos quais fervilhavam ratos e outros agentes transmissores de doenas. A doutrina hindu do carma dava uma base teolgica para o elaborado sistema de cinco
mil subcastas que mantinham as pessoas presas em seus lugares. O sistema de castas, um conceito de agrupamento humano mais profundo do que a idia de tribo ou raa,
era aceito havia mais de cinco mil anos, e poucos o questionavam. A casta mais baixa de todas, a dos "intocveis", prestava um valoroso servio  sociedade, varrendo
as ruas e limpando as latrinas e os esgotos, atos que um hindu de uma classe mais elevada jamais faria. Voc podia perceber quem eram os intocveis por sua pele
escura e por sua postura, pois encolhiam-se como animais que apanhavam. O nome da casta os definia: se um hindu de outra casta tocasse um deles ou numa gota de gua
que tivesse sido poluda por algum dos intocveis, precisava dar incio a um elaborado processo de purificao. Um intocvel tinha de recuar e se espremer no caminho
de outro hindu para no projetar sua sombra sobre aquele de casta mais elevada, evitando, assim, contamin-lo. Na dcada de 1930, os britnicos descobriram uma nova
subcasta, os "invisveis", os quais no haviam sido encontrados em trs sculos de ocupao britnica. Responsveis pela lavagem das roupas dos intocveis, essas
pobres criaturas acreditavam que poderiam contaminar pessoas de castas superiores simplesmente pelo olhar, de modo que saam apenas  noite e evitavam qualquer contato
com as outras pessoas.
      Sem muitas possibilidades de receber algo que no fosse desprezo de seus pares, Mahatma Gandhi assumiu a causa dos intocveis. Primeiramente lhes deu um novo
nome: no seriam mais chamados "intocveis", mas "harijans", os filhos de Deus.  Em um primeiro ashram 52, uma comunidade espiritual na frica do Sul, Gandhi provocou
uma tempestade de protestos ao convidar os intocveis para morar ali. Quando o principal patrocinador financeiro da comunidade experimental retirou seu apoio, Gandhi
fez planos de se mudar para a prpria regio dos harijans. Por fim, ele fez o ato mais aviltante possvel para um hindu, limpando as latrinas dos intocveis. Quando
voltou para a ndia, chamava-os "irmos" e se hospedava em suas casas sempre que possvel.
      Anos mais tarde, aps a independncia, quando outros lderes da ndia pressionavam lorde Mountbatten a aceitar o posto honorrio de governador geral, Gandhi
props um candidato alternativo, uma varredora intocvel "de bravo corao, incorruptvel e de pureza cristalina". Embora sua candidata no tivesse recebido a indicao,
com aquele ato simblico, Gandhi ajudou a mudar a imagem dos intocveis por toda a ndia. Leis foram modificadas e restries abolidas. Na ndia de hoje, o sistema
de castas permanece numa forma mais branda e menos repressiva. Mas agora, 100 milhes de pessoas referem-se a si mesmas no como uma maldio - "intocvel" -, mas
como uma bno: elas so filhas de Deus.
      Gandhi empenhava-se em reconhecer a dignidade inerente de cada pessoa. Em seu ashram na ndia, ele adotou um portador de hansenase, outro grupo desprezado
naquele pas. Todos os dias, ele trocava as bandagens daquele homem e o banhava. Como disse, ele gostaria de devotar o mesmo cuidado em fazer um emplastro para uma
vtima de lepra como em conduzir uma entrevista com o vice-rei da ndia. Ele tambm ajudou a elevar o status das mulheres do pas, cercando-se de seguidoras altamente
competentes.
      Gandhi resumia sua crena em trs pontos, os quais creditava ao escritor vitoriano John Ruskin 53:
      1) que o bem de uma pessoa est contido no bem de todos;
      2) que o trabalho de um advogado tem o mesmo valor do de um barbeiro, visto que todas as pessoas tm o mesmo direito de obter seu sustento a partir de seu
trabalho;
      3) que uma vida de trabalho, seja a de um agricultor ou de um arteso,  digna de ser vivida. Gandhi buscava maneiras de colocar estes conceitos em prtica.
Em cidades como Bombaim e Calcut, ele preferia ficar na choupana da Colnia dos Varredores de Rua a se hospedar num hotel. Usava um lpis at que ele se transformasse
num toco impossvel de ser manuseado, tudo em respeito ao ser humano que havia feito aquele objeto.

      John Ruskin foi um escritor cristo, e Gandhi reconhecia que, cm certos aspectos, a Igreja crist havia mostrado o caminho para o respeito  dignidade humana.
Algum que visitasse a ndia encontrava hospitais, orfanatos, leprosrios e escolas destinadas aos excludos e mantidas por missionrios cristos. Mas ns, aqui
no Ocidente, ainda estamos aprendendo a diferena entre atos de caridade e a tarefa mais difcil, que  mudar a percepo que uma pessoa tem de si. Com freqncia,
nossa motivao tem sabor de paternalismo (a notar pelos termos "excludos" ou "subclasse"). Eu, o instrudo e rico americano, estendo minha mo compassiva para
ajudar voc a melhorar. Vemo-nos como aqueles que esto do lado de Cristo simplesmente por estarmos doando algo aos necessitados. O Novo Testamento deixa claro,
porm, que Jesus est ao lado dos pobres, e que serviremos mais adequadamente se elevarmos os excludos  posio de Jesus.
      "Vejo a face de Jesus disfarada", dizia Madre Teresa, referindo-se aos mendigos moribundos que ela convidava  sua casa em Calcut. "s vezes, um disfarce
desolador." Como Gandhi, ela entendia que a motivao da caridade no  a condescendncia, mas a ascendncia: ao servir o pobre e fraco, temos o privilgio de servir
o prprio Deus.
      Gandhi empenhava-se muito em se identificar com o pobre, removendo quaisquer barreiras que pudessem afast-lo. A todos que estiveram na ndia, preciso mencionar
apenas um exemplo da disposio de Gandhi: sua insistncia em viajar na terceira classe dos trens. Ele era capaz de sentar-se em bancos duros, abarrotados de lavradores
sujos e seus animais, uma experincia de estar cercado por uma enorme quantidade de pessoas, rudo, imundice, e odores, inimaginvel para a maioria dos ocidentais.
"Por qu?", perguntaram-lhe certa vez. Sua resposta foi: "Porque no existe a quarta classe". (Comparo esta atitude com meu prprio entusiasmo quando reno um nmero
suficiente de milhas para ganhar um upgrade para a classe executiva numa companhia area.)
      Gandhi no tinha amor inato algum ao sofrimento, e foi bastante assertivo em suas lutas iniciais pelos direitos pessoais na frica do Sul, depois de ter sido
expulso de uma cabina na primeira classe por causa da cor de sua pele. Mas quando ele adentrou nas sagradas escrituras do hindusmo, do islamismo, do budismo e do
cristianismo, ficou convencido de que a humildade de um servo  uma das posturas exigidas por Deus. Somente ento ele se livrou de suas roupas europias, desfez-se
de bens materiais e buscou companhia junto aos pobres e sofredores. "Um lder", disse ele, " somente um reflexo dos seus liderados".
      Gandhi no permitiu que ningum de importncia interferisse em seu estilo. Quando lorde Mountbatten ofereceu um lugar em seu avio particular para viajar at
o lugar de uma importante reunio, Gandhi preferiu sua passagem de terceira classe, como de costume. Ele provocou certo escndalo ao visitar a Inglaterra para se
encontrar com o Parlamento e o rei George. Chegou debaixo de grande festa e cobertura da imprensa, e a nao perdeu o flego quando ele desceu a prancha bamboleante
do vapor usando apenas uma tanga de algodo e levando uma cabra, seu suprimento de leite, presa numa corda. Rejeitando ofertas para ficar nos melhores hotis, ele
preferiu ficar numa favela de East End. Quando os reprteres pediram que ele explicasse como ousava se encontrar com um rei estando "seminu", Gandhi respondeu com
um sorriso: "O rei estava usando roupas suficientes para ns dois".
      Gandhi nunca insistiu que lderes polticos seguissem suas posies to severas; sua cruzada era moral e religiosa, e no apenas poltica. Mas ele realmente
pediu, depois da independncia, que cada ministro do governo vivesse numa casa simples, sem empregados e sem carro, praticasse uma hora de trabalho manual por dia
e limpasse seu prprio banheiro. Muito tempo depois de sua morte, lderes do Congresso continuavam a usar o uniforme de algodo tecido em casa que ele adotara, e
promoviam festas em que as pessoas se reuniam para tecer em rocas.
      Nos dias de hoje, a filosofia de Gandhi parece singular e arcaica. Ele indicou uma varredora de rua dos intocveis para o cargo mais alto do pas e passou
grande parte de seu tempo em favelas e leprosrios. Em contraste a isso, ns, no Ocidente, valorizamos os bilionrios das empresas pontocom e as maravilhosas top
models. Para correr atrs de uma bola num campo qualquer, pagamos a um atleta profissional mais dinheiro do que o necessrio para montar e fazer funcionar dezenas
de hospitais em pases como a ndia. Enquanto isso, muitos dos moradores de favelas no Ocidente - com luz eltrica, gua corrente e outros luxos inimaginveis na
rea rural da ndia - vivem num estado de ganncia, ressentimento e inquietude. Ao exaltar o rico, o bonito e o poderoso, o que fazemos com a dignidade daqueles
que no atingem estes padres? E o que podemos aprender de um Gandhi, uma pessoa que escolheu outro caminho?
      A mensagem crist que ganha a maior exposio nos dias atuais no mundo ocidental segue a corrente cultural. Ela oferece o apelo "Deus tem algo de bom guardado
para voc", e apresenta a promessa de auto-satisfao. A afirmao de Jesus acerca de achar-se quando se perde (Mt 8:35)  convenientemente desprezada. Uma teologia
baseada no sucesso pode funcionar razoavelmente bem nos Estados Unidos simplesmente porque os recursos da nao so muito grandes. Mas uma teologia desse tipo tem
pouco a dizer aos cristos da China, Indonsia ou Ir, onde a f crist implica sofrimento.
      No estudo que fez sobre o Novo Testamento, Gandhi encontrou o conselho de buscar a verdade de todo o corao, no esperando nada, no obstante os resultados.
Ele costumava cantar um poema indiano enquanto caminhava entre as plantaes de arroz na poca em que seu prprio povo o perseguia: "Se eles disserem 'no' ao seu
chamado, caminhe s, caminhe s". Em pases como os Estados Unidos, francamente, esta mensagem no vende.

      Os tempos atuais tm demonstrado o poder moral de um nico indivduo. Nelson Mandela 54 subiu pacificamente  liderana de uma nao que praticamente todo
observador esperava ver entrando numa guerra civil. O tom de conciliao que ele estabeleceu provou que os profetas estavam errados. Alexander Solzhenitsyn, Lech
Walesa, Cory Aquino e Vaclav Ravel levantaram-se corajosamente e, com sua autoridade moral, ajudaram a mudar a Histria. Em outras naes - Sudo, Ruanda, Iugoslvia,
Congo -, onde ningum tinha liderana moral para restringir a violncia, o resultado foi a carnificina.
      Em 1947, quando o movimento pela independncia cruzou a ndia, animosidades centenrias comearam a florescer novamente. Hindus e muulmanos voltaram-se uns
contra os outros com violncia. Muulmanos queimaram as cabanas de seus vizinhos hindus, foraram-nos a comer as vacas sagradas, massacraram os maridos e estupraram
suas mulheres. Os hindus responderam na mesma moeda, e milhares de muulmanos tambm morreram nos meses que precederam a independncia. Parecia cada vez mais que
o pas explodiria em chamas.

      Enquanto os polticos se sentavam em elegantes palcios em Nova Dlhi e negociavam o poder e a terra, Gandhi prosseguia em sua cruzada do "ungento". "Deixe-os
discutir", dizia ele. Gandhi dirigia-se ao povo, s hordas iradas que investiam violentamente uns contra os outros. Aos 77 anos, foi a uma regio onde ocorriam os
encontros mais violentos. Ele conduziu seu grupo de discpulos hindus por vilarejos muulmanos semidestrudos para ouvir insultos e receber pedras e garrafas. Quando
rejeitado, procurava uma rvore sob a qual pudesse dormir. Se aceito, lia a Bhagavad Gita, o Coro e o Novo Testamento, ensinava noes bsicas de sade e higiene,
e ento se arrastava para a prxima vila. Ao todo, visitou 47 vilarejos, caminhando descalo 185 quilmetros.
      Em cada vila, Gandhi tentava persuadir um lder hindu e um muulmano a entrarem juntos na mesma casa, como garantia de paz. Pedia a eles que se lanassem num
jejum at a morte se um dos seus atacasse um inimigo religioso. Por incrvel que parea, o mtodo funcionou. Enquanto os debates continuavam nos palcios de Nova
Dlhi, o linimento pessoal de Gandhi comeou a curar as feridas por toda a regio. Por algum tempo, a matana foi interrompida.
      Porm, quando os polticos decidiram criar a nao do Paquisto, separada da ndia, o pas precisou de mais daquele ungento; precisava de muito mais bandagens
para conter o fluxo de sangue que quase literalmente se transformara em rios escarlates repletos de abutres. Como Gandhi havia previsto em seus apelos contra a separao,
ela provocou uma reao sem precedentes na Histria. Quando as fronteiras foram finalmente anunciadas, os hindus se viram presos dentro dos limites de um Paquisto
recm-criado e hostil, e os muulmanos dentro de uma ndia hindu. Assim teve incio a maior migrao em massa que jamais existiu, na qual dez milhes de pessoas
deixaram suas casas e empreenderam uma marcha frentica pelas montanhas e pelos desertos, em busca de um novo lar.
      Lorde Mountbatten, o vice-rei que supervisionou a independncia, sabia que as duas reas eram potenciais conflagraes. No Oeste, onde a ndia fazia divisa
com o Paquisto Ocidental, as hostilidades certamente irromperiam. Mas na fronteira do Paquisto Oriental (atualmente Bangladesh) ficava a maior ameaa. Prximo
 fronteira estava a cidade de Calcut, a mais violenta da sia. Nenhuma cidade do mundo se comparava a ela em pobreza - mais de 400 mil mendigos -, fanatismo religioso
e paixes desenfreadas. Calcut abertamente adorava a deusa hindu da destruio, a qual usava uma grinalda de crnios em sua cintura. Numa prvia do que estava por
vir, a violncia explodiu em Calcut, e em apenas um dia seis mil corpos foram jogados no rio, atirados nas sarjetas ou deixados para apodrecer nas ruas. A maioria
havia apanhado ou fora pisoteada at a morte.
      Conforme os relatrios das atrocidades foram sendo divulgados, Mountbatten enviou sua fora de ataque das fronteiras para o lado oeste, a fim de verificar
a crescente violncia (que tiraria a vida de meio milho de pessoas). Isto o deixou sem qualquer reserva de tropas para serem enviadas ao front oriental. Desesperado,
Mountbatten insistiu com Gandhi para que ele fosse a Calcut e fizesse ali, com os intocveis que ele abraara como irmos, algum tipo de milagre. Gandhi consentiu
somente depois de um lder muulmano, um dos polticos mais corruptos de Calcut, ter concordado em viver com ele, desarmado, numa das piores favelas de Calcut.
Gandhi garantiu que se um nico hindu morresse nas mos de um muulmano, ele jejuaria at a morte.
      Foi desta forma que, dois dias antes da independncia, Gandhi chegou a Kipling, a "Cidade da Noite Macabra". Como sempre, uma grande multido o aguardava,
mas saudando-o com gritos de dio, no com satisfao. Eram hindus que haviam partido para a vingana e, para eles, Gandhi representava uma capitulao s injustias
muulmanas. No tinham eles visto parentes assassinados e esposas e filhas defloradas pelas massas de muulmanos? Gandhi saiu de seu carro sob uma chuva de pedras
e garrafas. Levantando uma das mos num frgil gesto de paz, o velho homem caminhou sozinho por entre a multido. "Vocs querem me fazer mal", disse ele, "e  por
isso que venho at vocs". A multido silenciou. "Vim at aqui para servir tanto a hindus quanto a muulmanos. Estou me colocando sob sua proteo. Vocs esto livres
para se colocarem contra mim, se assim o desejarem. Estou chegando ao fim de minha jornada na vida. No tenho muito mais o que caminhar. Mas se vocs se enfurecerem
novamente, no serei uma testemunha viva disto."
      A paz reinou em Calcut naquele dia, no dia formal da independncia da ndia, no dia seguinte, no outro e no outro, somando, ao todo, 16 dias. No corredor
externo da casa de favela em que Gandhi se hospedava, as pessoas se reuniam todas as noites para participar das reunies de orao - mil no comeo, depois dez mil
e, por fim, um milho de pessoas ocupavam as ruas da favela para ouvir suas prelees sobre paz,amor e irmandade, transmitidas por alto-falantes. Mais uma vez, Gandhi
estava confrontando uma crise poltica com aquilo que ele chamava "fora da alma", o poder inato da espiritualidade humana. Enquanto Estados inteiros da ndia ardiam
em chamas, milhes de pessoas deixavam seus lares e dezenas de milhares eram mortas, nem um ato sequer de violncia aconteceu na cidade mais violenta. O mundo inteiro
se referia a este acontecimento como "o milagre de Calcut". Um aliviado lorde Mountbatten chamava Gandhi "minha fora de fronteira de um s homem".
      O milagre no perdurou. No 17 dia, dois muulmanos foram assassinados, o rumor sobre uma vtima hindu se espalhava, e ento, a algumas poucas centenas de
metros da casa de Gandhi, algum atirou uma granada em um nibus cheio de muulmanos. As pessoas haviam quebrado seu compromisso, e Gandhi deu incio a um jejum
at a morte, direcionado no contra os britnicos, mas contra seus prprios compatriotas. Ele no ingeriria comida at que todos aqueles que cometeram tais atos
se arrependessem e solenemente resolvessem parar com aquelas aes.
      No comeo, ningum se importou. O que era a vida de um velho doente diante do aviltamento que sofriam as pessoas em sua religio, suas famlias e sua honra?
A vingana parecia muito mais adequada do que o perdo. Disparos de armas de fogo ecoaram pelas ruas de Calcut no primeiro dia do jejum de Gandhi. Depois de 24
horas, seu cansado corao comeou a perder uma batida em cada quatro, e sua presso sangnea caiu vertiginosamente. No dia seguinte, quando seus sinais vitais
caam muito, os agitadores pararam e ouviram os reprteres que transmitiam notcias sobre a presso e os batimentos cardacos do velho homem. Rapidamente, a ateno
de todos os moradores de Calcut voltou-se totalmente  cama de varas onde ele jazia, fraco demais para falar. A violncia cessou. Ningum estava disposto a cometer
um ato que pudesse fazer com que a "Grande Alma" morresse.
      Mais um dia se passou, e a gangue responsvel pelos assassinatos veio se confessar a Gandhi, pedindo perdo e lanando as armas a seus ps. Um caminho cheio
de armas e granadas, entregues voluntariamente pelas pessoas, chegou  sua casa. Os lderes de todos os grupos religiosos da cidade assinaram uma declarao, garantindo
que no aconteceria mais assassinato algum. Persuadido por suas aes,
      Gandhi tomou seus primeiros goles de suco de laranja e fez suas primeiras oraes. Desta vez, o milagre perdurou, e Calcut foi salva.
      Assim que recuperasse as foras, Gandhi planejava ir para o Oeste, no corao da violncia que havia tirado a vida de meio milho de pessoas.

      Quando leio a histria de Mahatma Gandhi e a comparo com a histria da Igreja crist, no posso deixar de pensar no que aconteceu de errado. Por que um hindu
abraou os princpios de reconciliao, humildade e sacrifcio vicrio to claramente demonstrados por Jesus? Gandhi considerava Jesus como a fonte da qual aprendeu
esses princpios de vida, e trabalhou como um soldado disciplinado para coloc-los em prtica. O que impede que os cristos sigam a Jesus com o mesmo desprendimento?
      Sim, temos o exemplo de Francisco de Assis, tentando impedir as cruzadas; de monges que superaram o ascetismo de Gandhi; de missionrios que servem os necessitados;
de quakers e anabatistas que se opuseram  violncia. Mas o cristianismo europeu tem muito mais registros de uma Igreja baseada na riqueza, no poder, no prestgio
e at mesmo na coero e na guerra para fazer avanar sua causa.
      O mundo mudou, naturalmente. Agora, apenas um tero dos cristos do mundo vive na Europa e na Amrica do Norte, e o centro da Igreja est se movendo para a
frica e para a sia. Depois de dois milnios de dominao ocidental, ser o momento de olhar para o Oriente em busca de sabedoria acerca da f que temos praticado
de maneira to errtica?
      Quando me volto para a autobiografia de Gandhi, um arrepio percorre minha alma, porque ele tira o foco de movimentos e lderes da Histria e o coloca sobre
si. A questo crucial para ele no era como outros cristos, hindus ou muulmanos haviam agido no passado, mas como eles estavam agindo no presente. Confrontando
Gandhi, sou forado a transformar uma reviso da Histria crist, feita calmamente numa poltrona, em uma avaliao muito mais dolorosa de mim mesmo como uma pessoa
que se diz seguidora de Jesus. Os historiadores podem tratar dos resultados exteriores das aes de Gandhi; ele se preocupava com a vida interior.A autobiografia
apresenta eventos numa estranha proporo, The Story of My Experiments with Truth (A histria de minhas experincias com a verdade)  o ttulo que ele deu  obra.
Ela retrata eventos externos como sendo simplesmente o palco no qual o drama interno do desenvolvimento de seu prprio carter estava sendo representado. Um pargrafo
menciona a grande Marcha do Sal, um momento decisivo na carreira de Gandhi e na histria da ndia, mas os quatro captulos seguintes vo explorar sua agonia interna
sobre a dvida se deve ou no incluir leite de cabra em sua dieta vegetariana. Gandhi projeta sua vida como o gradual refino de uma alma.
      Em sua autobiografia, Gandhi traa a evoluo de seu estilo de vida simples. Ele havia tentado os caminhos ocidentais como estudante de Direito em Londres,
comprando roupas finas, chapus revestidos de seda, sapatos de couro de marca, luvas brancas e uma bengala com manopla de prata. Ainda era um tipo almofadinha quando
voltou para a ndia, e no comeou a mudar at ir para a frica do Sul. Comeou passando suas prprias camisas, para a ridicularizao de seus colegas de ofcio.
Ento, passou ele mesmo a fazer o corte de seu cabelo, deixando enormes falhas que provocavam ainda mais risos. Embora recebesse um bom salrio, decidiu cortar as
despesas com a casa pela metade, cortando mais uma vez ao meio algum tempo depois. No fim de cada dia, ele fazia uma contabilidade minuciosa de cada centavo gasto.
      A partir dessas experincias, Gandhi descobriu que o processo de gastar menos dinheiro e adquirir menos propriedades simplificaria sua vida e lhe daria paz
interior. Alm disso, permitiria que ele se identificasse mais com as pessoas pobres que com freqncia representava na corte. Com o passar do tempo, ele resumiu
suas propriedades ao seguinte: culos, um relgio, sandlias, um livro de msicas, uma tigela. Para responder  correspondncia, ele usava blocos de papel feitos
com os envelopes das cartas que recebia. Comia com uma colher que se quebrou e foi remendada com um pedao de bambu amarrado com uma corda.
      Ao ler seu relato, lembro-me, com certa angstia, que quando me mudei de Chicago para o Colorado, a empresa que fez minha mudana calculou que todos os meus
pertences pesavam cerca de 5,5 toneladas. Mesmo extraindo as 2,7 toneladas de livros, isto perfazia um total de quase trs toneladas de acumulao material! E ser
que, com toda essa bagagem, eu tinha uma vida mensuravelmente mais rica que a de Mahatma Gandhi?
      Ontem interrompi este captulo para passar uma hora procurando arrumar o controle remoto da porta de minha garagem. Tive outra frustrante interrupo tentando
configurar o programa de fax do computador. A bateria do meu celular descarregou. Percebi, num momento, quanto minha vida era governada por coisas materiais. Posso
justificar, ou pelo menos racionalizar, muitas dessas posses, pois elas me ajudam no meu trabalho. Mas qual  a ateno que dou ao ensino de Jesus sobre o perigo
de algum ganhar o mundo inteiro e perder sua alma? Devo admitir que o estilo de vida de Jesus tinha muito mais a ver com o de Gandhi do que com o meu.
      Vrias vozes ocidentais esto clamando por um retorno  simplicidade. Alguns cristos defendem as virtudes de uma vida simples e levantam questes sobre a
moralidade dos padres ocidentais  luz das injustias do mundo (embora, para ser justo, o nvel de simplicidade que eles defendem mais se parece com o incio da
vida de Gandhi do que com aquilo que ele tinha no fim). Deixarei a questo da moralidade do estilo de vida para outros mais seguros que eu. O que aprendi de Gandhi
foi a razo da simplicidade, no o seu nvel. Gandhi perseguia a simplicidade no por culpa, mas por necessidade, em funo de sua prpria sade espiritual.
      Gandhi sentou-se  mesa com grandes lderes. Ele viu a seduo do poder, a confiana nos servos que realizavam qualquer desejo, a infindvel escada espiralada
do luxo, a cativante ansiedade sobre os investimentos, a enxurrada de cartas, convites, apoios e ligaes telefnicas, solicitando seus discursos. Conhecendo bem
o fardo da fama, ele tambm sabia que a nica forma de combat-la era buscar a simplicidade com todo o corao. Se no fizesse isto, o vigor de sua alma, a fora
interior de onde ele retirava a perseverana e a coragem para as confrontaes morais, se esvairia.
      Gandhi tinha suspeitas quanto  tecnologia moderna. Acreditava que as pessoas que possuam carros, rdios, geladeiras cheias e muitas roupas no armrio poderiam
se tornar psicologicamente inseguras e moralmente corrompidas. Ele conhecia bastante sobre conservao de solo para entender que a terra da ndia no toleraria algumas
poucas dcadas do abuso provocado pela agricultura tecnolgica (em 150 anos, o Estado norte-americano de Iowa perdeu mais reas cultivveis do que a ndia em cinco
mil anos). Tinha perguntas sobre o tempo que as fontes de energia durariam. Alm disso, Gandhi disse que continuaria a recomendar o uso de vacas at que fosse inventado
um trator que pudesse produzir leite, iogurte e adubo. Ironicamente, a nfase na simplicidade veio de escritores ocidentais - Tolstoi, Ruskin e Thoreau -, os quais
o convenceram de que as riquezas eram um fardo e que somente a vida de trabalho era digna de ser vivida. Gandhi deu o nome Fazenda Tolstoi  sua primeira comunidade,
em homenagem ao romancista.
      O Ocidente - e a ndia, especialmente por esta questo - ignoraram Gandhi. O capitalismo governa no mundo inteiro, e a sociedade cujo tecido econmico depende
de crescimento constante exige que seus cidados tenham necessidades de consumo e desejos de gasto constantes. Se dez milhes de seguidores de Gandhi, com a mais
alta das motivaes, decidissem simplificar suas vidas, renunciando a seus carros novos, usando roupas fora de moda, plantando sua prpria comida e eliminando aparelhos
eltricos, o resultado seria o caos econmico, e milhares de pessoas perderiam seus empregos. Era exatamente este dilema que Gandhi queria evitar na ndia. No Ocidente,
seria necessrio algum com a mesma fora de um Gandhi para mudar o dogma estabelecido do PIB sempre crescente.  possvel que sejamos forados a mudar nossos modos
esbanjadores um dia, quando o solo estiver exaurido, as fontes de gua tiverem secado, as calotas polares tiverem derretido e todos os poos de petrleo estiverem
secos. Mas a crise vai esperar mais uns 50 anos ou mais; deixaremos estes problemas para a gerao que ainda nem nasceu.
      Todos os meses, leio sobre alguma nova inveno que permite que eu me conecte ao resto do mundo. Trs canais da TV a cabo agora trazem notcias 24 horas por
dia. Se eu quiser, posso enviar um e-mail atravs do meu telefone celular. Posso obter informaes sobre fatos, esportes e aes da bolsa de valores atravs de pagers.
Todas as vezes que cedo e compro um aparelho como estes, sinto-me importante e valorizado. Tenho uma vida ocupada, e assim  a indstria da comunicao. Esses aparelhos
permitem que eu alcance mais pessoas de maneira mais eficiente.
      De alguma maneira, porm, Gandhi conseguia ser bastante eficiente sem sequer um telefone de disco a seu alcance. "Nossas invenes so brinquedos bonitos,
os quais tiram nossa ateno das coisas realmente srias", disse Thoreau, seu mentor. "So nada mais que meios melhorados de um fim no aperfeioado, um fim ao qual
j era fcil se chegar (...) Temos grande pressa de construir um telgrafo magntico do Maine ao Texas, mas  bem possvel que o Maine e o Texas no tenham nada
importante a comunicar." Um sculo e meio depois, uma pessoa s precisa clicar numa sala de bate-papo virtual da internet para entender o que ele disse. Gandhi tambm
observava todas as segundas-feiras como um dia de silncio, tanto para descansar suas cordas vocais quanto para promover a harmonia interior. Ele se dedicava a esse
silncio mesmo quando era convocado para reunies no calor das negociaes sobre o futuro da ndia.
      Como jornalista, vejo um padro perturbador naquilo que fazemos com os lderes religiosos atualmente. Premiamos a todos com aplauso, fama, atraentes contratos
e uma enxurrada de convites de discursos e aparies na mdia. Fazemos com que nossos pastores trabalhem como psicoterapeutas, oradores, sacerdotes e altos executivos.
Quando um lder demonstra perspiccia acima da mdia, acenamos com a tentao de um programa de rdio ou de televiso completo, com uma mquina de levantamento de
fundos para tocar a organizao. Em resumo, ns, de dentro da Igreja, copiamos descaradamente o modelo secular de propaganda enganosa da mdia e do crescimento da
corporao. Fico pensando em quo mais eficazes seriam nossos lderes espirituais se os encorajssemos a reservar as segundas-feiras como um dia de silncio para
reflexo, meditao e estudo pessoal.

      Em seus hbitos pessoais, Gandhi foi muito alm da autodisciplina, chegando at  renncia. No permitia qualquer tipo de prazer sensual, e, em sua autobiografia,
voc no encontrar experincia agradvel alguma relacionada  msica,  natureza ou qualquer satisfao provocada por um sabor ou aroma. Sua refeio tpica consistia
de dois gomos de toranja (grapefruit)55,  coalho de leite de cabra e sopa de limo. Durante toda sua vida, ele empreendeu uma luta contra a cobia. Aos 37 anos,
embora casado, fez um voto solene de celibato. Passou muito tempo pesquisando quais alimentos tinham o menor trao de substncias afrodisacas, depois eliminou o
sal, temperos fortes, ch e a maioria de frutas e vegetais de sua dieta.
      Tal rigor parece estranho aos ocidentais modernos, embora a Histria crist tenha seu grupo de ascetas. O Oriente possui um rico legado de "homens santos"
que buscam controlar as paixes humanas. "E por mim mesmo", explicava Gandhi a seus crticos, "que insisto em prticas to espartanas. Eu sou aquele que vai sofrer
se der vazo  minha natureza carnal".
      Em uma conferncia na Carolina do Sul, ouvi Arun Gandhi, neto de Mahatma, contar sobre a viagem que fez da frica do Sul para a ndia aos 12 anos de idade
para encontrar-se com seu av. O pai de Arun, um lder do movimento pelos direitos civis na frica do Sul, providenciou essa viagem em funo do medo que tinha de
Arun estar crescendo como um garoto mimado. O primeiro encontro com o av famoso no foi muito bom.
      Mahatma estava tentando ensinar o garoto a manter um dirio de raiva. " normal voc sentir raiva", disse o av. "O que importa  como voc canaliza esta raiva."
Ele pediu a Arun que parasse todas as vezes que sentisse raiva de alguma coisa e, no calor do momento, escrevesse todos os seus pensamentos e sentimentos. Ento,
no dia seguinte, depois que as emoes tivessem esfriado, ele deveria voltar e ler seu dirio, refletindo sobre como canalizar aquele poder para o bem. "V em frente
e tente", disse Mahatma. "Escreva tudo aquilo que o deixa com raiva."
      O jovem Arun, com seus 12 anos, sentiu tanto dio por ter de passar tempo registrando sua raiva que quebrou seu lpis em dois e o jogou por cima do ombro.
De maneira gentil, porm firme, seu av f-lo se sentar e deu-lhe um sermo. "Este lpis  apenas um toco", disse, "mas imagine se 20 milhes de meninos ao redor
do mundo jogassem fora seus lpis. Pense nas rvores que teriam de ser cortadas. Pense nos trabalhadores que colocaram o grafite dentro do lpis. Pense no desperdcio
to desnecessrio". Mahatma pediu emprestada uma lanterna, e os dois passaram a hora seguinte agachados, procurando pelo toco de lpis.
      Nas vrias semanas que se seguiram, Mahatma orientou seu neto sobre como controlar suas expresses de emoo. "Ele ensinou-me a me controlar", lembrou Arun.
"Foram necessrios muitos meses de prtica at que estivesse pronto para voltar para casa. Mas no tempo devido, consegui perceber que aquilo estava me libertando.
Eu era uma vtima desesperada de minhas prprias paixes. Naquele momento, eu estava aprendendo a ser o mestre."
      De volta  frica, Arun seguiu os passos de seu pai como um lder dos direitos civis. Por fim, emigrou para os Estados Unidos, onde dirige o Instituto Mohandas
K. Gandhi de No-Violncia. "Eu jamais teria suportado o abuso e at mesmo a violncia fsica envolvida na campanha pelos direitos civis na frica do Sul se no
tivesse aprendido aquela lio aos 12 anos de idade."
      No dia seguinte, na mesma conferncia, participei de um painel que discutia a tendncia cultural em relao  obscenidade e ao dio, como a demonstrada na
msica rap por cantores como Eminem e em programas de televiso como South Park e Beavis e Butthead 56 . Ouvi pais expressarem sua preocupao com letras descrevendo
assassinatos de esposas, de policiais e dio racial, e por ver adolescentes defendendo vigorosamente seu direito de expressar quaisquer emoes que sentissem. "Shows
como estes e a msica rap so a forma que temos de expressar a hostilidade que sentimos", disse um jovem de 18 anos de idade. "Tire-os de ns e os jovens provavelmente
partiro para a violncia explcita." A diferena entre duas abordagens sobre a paixo humana, o jeito do Oriente e o do Ocidente, nunca pareceu to patente.
      Mahatma Gandhi sabia que o nico poder moral que exercia sobre os outros viera daquilo que ele mesmo j dominava. Certa vez, uma mulher de sua vila trouxe-lhe
seu filho e pediu a Gandhi que dissesse  criana para parar de comer acar, pois aquilo no era bom. Ela disse que o filho no lhe dava ouvidos, mas que ouviria
a Gandhi. "Traga o garoto de volta na semana que vem e eu falarei com ele", disse Gandhi. Uma semana depois, a mulher voltou com seu filho. Gandhi tomou o menino
em seus braos e disse que ele no deveria comer qualquer acar. Ento, disse adeus aos dois. A me hesitou um pouco e perguntou: "Mas, Bapu,57 por que o senhor
precisou esperar uma semana? No poderia ter falado na semana passada mesmo?" Gandhi respondeu: "No. Na semana passada, eu ainda estava comendo acar."
      Foi este princpio, o da persuaso moral por meio do exemplo, do sofrimento vicrio, que Gandhi aperfeioou em sua prtica de jejum. Logo no incio de sua
carreira, dois jovens sob sua tutela descambaram para a imoralidade, e Gandhi ficou angustiado vrios dias em busca de uma resposta adequada. A maioria dos membros
do ashran clamava pela punio exemplar dos transgressores, mas Gandhi acreditava que um guardio ou mestre era, ao menos parcialmente, tambm responsvel pelas
falhas de seus alunos ou aprendizes. Ele no acreditava que os outros alunos fossem capazes de perceber a profundidade de sua aflio e a seriedade da transgresso,
a no ser que ele aplicasse alguma punio. E assim, em resposta  transgresso dos alunos, ele promoveu um jejum total de sete dias, e passou a fazer apenas uma
refeio por dia por 40 meses e meio. "Minha penitncia feriu a todos", concluiu ele, "mas limpou a atmosfera. Todo mundo percebeu que coisa terrvel era ser pecador,
e os laos que me uniam aos meninos e meninas se tornaram mais fortes e verdadeiros".
      Finalmente, o jejum passou a ser a mais poderosa arma de Gandhi. J mencionei seu jejum contra a violncia em Calcut. Depois disso, Gandhi anunciou mais um
jejum, em Nova Dlhi, a capital do novo pas, uma cidade que, no comeo de 1948, vivia em trevas. Cinco milhes de refugiados haviam fugido pelo Punjab, vindos do
Paquisto para a nova capital, e muitos deles estavam vivendo agora em campos provisrios de refugiados. Depois de serem perseguidos, estuprados e brutalizados pelos
muulmanos, aqueles hindus tinham sede de vingana.
      Quando Gandhi chegou e sentiu a atmosfera de dio, anunciou um jejum at a morte. Seus mdicos no concordaram, pois ele ainda no tinha se recuperado do jejum
quase fatal de Calcut. As multides j estavam fartas do velho homem e de seus desvarios de paz e irmandade. Nos dois primeiros dias, eles zombaram da figura j
abatida que jazia numa cama de varas, marchando diante dele com uma nova cano nos lbios: "Deixem Gandhi morrer! Deixem Gandhi morrer!" Ento, no terceiro dia,
seus rins pararam de funcionar, seu corao estava descompassado e ele comeou a respirar com grande dificuldade. Todas as rdios da ndia comearam a transmitir
boletins sobre sua sade a cada hora.
      No quarto dia, em total desespero, os mais poderosos lderes da ndia - fascistas, comunistas e todas as faces entre os dois - vieram at Gandhi e fizeram
um voto solene de proteger os muulmanos e renunciar  violncia. As armas recolhidas encheram caminhes e foram destrudas. Lderes civis garantiram que residncias,
lojas e mesquitas seriam devolvidas a seus verdadeiros donos. O parlamento indiano votou pagar ao inimigo Paquisto 55 milhes de libras. Por fim, depois que todas
as condies impostas por Gandhi haviam sido atendidas e o pas estava novamente em paz, ele concordou em interromper o jejum. Ele durou 121 horas.
      Duas semanas depois, seu corpo debilitado estava novamente na cama de varas, morto no por um jejum, mas por trs balas de um fantico hindu que se ressentia
daquilo que chamava "traio" de Gandhi a seu pas. Em seu ltimo ato de morte, Gandhi conseguiu fazer muito mais do que os milhares de policiais e soldados que
patrulhavam em vo as vilas de Punjab. Com a morte de Gandhi, a ndia parou; as execues em massa cessaram; a nao ficou profundamente chocada. Um homem santo
de Bombaim caminhava pela cidade, dizendo: "O Mahatma est morto. Quando vir outro como ele?" Muitos dos feitos de Gandhi morreram com ele. Sua nao amada seguiu
um caminho diferente daquele que ele defendia, assim como o resto do mundo, ficando cada vez mais beligerante e menos receptivo a suas crenas principais. Contudo,
por um tempo, aquele homem desconcertante e estranho conseguiu elevar homens e mulheres a um patamar superior ao que possuam anteriormente. Ele no tinha escritrio
algum, e aqueles que o seguiam o faziam voluntariamente. O nico atrativo que tinha como lder era a fora de sua prpria alma. "O feito comum  um grande passo
e um maravilhoso compromisso", disse Gandhi. "Sua beleza reside no fato de o compromisso de hoje ser menos impuro que o de ontem; consiste em nossos olhos serem
conduzidos numa linha reta em direo a algo maravilhoso no momento em que olhamos no para os feitos, mas na direo em que eles so realizados."
      Em 1983, depois de eu ter retornado da ndia e de o filme Gandhi, de Richard Attenborough, ter sido lanado, escrevi um perfil do homem para a revista Christianity
Today. Apesar de sempre receber cartas ferinas no decorrer dos anos, no estava preparado para a quantidade de mensagens odiosas que o artigo causou. Leitores me
disseram que Gandhi estava agora queimando nas profundezas do inferno, e que at os demnios acreditam em Deus e citam a Bblia. "E ento, vemos Gandhi na capa deste
ms", escreveu um dos leitores. "Quem ser a capa do ms que vem, o aiatol?" Outro leitor o chamou "o agitador pago que mais fez para debilitar a influncia da
civilizao ocidental". Um proeminente porta-voz cristo rebelou-se contra a revista por "colocar na capa, no lugar de Jesus, a figura de Mahatma Gandhi".A maioria
das reclamaes surgia de uma pergunta: os cristos tm alguma coisa a aprender de algum que rejeitou sua f? Cheguei  concluso que sim. Apesar de Gandhi jamais
ter aceitado os apelos da teologia crist, ele baseava a filosofia de sua vida nos princpios aprendidos com Jesus. De uma maneira bastante diferente, o impacto
de sua vida ajudou-me a me convencer da verdade da f crist. Comecei a ver que Jesus disseminou na terra um novo tipo de poder, uma inverso que virou de cabea
para baixo as suposies bsicas da Histria. "Os ltimos sero primeiros, e os primeiros sero ltimos", disse ele, dando cumprimento a esse princpio buscando
os excludos, os pobres, os sofredores. Ele foi a pessoa mais influente que j viveu, apesar de no ter um escritrio, de possuir uma atitude de desprezo em relao
ao poder poltico e de no ter deixado para trs de si nenhum bem material, seno um lenol.
      Jesus ofereceu perdo aos pecadores, amor aos inimigos, compaixo proftica queles de quem discordava. Hoje, todo grupo marginalizado do mundo - minorias,
mulheres, deficientes, prisioneiros, doentes - pode olhar para Jesus como uma fonte de inspirao moral e um modelo para aes efetivas, quer sigam ou no seus ensinamentos.
Por intermdio de Gandhi, pude ver que, alm de fundar uma Igreja, Jesus produziu uma corrente de autoridade moral que liberta os cativos, alivia os oprimidos e
despreza um mundo violento e competitivo. Essa corrente flui quer a Igreja se junte a ela ou opte por permanecer nos bancos. Devido ao meu prprio passado, sempre
fui rpido em acusar a Igreja de permanecer esttica enquanto a corrente flua. Gandhi ensinou-me que o evangelho tem vida em si, e que executa sua obra lenta e
firme, independentemente do resto. Apesar de nunca ter aceitado Jesus da maneira como os cristos desejavam, Gandhi provou a verdade dos ensinos de Jesus, canalizando
essa corrente para uma nao marcada pela paixo e pela violncia.
      Gandhi tinha amigos ntimos cristos, como os missionrios Charlie Andrews e E. Stanley Jones. Como seus escritos demonstram, compreendia os detalhes da doutrina
crist melhor do que muitos cristos. Por que, ento, ele terminou por rejeitar essa f?
      Criado na ndia, Gandhi teve pouco contato com cristos quando era jovem. Espalhavam-se rumores em sua cidade que, se um hindu se convertesse ao cristianismo,
seria forado a comer carne, tomar bebidas fortes e usar roupas europias. Gandhi tambm se recorda de um episdio desagradvel, em que viu um missionrio cristo
numa esquina, escarnecendo dos hindus e de seus deuses.
      Como estudante de Direito em Londres, Gandhi teve uma exposio mais prolongada ao cristianismo. A pedido de um colega, ele leu a Bblia de capa a capa. Confessou
que o Antigo Testamento no lhe inspirava, provocando-lhe sono, mas o Novo Testamento causou uma profunda impresso. Por toda sua vida, Gandhi viu-se retornando
aos ensinos de Jesus, seu modelo de no-violncia e vida simples. Ele tambm leu Many Infallible Proofs, de Pearson (que "no teve efeito algum sobre mim") e The
Analogy of Religion, de Butler, entre tantos outros livros e comentrios cristos. Ainda assim, no conseguia reconciliar a disparidade que via entre Cristo e os
cristos. Como ele mesmo disse, "apedrejar profetas e, mais tarde, levantar igrejas em sua memria tem sido a prtica do mundo durante eras. Hoje, adoramos Cristo,
mas o Cristo encarnado ns o crucificamos".
      Gandhi viveu na frica do Sul durante os anos formativos de sua vida, e alguns incidentes desagradveis ocorridos ali fizeram pouco para mudar as posies
que tinha em relao ao cristianismo. Encontrou discriminao ferrenha numa sociedade ostensivamente crist, sendo colocado para fora de trens, expulso de hotis
e restaurantes e barrado em algumas reunies crists.
      Uma mulher branca que costumava convidar Gandhi para as refeies de domingo deixou claro que ele no era mais bem-vindo depois de observar a influncia que
o vegetarianismo de Gandhi estava exercendo sobre seu filho de cinco anos de idade. Antes disto, ele freqentava a Igreja Wesleyana com a famlia dela todos os domingos.
"A igreja no me causou uma impresso favorvel", relembra ele, citando sermes tolos e uma congregao que, "ao contrrio, parecia ser mais mundana, com pessoas
indo  igreja para recreao e por hbito".
      Em sua autobiografia, Gandhi conta vrios episdios de cristos que tentavam convert-lo. Um cavalheiro levou-o a uma reunio de avivamento para ouvir o reverendo
Andrew Murray. Gandhi ficou bastante impressionado com as histrias que Murray contou sobre a f de George Mller, fundador de um orfanato ingls. Gandhi lembrava-se
das histrias da seguinte maneira:

   O senhor Baker tinha dificuldade de ter um "homem de cor" como eu em sua companhia. Precisamos passar por alguns inconvenientes em muitas ocasies, inteiramente
por minha causa. Precisvamos interromper uma viagem no meio porque calhou de um dos dias ser um domingo, e o senhor Baker no viajava no sabbath.
   Esta conveno era uma reunio de cristos devotos. Eu estava maravilhado com sua f. Encontrei o Sr. Murray. Vi que muitos estavam orando por mim. Gostava de
muitos de seus hinos, que eram bastante agradveis.
   A conveno durou trs dias. Pude compreender e apreciar a devoo daqueles que a freqentaram. Mas no vi razo alguma para mudar minha crena, minha religio.
Para mim, era impossvel acreditar que somente poderia ir para o cu ou obter salvao se me tornasse um cristo. Quando disse isto de maneira franca a alguns bons
amigos cristos, eles ficaram chocados. Mas no h remdio para isto.
   Minhas dificuldades eram mais profundas. Eram mais do que acreditar que Jesus era o nico Filho encarnado de Deus, e que somente aquele que cresse nele teria
a vida eterna. Se Deus podia ter filhos, todos ns ramos seus filhos. Se Jesus era como Deus, ou o prprio Deus, ento todos os homens eram como Deus e poderiam
ser o prprio Deus. Minha razo no estava pronta para aceitar literalmente que Jesus, atravs de sua morte e de seu sangue, redimiu todos os pecados do mundo. Metaforicamente,
poderia haver alguma verdade nisto.
   Mais uma vez, de acordo com o cristianismo, apenas os seres humanos tinham alma, e nenhum outro ser vivente a possua, o que, para eles, significava que a morte
era a extino completa; eu tinha uma posio contrria. Podia aceitar Jesus como mrtir, um sacrifcio corporificado e um mestre divino, mas no como o homem mais
perfeito que j nasceu. Sua morte na cruz era um grande exemplo ao mundo, mas minha alma no conseguia aceitar que havia algo misterioso ou alguma virtude miraculosa
nisto. As vidas piedosas de cristos no me davam coisas que as vidas de outros homens de outros credos haviam deixado de me ofertar. J vira em outras vidas o mesmo
tipo de reforma que ouvira entre os cristos. Filosoficamente, no havia nada de extraordinrio nos princpios cristos. Do ponto de vista do sacrifcio, parecia-me
que os hindus superavam em muito os cristos. Era impossvel para mim considerar o cristianismo uma religio perfeita ou a maior de todas as religies.
   Compartilhava estas idias com meus amigos cristos todas as vezes que havia uma oportunidade, mas suas respostas no me satisfaziam.
   (Extrado de Gandhi: An  Autobiography)

      Ele resumia sua posio com a frase: "No posso dar ao cristianismo um trono solitrio".
       triste notar que os conceitos de graa e perdo de Deus no aparecem nas obras de Gandhi. O hindusmo tropea na questo da graa. "Se algum deseja encontrar
salvao", dizia Gandhi, "deve ter tanta pacincia quanto a de um homem que se assenta  beira-mar e, com um canudo, pega apenas uma gota de gua, colocando-a em
outro lugar, at que o oceano fique vazio". No fim de sua autobiografia, ele ainda lamenta que no esteja livre da paixo em seus pensamentos, seus discursos ou
suas aes. "Devo reduzir o meu 'eu' a zero", conclui.
      Gandhi graciosamente omite de sua autobiografia outra lembrana dolorosa da frica do Sul. A comunidade indiana tinha especial admirao pelo missionrio C.
F. Andrews, a quem apelidaram "o fiel apstolo de Cristo". Tendo ouvido tantas coisas sobre Andrews, Gandhi estava desejoso de se encontrar com ele. Mas na primeira
oportunidade que teve de ouvi-lo, Gandhi foi dispensado do culto porque a cor de sua pele no era branca. Mais tarde, Gandhi e Charlie Andrews tornaram-se grandes
amigos, mas Gandhi nunca se esqueceu da dor daquele incidente.
      Ao comentar as experincias de Gandhi na frica do Sul, E. Stanley Jones conclui que "o racismo tem sobre si muitos pecados, mas talvez o pior deles tenha
sido o de obscurecer a Cristo na hora em que uma das maiores almas nascidas de uma mulher estava tomando sua deciso".

      Numa das visitas que fiz  ndia, vi-me em uma comunidade crist em Nova Dlhi, um tipo de ashram composto por jovens indianos que esto tentando cumprir corporativamente
o chamado radical que Jesus fez a seus seguidores. Por algum tempo, discutimos os paralelos entre Gandhi e Jesus Cristo. Como j disse, Gandhi creditava abertamente
aos ensinos de Jesus a base de seus princpios. Porm, embora Gandhi tenha causado um profundo impacto no pas inteiro, o cristianismo  quase incipiente na ndia:
menos de 3% da populao se dizem cristos.Juntos, exploramos a idia de que seus representantes apresentaram o cristianismo  ndia, mas no o verdadeiro Cristo.
      Conversamos sobre a forma como o indiano medianamente letrado percebe o cristianismo. Aqueles que visitam a Amrica voltam impressionados com todas as igrejas.
Contam histrias sobre os pastores televisivos e quanto dinheiro arrecadam de seus patrocinadores. Falam de lderes cristos que se encontram com o presidente e
de vrios polticos que se dizem nascidos de novo. Os lderes espirituais ocidentais normalmente so de classe mdia e elegantes, em nada semelhantes aos homens
austeros que se costuma ver na ndia. Ningum  chamado "Grande Alma" nos Estados Unidos. Refletindo sobre o cristianismo, esses indianos falam de seu poder e seu
sucesso. Raramente falam sobre a vida de Jesus ou os princpios deixados por ele.
      No desejo de incentivar meus amigos cristos de Nova Dlhi, trouxe-lhes  lembrana a declarao de Gandhi de que o insight para os problemas do mundo deve
vir do Oriente, e no do Ocidente. "Precisamos ser a mudana que queremos ver", disse Gandhi. Implorei a eles que tomassem o que de melhor seu continente poderia
produzir, alguns dos ideais que atraam Gandhi, e traassem suas razes crists. Eles poderiam desafiar minha nao de uma maneira que eu, como norte-americano,
no poderia fazer, como mostrado pelo fato de que alguns jovens dos Estados Unidos s vezes ouvem sobre Gandhi antes de ouvir sobre Jesus. "O mundo pode ser receptivo
a esta mensagem", disse eu.
      Um jovem indiano bastante pensativo, que ficou sentado durante toda a discusso, falou o seguinte: "No entendo. Parece que voc est dizendo que o Ocidente,
de modo geral,  receptivo a um santo, algum como Gandhi, que se levanta defendendo idias distintas da cultura em que vive. Mas ser que a Igreja  receptiva?
Voc disse que o cristianismo norte-americano nunca produziu um santo que caminhasse nas linhas traadas por Gandhi. Todos os lderes so muito diferentes dele.
Parece que voc est concluindo que, se Gandhi se levantasse numa igreja dos Estados Unidos hoje, ele no seria levado a srio; seria talvez at ridicularizado e
rejeitado. E, ainda assim, todos esses cristos dizem que adoram a Jesus Cristo. Por que eles no o rejeitam? Ele viveu uma vida simples, pregou o amor e a no-violncia,
recusou-se a se comprometer com os poderes deste mundo. Pediu a seus seguidores que carregassem as suas cruzes e suportassem os sofrimentos. Por que os cristos
norte-americanos no o rejeitam?"
      Foi uma excelente pergunta, para a qual eu no tenho resposta.

   Apedrejar profetas e, mais tarde, levantar igrejas em sua memria tem sido a prtica do mundo durante eras. Hoje, adoramos Cristo, mas o Cristo encarnado ns
o crucificamos.
   (Mahatma Gandhi)

MAHATMA GANDHI PARA INICIANTES
      Diversos autores procuraram produzir biografias de Gandhi a partir de pontos de vista polticos, psicolgicos e sociolgicos. A obra Gandhi's Truth, de Erik
Erikson,  uma das mais recompensadoras. Freedom at Midnight, dos famosos escritores Larry Collins e Dominique Lapierre, capta o esprito  poca da independncia
da ndia num estilo semelhante  prosa de uma revista semanal. A prpria Autobiografia de Gandhi nos d um vislumbre daquele homem complexo. Gandhi, de E. Stanley
Jones, descreve a sui generis amizade de Mahatma com o missionrio metodista. Considere tambm a internet. Arun Gandhi administra um site bastante completo nos Estados
Unidos (WWW.GANDHIINSTITUTE.ORG), que contm bastante material sobre seu av e um bom mecanismo de busca que rapidamente localiza uma enorme lista de outros sites
baseados na ndia.

8. Dr. C. Everett Koop
Serpentes e Pombas em Praa Pblica
      Quando eu era jovem, poltica era um palavro. Ns, cristos, nos considervamos uma minoria sitiada; agradecida pela liberdade religiosa de nossa nao, sim,
mas conformados a viver como uma insignificante contracultura numa sociedade dominada pelos mundanos humanistas seculares. Na Escola Dominical, jurvamos fidelidade
 bandeira crist assim como  bandeira americana, e nunca duvidamos de que essa fidelidade era prioritria. Certamente, ningum se voltava para Washington em busca
de liderana moral, e poucos na minha igreja assumiam um papel ativo nas campanhas polticas.
      John F. Kennedy ajudou a nos tirar da letargia em 1960. Um dicono alarmista distribuiu cpias de um livro assustador chamado If America Elects a Catholic
President (Se a Amrica eleger um presidente catlico), e o pastor dava indicaes veladas de que um presidente catlico seria obrigado a seguir ordens do papa,
e no de seus compatriotas. Kennedy se elegeu e nenhuma dessas profecias catastrficas se cumpriu.Em 1964, eu trabalhava no escritrio dos Jovens Republicanos, na
campanha de Barry Goldwater, e meu candidato foi derrotado. Na eleio seguinte, a primeira na qual eu podia votar, minhas inclinaes polticas haviam mudado totalmente
de lado, indo na direo do candidato democrata Hubert Humphrey - no fundo, eu preferia o senador poeta Eugene McCarthy -, mas meu Estado votou em massa em George
Wallace. Richard Nixon, porm, ganhou nacionalmente, e os cristos ficaram de orelha em p quando Billy Graham comeou a aparecer junto dele. Graham teve oportunidade
de se arrepender em vida de seu erro, quando comeou a conhecer o verdadeiro carter daquele homem ao ler a transcrio das fitas do Caso Watergate.
      A seguir, Jimmy Carter, natural da Gergia, ganhou as eleies, atraindo enorme ateno para sua religio de nascidos de novo. A Time declarou: "O ano dos
evanglicos", e alguns polticos de Washington designaram assistentes para descobrir tudo que pudessem sobre esse enorme eleitorado que parecia brotar durante a
noite. Muitos evanglicos no gostaram do piedoso Jimmy Carter, transferindo seu apoio para Ronald Reagan quatro anos mais tarde. Parecia uma escolha improvvel:
Reagan raramente ia  igreja, doava quase nada  caridade e, apesar de seus "valores familiares", era o primeiro presidente divorciado e que tinha filhos gays e
alienados. Reagan reconheceu a dvida que tinha com os evanglicos e promoveu uma plataforma social conservadora, alm de colocar alguns deles em posies estratgicas.
      O sucessor de Reagan, George Bush, teve uma recepo fria, e permaneceu por apenas um mandato. O ocupante seguinte da Casa Branca, um batista do Sul, freqentava
a igreja assiduamente, conhecia a Bblia melhor do que qualquer outro presidente desde Woodrow Wilson e tinha evanglicos como Tony Campolo, Bill Hybels e George
MacDonald entre seus mais prximos conselheiros. Mas nenhum presidente de tempos recentes promoveu tamanho escrnio e total repugnncia da comunidade crist como
Bill Clinton, mesmo antes de suas falhas morais se tornarem conhecidas do pblico. Poltica e religio realmente no se combinam.
      Em outros pases, o cenrio  ainda mais estranho. Evanglicos em lugares como Europa, Austrlia e Nova Zelndia lutam bem na esquerda da poltica, como os
lderes catlicos na Amrica Latina. Para complicar as coisas, a Histria mostra que, quando os cristos controlam as rdeas do poder, criam leis restritivas, lanam
cruzadas contra os infiis e perseguem seus hereges. Porm, quando governos seculares assumem o controle e comeam a oprimir os cristos, normalmente a Igreja floresce.
Tenho constatado em minha vida que a China apresenta o maior percentual de crescimento numrico de cristos em toda a histria do mundo, um reavivamento que ocorre
sob um governo que restringe a adorao e aprisiona pastores.
      Nos Estados Unidos, as questes polticas e religiosas continuam a atrair as atenes. Um candidato judeu  vice-presidncia, Joseph Lieberman, falava abertamente
de Deus e atraa a crtica de grupos polticos judeus. Um procurador-geral pentecostal, John Ashcroft, se sujeitava a um escrutnio sobre suas convices acerca
do aborto e a homossexualidade. O presidente George W. Bush muda o sistema de concesses de entidades de caridade confessionais e promove o uso de vales em escolas
religiosas.
       possvel que uma pessoa se envolva em poltica sem que faa concesses fundamentais? J citei renomadas figuras religiosas - Tolstoi, Gandhi, King - que
ajudaram a transformar o quadro poltico. Apesar de ter aprendido com esses gigantes, tenho mais curiosidade quanto ao papel desempenhado por cidados comuns. Pode
uma pessoa realmente servir " cidade de Deus" e " cidade dos homens", para usar termos prprios de Agostinho? Uma no ir inevitavelmente impedir a outra? Tenho
observado bem de perto o exemplo de um cidado comum, um mdico que no tem experincia poltica, que faz de tudo para chegar a um equilbrio e que nos fornece um
excelente estudo de caso. Conheo-o desde 1971, quando minha esposa trabalhou para um comit que ele dirigia, supervisionando indicaes internacionais de mdicos
residentes. Durante a administrao Reagan, ele se tornou talvez o evanglico mais famoso de seu gabinete. Tinha profundas convices sobre algumas das mais importantes
questes morais de sua poca e falava com objetividade sem precedentes. Os resultados surpreendiam a todos, inclusive ele mesmo.

      Em trs dcadas de cirurgia no Hospital Infantil de Filadlfia, o Dr. C. Everett Koop criou tcnicas pioneiras de salvar e curar bebs prematuros e defeituosos.
Enquanto isso, em outra ala do mesmo hospital, uma clnica de aborto era equipada, capaz de eliminar de dez a quinze vidas no mesmo tempo em que ele salvava uma
ou duas. Para Koop, o aborto era uma questo moral muito clara, e era assim, apaixonadamente, que ele falava contra essa prtica, chamando a deciso judicial do
caso "Roe versus Wade", que legalizou o aborto, de "o mais importante evento da histria americana desde a Guerra Civil". Por um perodo de tempo, Koop chegou a
suspender sua brilhante carreira na cirurgia peditrica para fazer um trabalho de convencimento, com Francis Schaeffer, e advertir o pblico americano sobre as questes
relativas  vida humana. Numa dramtica cena do seriado Whatever Happened to the Human Race? (O que aconteceu com a raa humana?), Koop olha para milhares de bonecas
nuas espalhadas sobre resduos de sal no mar Morto e proclama: "Estou em Sodoma, lugar do mal e morte".
      Koop tambm apresenta uma tendncia de enxergar a tecnologia em termos de preto ou branco. Ele se converteu j adulto, freqentando uma igreja presbiteriana,
e sua f est centralizada na doutrina da soberania de Deus. Sendo um experiente cirurgio que respeita a autoridade de uma cadeia de comando, que est acostumado
a dar ordens e tomar decises rpidas sobre vida e morte, Koop parece virtualmente imune aos surtos de angstia de Kierkegaard. Se Deus  todo-poderoso, ento 
natural que tudo que acontea - tudo - esteja diretamente sob seu controle, o tempo todo.
      Esta f serena foi testada em 1968, quando Koop sofreu a mais dolorosa tragdia de sua vida, um evento que mudou profundamente sua constituio emocional.
Antes desse fato, Koop achava que era sinal de fraqueza de um mdico chorar com pais que haviam perdido os filhos; mais tarde, comeou a achar difcil no faz-lo.
Seu filho David, um jovem de 20 anos de idade, aluno do Colgio Dartmouth, morreu enquanto escalava uma montanha. O corpo de David ficou nas rochas por 52 horas
antes de ser resgatado, uma terrvel provao para a famlia Koop. Mas o dirio pessoal de Koop daquela poca, publicado sob o nome Sometimes Mountains Move no
continha indcio algum de qualquer luta com Deus. Ele termina com uma citao do Livro de Judas, no Novo Testamento: "Ora, quele que  poderoso para vos guardar
de tropeos...", seguido da declarao de f do prprio Koop: "Deus era capaz de guard-lo mas, em sua soberania, optou por no faz-lo naquele momento".
      Uma chamada telefonica urgente em agosto de 1980 colocou em xeque essa crena bsica sobre a soberania de Deus. Ronald Reagan, que j lera dois livros de Koop
e admirava suas convices em favor da vida, queria que ele servisse como chefe da sade pblica nacional.58 A indicao ajudaria a solidificar o apoio de Reagan
entre os constituintes a favor da vida, especialmente entre os evanglicos, o grupo que mais conhecia Koop. Pouco depois de sua posse, Reagan designou-o para o cargo
de delegado assistente da Secretaria de Sade e o nomeou chefe da Sade Pblica. Esta indicao, porm, precisava de uma ao do Congresso porque, aos 64 anos, Koop
excedera a idade-limite para o cargo por apenas cem dias. Aquilo que Reagan e praticamente todo mundo na administrao pensava se tratar de um procedimento legislativo
pro forma iniciou um verdadeiro vendaval poltico.
      A franqueza de Koop virou-se contra ele mesmo, especialmente depois que um bem-intencionado grupo pentecostal transmitiu a srie de filmes de Schaeffer numa
estao de televiso de Washington. Grupos como Planned Parenthood (Paternidade Planejada), NOW (National Organization for Women - Organizao Nacional para as Mulheres)
e outros grupos favorveis  opo da mulher pelo aborto lideraram o ataque da cavalaria, brandindo todas as declaraes extremas que Koop fizera sobre aborto, direitos
das mulheres e homossexualidade. Num caso de macarthismo 59 s avessas, questionaram no apenas suas crenas, mas tambm sua competncia como mdico, sua estabilidade
emocional e at mesmo sua sanidade. O respeitado jornal New York Times publicou um editorial intitulado "Dr. Desqualificado", e a imprensa de Washington cunhou um
apelido ainda mais desagradvel, chamando-o "Dr. Kook" ("Dr. Maluco", fazendo um jogo de palavras com seu nome). O congressista Henry Waxman proclamava-o um homem
assustador e intolerante. Outros o consideravam direitista excntrico, um maluco mal-intencionado, um fantico religioso. Pela primeira vez na histria centenria
da Associao de Sade Pblica dos Estados Unidos, a organizao protestou contra uma indicao. "Seria melhor ficarmos sem um chefe na diviso de sade do que ter
Koop ali", disse seu diretor executivo.
      A famlia Koop chegou a Washington como turistas inocentes que acidentalmente caram numa zona de guerra. Na Filadlfia, os triunfos cirrgicos do Dr. Koop
- separar gmeos siameses, reparar deformidades faciais, reposicionar o corao no trax de crianas - havia atrado uma generosa publicidade. Ganhador de diversos
prmios, inclusive a Lgion d'Honneur na Frana, era com freqncia reconhecido nos jornais da Filadlfia como "nosso favorito e mais famoso filho". Agora, a imprensa
local se juntara ao coro que o pressionava, pintando um quadro cruel de Koop, como se ele fosse um monstro de duas cabeas. Todas as manhs, o filho de Koop, que
trabalhava em outra cidade, encontrava um jornal na porta de seu escritrio com artigos difamatrios sobre seu pai, grifados com lpis vermelho.
      Koop e sua esposa Betty estavam morando num lugar provisrio, cercado de caixas ainda fechadas. Todos os dias, Koop trabalhava num espaoso escritrio de onde
podia ver a cpula do Capitlio e a enorme bandeira norte-americana. Embora estivesse prximo da sede do poder, no tinha nenhum; a nica coisa que recebia era o
escrnio da cidade. Depois de quatro dcadas de frenticas jornadas de trabalho de 12 horas dirias, via-se agora diante de uma caixa de entrada de correspondncias
vazia, um telefone silencioso e uma agenda em branco - um quadro que, para ele, parecia um confinamento solitrio. O Dr. Paul Brand visitou-o quela poca e me disse:
"Por vrios anos, aquele excelente cirurgio tinha criado notcias na rea mdica. Ele era um dnamo, um homem com uma misso. Agora, porm, vi a imagem de um leo
enjaulado, cheio de um enorme poder, medindo a sala com seus passos, literalmente sem ter o que fazer. Tambm tive a impresso de ver um homem ferido, algum que
precisava de conforto".
      O prprio Koop reflete: "No conseguia entender por que Deus havia interrompido uma vida to tranqila e produtiva. Nunca busquei qualquer cargo pblico, por
isso acreditava que fora Deus quem havia me tirado de Filadlfia e jogado em Washington. Costumava fazer uma srie de perguntas a Deus sobre isto. Durante aqueles
nove agonizantes meses do processo de indicao, eu ficava olhando para minha Bblia sobre a mesa, tentando entender o que havia acontecido. O pior dia foi aquele
quando voltei para casa certa tarde - o sol entrava pela veneziana entreaberta em nosso pequeno apartamento em Georgetown -, abri a porta com minha chave e vi Betty
em p, lendo o Washington Post com lgrimas escorrendo por sua face".
      "No preciso disto", disse Koop. "Nunca fui tratado assim antes, e  errado colocar minha famlia nesta situao." Desta vez, foi Betty quem recordou que a
soberania de Deus deveria, de alguma maneira, ter um propsito por trs da ruptura de suas vidas. "Se voc desistir agora", disse ela, "vai ficar se perguntando
para sempre." Betty ainda lhe deu um sorriso e disse: "E no se esquea: voc no tem mais um emprego na Filadlfia".

      Como todo mundo sabe - todo mundo que assistia televiso, lia jornal ou ouvia rdio em 1980 -, C. Everett Koop finalmente conseguiu o cargo de chefe do Departamento
de Sade e, contra todas as dificuldades, emergiu como um dos mais visveis, atuantes e admirados servidores pblicos da nao. Quando anunciou seu pedido de demisso,
em 1989, seus antigos crticos se derramaram em elogios quele a quem um dia caluniaram. O apresentador de notcias Dan Rather chamou-o "o melhor chefe da Sade
de todos os tempos". O congressista Waxman, convertido em um de seus maiores fs, concordou prontamente: "Ele  um homem de tremenda integridade. Ele fez tudo que
uma pessoa neste cargo poderia fazer, e um pouco mais". A Associao de Sade Pblica dos Estados Unidos, o mesmo grupo que lutara contra sua nomeao, honrou-o
com o mais alto prmio por excelncia. Praticamente todo mundo, exceto seus aliados originais - estranhamente, os evanglicos - uniu-se no aplauso.
      O que provocou essa enorme mudana na imagem de Koop? A resposta est parcialmente no conceito errado que a mdia fez de Koop, parcialmente na habilidosa montagem
de um gabinete que se encaixasse em seus pontos fortes e parcialmente nos infernais nove meses que passou sentado num escritrio vazio, sem ter o que fazer. Sobre
seus crticos evanglicos, Koop acredita que eles no compreenderam quase nada do que ele fez como chefe do Departamento de Sade. Ele tentou servir como o astuto
profeta Daniel numa administrao secular; eles estavam esperando alguma coisa mais parecida com um Ams ou um Jeremias.
      Se os crticos seculares de Koop tivessem analisado seu passado com mais detalhes, teriam percebido que ele no tinha um iderio tecnocrata. A compaixo para
com os homens no apenas temperou, mas de fato formou suas firmes crenas. Mesmo em seus agitados primeiros anos como cirurgio, ele encontrava tempo para cuidar
dos necessitados numa misso de resgate no centro da cidade. Um de seus assistentes mais prximos explicou: "O que as pessoas no entenderam sobre o Dr. Koop  que
ele  a favor da vida no mais profundo sentido da palavra - no anti-morte, mas pr-vida. J o vi com milhares de pessoas -crianas malnutridas, socialites de Washington,
pacientes terminais de Aids, esposas que sofreram abuso, ativistas favorveis ao aborto -, e ele trata todos como se realmente acreditasse (e acredita) que foram
criados  imagem de Deus. Ele  capaz de interromper sua agenda ocupada para se encontrar com alguma pessoa perturbada que quer falar com 'o doutor'. Ele realmente
respeita o valor da vida humana".
      Koop assumiu uma posio firme contra o aborto em funo de sua experincia com centenas de milhares de pacientes peditricos, muitos dos quais to pequenos
que cabiam em uma das mos apenas, muitos to deformados que nenhum outro cirurgio ousava tocar neles. Com o passar dos anos, Koop viu esses bebs crescerem e se
transformarem em adultos plenamente capazes, com nomes, personalidades e histrias individuais. Paul, que passou por 37 cirurgias faciais e abdominais, hoje formado
pela West Chester University; Chris, que precisou de 15 cirurgias para que seu corao se colocasse no lugar correto e seus pulmes pudessem trabalhar corretamente;
Maria, para quem o Dr. Koop criou um esfago a partir de uma seco do clon, e que prosseguiu at conseguir o grau de doutora e ela mesma se tornar uma cirurgi
peditrica. Koop sabia que cada beb perdido para um aborto era um Paul, uma Chris ou uma Maria em potencial.
      Alguma coisa sobre o desamparo daqueles pequenos seres humanos atraiu Koop para o campo da cirurgia peditrica num tempo em que s havia um punhado desses
especialistas no pas inteiro. Ele tinha uma queda pelos fracos e pelos menos privilegiados. Enquanto se sentava em seu gabinete durante as audincias de nomeao,
pela primeira vez ele tambm se sentiu fraco e desprivilegiado. Um homem orgulhoso, acostumado ao sucesso, de repente estava tanto humilhado quanto isolado. Conforme
se arrastavam as semanas, cada um dos diversos grupos especiais de interesse fazia uma visita com o objetivo de esquadrinhar o indicado com relao s pessoas com
quem ele deveria lidar. A maioria sabia pouco sobre ele, restringindo-se apenas s coisas escritas nos jornais  exausto. Descobriram que o aspirante a chefe da
Sade Pblica, sem poder e com poucas esperanas, tinha um bem em grande quantidade: tempo - tempo para ouvir suas preocupaes.
      Durante o perodo de nove meses, Koop ouviu diversas vozes vindas de todo o pas. Algumas, como a dos advogados dos direitos dos gays e dos grupos pr-aborto,
eram ferozmente contrrias a suas posies. Mas eles tambm faziam parte da nao cujos cuidados mdicos ele supervisionaria. Koop olha hoje para aquele perodo
como uma ddiva maravilhosa. "Tive a chance de olhar para os problemas de sade que a nao tinha e ponderar sobre o que eu poderia fazer quando finalmente fosse
liberado. Decidi que usaria o gabinete para abraar a causa dos menos favorecidos: crianas com deficincia fsica, idosos, pessoas  espera de transplantes, mulheres
e crianas que estivessem sofrendo abusos. Durante os nove meses, desenvolvi uma agenda detalhada, algo que nenhum chefe de gabinete antes de mim fizera. No fim,
aquele perodo de terrvel frustrao possibilitou a execuo de todas as coisas que eu era capaz de fazer no gabinete. Isto  que  a soberania de Deus operando!"
      Em resumo, Koop usou o tempo para sonhar sobre a diferena que um chefe do Departamento de Sade poderia fazer. E sua grande notoriedade garantia que, depois
de sua posse - que finalmente aconteceu, depois de uma agitada audincia do Senado -, tudo que ele dissesse ou escrevesse atrairia a ateno de um enxame de reprteres.
Seus detratores, que queriam fazer-lhe mal, paradoxalmente ajudaram a entregar-lhe a plataforma pblica que ele precisava para alcanar seus objetivos.
      Depois de sua posse, Koop achou que era um almirante de trs estrelas sem um navio para comandar. O gabinete da rea de Sade, sua incumbncia principal, ainda
que vagamente definida, fora severamente negligenciado pelas administraes anteriores (o presidente Nixon nunca sequer se preocupou em apontar algum para o cargo).
Koop tinha pouqussimo poder de deciso, nenhuma autoridade sobre oramento e um grupo de colaboradores minsculo. O nimo das equipes comissionadas na rea de servios
de Sade Pblica era o mais pessimista de todos os tempos. Numa tentativa de animar os funcionrios, Koop pediu que eles usassem o uniforme que h muito tempo j
havia sado de moda. Ele mesmo deu o exemplo, usando um uniforme engomado, ornamentado com listas, dragonas, fitas e gales dourados. Levou um tempo para que a prtica
pegasse. Mais de uma vez, os passageiros dos avies confundiam Koop com um comissrio de bordo e pediam que ele ajudasse com suas bagagens. E, agora, os cartunistas
polticos tinham um alvo certeiro para suas brincadeiras. Quem era aquele mdico estranho, com barba de Capito Ahab 60 e uniforme de navio de cruzeiro, um homem
que, numa cidade cheia de pastas executivas de grife, usa uma mala de lona?
      O diferencial do estilo de Koop chamou a ateno da mdia. Com dois metros de altura e pesando em torno de 90 quilos, ele era uma figura imponente dentro de
seu uniforme, e conforme comeou a fazer pronunciamentos sobre a sade da nao com sua potente voz ao estilo do Brooklyn, a fascinao tomou o lugar da chacota.
Um reprter disse: "Na televiso, sua barba cerrada e as dragonas do Servio de Sade Pblica projetavam a imagem de um severo tio holands que se levantaria contra
os problemas causados por anos de passividade". Pessoalmente, esses mesmos reprteres ficaram impressionados com a cordialidade e a abertura do novo chefe da Sade
Pblica. No demorou muito para que ele se tornasse o mais requisitado para dar entrevistas. Revistas colocaram sua figura austera em suas capas. Johnny Carson o
citava em composies. Elizabeth Taylor mandou-lhe beijinhos no ar. O programa de televiso The Golden Girls props um quadro em sua homenagem.
      "Onde est Koop, ali est a controvrsia" tornou-se um slogan em Washington. Ele criticava motoristas bbados, convocava foras de combate ao abuso infantil
e de cnjuges, criticava os hbitos alimentares americanos. Os superiores de Koop no sabiam o que pensar, especialmente quando ele desrespeitava a hierarquia e
desafiava sua poltica. O presidente Ronald Reagan, por exemplo, prometera aos senadores do Sul, como Jesse Helms, que no faria um discurso forte contra o cigarro.
Mas l estava o chefe da Sade do governo Reagan, chamando os lobistas do tabaco "vulgares" e "mentirosos de p chato", acusando-os de exportar a morte para o Terceiro
Mundo. Com a objeo da Casa Branca, Koop declarou que a nicotina era to viciante quanto a herona, props o banimento de todos os anncios de cigarro, insistiu
na criao de reas de no-fumantes e at pediu uma sociedade livre do cigarro. A administrao estava constrangida. O senador Jesse Helms, um dos maiores defensores
de Koop no passado, estava aterrorizado.
      A despeito da enorme presso, Koop no recuava. Mil americanos morriam todos os dias de doenas relacionadas ao fumo, e estando na posio do mais alto profissional
de Sade do pas, ele precisava falar. Ele hoje considera o declnio no nmero de fumantes - quase 20 milhes de norte-americanos pararam de fumar durante sua administrao
- como seu maior feito. Nas questes sobre cigarros, educao sexual e distribuio gratuita de agulhas para viciados, alm de vrios outros assuntos, Koop traou
seus prprios caminhos.
      Para um pblico sedento de integridade em seus lderes, Koop tornou-se um verdadeiro heri popular. O que parecia um servio sem qualquer perspectiva, gradualmente
se transformou numa arena central daquilo que Koop chamava "persuaso moral". "Tenho o senso de certo e errado", disse Koop, "mas vrias pessoas desta cidade no
tm". Em essncia, Koop conseguia satisfazer as expectativas que os americanos tinham de um mdico de famlia. Seu mdico pode lhe falar coisas duras, recitar os
maus hbitos que voc tem, mas, mesmo assim, o que voc quer  algum que seja direto e objetivo, sem dourar a plula, pois o que importa  sua sade. Koop representava
esta imagem muito bem.

       medida que os crticos aprenderam a respeitar sua independncia e sua integridade, e o pblico como um todo passou a consider-lo algum que se preocupava
sinceramente com seu bem-estar, transformando-se num heri popular, seu eleitorado original viu com decepo aquilo que eles consideraram uma traio da causa que
eles defendiam. Eis o retrato que os conservadores pintaram de Koop:

    "Koop  uma das maiores decepes da administrao Reagan" -National Review
    "Koop devia ter ficado com a boca fechada" - Phyllis Schlafly, porta-voz dos conservadores
    "Isso  uma vergonha (...) Ele traiu os mesmos princpios que fizeram dele o chefe do Departamento de Sade" - Michael Schwartz, Free Congress Foundation (Fundao
Congresso Livre)
    "Se ele no podia agir de acordo com o que considerava correto, deveria ter renunciado ao cargo. Ele se revelou como algum que valoriza mais as luzes do que
sua prpria conscincia"    Howard Phillips, do Grupo dos Conservadores.

      Alguns evanglicos que o viam como a grande esperana poltica, compartilhavam do mesmo senso de desalento. "Os partidrios de longa data do Dr. Koop esto
amargurados e deprimidos", queixava-se o comentarista Cal Thomas, adicionando que "um ateu teria sido to bem-sucedido quanto ele foi, apoiando a esquerda". Naquela
poca, Koop me disse: "Este tipo de crtica me afeta de uma maneira estranha. No gosto mais de ir  igreja. Alm do mais, Cal freqenta a mesma igreja que eu".
      O telogo Harold O. J. Brown tipificava a preocupao dos evanglicos. Fora ele que, uma dcada atrs, havia convencido Koop de que o aborto era errado em
qualquer circunstncia, mesmo em casos difceis. Em 1975, em Minepolis, terra de Billy Graham, ele e Koop haviam ajudado a fundar um lobby protestante que era contrrio
aos movimentos em favor do direito de escolha da mulher sobre manter ou no a gravidez, chamados de pro-choice. Seu movimento era pro-life, ou seja, a favor da vida.
Sua admirao por Koop era sincera e franca. "Nunca houve, desde Williams Jennings Bryan, outro cristo evanglico com tal grau de clareza, sinceridade e determinao
como o Dr. Koop, capaz de trazer valores espirituais  baila, que tenha sido indicado para um cargo pblico de tamanha envergadura." No demorou muito at que o
prprio Brown tambm comeasse a expressar publicamente sua preocupao com o fato de Koop estar solapando a causa pro-life.
      As reclamaes dos conservadores se concentravam em trs crises principais: o caso Baby Doe, a Aids e a carta sobre os efeitos do aborto. A controvrsia do
caso Baby Doe surgiu primeiro (entre 1982 e 1983): uma famlia e um mdico concordaram em interromper a alimentao de uma criana que nascera com um defeito congnito.
Nenhuma questo era mais prxima ao corao do Dr. Koop do que esta. Ele j havia feito 475 cirurgias para corrigir exatamente o problema do qual Baby Doe sofria,
e interromper seu tratamento parecia-lhe um caso puro e simples de infanticdio. Aps seis dias sem cuidado e ateno adequados, Baby Doe morreu. Depois de sua morte
e de as duras regulamentaes sobre futuros casos similares terem parado nos tribunais, Koop encontrou-se com os dois lados (as autoridades mdicas se opunham fortemente
s regulamentaes), e saiu das reunies com um compromisso baseado na criao de "comits de reviso de cuidados com os pacientes" dentro dos hospitais locais.
      A Suprema Corte derrubou o acordo, passando a discutir a questo. Mas o processo de compromisso abriu uma lacuna entre o chefe do Departamento de Sade e os
defensores do movimento pro-life, que viam a concordncia de Koop com os comits como uma "submisso"  comunidade mdica. Se os lobistas contrrios ao aborto saram
levemente desiludidos com Koop, ele saiu frustrado com sua mentalidade do tipo "tudo ou nada". Apesar de sua viso pessoal muito firme sobre essas questes, ele
vislumbrou o momento propcio, at mesmo a necessidade, de uma legislao sobre o assunto.
      To logo o calor da questo de Baby Doe se dissipou, uma nova crise caiu nas mos de Koop, como uma granada. No incio de 1981, o Governo comeou a detectar
manifestaes sobre uma epidemia concentrada em grupos que tinham "comportamento de alto risco", notadamente homossexuais e usurios de drogas injetveis. Ignorando
os clamores externos das comunidades gay, o presidente evitou qualquer meno da doena que viria a ser conhecida como Aids. Por cinco anos, Koop foi mantido fora
do fluxo de informaes e estava proibido de falar em Aids. Somente em 1986, quando dez mil casos foram confirmados, foi que a administrao pediu que o chefe do
Departamento de Sade preparasse um relatrio sobre o assunto.
      Hoje j nos esquecemos da histeria que cercou a crise da Aids, a maior parte vinda dos direitistas religiosos. Evanglicos de destaque receberam em seus programas
de rdio pessoas que diziam que a Aids podia ser contrada atravs de picadas de mosquito e nos assentos dos banheiros. De acordo com um membro do grupo daquela
poca, cinco mil cartas por semana chegavam ao Departamento de Sade e Servios Humanos, vindas de conservadores que lutavam contra fundos para pesquisa e educao
sobre o assunto. O "julgamento de Deus" deveria seguir seu curso. Dado o clima poltico predominante, praticamente todo mundo esperava um relatrio injurioso e moralista
do mdico evanglico. Os lderes dos direitos dos gays eram abertamente cticos.
      Mas Koop levou sua misso a srio. Marcou reunies informais de duas horas com 25 diferentes grupos, variando entre a Fora Tarefa Gay e Lsbica e os batistas
do Sul. Pediu que lhe fosse dada autoridade para preparar sozinho o relatrio, evitando os canais burocrticos normais que poderiam enfraquec-lo. Trabalhando em
casa numa escrivaninha, produziu 27 rascunhos. Estas eram as palavras que davam o tom do relatrio: "No comeo da epidemia de Aids, poucos norte-americanos tinham
simpatia pelas pessoas contaminadas. O sentimento era de que, de alguma maneira, integrantes de certos grupos 'mereciam' estar sofrendo daquela doena. Deixemos
de lado este tipo de sentimento. Estamos lutando contra uma doena, no contra pessoas".
      O relatrio sobre a Aids era notavelmente simples, falando dos perigos com detalhes anatmicos e pedindo que a educao sexual comeasse "nos nveis escolares
iniciais". Apesar de recomendar a abstinncia e o sexo apenas dentro de um casamento monogmico como a relao sexual mais segura, tambm recomendava o uso de preservativos
para todo aquele que tivesse mltiplos parceiros sexuais ou que estivesse envolvido em atos homossexuais. "O silncio deve ser extinto", declarou Koop.
      O silncio realmente desapareceu. Vozes internas da administrao Reagan denunciaram a posio contrria de Koop aos testes compulsrios de Aids e  educao
sexual precoce. Polticos liberais, como Ted Kennedy e Henry Waxman, elogiaram o relatrio por sua simplicidade e sua nfase nos aspectos de sade da doena. Os
ativistas dos direitos dos gays declararam Koop como "verdadeiro heri da Aids". O Congresso apoiou Koop, exigindo algo sem precedentes: pediram a criao de uma
cartilha educacional sobre a doena, que seria enviada a todos os lares americanos, num total de 107 milhes de domiclios, transformando-se na maior postagem de
toda a histria da Amrica.
      Alguns polticos conservadores ficaram irados. Paul Weyrich, um dos criadores do conceito de direitos religiosos, e a oradora conservadora Phyllis Schlafly
mobilizaram-se contra Koop, organizando um boicote a um jantar em Washington promovido em sua honra. Sua carta dizia: "Koop no apenas afastou-se publicamente dos
princpios dos grupos favorveis  vida, como muitos acreditam que suas afirmaes sobre a Aids so uma cobertura para a comunidade homossexual. Seu relatrio sobre
a Aids publicado em novembro ltimo apresenta uma forma tal que mais parece ter sido editado pela Fora Tarefa Gay Nacional (...) As propostas do Dr. Koop para parar
a disseminao da Aids representa a viso dos homossexuais, no a do movimento em favor da famlia". Vergando-se diante da presso, trs candidatos republicanos
 presidncia retiraram seu patrocnio ao jantar.
      Como uma complicao adicional, no meio do furor causado pelo relatrio sobre a Aids, Koop acordou de um cochilo  tarde vendo-se praticamente tetraplgico:
ele no podia mexer as mos nem os ps. Os vrios anos em que se curvou para operar crianas agravaram uma antiga contuso que sofrera praticando esqui. Quando sua
cabea escorregou do travesseiro ortopdico durante o cochilo, a presso pinou uma artria. Embora os cirurgies tenham reparado a maior parte do dano, a recuperao
o manteve no leito por vrias semanas.
      Koop olha hoje para trs, para aquele perodo de inatividade forada, muito semelhante queles nove meses do processo de indicao, e o v como um presente
providencial. Ele comeou a ver a Aids como uma doena, e que o moralista e o cientista podiam trabalhar de mos dadas - na verdade, precisavam andar de mos dadas
- para conter a epidemia. "Por sete semanas, pude ver o impacto do que se fizera atravs das reportagens. Percebi que tinha uma obrigao e uma tarefa, e assim decidi
fazer algo que provavelmente ningum havia feito antes no servio pblico. Nas primeiras sete semanas de 1987, dirigi-me apenas a grupos religiosos. Comecei com
a igreja de Jerry Falwell e uma capela na Liberty University passando pela Conveno Nacional de Radiodifuso Religiosa, conversando com pessoas conservadoras no
judasmo e no catolicismo romano, terminando com uma srie de programas da Moody Broadcasting Network."
      Nessas entrevistas, feitas com o uniforme completo e um colar ortopdico no pescoo, Koop afirmou a necessidade de abstinncia e um casamento monogmico. Mas
ele ainda completou: "A abstinncia total para todos no  uma coisa realista, e eu no estou disposto a ver o fim da raa humana (...) Sou o chefe do Departamento
de Sade dos heterossexuais e dos homossexuais, do jovem e do velho, do moral e do imoral". Falando numa linguagem familiar, ele admoestou seus colegas cristos:
"Vocs podem odiar o pecado, mas precisam amar o pecador". Enquanto Koop demonstrava toda a sua repugnncia  promiscuidade sexual - ele usou de maneira enftica
a palavra "sodomia" quando se referia aos atos homossexuais -, tambm insistia: "Sou o chefe do Departamento de Sade, no o capelo geral".
      Para explicar sua posio, ele com freqncia usava a analogia do mdico da sala de emergncia. Se uma ambulncia chega com dois homens feridos, um assaltante
de banco que atirou num guarda e o guarda que revidou ao tiro, qual homem o mdico deveria tratar primeiro? Ele deve cuidar daquele que tiver as feridas mais srias,
no o que tiver uma moral mais elevada. Koop j vira um nmero suficiente de pacientes de Aids com seus corpos esquelticos, definhando e cobertos de chagas arroxeadas,
para saber que eles precisavam do tratamento mais urgente. Seu voto fora o de atender aos fracos e menos favorecidos, e estava claro que no havia outro grupo de
pessoas mais necessitado em todo o pas. Independentemente do custo poltico, ele defenderia o direito que aquelas pessoas tinham ao tratamento e a necessidade de
instruir o povo para que evitasse aquela doena mortal.
      O chefe do Departamento de Sade perdeu muito do apoio entre os polticos conservadores depois desse episdio sobre a Aids. Mas hoje Koop olha para trs com
orgulho da atitude dos membros das igrejas de reas mais distantes. "Realmente, creio que mudamos a posio das pessoas sobre este assunto", diz. "Acho que recebi
umas 20 cartas de apoio vindas de pastores ligados aos batistas do Sul. Aquela denominao foi uma das que entrevistei antes de escrever o relatrio sobre a Aids.
Eles nunca tinham ouvido falar das prticas sexuais que citava. Certo dia, em meu gabinete, muito gentilmente procurei explicar quais eram os problemas, tentando
mostrar-lhes como era, por exemplo, o sexo praticado numa casa de banhos. Eles no sabiam se gritavam, se fugiam ou se escondiam o rosto. Mas eles se aproximaram
e se mostraram muito incentivadores. Eu lhes disse: 'Se vocs esto to preocupados com a educao sexual que seus filhos tero - e entendo por que vocs esto se
sentindo assim -, por que vocs, uma denominao de 26 milhes de pessoas, no escrevem seu prprio currculo?' Nove meses depois, eles me convidaram para ajud-los
a lanar aquele mesmo currculo."

      Aqueles conversadores que se levantaram contra Koop durante as . controvrsias da Aids e de Baby Doe ficaram agitados mais uma vez no incio de 1989, quando
a imprensa publicou uma carta de Koop para o presidente Reagan acerca do aborto. No outono anterior, um dos conselheiros de Reagan ligados ao grupo pro-life havia
convencido o presidente de que o chefe do Departamento de Sade faria uma pesquisa sobre os efeitos do aborto nas mulheres. "As descobertas seriam to devastadoras
que reverteriam o caso 'Roe versus Wade'", afirmou o conselheiro. Os ativistas favorveis ao aborto, cientes de que a viso de Koop era abertamente contrria ao
aborto, esperavam o pior. Em janeiro de 1989, Koop submeteu suas descobertas ao presidente, concluindo-as da seguinte maneira: "Lamento dizer, senhor Presidente,
que, a despeito de toda pesquisa diligente feita por muitos dos funcionrios do Servio de Sade Pblica e do setor privado, os estudos cientficos no trazem provas
conclusivas sobre os efeitos de um aborto na sade das mulheres". Lderes do movimento pelo aborto trombetearam a mensagem, com uma leve distoro: "Koop diz que
o aborto no causa danos  mulher".
      "Relatrio de Koop sobre o aborto surpreende tanto a amigos quanto a inimigos", publicou o New York Times no dia seguinte, uma manchete que poderia ganhar
um Prmio Pulitzer de dualidade. Para alguns evanglicos, a carta de Koop foi a gota d'gua, pois parecia que Koop havia abandonado os prprios princpios que fizeram
com que ele fosse nomeado. A controvrsia colocou uma mancha permanente na carreira de Koop, e pode ter contribudo para sua aposentadoria do servio pblico.
      O prprio Koop sente-se pessoalmente trado a respeito da questo. Ele revisara 255 relatrios sobre os efeitos do aborto na sade. Alguns provavam que o aborto
era inofensivo, outros provavam que era danoso. Colocados juntos, todos eles pareciam falhar em termos de metodologia. Alm disso, apenas metade das mulheres que
haviam sofrido aborto admitiu o fato numa pesquisa, e os estudos existentes no cobriam um universo to grande. Apesar de Koop ter evidncias registradas dos efeitos
psicolgicos malficos do aborto, no tinha qualquer dado cientfico que as apoiasse. Na verdade, sua carta ao presidente recomendava tal estudo - demoraria cinco
anos e custaria 100 milhes de dlares, estimou mais tarde, e provavelmente confirmaria aquilo que o presidente queria provar -, mas, no presente, ele tinha de reconhecer
que no havia dados estatsticos suficientes. Pediram-lhe que fizesse um julgamento cientfico, no que emitisse sua opinio pessoal.
      Koop entregou sua carta em mos na Casa Branca, com a promessa de que ningum revelaria seu contedo at que o presidente tivesse a chance de responder. Quando
Koop chegou em sua casa, pouco tempo depois, porm, sua esposa encontrou-se com ele na rua, em pnico. Ela acabara de ouvir os reprteres Peter Jennings, Tom Brokaw
e Dan Rather citando a carta "confidencial". Alm disso, estavam dizendo claramente que "o chefe do Departamento de Sade no encontrou evidncias de que o aborto
 psicologicamente danoso". Koop ficou no telefone at a 1h tentando esclarecer sua posio, e apareceu na manh seguinte no programa Good Morning, America para
corrigir impresses erradas. O dano j havia sido feito. Os ativistas favorveis ao aborto continuavam a citar de maneira distorcida suas descobertas; os contrrios
se sentiam trados.
      "Havia muito mal-entendido naquela questo", reflete Koop hoje. "Lembro-me de uma mulher que veio correndo ao meu encontro, dizendo: 'Oh, doutor Koop, fico
to feliz que o senhor tenha mudado sua posio sobre o aborto!' Respondi: 'Madame, a senhora no entendeu nada do que eu disse. No mudei minha posio quanto ao
aborto. Simplesmente me recusei a ser desonesto com as estatsticas. S isso.' Em vista de tudo que eu havia dito e escrito sobre o assunto, como algum poderia
questionar minha viso sobre o aborto? H certas conversas que j espero ter em todos os lugares por onde vou. Algum vai chegar at mim e dizer que o operei quando
tinha apenas alguns dias de vida. Outro vir e me dir: 'Tenho uma dvida de gratido com o senhor: nunca me preocupei com a vida humana at que o ouvi falar com
Francis Schaeffer.' Naquela poca, eu disse o seguinte ao pessoal contrrio ao aborto: 'Vocs travam uma luta maravilhosa contra o aborto, transformando-o numa questo
moral, com a vida do feto sendo a preocupao principal. No mudem a base de seu argumento, transferindo-a para a sade da me. Se o outro lado perceber que vocs
mudaram seus fundamentos, vocs tero perdido a briga'."
      Os meses seguintes que Koop passou em Washington foram quase to desagradveis quanto os primeiros. A nova administrao, liderada por George Bush (o pai),
assumiu o gabinete, nomeando outra pessoa para a posio que Koop queria. Ningum pediu que ele sasse, mas tambm no o nomearam chefe do Departamento de Sade.
Por meio de uma srie de tticas mesquinhas de presso, Koop passou a sentir que no era bem-vindo. No tinha acesso  sala de almoo executiva. Seu principal assessor
foi demitido. Os funcionrios da Casa Branca no retornavam mais suas ligaes.
      Certa vez, um reprter perguntou como Koop havia ganhado as medalhas de seu uniforme. Sua resposta foi: "A linha de cima foi o que os liberais fizeram para
mim; a de baixo, foi o que os conservadores me fizeram". No fim de tudo, o homem que, mesmo diante de incessante oposio, havia superado a posio grandemente tendenciosa
da mdia e transformado seu gabinete num dos postos mais respeitados do governo, silenciosamente pediu demisso do cargo.
      A vida pblica de Koop no terminou quando ele retirou seu uniforme. Diante de qualquer coisa, as luzes se acendiam sobre ele. Continuou a depor diante do
Congresso sobre assuntos como as polticas em relao ao tabaco e abortos permitidos. Ganhou um Prmio Emmy pela srie de televiso C. Everett Koop, M.D. Um novo
presidente, Bill Clinton, chamou-o em busca de ajuda. Hillary Clinton queria promover reunies por todo o pas para juntar fatos sobre a crise do sistema de sade.
Ser que Koop a apresentaria ao meio mdico? Ele concordou e sentou-se atrs dela em diversas reunies, sempre deixando alguns conservadores bastante irados. Depois,
fez um forte lobby no Congresso em favor da deciso do Governo sobre as grandes indstrias do tabaco. Estas duas iniciativas foram vtimas de rivalidades polticas
internas.
      Desgostoso, Koop mudou-se de volta para Dartmouth com sua mulher, para a universidade onde estudou, a qual havia fundado o Instituto C. Everett Koop para treinamento
de profissionais de sade. Apesar de ainda viajar pelo mundo apresentando palestras, o ritmo de sua vida foi diminuindo para algo mais apropriado  sua idade - at
que a revoluo da internet o apanhou, aos 81 anos. Uma empresa completamente nova, a Drkoop.com, tornou-se pblica em 1998 como portal com informaes sobre cuidados
com a sade, e o co-proprietrio Koop viu-se cada vez mais milionrio. Como a maioria das riquezas angariadas em empresas pontocom, as aes de sua empresa evaporaram,
chegando a perder 99% de seu valor, mas o site ainda atrai cinco milhes de visitantes por ms. Grande parte dos Estados Unidos ainda busca o conselho de seu mdico
de famlia que foi diretor do Departamento de Sade. E Koop continua no meio da controvrsia, defendendo-se das crticas de que seu site na internet macula a opinio
mdica com interesses comerciais.

      Conhecendo Chick Koop por 30 anos, segui sua carreira muito de perto como um estudo de caso em que um cidado cristo  jogado na arena poltica. Ningum poderia
acusar aquele homem nomeado chefe do Departamento de Sade, em 1981, de ter titubeado em questes morais. Ele se opunha a todo tipo de aborto, inclusive cm casos
de estupro, at mesmo no caso de um feto seriamente defeituoso. Era contrrio ao sexo fora do casamento e a todos os atos homossexuais. Sua indicao despertou um
coro de oposio de liberais e altos brados de apoio dos conservadores, especialmente dos evanglicos. Mas no fim, foram os evanglicos que se sentiram trados,
e os liberais passaram a saud-lo.
      O que saiu certo, o que deu errado nessa saga to alternada de um cristo que buscou servir a Deus igualmente bem em duas reas conflitantes ao mesmo tempo?
Discuti esses assuntos em profundidade com o Dr. Koop, e aprendi muito com sua experincia. Tenho visto alguns cristos modelares alcanando a sociedade como um
todo, especialmente no campo da poltica. H partidos facciosos que se perpetuam baseados no poder e no antagonismo, foras que se opem diretamente aos princpios
de amor e reconciliao do evangelho. Ser possvel, penso eu, exercer poder de uma maneira amorosa, ou se opor ao comportamento de algum sem se opor quele que
se comporta daquele modo? E qual  o proveito de uma f que tem pouca relevncia diante de uma cultura mais abrangente? "Sede, portanto, prudentes com as serpentes
e smplices como as pombas", disse Jesus (Mt 10:16), alertando seus discpulos no momento em que os enviava ao mundo. Tambm vemos com freqncia polticos cristos
demonstrando a sabedoria das pombas e a simplicidade das serpentes.
      Em primeiro lugar, Koop conseguiu convencer um pblico ctico quanto  sua integridade bsica. At mesmo aqueles que discordavam dele vieram a aceitar sua
sinceridade e sua integridade. Koop conta histrias de outros cristos da Administrao Pblica que estavam dispostos a esticar a verdade de modo que ela se encaixasse
em seus propsitos polticos. Quando, por exemplo, ele escreveu o relatrio sobre a Aids, um funcionrio da Casa Branca tentou mudar o texto original de Koop que
dizia que "a maioria dos americanos se ope ao homossexualismo,  promiscuidade de todo tipo e  prostituio", passando para "todos os americanos..." O fato de
esta nova declarao ser evidentemente inverossmil no perturbava aquele cristo. Semelhantemente, quando Koop concluiu que a pesquisa sobre os efeitos do aborto
estava cheia de falhas, os conservadores reagiram furiosamente porque Koop no certificaria que os fatos apoiavam suas posies, independentemente das falhas nos
levantamentos estatsticos que ele havia revelado. Koop percebeu que a agenda daqueles homens linha precedncia sobre a verdade.
      Perguntei a Koop qual conselho ele daria a cidados preocupados como eu, que queriam influenciar nas leis norte-americanas. De que maneira poderamos ser mais
eficientes? Sua resposta foi: "O que mais me perturbava, segundo o que me lembro, era a falta de conhecimento geral dos cristos. Era como se eles dissessem que,
ao se basear num princpio teolgico, no havia necessidade de preciso nos fatos. As pessoas falam de liberais que temem a discusso. Eles no tm estofo para isto.
Aprendi que tambm existem conservadores com o mesmo medo. Os cristos deveriam se envolver em poltica e usar seus princpios cristos, sua moralidade e sua tica
no processo. Mas eles no deveriam pular neste meio, dizendo que suas crenas so a nica sada possvel".
      Koop insiste em dizer que sua viso moral bsica no mudou no gabinete, que suas mais profundas crenas  que forneceram a fundao de todas as suas principais
aes. Porm, depois de sair, ele recebeu apoio e aclamao impressionantes: diplomas honorrios de universidades, aplausos em p durante jantares de despedida,
defesas pblicas em editoriais de jornais e a maior condecorao oferecida pela presidncia a um civil, a Medalha da Liberdade. Alguns simplesmente gostam do fato
de que suas decises, independentemente das intenes por trs delas, serviram a seus objetivos polticos. Porm, para muitos dos cnicos de Washington, Koop serviu
como um modelo novo e vivo de integridade vindo de um cristo evanglico - e isto num momento em que outros evanglicos bastante conhecidos estavam atraindo a ateno
pela falta de integridade. Nas palavras da revista Time, "a cidade que adora no altar cinzento da ambigidade percebeu que havia espao para um homem que trabalhava
com preto no branco".
      Koop sempre insiste que o moralista e o cientista devem trabalhar de mos dadas na questo de sade. A Igreja se opunha ao tabaco e ao lcool muito antes de
os cientistas comprovarem suas suspeitas. Na batalha contra as doenas sexualmente transmissveis, Koop admite que uma moralidade baseada em compromisso religioso
- no mais em educao sexual - oferece a melhor chance de mudar o comportamento promscuo de adolescentes. Agora que est fora do gabinete, ele se sente mais livre
para falar sobre a fidelidade conjugal e a abstinncia sexual. As pessoas ouvem o que ele diz em funo da confiana construda durante o perodo que foi chefe do
Departamento de Sade.
      A experincia de Koop verdadeiramente oferece um modelo para cristos preocupados com as tendncias culturais. No se faz bem algum em citar passagens bblicas
a pessoas que no reverenciam a Bblia, ou usar a justia do Senhor para intimidar pessoas que no crem. Existe uma maneira melhor de se comunicar, conforme Koop
demonstrou. Muitas das maiores preocupaes na rea de sade nos Estados Unidos esto relacionadas a opes de comportamento: doenas cardacas e hipertenso exacerbadas
pelo estresse; deformidades fetais relacionadas ao uso de lcool e drogas por parte da me; diabetes e outras doenas relacionadas a dietas, crimes violentos, Aids
e doenas sexualmente transmissveis; acidentes de automvel envolvendo o uso do lcool. Para os especialistas em sade, essas preocupaes so endmicas, at mesmo
epidmicas.
      Depois de corajosamente vencer a maioria das doenas infecciosas, o que fazemos agora  substituir os novos problemas de sade pelos antigos, muitos deles
baseados em escolhas morais. Os cristos acreditam que os mandamentos de Deus no eram arbitrrios, mas serviam para o nosso prprio bem, e os resultados na sade
da sociedade moderna apiam este princpio. Se pudermos comunicar mais do esprito de um interessado mdico de famlia e menos do esprito de um moralista resmungo,
ento poderemos chamar a ateno de uma sociedade que caminha por uma estrada que leva  destruio.
      Apesar de muitas pessoas se lembrarem mais de seu perodo no gabinete em funo das grandes controvrsias, Koop v as coisas de maneira diferente. Por onde
quer que ande, cidados comuns se achegam a ele com palavras tocantes de agradecimento. "Estou participando de um grupo de discusso sobre abuso de cnjuges"; "Mantive
minha gravidez por sua causa"; "Meu filho tem Aids. Deus o abenoe por tudo o que o senhor fez"; "O senhor me deu coragem para parar de fumar". Por causa de reaes
como essas, Koop olha para os oito anos que passou no servio pblico, para toda a turbulncia que enfrentou ali, com poucos arrependimentos e muita satisfao.
As pessoas lhe deram ouvidos porque aprenderam a confiar nele, e muitos deram um passo adiante para mudar seu comportamento.
      Hoje em dia, em seu novo papel de mdico da famlia norte-americana via internet, essa integridade est sendo questionada. Os reprteres descobriram que uma
lista de hospitais recomendados em seu site havia pago 40 mil dlares pelo privilgio, e que Koop est testemunhando como um cientista a favor de indstrias qumicas
que tinham dado dinheiro a ele na condio de consultor. Koop defende vigorosamente suas aes, mas a controvrsia simplesmente salienta a questo de que os moralistas
e os cientistas tm somente uma plataforma sobre a qual devem se pronunciar: a integridade.

      Quando assumiu o servio pblico, Koop tambm precisou aprender a distinguir o imoral do ilegal. Nem tudo que ele considerava imoral era ilegal, uma distino
que muitos outros conservadores fracassaram em fazer. "No cobiars"  uma questo moral to sria que foi includa como um dos Dez Mandamentos. Que prefeitura
ou governo nacional poderia criar uma lei contra a cobia? O orgulho  um pecado moral, talvez o pior pecado, mas podemos fazer com que o orgulho seja ilegal? Jesus
resumiu a Lei do Antigo Testamento no mandamento: "Amars o Senhor, teu Deus, de todo o teu corao, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento" (Mt 22:37);
que autoridade humana poderia policiar o cumprimento de tal mandamento? Apesar de os cristos terem a obrigao de seguir os mandamentos de Deus, isto no quer dizer
que devemos automaticamente transformar esses mandamentos morais em leis a serem cumpridas pelo Estado. Nem mesmo a Genebra de Joo Calvino ousaria adotar o cdigo
legal do Sermo da Montanha.
      Temos como exemplo atual o fato de os cristos estarem debatendo os prs e contras dos direitos dos gays - uma questo moral, de acordo com os dois lados.
Se acreditamos que a prtica homossexual  imoral, devemos transform-la em ilegal? H no muito tempo, a Igreja da Inglaterra debateu uma questo com muitos paralelos:
divrcio. A Bblia tem muito mais a dizer sobre a santidade do casamento e o erro do divrcio do que sobre a homossexualidade. C. S. Lewis chocou muitas pessoas
de seu tempo quando veio a pblico em favor da legalizao do divrcio, baseado em que os cristos no tm direito de impor nossa moralidade  sociedade como um
todo. Apesar de pregar contra isso e de impor essa idia com base em questes morais, ele compreendia muito bem a distino entre moralidade e legalidade.
       claro que precisaremos exercitar a tica dos cirurgies ao decidir quais princpios morais se aplicam  sociedade como um todo. Se deixamos de praticar essa
habilidade, mais uma vez nos arriscamos a confundir os dois reinos, o de Deus e o deste mundo. Os profetas do Antigo Testamento usavam um padro duplo em seus pronunciamentos.
Consideravam que sua prpria nao, Israel, deveria cumprir todas as partes do pacto de Deus, inclusive a guarda do sbado e os rituais de sacrifcio no Templo.
Eles criticavam as naes pags ao redor em termos mais ligados  "lei comum", como os crimes de guerra, injustia e decadncia. No Novo Testamento, Paulo pergunta:
"Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? No julgais vs os de dentro? Os de fora, porm, Deus os julgar" (1 Co 5:12, 13).
      Enquanto esteve no gabinete, Koop atraiu muita oposio de conservadores que viam a moral em termos de "tudo ou nada". Eles o atacaram por concordar com um
compromisso no caso Baby Doe, muito embora os tribunais j tivessem derrotado as estritas diretrizes iniciais. Eles se opunham a qualquer compromisso com o aborto.
Koop diz: "Um dos problemas dos movimentos contrrios ao aborto  que eles so partidrios do 100%. Historicamente,  fato que se os defensores da vida tivessem
se sentado em, digamos, 1970 ou 1972 com os favorveis ao aborto, poderamos ter sado com um acordo sobre o tema em favor da vida da me, nos casos de estupro ou
incesto, e nada mais. Isto teria evitado 97% dos abortos desde ento. Afinal, 97% de 25 milhes so um monte de bebs".
      Um absolutista em questes como aborto e homossexualidade, Koop aprendera, durante o exerccio da funo de chefe do Departamento de Sade, que os absolutos
cristos no podem ser sempre impostos sobre aqueles que no compartilham dos pontos de vista cristos. Ele aprendeu, porm, a compaixo e a misericrdia para com
os excludos e amor pelos inimigos. O mundo percebeu. A revista Mademoiselle, por exemplo, publicou um artigo sobre ele que comeava dizendo: "A bondade notvel
raramente  encontrada em quantidade suficiente numa vida comum -  to rara quanto ovos de avestruz de ouro no meio da poltica". O artigo prosseguia para homenagear
o exemplo de Koop nas reas de intelectualidade, moralidade e honestidade tica, concluindo: "Ao exercer uma agonizante compaixo pelo pobre, pelo ferido e pelo
menos favorecido, Koop integrou, de maneira feliz e espetacular, sua religio e sua vida profissional. Ele  um cristo, mas no  um sectrio".
      Koop provou-me que  realmente possvel separar o pecado do pecador, opondo-se a um enquanto se abraa o outro. Em nossas conversas depois de sua demisso,
ele voltou diversas vezes  questo da crise da Aids e a reao perturbadora de muitos dentro da Igreja. "Quando surgiu a questo da Aids, minha obrigao parecia
muito clara. Eu via o estilo de vida das pessoas com repulsa, mas, como chefe da rea de sade, precisava olhar para os pacientes de Aids primeiramente como pessoas
doentes. De acordo com o mesmo princpio, se uma senhora obesa entrasse no hospital com um ataque na vescula biliar, no poderia negar-lhe tratamento baseado na
sua falta de disciplina em comer. Sentei-me ao lado de pacientes morrendo de Aids. Eles me lembravam gatinhos filhotes, to doentes e to fracos que abriam suas
bocas para chorar e nenhum som saa delas. Como voc pode deixar de colocar seu brao ao redor desse tipo de pessoa e oferecer-lhe apoio? Em vez disso, dizemos:
'Deus os est punindo, e eu apio a punio de Deus'.  esta atitude que me deixa maluco."
      "Como sempre digo, a maior parte desta nao considera a sodomia uma atitude errada em termos legais e espirituais.  o que eu penso. Mas sei que algumas das
pessoas que persistem liderando seus rebanhos para longe da questo da Aids fazem isto atravs da homofobia. Precisamos de uma nova palavra para isto. 'Homofobia'
no  a mesma coisa que, digamos, 'francofobia'. Essas pessoas combinam o medo com um inacreditvel dio voltado aos homossexuais. Conversei com pessoas que, se
pudessem, apertariam um boto para destruir todos os homossexuais do mundo por quaisquer meios que estivessem disponveis."
      Mesmo enquanto era chefe do Departamento de Sade, Koop continuou a rotular os atos homossexuais como "sodomia" e a advertir as pessoas contra seus riscos
para a sade. Mas quando ele foi falar para 12 mil gays em Boston, eles gritavam entusiasticamente: "Koop! Koop! Koop!" A comunidade gay, que discordava fortemente
de suas convices pessoais, aprendera a confiar nele quando afirmou ser o chefe do Departamento de Sade de todas as pessoas, mesmo daquelas de cujo estilo de vida
ele discordava. Ele os conquistara apelando para a compaixo por aqueles de seu meio que estavam doentes e convocando voluntrios para cuidar daquelas pessoas. Como
ele prprio disse, estava simplesmente seguindo a herana crist de cuidado com a sade. Os primeiros hospitais eram mantidos por igrejas, diz ele a seus crticos,
bem como os hospcios e os orfanatos.
      O evangelho apresenta tanto altos ideais quanto graa abrangente. Com muita freqncia, porm, a Igreja inclina-se para uma ou outra direo. Ela tanto diminui
os ideais, ajustando os padres morais para baixo e amaciando os fortes mandamentos de Jesus e racionalizando o comportamento, quanto reduz as fronteiras da graa,
considerando alguns pecados piores que outros e alguns pecadores inaceitveis. Poucas igrejas se mantm fiis tanto aos altos ideais do evangelho e de sua graa
infinita. A vida do Dr. C. Everett Koop sob os holofotes mostra quo difcil  manter esse equilbrio. Contudo, estou convencido de que, a no ser que abracemos
ambas as mensagens, estaremos traindo as boas novas que Jesus trouxe ao mundo.
      "Percebi que os cristos apresentam uma tendncia muito grande a ficar irados com aqueles que no so como eles", disse-me um homem, algum que dirige uma
organizao que atende a pessoas com Aids. Notei exatamente o mesmo padro. Depois de escrever um livro sobre minha amizade com Mel White, um ex-ghost writer de
cristos famosos, e agora um destacado ativista gay, recebi uma enorme quantidade de cartas condenando-me por continuar aquela amizade. "Como voc consegue ser amigo
de um pecador como aquele?", bradavam as cartas. Pensei muito sobre o assunto e sa com diversas respostas que creio serem bblicas. A resposta mais sucinta, porm,
 outra pergunta: como Mel White pode continuar sendo amigo de um pecador como eu? A nica esperana para qualquer um de ns, independentemente de nossos pecados
particulares, reside na inabalvel confiana num Deus que inexplicavelmente ama pecadores, inclusive aqueles que pecam de maneiras diferentes das nossas.

C. EVERETT KOOP PARA INICIANTES
      O Dr. Koop conta sua prpria histria na autobiografia intitulada Koop. Concentrando-se no perodo em que trabalhou no servio pblico, ele defende cada uma
das decises que o transformaram em uma figura to controversa, e oferece ricos insights sobre as questes ticas com as quais lidou. Um livro bem mais sucinto,
chamado Sometimes Mountains Move, conta a agonia pessoal envolvida na morte de seu filho. Seu site na internet, www.drkoop.com, oferece diversos conselhos mdicos
e informaes. Para os leitores interessados na interseo da poltica com a f, recomendo os livros de H. Richard Niebuhr, Stephen Carter, James Davison Hunter
e Richard John Neuhaus.
9. John Donne
No Leito de Morte
      No fim da dcada de   1980, enquanto a epidemia de Aids estava dizimando a comunidade gay, e o chefe do Departamento de Sade dos Estados Unidos, C. Everett
Koop, estava atraindo crticas a sua atitude compassiva, um amigo meu contraiu a doena. Conheci David por intermdio da msica clssica. Membro da diretoria da
Orquestra Sinfnica de Chicago, ele me convidava para assistir a vrios concertos, e apresentou-me a diversos msicos da orquestra.
      Conforme fomos nos conhecendo, David contou acerca de sua peregrinao. Crescera num lar cristo e freqentara uma universidade crist bastante conservadora.
Foi ali, na verdade, que teve seus primeiros relacionamentos homossexuais. Mais tarde, ele saiu do armrio e escolheu um parceiro para a vida toda. "Ainda me considero
um cristo evanglico", disse ele. "Creio em tudo que est na Bblia... Bem, quase tudo. Aqueles dois ou trs versculos sobre contato com pessoas do mesmo sexo,
bem, no sei o que fazer com eles. Talvez eu esteja pecando em meu estilo de vida. Talvez aqueles versculos estejam falando de outra coisa. No sei como juntar
todas essas coisas. Mas eu realmente amo a Jesus e quero servi-lo."
      Eu tambm no sabia como juntar essas coisas. David testemunhava de sua f a outras pessoas e dava grandes somas de dinheiro a causas crists, incluindo os
programas de impacto urbano de nossa igreja, a qual ele costumava freqentar. Mais recentemente, ele freqentava a Moody Memorial Church, mantendo uma atitude discreta
e estremecendo todas as vezes que o pastor condenava a homossexualidade do plpito. Mas ele gostava de msica, e de todas as igrejas que havia freqentado, a Moody
refletia mais de perto sua prpria teologia. "A maioria dos gays cristos  bastante conservadora em termos teolgicos", explicou. "Sofremos tanto abuso na igreja
que s vamos porque achamos que aquilo  realmente verdade."
      Janet e eu tentvamos ser amigos fiis de David, independentemente de nossas diferenas. A doena cobrou um longo e terrvel preo de seu corpo. Ele passou
suas ltimas semanas no hospital, e ns o visitvamos sempre que podamos. s vezes, o encontrvamos lcido e pensativo. Em outros momentos, em meio a alucinaes,
ele nos via como seus pais ou como algum do passado. J prximo do fim, seu corpo ficou coberto de feridas purulentas, sua lngua, inchada e sua boca, cheia de
aftas, o que o impedia de falar.
      Quando David morreu, seu parceiro, perturbado, pediu-me que falasse em seu enterro. "Voc pode dizer o que quiser", disse-me ele. "Mas tenho um pedido: no
pregue fazendo julgamento. A maioria das pessoas que viro ao funeral no entra numa igreja h muito tempo. A nica coisa que ouviram da igreja foi uma palavra de
julgamento. Elas precisam ouvir sobre um Deus de graa e misericrdia - o Deus que David adorava. Elas precisam de esperana."
      Nos dias que se seguiram, no consegui trabalhar muito. Escrevi e rasguei diversos rascunhos sobre o que eu diria. No dia anterior ao enterro, num momento
repentino de inspirao, fui at a estante de livros e retirei um volume pequeno que no lia havia muito tempo. Devotions Upon Emergent Occasions, de John Donne.
As pginas estavam todas dobradas e sublinhadas, com diversas notas nas margens, e quando comecei a folhe-lo, percebi que no podia ter achado uma mensagem mais
moderna e apropriada do que aquela escrita por um poeta elizabetano, quase quatro sculos atrs.
      Olhei para a platia ao me levantar no plpito, na noite do enterro de David. Era um grupo sofisticado e divertido, e muitos haviam se reunido ali para honrar
sua vida. Alguns msicos da Sinfnica de Chicago deixaram o concerto da noite e correram para a igreja para executar uma pea musical em tributo ao amigo. Fiquei
olhando enquanto cantvamos alguns hinos, e percebi que muitos se sentiam bastante desconfortveis segurando um hinrio, e mais ainda cantando. A verdade  que aquele
no era um povo de igreja. Era uma multido que chorava: pareciam pssaros pequenos e desamparados, famintos por palavras de conforto e esperana. A maioria deles
j havia perdido amigos prximos para a Aids nos anos anteriores. Sentiam-se confusos e culpados, assim como tristes. A tristeza abateu-se sobre ns como um nevoeiro
descendo naquele santurio.
      Comecei a lhes contar a histria de John Donne (1573-1631), um homem acostumado  tristeza. Durante o perodo em que foi deo da Catedral de So Paulo, a maior
igreja de Londres, trs ondas da Grande Peste varreram a cidade, sendo que a ltima epidemia sozinha matou 40 mil pessoas. Ao todo, um tero dos habitantes de Londres
morreu e outro tero fugiu para o interior do pas, transformando bairros inteiros em cidades-fantasma. O mato cresceu entre as pedras do calamento das ruas. Profetas
sarnentos e quase loucos espreitavam as ruas desertas, lamentando o julgamento. Na verdade, praticamente todo mundo acreditava que Deus mandara as pragas como flagelo
pelos pecados dos londrinos. Nesse momento de crise, os moradores da cidade se dirigiam em bandos ao deo Donne, pedindo uma explicao ou, pelo menos, uma palavra
de conforto. Ento, os primeiros sinais da doena comearam a aparecer no prprio corpo de Donne.
      Era a peste, disseram os mdicos. Ele tinha pouco tempo de vida. Por seis semanas, ele esteve  beira da morte. Os tratamentos prescritos eram quase to violentos
quanto a prpria doena: sangramentos, cataplasmas txicos, aplicao de vboras e pombos para remover os "vapores malficos". Durante esse perodo obscuro, Donne
foi proibido de ler e estudar, mas permitiam que ele escrevesse. Foi ento que escreveu Meditaes. Enquanto esteve no leito, convencido de que iria morrer, travou
uma luta feroz com o Deus Todo-Poderoso e a registrou para a posteridade.Esse livro antigo tem servido como um guia indispensvel, quando se trata de dor. Vou a
esse livro todas as vezes que um amigo morre ou quando me sinto sufocado pelo sofrimento. John Donne  incisivo sem ser blasfemo, profundo sem ser abstrato ou impessoal.
Ele mudou para sempre a maneira pela qual penso na dor e na morte, e como minha f se manifesta nessas crises inevitveis.

   De que maneira chegaro a ti, se tu os pregaste a seus leitos?

      No importa onde eu comece, sempre termino escrevendo sobre a dor. Meus amigos j sugeriram diversas razes para essa propenso: uma profunda ferida da infncia
ou talvez uma overdose bioqumica de melancolia. Eu realmente no sei. Tudo o que sei  que me assento para escrever sobre algo adorvel, como as asas difanas de
uma borboleta, e, no demora muito, vejo-me de volta s sombras, escrevendo sobre a breve e trgica vida de uma borboleta.
      "Como posso escrever sobre outra coisa?"  a melhor explicao que me vem. Existe algum fato mais fundamental da existncia humana? Eu nasci em dor, apertado
por entre tecidos dilacerados e sangrentos, e, como primeira evidncia de vida, ofereci meu choro. Possivelmente morrerei em meio  dor tambm.  entre estes dois
eventos de dor que vivo meus dias, claudicando entre um e outro. Como disse o contemporneo de Donne, George Herbert: "Chorei quando nasci, e todos os dias me mostram
por qu".
      A doena de John Donne foi apenas o ltimo encontro de uma vida marcada pelo sofrimento. Seu pai morrera quando ele tinha apenas quatro anos. A f catlica
de sua famlia gerava uma profunda incapacidade naqueles dias de perseguio protestante: um catlico no podia ter uma oficina, era multado por assistir  missa,
e muitos eram torturados por suas crenas (a palavra "opresso" deriva de uma tcnica popular de tortura: catlicos no arrependidos eram postos sob uma tbua na
qual pesadas pedras eram colocadas para literalmente pressionar a vida para fora do corpo dos mrtires). Depois de ter cursado com brilhantismo as universidades
de Oxford e Cambridge, foi-lhe negado o diploma por causa de sua filiao religiosa. Seu irmo morreu na priso, cumprindo pena por ter oferecido abrigo a um padre.
      No comeo, Donne reagiu a essas dificuldades rebelando-se contra sua f. Notrio don Juan, celebrou suas faanhas sexuais em um dos poemas mais abertamente
erticos de toda a literatura inglesa. Finalmente, consumido pela culpa, renunciou a seus modos promscuos em favor do casamento. Ele caiu diante do fascnio de
uma bela jovem de 17 anos to viva e brilhante que lhe lembrava a luz do sol.
      Numa amarga ironia, exatamente quando Donne decidira estabelecer-se, sua vida teve uma mudana calamitosa. O pai de Anne More estava determinado a punir seu
novo genro, a quem considerava uma pessoa inconveniente. Fez com que Donne fosse despedido de seu emprego de secretrio de um nobre e, com o ministro que realizou
a cerimnia de seu casamento, jogou-o na priso. Desconsolado, Donne escreveu seu poema mais expressivo: "John Donne, Anne Donne, Undone".
      Depois de ser libertado, Donne, agora um excludo, no conseguia mais encontrar emprego. Perdera qualquer chance de realizar sua ambio de servir na corte
do rei Tiago.61 Por quase uma dcada, ele e sua esposa viveram na pobreza, numa casa apertada que recebia um novo herdeiro  velocidade de um por ano. Anne sofria
de depresso periodicamente, e mais de uma vez quase morreu no parto. John, provavelmente por m nutrio, sofria de constantes dores de cabea, clicas intestinais
e gota. Seu mais longo trabalho nesse perodo foi um extenso estudo sobre as vantagens do suicdio.
      Em algum momento daquela dcada melanclica, John Donne se converteu  Igreja da Inglaterra. Com sua carreira bloqueada a cada movimento, ele decidiu, aos
42 anos de idade, buscar a ordenao como sacerdote anglicano. Seus contemporneos faziam fofocas sobre sua "converso por convenincia" e zombavam do fato de que
ele realmente queria "ser embaixador em Veneza, no um embaixador de Deus". Mas Donne considerava que sua chamada era verdadeira. Recebeu o grau de doutor em Divindade
da Universidade de Cambridge, prometeu colocar de lado sua poesia em favor de seu sacerdcio e dedicou-se exclusivamente ao trabalho na parquia.
      Um ano depois de ter assumido sua primeira igreja, Anne morreu. Ela deu  luz 12 filhos, cinco dos quais morreram na infncia. John fez o sermo do enterro
de sua esposa, escolhendo como texto palavras profundamente autobiogrficas do Livro de Lamentaes: "Eu sou o homem que viu a aflio". Fez um voto solene de no
se casar novamente, a fim de que uma madrasta no trouxesse mais dor aos filhos, o que por conseguinte significava assumir muitas das tarefas do lar e usar preciosos
fundos como ajuda externa.
      Esse foi, ento, o sacerdote apontado para a Catedral de So Paulo em 1621: uma pessoa melanclica em toda a sua vida, atormentado pelos pecados de sua juventude,
fracassado em todas as suas ambies (exceto na poesia, que ele havia renegado), maculado por acusaes de falta de sinceridade. Ele no parecia nem de longe um
candidato a levantar o esprito da nao na poca das pestes. Contudo, Donne se aplicou  sua nova tarefa com vigor. Recusou-se a se juntar aos muitos que deixavam
Londres e permaneceu com seus assustados paroquianos. Levantava-se todos os dias s quatro horas e estudava at as dez horas. Na era da Bblia King James e de William
Shakespeare, os londrinos letrados honravam a eloqncia e a oratria, e, neste quesito, John Donne no tinha concorrentes. Ele fazia sermes to poderosos que logo,
em detrimento da declinante populao de Londres, a enorme catedral estava sempre cheia de adoradores. Ento veio a doena e a sentena de morte.
      Alguns escritores relatam que a conscincia da morte iminente produz um estado de elevada concentrao, algo como ataque epilptico. Talvez Donne tenha sentido
algo semelhante quando trabalhava no dirio de sua doena. Os textos perdem seu usual controle rgido; as frases, densas, ligadas umas s outras numa associao
livre, sobrepostas a conceitos, espelham o fervilhante estado da mente de Donne. Ele escrevia como se tivesse de derramar em cada palavra todo pensamento e emoo
significante que lhe ocorresse.
      "Varivel e, portanto, miservel condio do homem! Neste minuto, estava bem, e agora estou doente",  a frase inicial do livro. Qualquer pessoa que j tenha
ficado confinada numa cama por mais de alguns dias consegue identificar-se com essas circunstncias, to triviais quanto fortssimas, que Donne prossegue em descrever:
noites sem dormir, fastio, mdicos cochichando durante as consultas, a falsa esperana de remisso seguida da apavorante realidade da recada.
      O clima da narrativa muda rpida e violentamente conforme a doena progride. Medo, culpa e a tristeza de um corao partido revezam-se na caa incessante da
paz interior. Donne se preocupa com seu passado: ser que Deus o "pregara" em seu leito como uma punio zombadora por seus pecados sexuais do passado? Em suas oraes,
ele tenta juntar louvor ou, pelo menos, gratido, mas normalmente no consegue. Sua meditao, por exemplo, comea destemidamente quando Donne apodera-se da idia
de que, por intermdio do sono, Deus nos d uma maneira de nos acostumarmos com a noo de morte. Perdemos a conscincia, mas acordamos na manh seguinte revigorados
e restabelecidos. No  este um quadro daquilo que acontecer conosco depois da morte? Ento ele percebe, num mpeto, que a doena tem tirado dele at mesmo a idia
de esperana: "No consigo dormir nem de dia, nem de noite (...) Por que o peso do meu corao no se transfere para minhas plpebras?" A insnia legou-lhe um perodo
ininterrupto de tempo para se preocupar com a morte, sem ter descanso para renov-lo em relao a esta preocupao.
      Donne define-se como um marinheiro arremessado de um lado para outro pelas gigantescas vagas de um oceano turbulento: s vezes, ele tem o vislumbre de uma
terra distante; logo em seguida, a perde de vista diante de mais uma enorme onda. Outros escritores j descreveram as vicissitudes da enfermidade com fora similar.
O que destaca o trabalho de Donne  o pblico a quem ele se destina: o prprio Deus. Seguindo a tradio de J, Jeremias e os salmistas, Donne usa a arena de suas
dificuldades pessoais com uma plataforma para sua grande luta com o Todo-Poderoso. Depois de passar a vida inteira perambulando confuso, ele finalmente chegou a
um lugar onde pode oferecer algum servio a Deus, e agora, neste preciso momento, ele  atingido por uma doena mortal. No parece haver nada no horizonte que no
seja febre, dor e morte. O que fazer?
      Em Meditaes, John Donne censura Deus: "No tenho a retido de J, mas tenho o desejo de J: de falar com o Todo-Poderoso e de arrazoar com Deus". H momentos
em que ele insulta a Deus, outros em que rasteja e implora perdo, ainda outros em que argumenta ferozmente. Em vrios momentos, porm, Donne deixa Deus de fora
do processo. O invisvel diretor de cena aparece como uma sombra por trs de cada pensamento, de cada sentena.

   D-me,  Senhor, um temor do qual eu no tenha medo.

      Conversei com muitas pessoas cujas vidas so definidas pelo sofrimento. Em cada caso, elas me apresentam uma crise de temor, uma crise de propsito e uma crise
de morte. A principal razo pela qual retorno s Meditaes de Donne, como ocorreu na noite do enterro de David,  que o livro conta cada uma dessas crises em detalhes,
e continua a trazer novos insights sobre essas confrontaes fundamentais que temos com o mistrio do sofrimento.
      Mesmo sendo uma visita, tenho medo todas as vezes que abro a porta e sinto aquele cheiro caracterstico de hospital. Meu amigo David me disse como era ficar
o dia inteiro num quarto particular, o dia inteiro com nada em que fixar o olhar, seno na misria. Ele recordou tudo o que perderia quando morresse e tudo o que
deixou de fazer enquanto viveu. L fora, no corredor, ele ouvia os mdicos e enfermeiras discutirem seu caso a meia-voz. Eles o espetavam e perfuravam todos os dias,
realizando testes em seu corpo que ele mal podia entender.
      De maneira semelhante, John Donne descreve a sensao desconexa que se instala no enfermo quando os mdicos rodeiam um paciente. Quando ele sente medo no mdico,
seus prprios medos afloram: "Eu o ultrapasso e o suplanto em seu medo". Como paciente, ele se sentia como um objeto, como um mapa aberto sobre uma mesa, sobre o
qual os cosmgrafos matutam. Ele imaginava-se separado de seu corpo e flutuando sobre ele, e a partir desta viso privilegiada, podia observar a figura que se desintegrava
sobre o leito. Com o avano da doena, via-se como uma esttua de barro, com os membros e a carne se desmanchando e esmigalhando-se num punhado de areia. Em breve,
nada haveria alm de uma pilha de ossos.
      Na maior parte do tempo, Donne teve de lutar com esses medos sozinho, pois naqueles dias os mdicos colocavam em quarentena os portadores de doenas contagiosas,
afixando um aviso na porta de suas casas (alguns estavam exigindo este mesmo tipo de tratamento para doentes de Aids como David). Enquanto estava acamado, Donne
pensava se o prprio Deus no estava participando daquela quarentena. Ele clamava, mas no obtinha resposta alguma. Ser que as promessas de Deus estavam presentes?
Seu conforto? Em cada uma das 23 meditaes, Donne volta  questo principal por trs de seu sofrimento. Seu verdadeiro temor no era o tnue clamor das clulas
de seu corpo; ele temia a Deus.
      Donne fazia a pergunta que todos os que sofrem fazem: "Por que eu?" O calvinismo ainda era recente naquele tempo, com sua nfase na soberania de Deus, e Donne
considerava as pragas e guerras como "os anjos de Deus". Logo recuou: "Certamente elas no so a tua mo. A espada devoradora, o fogo consumidor, os ventos do ermo,
as doenas do corpo, tudo aquilo que afligiu J veio das mos de Satans, no das tuas". Mas ele nunca sentiu certeza disto, e a falta de entendimento provocava
enorme tormento interior. A culpa por seu passado manchado espreitava como um demnio, olhando de soslaio. Talvez ele realmente estivesse sofrendo como resultado
de seu pecado. Se fosse assim, o que seria melhor: ser marcado por Deus ou no receber nenhuma visita sua? Como poderia adorar e, ainda mais, amar um Deus assim?
      Citei algumas dessas passagens no enterro de David porque, naquela poca, os doentes de Aids ouviam um enorme corolrio de julgamentos vindo da Igreja. Como
Donne, encontrei conforto no fato de Jesus jamais ter se dirigido a um sofredor com uma acusao do tipo "voc merecia". Em vez disso, ele ofereceu perdo e cura.
      O livro de Donne nunca resolve o dilema do "por que eu?" Depois de anos investigando o problema da dor, estou convencido de que nenhum de ns pode resolver
essa questo.  certo que a Bblia no apresenta nenhuma resposta clara. Estudei cuidadosamente cada passagem que trata do sofrimento, e at mesmo no discurso final
de Deus a J, no momento em que ele implorava por uma resposta, Deus no a deu. Jesus contradisse as sufocantes teorias dos fariseus de que o sofrimento vem para
aqueles que o merecem, mas evitou responder diretamente  pergunta sobre a causa. A resoluo da pergunta "por qu?" est alm do alcance da humanidade - no foi
esta a mensagem principal de Deus para J?
      Apesar de Meditaes no responder s questes filosficas, o livro registra a resoluo emocional de Donne, um movimento gradual em direo  paz. Em um primeiro
momento - confinado numa cama, recitando oraes sem obter resposta, contemplando a morte, regurgitando culpa -, ele no encontra qualquer alvio para seu temor.
Obcecado, revisa todas as passagens bblicas em que aparece a palavra "medo". Ao fazer isto, aflora nele a idia de que a vida sempre ter situaes que incitaro
o medo: se no for a doena, sero dificuldades financeiras; se no for a pobreza, ser a rejeio; se no for a solido, ser o fracasso. Num mundo assim, Donne
tem uma opo: temer a Deus ou temer tudo mais.Em uma passagem que nos remete ao fim da litania de Paulo em Romanos 8 ("Porque eu estou bem certo de que nem a morte,
nem a vida (...) poder separar-nos do amor de Deus"), Donne despacha seus temores potenciais. Os inimigos pessoais no representam a derradeira ameaa, pois Deus
pode derrotar qualquer inimigo. Fome? No, Deus pode suprir. Morte? At mesmo este, o maior inimigo humano, no oferece uma barreira final contra o amor de Deus.
Donne conclui que a melhor coisa  cultivar um temor adequado de Deus, temor este que pode suplantar todos os outros: "Assim como me deste um arrependimento, do
qual no devo me arrepender,  Senhor, d-me um temor do qual no tenha medo". Aprendi com Donne que, quando estou diante de dvidas, devo rever minhas alternativas.
Se por qualquer razo recusar-me a confiar em Deus, em quem, ento, poderei confiar?
      Em sua contenda com Deus, Donne mudou as perguntas. Ele comeou com uma pergunta sobre a causa ("quem causou esta doena, esta peste? E por qu?"), para a
qual no encontrou resposta. As meditaes vo gradualmente se movendo na direo da reao, a pergunta marcante que confronta toda pessoa que sofre. Confiarei em
Deus no meio da minha crise e diante do medo que ela provoca? Ou me afastarei de Deus em amargura e raiva? Donne decidiu que, no sentido mais importante, no importava
se sua doena era uma punio ou simplesmente uma ocorrncia natural. Em ambos os casos, ele confiaria em Deus, pois, no fim das contas, confiana representa o adequado
temor a Deus.
      Donne comparou o processo com a mudana de atitude em relao aos mdicos. No incio, quando eles analisavam seu corpo em busca de novos sintomas e discutiam
suas descobertas em um tom de voz baixo, fora de seu quarto, ele no podia evitar ficar com medo. Com o passar do tempo, porm, sentindo sua preocupao compassiva,
convenceu-se de que eles mereciam sua confiana. O mesmo padro aplica-se a Deus. Com freqncia, no entendemos os mtodos de Deus ou as razes por trs deles.
A pergunta mais importante, porm,  se Deus  um mdico confivel. Donne concluiu que sim.
      Muitas pessoas, como aquelas a quem me dirigi no enterro de David, no enxergam Deus como digno de confiana. Da Igreja, o que ouvem  condenao. Seguindo
os passos de Donne,  por isso que mudo a perspectiva para a razo principal de se confiar em Deus: seu Filho Jesus. Como Deus se sente em relao queles que morrem,
mesmo quando isto ocorre como resultado de suas prprias transgresses? Ser que Deus est fazendo carranca, como faziam os profetas de rua dos tempos de John Donne
e alguns de hoje ainda insistem? Ser que Deus at mesmo se preocupa com a perda, a raiva e o medo que sentimos? No precisamos ficar imaginando como Deus se sente,
pois em Jesus ele nos mostra.
      Para aprender como Deus v o sofrimento neste planeta, precisamos apenas olhar para a face de Jesus nos momentos em que ele se move entre os paralticos, as
vivas e os leprosos. Ao contrrio de muitos de sua poca, Jesus mostrava uma ternura incomum para com aqueles que tinham um histrico de pecados sexuais - veja
como ele age com a mulher samaritana no poo, ou com aquela de m reputao que lavou seus ps com seus cabelos, ou com a mulher flagrada em adultrio. Em Jesus,
disse Donne, temos um grande Mdico que "conhece nossas enfermidades naturais, pois ele as teve, e sabe o peso de nossos pecados, pois ele pagou um alto preo por
eles".
      Como podemos nos aproximar de um Deus a quem tememos? Como resposta, Donne nos d uma frase da histria contada por Mateus das mulheres que viram a tumba vazia
depois da ressurreio de Jesus. Elas fugiram correndo da cena "tomadas de medo e grande alegria", e Donne viu nessas "duas pernas, uma de medo, outra de alegria",
um padro para si mesmo. Aquelas mulheres viram com seus prprios olhos a imensa distncia entre o Deus imortal e o homem mortal, mas, de repente, aquela se tornou
uma distncia que inspirava alegria. Deus usara seu grande poder para conquistar o derradeiro inimigo. Por esta razo, as mulheres sentiram tanto medo quanto alegria.
Por esta razo, John Donne descobriu ao menos um temor do qual no precisava ter medo.

   Faze desta (...) melancolia e debilidade de corao um poderoso estimulante.

      Viktor Frankl, sobrevivente de um campo de concentrao nazista, expressou muito bem a segunda grande crise vivida pelas pessoas que sofrem: a crise de propsito.
"O desespero", disse, " o sofrimento sem propsito". Ele observara que colegas de dor eram capazes de passar por grande sofrimento apenas por ter alguma esperana
em seu valor redentivo. Em uma sociedade to diferente quanto a nossa, saturada de conforto, que propsito poderamos dar  grande intrusa, a dor?Qual  o propsito
de uma doena como a Aids? David e eu exploramos exatamente este ponto. Naquela poca, um forte debate pblico estava sendo travado: sua prpria igreja havia virado
as costas para crianas com Aids que freqentavam a Escola Dominical. David admitia abertamente que sua doena era resultado das escolhas comportamentais que fizera
e das quais se arrependera, mas o que dizer das crianas que nasceram com Aids, ou dos hemoflicos que a contraram em transfuses de sangue? Que escolha eles tiveram?
      Nos dias de John Donne, parecia que a terrvel ira do Senhor estava sendo derramada sobre o planeta inteiro. Dois cometas brilhantes apareceram no cu na mesma
noite - sinal claro, para alguns, de que a mo de Deus estava por trs da peste. Profetas vagueavam pelas ruas, alguns ecoando as palavras de Jonas: "Mais 40 dias,
e Londres ser destruda!" Temos nossa verso moderna desses profetas, rpidos em interpretar pragas e desastres como sinais especficos do julgamento de Deus. O
passado deveria nos ensinar uma lio de cautela: os telogos da Europa debateram por quatro sculos qual era a mensagem de Deus na Grande Peste, mas, no fim, um
pouco de veneno de rato silenciou todas as suas especulaes.
      O que dizer da progria, uma trgica anormalidade que acelera o processo de envelhecimento e faz com que uma criana de seis anos de idade se parea com uma
pessoa de 80? Ou qual  o propsito da paralisia cerebral, ou da fibrose cstica? Qual  o propsito de um terremoto na ndia ou de um maremoto que mata 100 mil
pessoas em Bangladesh? Por acaso, Deus retm as chuvas na frica como sinal de seu desgosto?
      A maioria de ns s consegue enxergar um significado negativo para o sofrimento, como uma interrupo da sade, uma indesejvel interrupo em nossa luta pela
vida, pela liberdade e pela felicidade. Qualquer loja de cartes transmite esta mensagem de maneira muito clara. Para as pessoas que sofrem, a nica coisa que conseguimos
dizer : "Estimo sua melhora". Como me disse uma mulher portadora de cncer terminal: "Nenhum desses cartes se aplica s pessoas internadas aqui. Nenhum de ns
vai melhorar. Mais cedo ou mais tarde, todos ns vamos morrer. Para o resto do mundo, isto nos torna invlidos. Pense no significado desta palavra: no vlidos".
      Qual  o propsito de um cncer terminal?
      John Donne, pensando nele mesmo como um doente terminal, fez tais perguntas, e seu livro sugere a possibilidade de uma resposta. As primeiras pistas vieram
a ele por intermdio da janela aberta de seu quarto, de onde ouvia os sinos da igreja badalando uma lgubre declarao de morte. Por um instante, Donne ficava pensando
se seus amigos, cientes de que sua condio era mais grave do que aquilo que eles diziam, haviam ordenado que os sinos tocassem por sua prpria morte. Ele logo percebeu
que os sinos estavam marcando a morte de mais uma vtima da peste.
      Pouco tempo depois, os sons dos servios funerrios passaram a fazer parte dos sons das ruas. Donne sussurrava um tnue acompanhamento para o canto congregacional
dos salmos, e depois escreveu a Meditao XVII sobre o significado dos sinos da igreja - o trecho mais famoso das Meditaes e uma das mais celebradas passagens
da literatura inglesa ("Nenhum homem  uma ilha"). Numa linguagem forte e pictrica, esta meditao define a perda que sentimos diante de cada morte: "Se um punhado
de terra  levado pelo mar, a Europa fica menor (...) A morte de qualquer homem rebaixa-me, pois estou envolvido com a raa humana, e, portanto, nunca procures saber
por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". Choramos a morte de uma pessoa qualquer porque ns mesmos somos diminudos. No mesmo evento, sentimos uma profunda
unio com outros, e tambm nos colocamos em seu lugar.
      O sofrimento tem a singular capacidade de romper as defesas normais e interromper a rotina cotidiana, assim como de nos lembrar de nossa mortalidade. Por algum
tempo, acompanhei um amigo a um grupo de apoio a pacientes de doenas crnicas que se reunia mensalmente na sala de espera de um hospital. No posso dizer que gostava
daquelas reunies, mas, todas as vezes que saa dali e ia para casa, tinha a sensao de que aquela noite fora uma das mais significativas de minha vida. Deixvamos
as trivialidades de lado e encarvamos as questes mais urgentes de cada pessoa naquela sala - morte e vida -, e qual a melhor maneira de aproveitar o tempo que
restava.
      Como Donne disse: "Careo de teu trovo,  meu Deus; tua msica no mais te suprir". O badalar dos sinos era, para ele, um eco antecipado de sua prpria morte.
Para o homem morto, era um perodo, o fim da vida; para Donne, apegando-se ainda  vida, era um penetrante ponto de interrogao. Iria ele realmente encontrar-se
com Deus?Quando as pessoas perguntaram o que Jesus achava de uma tragdia daquele tempo, sua resposta foi:

   Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? No eram, eu vo-lo afirmo; se, porm, no vos
arrependerdes, todos igualmente perecereis. Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Silo e os matou eram mais culpados que todos os outros
habitantes de Jerusalm? No eram, eu vo-lo afirmo; mas, se no vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.
   (Lc 13:2-5)

      Jesus reforou aqueles comentrios com uma parbola sobre a misericrdia de Deus. Ele parece deduzir que ns, espectadores de uma catstrofe, temos tanto a
aprender com o evento quanto aqueles que foram vtimas. O que uma peste ou um desastre contemporneo me ensina? Humildade, de um lado, e gratido pela vida da qual
ainda desfruto. Alm disso, compaixo, aquela que Jesus demonstrava a todo aquele que sofria e pranteava. Por fim, a catstrofe rene a vtima e o espectador num
chamado ao arrependimento, relembrando abruptamente sobre a brevidade da vida.
      O badalar daquele sino operou uma curiosa mudana no pensamento de Donne. At aquele ponto, estivera pensando sobre o propsito da doena e quais lies deveria
aprender dela. Agora, comeava a contemplar o significado da sade. O sino trazia  tona a questo sobre como ele havia passado sua vida inteira. Teria ele santificado
o dom da sade, servindo a Deus e aos outros? Teria ele visto a vida como uma preparao, um campo de treinamento para uma vida mais longa e importante por vir ou
como um fim em si?
      Conforme Donne comeou a reexaminar sua vida, as surpresas vieram  luz. "Eu sou o homem que viu a aflio", disse Donne  congregao no enterro de sua esposa.
Agora parecia claro, contudo, que aqueles tempos de aflio, as circunstncias das quais ele mais se ressentiu quela poca, eram oportunidades de crescimento espiritual.
As provaes haviam expurgado o pecado e desenvolvido o carter; a pobreza lhe ensinou sobre a dependncia de Deus e o limpou da ganncia; o fracasso e a desgraa
pblica ajudaram-no a se curar do orgulho e da ambio.
      Ser possvel que a prpria mo de Deus tenha bloqueado sua carreira - um devastador desapontamento, quela poca - com o objetivo de prepar-lo para o ministrio?
Um padro definitivo emergiu: a dor poderia ser transformada, at mesmo redimida, e o mal aparente s vezes resulta num bem verdadeiro. O sofrimento no removido
pode servir como uma ferramenta de Deus.
      A reviso sistemtica de Donne o preparou para sua situao atual. Seria possvel esta dor ser redimida? Sua doena o limitava,  claro, mas a incapacidade
fsica certamente no inibia todo o crescimento espiritual. Ele tinha muito tempo disponvel para a orao; o sino o lembrava de seu irmo menos afortunado e dos
muitos aflitos de Londres. Ele podia aprender humildade, confiana, gratido e f. Donne fez uma espcie de jogo com tudo isso: ele imaginava sua alma crescendo
forte, levantando-se da cama e caminhando pela sala, mesmo com seu corpo estirado na cama.
      Expressando-se em apenas uma palavra, Donne percebeu que no era um "invlido". Direcionou suas energias na direo das disciplinas espirituais: orao, confisso
de pecados, manuteno de um dirio (que se transformou nas Meditaes). Tirou de si o foco de sua mente e o direcionou s pessoas. Portanto, as Meditaes registram
uma mudana crucial nas atitudes de Donne em relao  dor. Ele comeou fazendo oraes para que a dor fosse removida; terminou com oraes para que a dor fosse
redimida, que ele fosse "catequizado pela aflio". Tal redeno poderia tomar a forma de uma cura milagrosa - ele ainda esperava por isto -, mas, mesmo que no
fosse, Deus poderia tomar uma massa disforme e, por intermdio do fogo refinador do sofrimento, transform-la em ouro puro.

   Embora to desobediente servo seja eu a ponto de temer a morte,
   H um Senhor misericordioso de quem no receio aproximar-me.

      As duas grandes crises que se abateram sobre a vida de Donne, a crise do medo e a crise do propsito, terminam por convergir numa terceira e derradeira crise:
a morte. O poeta verdadeiramente acreditava que morreria daquela doena, e esta nuvem escura paira sobre todas as pginas das Meditaes. "Afino meu instrumento
aqui,  porta", escreve ele.  porta da morte.Ns, pessoas modernas, aperfeioamos as tcnicas para lidar com a crise - tcnicas que, sem dvida, causariam muita
confuso a John Donne. A maioria de ns constri elaboradas formas de se evitar a morte. As academias de ginstica so uma indstria emergente, assim como as casas
que vendem artigos relacionados  nutrio e  sade. Tratamos da sade fsica como se ela fosse uma religio, derrubando todos os lembretes objetivos que a morte
nos apresenta - necrotrios, unidades de terapia intensiva, cemitrios. Vivendo num perodo assolado pela peste, Donne no dispunha do luxo da negao. Todas as
noites, o som das carroas puxadas por cavalos ecoava pelas ruas, recolhendo os corpos das vtimas daquele dia. Seus nomes - mais de mil por dia, no auge da peste
- apareciam em longas colunas nos jornais do dia seguinte. Ningum podia viver como se a morte no existisse. Como outras pessoas de seu tempo, Donne mantinha um
crnio em sua escrivaninha, como um lembrete.
      De outro lado, alguns funcionrios da rea de sade da atualidade tm assumido uma linha diferente, recomendando a aceitao - e no a negao - como a atitude
correta em relao  morte. Depois que Elisabeth Kbler-Ross rotulou a aceitao como a etapa final do processo de luto, a quantidade de grupos de auto-ajuda que
visam a ajudar os pacientes terminais a chegarem a este estgio cresceu bastante. No  preciso ler muito da obra de John Donne para perceber quo estranho era este
conceito a ele. Algumas pessoas acusaram-no de ter uma obsesso pela morte (32 de seus 54 cnticos e sonetos concentram-se nesse tema), mas, para Donne, a morte
pairava como o grande inimigo a quem devemos resistir, no um amigo a quem damos boas-vindas como uma coisa natural do ciclo de vida. A partir da vivncia que precisei
presenciar semana aps semana, um amigo ou uma pessoa querida se deteriorando, tambm aprendi que a morte  um inimigo.
      As Meditaes registram a grande luta de Donne contra a aceitao da morte. Apesar de seus maiores esforos, ele no conseguia realmente imaginar uma vida
aps a morte. Todos os prazeres que ele conhecia to bem, os quais preenchiam seus escritos, dependiam de um corpo fsico e de sua capacidade de ouvir, ver, sentir,
tocar e provar.
      Donne encontrou algum conforto no exemplo de Jesus, "meu mestre na arte da morte", pois o relato do Jardim do Getsmani tambm no apresenta uma cena de calma
aceitao. Ali, Jesus suou gotas de sangue e implorou ao Pai uma sada. Ele tambm sentiu a solido e o medo que agora assombravam o leito de Donne. E por que ele
escolheu a morte? O propsito da morte de Cristo, pelo menos, trouxe algum conforto a Donne: ele morreu para promover uma cura.
      A mudana na vida de Donne aconteceu quando ele comeou a ver a morte no como uma doena que permanentemente assola a vida, mas como a nica cura para a doena
da vida, o estgio final da jornada que nos leva a Deus. O mal infecta a vida de todo este planeta cado, e somente por intermdio da morte - a morte de Cristo e
a nossa prpria - podemos atingir um estado de cura. Donne explorou este pensamento na obra Um hino a Deus, o Pai, o nico material conhecido que sobreviveu de seu
perodo de doena alm das Meditaes.

   Tu perdoas o pecado inicial de onde eu vim,
   Pecado que foi meu e dos meus ancestrais?
   Tu perdoas o pecado que  parte de mim,
   E, enquanto vou pecando, eu deploro ainda mais?
   Ao chegares ao fim, tu no ters o fim,
   Pois inda tenho mais.

   Tu perdoas o pecado em que eu intervim
   E fiz outros pecar - meus pecados portais?
   Tu perdoas o pecado evitado por mim
   Por um ano ou por dois, mas curtido bem mais?
   Ao chegares ao fim, tu no ters o fim,
   Pois inda tenho mais.

   Eu pequei por temer que ao chegar ao meu fim
   Na ltima remada eu v morrer no cais.
   Mas jura-me por ti que teu Filho ento sim
   Brilhar como agora e sempre muito mais.
   E ao chegares ao fim, ento ters o fim,
   Pois j no temo mais.

      O jogo de palavras no original ("ento ters o fim" foi a traduo escolhida para "thou hast done") trabalha com o nome do autor (Donne),e revela, pelo menos,
um tipo de aceitao: no a da morte como um fim natural, mas uma disposio de confiar a Deus o futuro, independentemente das circunstncias. "Aquela voz, a que
diz que devo morrer agora, no  a voz de um juiz que fala de condenao, mas de um mdico que apresenta a sade."
      Para surpresa de todos, o fato  que John Donne no morreu por causa daquele mal, flagelo, em 1623. Sua doena, mal diagnosticada, era, na verdade, uma espcie
de febre como o tifo, e no peste bubnica. Ele sobreviveu aos bizarros tratamentos mdicos a que foi submetido, recuperou-se e viveu mais oito anos como deo da
Catedral de So Paulo.
      Os sermes e os escritos posteriores de Donne com freqncia voltavam aos temas abordados em Meditaes, especialmente o tema da morte, sem, contudo, expressar
o mesmo tipo de turbulncia interior. Em sua crise, Donne conseguiu alcanar uma "santa indiferena" a respeito da morte, no por meio de um desconto em relao
a ela, mas por uma confiana renovada na ressurreio. A morte, que parece interpor-se  vida, na verdade abre uma porta para uma nova vida. "Onde est,  morte,
a tua vitria? Onde est,  morte, o teu aguilho?" (1 Co 15:55).
      Se, de alguma maneira, Donne pudesse viajar no tempo at nossos dias, certamente ficaria horrorizado com a pouca ateno que damos  vida aps a morte. Hoje
em dia, as pessoas ficam envergonhadas de falar sobre esta crena. Tememos o cu como nossos ancestrais temiam o inferno. Esta idia parece algo singular, uma fuga
covarde dos problemas deste mundo. Que inverso de valores, penso eu, nos levou a elogiar um sentimento de aniquilao como algo digno e a desprezar to covardemente
a esperana por uma eternidade to bem-aventurada? Os cus guardam a esperana da promessa de um tempo muito mais longo e mais substancioso, de plenitude, justia,
prazer e paz, do que este que temos aqui na Terra. Se no acreditamos nisto, ento, como argiu o apstolo Paulo em 1 Corntios 15, h pouca razo para sermos cristos
em primeiro lugar. Se realmente cremos, isto deveria mudar nossas vidas, assim como mudou a de John Donne.
      Deus conhece todo o peso, o fardo e a aflio deste mundo, disse Donne em um de seus sermes: "E se no houvesse um peso da glria futura para se contrapor,
todos ns afundaramos no meio do nada".

   Morte, no te orgulhes, ainda que alguns a tenham chamado
   Poderosa e terrvel, pois tu no o s...
   ...Um pequeno sono apenas e acordamos eternamente,
   e no haver mais morte, pois tu,  morte, morrers.

      Sete anos depois da doena que inspirou Meditaes, Donne ficou enfermo mais uma vez, o que viria testar seriamente tudo aquilo que ele havia aprendido sobre
a dor. Ele passou a maior parte do inverno de 1630 fora do plpito, confinado numa casa em Essex. Mas quando a poca da Pscoa se aproximava no calendrio eclesistico,
Donne insistiu em viajar para Londres para proferir um sermo na primeira sexta-feira da quaresma. Os amigos que o receberam ali viram um homem enfraquecido, aparentando
muito mais idade do que 58 anos. Uma vida inteira de sofrimento havia cobrado seu preo. Apesar da insistncia dos amigos em cancelar o sermo j agendado, ele se
recusou.
      O primeiro bigrafo de Donne, seu contemporneo Izaac Walton, descreve a cena no Palcio Whitehall no dia do ltimo sermo de Donne:

   Sem dvida, muitas pessoas faziam secretamente a pergunta de Ezequiel: "Podero reviver estes ossos?" Ou ser esta alma capaz de articular as palavras? (...)
Certamente que no. Mesmo assim, depois de pequenas pausas em sua zelosa orao, seu forte desejo permitiu que seu corpo dbil derramasse aquilo que se lembrava
das meditaes preconcebidas, as quais versavam sobre o tema da morte. O texto foi: "Com Deus, o Senhor, est a fuga da morte". Muitos dos que viram suas lgrimas
e ouviram sua voz dbil e tnue confessaram que o texto parecia ter carter proftico, e que o Dr. Donne havia pregado seu prprio sermo fnebre.
   (Extrado de The Life of John Donne)

      Donne j havia expressado o desejo de morrer no plpito, e foi quase isto que aconteceu. O impacto daquele sermo, "O duelo da morte", um dos melhores de Donne,
demorou a desaparecer das mentes daqueles que o ouviram. Para John Donne, a morte era um inimigo contra o qual ele lutaria enquanto existissem foras em seus ossos.
Ele lutou com a f confiante de que o inimigo seria finalmente derrotado.
      Levado para casa, Donne passou as cinco semanas que se seguiram preparando-se para morrer. Ditou cartas a amigos, comps alguns poemas e escreveu seu prprio
epitfio. Alguns amigos passaram por ali, e ele se lembrava deles: "No posso alegar inocncia em relao  vida, especialmente nos anos de minha juventude", disse
ele a um amigo, "mas serei julgado por um Deus misericordioso, que no est ansioso para ver o que fiz de errado. Embora eu no tenha nada a apresentar de mim mesmo
seno pecado e misria, sei que ele olha para mim no como eu mesmo sou, mas como sou em meu Salvador (...) Fico, portanto, repleto de indescritvel alegria e morrerei
em paz".
      Izaac Walton contrastou a imagem de John Donne em seus ltimos dias - com o corpo alquebrado, mas com paz de esprito - com um retrato de Donne aos 18 anos,
como um vistoso cavaleiro, paramentado com roupas finas, brandindo uma espada. Sua inscrio, conforme comentou Walton, provou-se ironicamente proftica em relao
 vida difcil de Donne: "Quanto serei mudado antes que mude!"
      Um escultor foi  sua casa naquelas ltimas semanas, por ordem da igreja, visando a construo de um monumento. Donne posou para ele na postura da morte, com
uma fina mortalha em volta de seu corpo, suas mos dobradas sobre seu estmago, com olhos fechados. A efgie foi esculpida numa nica pea de mrmore branco, e,
depois da morte de Donne, artesos montaram-na sobre sua urna funerria na Catedral de So Paulo.
      O monumento a John Donne ainda permanece ali. Eu o vi. Na verdade, foi o nico objeto da catedral que sobreviveu ao grande incndio de 1666, e que pode ser
visto na galeria reconstruda por Christopher Wren, atrs dos assentos do coro, um monumento cor de marfim colocado em um nicho numa antiga pedra escura. Os guias
tursticos apontam para uma pequena marca de fogo na urna, datada da poca do incndio. A face de Donne apresenta uma expresso de serenidade, como se tivesse alcanado,
na morte, a paz que tanto procurara na vida.

   Nosso ltimo dia  nosso primeiro dia; nosso sbado  nosso domingo; nossa vspera  nosso dia santo; nosso pr-do-sol  nossa manh; o dia de nossa morte  o
primeiro dia de nossa vida eterna. O dia seguinte a isso (...)  aquele em que me mostrarei a mim mesmo. Aqui sempre me vejo envolto em disfarces; l, ento, verei
a mim mesmo, mas tambm verei a Deus (...) Aqui tenho algumas faculdades aguadas e outras deixadas nas
   trevas; minha compreenso s vezes  clareada, ao mesmo tempo em que minha vontade  pervertida. Ali serei apenas luz, sem sombras sobre mim; minha alma envolta
na luz da alegria e meu corpo, na luz da glria.
   (Extrado de Sermons)

      Outro monumento est presente nos escritos de Donne. Li muitas palavras sobre a questo da dor, e eu mesmo escrevi algumas. Contudo, em nenhum outro lugar
encontrei meditaes to concentradas e sbias sobre a condio humana como no dirio que Donne manteve durante as semanas de sua doena, enquanto se preparava para
morrer. Tendo se proposto a lutar com Deus, ele se viu nos braos de um Mdico misericordioso, que com ternura o guiou atravs da crise de modo que pudesse emergir
para dar conforto e esperana a outros.
      No enterro de David, um corretor da bolsa de Chicago veio a mim e perguntou se poderia ver o livro que eu havia citado. Ele folheou aquela minha cpia, j
to usada, e disse: "No tinha idia de que existissem cristos como este".

JOHN DONNE PARA INICIANTES
      Meditaes (Devotions) permanece nos catlogos das editoras por mais de quatro sculos, o que  uma indicao de sua posio como um clssico. Usurios da
internet podero obter o texto completo em WWW.CCEL.ORG/D/DONNE/DEVOTIONS . Os poemas e textos de Donne podem ser adquiridos em acervos de boas livrarias norte-americanas.
Infelizmente, a coleo de seus sermes, assim como as mais confiveis biografias de Donne, saram de catlogo, e podem ser encontradas apenas em bibliotecas e sebos.
A pea Wit, de Margaret Edson, ganhadora do Prmio Pulitzer, retrata os dias finais de uma aluna de Donne morrendo de cncer no ovrio. O canal de televiso HBO
tambm produziu uma verso, estrelada por Emma Thompson.
      No posso deixar de contar minha primeira incurso no mundo dos livros. Em 1973, quando eu era editor da revista Campus Life, tentei fazer uma parfrase de
Meditaes. Dei o livro a alguns amigos, mas eles acharam os textos bblicos da verso King James um tanto difceis. Assim como vrias pessoas estavam parafraseando
a Bblia compilada naquela poca, decidi que faria minha prpria parfrase sobre esta obra clssica sobre o sofrimento, um John Donne refeito, se voc preferir.
Parafraseei seis das 23 sees e as enviei a uma editora com uma proposta. Algumas semanas depois, recebi uma carta com uma resposta de trs pargrafos. O primeiro
- provavelmente, uma resposta padronizada - dizia que, embora tivessem adorado meu trabalho, infelizmente o departamento de marketing determinara que a projeo
de vendas no justificaria sua publicao. O segundo pargrafo dizia: "Por favor, faa isso parecer triste e pessoal, pois esta  uma revista importante". O terceiro
pargrafo pedia que eu no me esquecesse da revista em meus futuros projetos. Li o segundo pargrafo diversas vezes, tentando entender o sentido daquilo, at que
percebi que o editor havia ditado aquela frase  secretria para que ela elaborasse um texto que mostrasse tristeza, e que no fosse impessoal, mas ela escreveu
as palavras do editor literalmente! Dez anos depois, mostrei a carta ao editor que a havia ditado. Acho que ele perdeu muitas noites de sono, pensando o que mais
ele havia anotado nas margens de cartas que inadvertidamente foram parar em cartas para escritores.

10. Annie Dillard
O Esplendor das Coisas Simples
      A imagem que eu tinha de Annie Dillard mudou para sempre depois de nosso primeiro encontro,  em   1977.
      Conhecendo-a apenas por intermdio de suas obras, esperava uma poetisa excntrica e neurtica como Emily Dickinson, ou uma mstica sombria como Simone Weil.
Combinamos de nos encontrar em seu escritrio, que eu imaginava ser uma cabana com um nico cmodo, enfiada no meio de um bosque de pinheiros.
      O escritrio revelou-se um luminoso conjunto de um prdio de poucos andares, com decorao moderna nas paredes, sendo uma delas pintada de laranja e a outra,
de azul. A prpria Dillard, com, no mximo, 30 anos de idade, usava cala jeans e uma blusa bordada. Ela era engraada, e usava muitas grias ao falar. Fumava um
cigarro atrs do outro. Amava pingue-pongue, rafting 62 e dana. Gostava de uma boa piada. Nem dickinsoniana nem professoral, ela era o tipo de pessoa que voc incluiria
em sua lista de convidados para animar uma festa.
      Dillard tambm tinha suas expectativas. "Que bom que  voc", disse ela quando entrei em seu escritrio. "No sabia o que esperar de uma revista chamada Christanity
Today. Quando vi um senhor careca de 60 anos de idade caminhando pelo campus, pensei: 'Puxa, onde  que eu me meti'?" Naquela poca, eu tinha a metade da idade do
homem careca e minha vasta cabeleira lembrava a juba de um leo; mas Dillard concordou sim, com a longa entrevista.
      Eu havia acabado de estudar John Donne, lanara Deus sabe que sofremos e comeava a escrever com o Dr. Brand. Tinha um bloco de notas cheio de perguntas a
fazer a ela: sobre o problema da dor, a natureza, os argumentos teolgicos do design inteligente63, a vida de escritora. Conversamos muito alm do tempo que havamos
combinado, e, no fim, ela soltou um longo suspiro, dizendo: "Que gostoso falar sobre idias, especialmente com algum que atua no mesmo campo. A maioria dos reprteres
quer saber sobre minha conta bancria e minha vida sexual".  claro que isto abriu uma linha de questionamentos completamente nova.
      No cargo de reprter de uma revista, naquele tempo, eu via a questo de escrever tanto como uma carreira quanto como um hobby, algo que voc faz quando tem
tempo, entre os prazos apertados. Dillard considerava isto um chamado santo, como pode ser visto nesta passagem de seu livro Holy the Firm:

   Perguntei s pessoas da minha classe quantas delas queriam dar suas vidas para serem escritoras. Eu estava tremendo, no sei se pela falta de um caf, de cigarro
ou de medo diante das faces que me cercavam (...) Todas as mos se levantaram em resposta  minha pergunta. Ento, tentei explicar-lhes o que significava aquela
escolha: "Voc no pode ser outra coisa. Voc precisa se devotar a isto" (...) Eles no tinham a menor idia do que eu estava falando (...) "Fao isto  noite, depois
de esquiar, ou no caminho do banco para casa, depois que as crianas vo dormir" (...) Eles acharam que eu estava devaneando outra vez.

      Mesmo tendo apenas um encontro, Dillard e eu trocvamos correspondncia ocasionalmente, e eu seguia seu trabalho de perto. Ou melhor, fazia um acompanhamento
frentico. Ela  um farol para os escritores que ainda se preocupam com as palavras, frases, pargrafos e idias, um guia para escritores de f. Depois daquela conversa,
nunca mais vi a composio literria como um hobby. Ela me ensinou a ver a arte e, na verdade, o mundo, com outros olhos.

      A autobiografia de Dillard, intitulada An American Childhood, esboa .. alguns detalhes de sua vida. Ela foi criada num lar de classe mdia-alta de Pittsburgh,
Pensilvnia, no qual seus pais amorosos lhe proporcionaram uma vida confortvel, freqentando escolas particulares para moas e o clube de campo. Eles trocavam idias
 mesa do jantar, levavam-na a uma igreja presbiteriana de gr-finos e permitiam que sua curiosidade intelectual corresse solta. Annie teve uma adolescncia turbulenta
no incio da dcada de 1960. Foi expulsa da escola por fumar e foi parar no hospital depois de um acidente durante um racha de automveis. Mostrava uma inclinao
pela natureza, sim, mas tambm pelo beisebol e pelas guerras francesas e indgenas. "Ela se preocupa apenas com o que lhe interessa", reclamou um de seus professores
do segundo grau. Quando seus pais a enviaram para a Faculdade Hollins, na Virgnia, ela se casou com o professor de Escrita Criativa, ainda no primeiro ano.

      At hoje, Dillard  capaz de recitar o primeiro poema que escreveu, um produto daquela trrida adolescncia, na qual ela se encantou pelo discurso do poeta
simbolista francs Arthur Rimbaud:

   Certa vez, se bem me lembro, confinada
   No inferno a minha carne foi largada,
   Em cela de priso mida e fria
   Onde nenhuma chama ou luz ardia.
   A mo caiu, o corpo foi ao cho
   Imvel na sujeira e solido.

      No havia qualquer indicao neste poema, ou na vida de Dillard, que dissesse que ela ganharia um Prmio Pulitzer antes dos 30 anos e que se tornaria uma das
maiores escritoras dos tempos modernos. Mas ela realmente credita  sua adolescncia o despertar de sua espiritualidade e o aguamento de seu apetite pelos temas
abstratos que permeariam seus trabalhos futuros. Sua autobiografia comea com esta citao do salmo 26: "Eu amo, SENHOR, a habitao de tua casa e o lugar onde tua
glria assiste".
      A igreja proporcionava, basicamente, um cenrio social no qual famlias bem-vestidas "acumulavam dignidade de serem vistas" todos os domingos. Nos veres,
porm, Annie corria com sua irm para um acampamento religioso nas montanhas. "Se nossos pais soubessem quo cheio de regras aquele acampamento era, eles nos arrancariam
de l", lembra-se ela. "Memorizvamos captulos inteiros da Bblia, cantvamos hinos alegres o tempo todo, tnhamos estudos  noite, momentos de orao extemporneos
e amos duas vezes aos cultos de domingo vestidas com bermudas brancas. A teologia cheia de f que existia ali estava a apenas meio passo de nossas tendas: dava
para sentir o cheiro da serragem."
      Ao compararmos nossa formao, percebi quo diferente  entrar numa subcultura por um vero e o sentimento de estar preso a uma tenda, com o ar sempre cheirando
a serragem. Meus veres num acampamento cheio de regras serviram para me causar mais repulsa quele tipo de doutrinamento. De outro lado, Dillard sentiu-se atrada
pelas idias religiosas, o que a fez considerar as outras idias como de menor importncia. A memorizao de longas passagens bblicas numa verso com texto clssico
fez com que ela escrevesse poemas que deliberada-mente imitavam seu ritmo. De volta para casa, na serena igreja de Pittsburgh, ela ocasionalmente sentia, "apesar
de mim mesma, um tnue e fino sopro espiritual passando por entre os bancos".
      Annie, na verdade, tinha uma pequena revolta contra Deus, disse-me ela mais tarde. Depois de quatro veres consecutivos no acampamento, ela se cansou da hipocrisia
das pessoas que iam  igreja para exibir suas roupas. Desejosa de tomar uma deciso mais profunda, resolveu confrontar os pastores. O pastor principal ("Ele era
a cara de James Mason no filme Nasce uma estrela, e sua idia de sermo era a de uma resenha de um livro") a amedrontava, por isso ela foi ao gabinete do pastor
auxiliar e despejou seu discurso sobre hipocrisia.
      Como homem sbio, numa tacada s ele conseguiu incutir nela o que em mim demorou muitos anos: ele separou a Igreja de Deus, fazendo isto de uma maneira que
dignificou aquela crtica adolescente, em vez de diminu-la. "Ele era um homem maduro e calmo, vestindo um terno completo. Usava bigode e culos. Eu era uma pequena
criana do segundo grau que pensava ser a nica pessoa no mundo com reclamaes contra a Igreja. Ele me ouviu e depois disse: 'Voc est certa, meu amor, existe
muita hipocrisia." Annie sentiu seus argumentos se dissolverem. Ento, o pastor continuou, entregando a ela uma srie de livros de C. S. Lewis, sugerindo que eles
seriam teis para a elaborao de um trabalho na escola. "Acho que  um pouco cedo para voc deixar a igreja", comentou ele, enquanto apertava sua mo em despedida.
"Acho que voc voltar em breve."
      Para consternao de Annie, ele estava certo. Depois de escavar quatro volumes de C. S. Lewis, ela caiu novamente nos braos do cristianismo. Sua rebelio
durou apenas um ms.
      Hoje em dia, existem 12 livros assinados por Annie Dillard, em estilos como poesia, ensaios, uma autobiografia, relatos jornalsticos de sua visita  China,
fico histrica e crticas literrias. Algumas formas foram mais bem-sucedidas do que outras, mas todas possuem sua marca: um olhar penetrante, frases maravilhosas,
intensidade mstica e o senso de que escrever  um chamado.
      Independentemente do que ela venha a conseguir, sem dvida viver para sempre com o rtulo de "nature writer".64 Pilgrim at Tinker Creek atingiu o pblico
leitor em 1974 com o impacto de um meteoro: um novo gnero, forjado em algum lugar do espao exterior, lanando fragmentos de si mesmo por toda a atmosfera. Em uma
rpida seqncia de premiaes, recebeu o ttulo de Livro do Ano, um Prmio Pulitzer, eleito o melhor livro estrangeiro na Frana e prosseguiu, transformando-se
num inesperado best seller (quase 500 mil cpias vendidas). Dillard se tornara a nova dama da literatura. Os crticos comparavam seu trabalho aos de Virgnia Woolf,
Gerard Manley Hopkins, William Blake e Henry David Thoreau. Jovem, magra, com ralos cabelos loiros, olhos azuis e uma predileo por chapus de feltro, ela se encaixa
visualmente no papel.
      Pilgrim comea com o sentido da viso. Em outra obra, Dillard relembra a histria de Noah Very, um eremita septuagenrio que vive num chal nos Apalaches.
"Certa vez, quando meus filhos eram jovens", disse-lhe Noah,

   ... e ns morvamos todos onde moramos agora, eu olhei pela janela e vi a crianada brincando junto ao rio. Havia ali na margem um banco de areia.
   As crianas eram todas muito novas, muito pequenas, e brincavam com baldes, derramando gua, amontoando areia uma sobre os ps da outra... Eu disse a mim mesmo:
"Noah, lembre-se bem desta viso, as crianas to pequenas e brincando  beira do rio nesta exata manh. Lembre-se disso". E eu me lembro como se tudo tivesse acontecido
hoje de manh. Deve ter sido no vero. H mais de vinte anos de permeio dos quais no lembro nada.
   (Extrado de Teaching a Stone to Talk)

      A escritora Dillard adota o ato de lembrar como um tipo de misso sagrada. "Annie, lembre-se desta cena", pode algum imagin-la dizendo a si mesma, repetidas
vezes. Voc vai lembrar dela e escrev-la para outros, como se ela tivesse acontecido esta manh. Ela, de fato, se lembra com tal nvel de detalhe que nos ensina
a ver. Os leitores voltam s suas obras porque ela descreve aquilo que ningum mais notou com praticamente a mesma acuidade: a queda-livre de um pssaro a partir
de um prdio de quatro andares; o mergulho de um albatroz a partir do ninho no penhasco; a textura da sombra que se lana durante um eclipse; uma luminosa "rvore
com luzes dentro". Dillard nos transmite calma, faz-nos olhar mais de perto e respirar mais fundo, enquanto caminhamos pelo mundo natural. Tais experincias, diz
ela, podem ser "menos relacionadas a ver do que a ser, pois aquilo que se v pela primeira vez nos atinge com impacto poderoso e empolgante".
      Emily Dickinson escreveu, certa vez, a um amigo, dizendo que "olhai os lrios do campo" era o nico mandamento que ela nunca havia quebrado. Precisei ler Annie
Dillard para aprender como cumprir esse mandamento. Li Pilgrim at Tinker Creek pela primeira vez quando morava num trailer de alumnio na periferia abandonada de
Chicago. Recm-casado e saldando as dvidas da escola, estava comeando a encaminhar minha carreira de jornalista. Sentia falta do vio do Sul: altos pinheiros,
ps de madressilva, arbustos de diferentes tipos nos bosques. Em Illinois, eu no fazia questo de sair, pois o que havia l fora para ver? Milharais? Marcas de
pneu na neve suja? Enquanto lia aqueles relatos da natureza, mais empolgantes que um romance de aventura, percebi que tudo o que ela descrevia estava ao lado de
um crrego lamacento, num lugar qualquer da Virgnia. "Tudo  uma questo de manter meus olhos abertos", disse ela. "A beleza e a graa existem, quer as percebamos
ou no. O mnimo que podemos fazer  tentar estar ali (...) de modo que a natureza no tenha de apresentar seu espetculo para uma platia vazia."
      Depois de ler o livro, propus-me a uma caminhada de meia hora todos os dias pelo Parque Prairie, por uma estreita trilha cascalhada que seguia um antigo leito
da estrada de ferro atravs da campina e do charco prximo de casa. Nos primeiros dias, no via nada de especial. Nos seguintes, a paisagem rida pela qual sempre
passei com pressa comeou a ganhar vida. Nos dias frios, o mato era coberto com uma fina camada de gelo que refletia o sol como diamante, e a neve transformava rvores
comuns em obras de arte abstrata. Na primavera, milhares de pequenas aranhas corriam apressadas pelo tapete de vegetao prensada pelo inverno. No vero, o charco
se enchia de vida com o som dos pssaros e insetos, e comecei a descobrir os limites dos territrios patrulhados pelos melros de asas vermelhas. No outono, grandes
rvores plantadas junto a poos ftidos transformavam-se em verdadeiras labaredas de fogo, uma "rvore com luzes dentro". Interessei-me pela fotografia para registrar
tudo aquilo que eu passava a enxergar.
      Annie Dillard vai at a natureza no apenas para observar, mas tambm para aprender, para extrair significado de um texto que obstinadamente resiste a todas
as tentativas. Como guia cuidadosa, ela me levou pela mo a uma trilha familiar que eu j percorrera com outros, como Paul Brand e G. K. Chesterton, e at mesmo
com John Dorme (que chamava a natureza "um Joo Batista submisso a Cristo"). Do mesmo modo, Dillard reconhece o mundo como obra do Criador, e ento considera as
conseqncias. "Que piada este Criador est nos contando?", pergunta ela. A mame-polvo que coloca um milho de ovos para produzir um nico sobrevivente; baleias
assassinas que se lanam sobre bandos de lees marinhos; a fmea do louva-deus consumindo o macho que, sem cabea, continua a copular com ela - que lies podemos
tirar de obras como essas?
      O problema, como sempre,  que a natureza nos d sinais misturados. Tal qual uma criana desobediente, o mundo natural tanto nos revela quanto nos esconde
Deus; a natureza "geme", para usar um termo paulino. Dillard no tem o otimismo de um Chesterton, que v o sorriso de Deus at mesmo nas trevas, ou de um Donne,
que anseia por um novo lar no porvir. Ela diz: "Eu me alterno entre pensar no planeta como um lar - a casinha com lareira e jardim - ou como uma terrvel terra de
exlio, na qual somos todos peregrinos". Deus deve preferir trabalhar com uma das mos atada s costas, conclui ela.
      Enquanto escrevia Pilgrim, Dillard perdeu um cunhado, que morreu de leucemia. Os testes positivos foram revelados um dia antes de seu casamento, e ele demorou
mais trs anos para morrer. Diante desta situao, Dillard diz: "No podia escrever este pequeno livro sobre a natureza, nem uma nova verso da teoria do design
inteligente. Tinha de escrev-lo para pessoas que estavam morrendo e chorando - o que quer dizer todo mundo. As imagens de minha irm e seu marido estavam ali, na
mesma sala onde eu escrevia o livro. Como poderia falar de Deus  minha irm, se ela no acreditava nele?"
      Por isso, as cenas alegres de Pilgrim so entremeadas e, em alguns momentos, sufocadas por cenas de violncia. Ela olha para um pequeno sapo verde flutuando
na superfcie da gua at que, de repente, ele se transfigura diante dela, com seu crnio afundando em seu corpo "como uma tenda que  derrubada, com seu corpo encolhendo
diante de meus olhos como uma bola de futebol que murcha". O vilo que ela v  um enorme besouro que perfurou, envenenou e sugou o interior do sapo. Conforme ela
percorre a trilha desgastada de Tinker Creek, pensamentos de seu cunhado se esvaindo em funo da leucemia esto sempre prximos.
      Depois de Pilgrim at Tinker Creek veio Holy the Firm. Dillard deu incio ao projeto quando vivia numa ilha em Puget Sound, prximo de Seattle, trabalhando
num quarto mobiliado com "uma enorme janela, um gato, uma aranha e uma pessoa". As presses que se seguiram depois do enorme sucesso de Pilgrim estavam todas guardadas
naquele cmodo solitrio. "Eu estava horrivelmente constrangida", lembra-se ela. "Trabalhei 16 meses em tempo integral, oito horas por dia. Todas as vezes que ficava
com medo de me aproximar daquela pilha de papis, eu costumava ler as ltimas pginas daquilo que havia escrito e nem eu conseguia entender o que estava ali. Lia
umas 800 vezes, at entender aquilo suficientemente para poder extrair algumas palavras mais. No fim desse tempo, tinha 43 pginas. Estava ficando como Beckett:
cada vez menos palavras, cada vez mais silncio."
      Holy the Firm registra a rotina diria de Dillard - ensinar, refletir, caminhar at a loja para comprar o vinho da Ceia - entremeada com especulao metafsica.
Ela havia optado por escrever sobre aquilo que acontecesse em sua vida nos trs dias seguintes. Qual seria a marca particular de santidade que cada dia trazia? Qual
 o relacionamento entre tempo e eternidade, entre Deus e os eventos do dia-a-dia? No segundo dia, porm, um avio caiu, e Annie Dillard viu-se obrigada a trilhar
o mesmo caminho por onde havia seguido em Pilgrim. "Quando o avio caiu, pensei: Oh, no, Deus est me fazendo escrever sobre esta droga de problema da dor outra
vez! Achava que era muito jovem, que no sabia a resposta e no queria fazer aquilo. Porm, mais uma vez, tinha de faz-lo."
      Em uma cabana emprestada, sem eletricidade, aquecida pela madeira que cortara naquela manh, ela escreveu sobre dor, a encarnao de Cristo, a natureza sacramental
da existncia, os supremos mistrios do universo. Como podemos, como ousamos amar um Deus que permite que uma criana morra grotescamente num acidente areo? Dillard
escreveu em Pilgrim: "No Coro, Al pergunta: 'O cu, a terra e tudo o que h neles acham que eu os criei por brincadeira?'  uma boa pergunta".
      Quando conversei pessoalmente com Dillard sobre esses assuntos, discutimos a noo de C. S. Lewis de que no devemos ir  natureza para construir teologia,
pois ela nos frustrar a todo instante. Devemos, sim, ir a ela quando j tivermos nossa teologia, para que a natureza possa preencher as palavras - admirao, glria,
beleza, terror - com significado. "Gosto disto", disse ela. "Mas, como voc sabe, sou uma crtica literria treinada, e trato o caos completo da natureza como se
ela fosse o Livro de Deus. Para muitos de meus leitores, este  o nico Livro de Deus que eles lero. Devo comear ali."
      Minha primeira atrao pelos textos de Dillard deu-se porque, nos tempos modernos, a natureza e o sobrenatural tm sido separados, e a autora busca, de alguma
forma, costur-los novamente. De maneira geral, a Igreja tem abandonado a natureza nas mos dos fsicos, gelogos e bilogos. Autores que falam sobre f andam na
ponta dos ps ao redor da Criao de Deus, desprezando-a como se fosse simples matria, indigna da ateno dispensada  mente e ao esprito. Ao fazer isto, perdemos
um dos textos principais de Deus. "Entre na matria", disse Teillard de Chardin.65 "Por meio de todas as coisas criadas, sem exceo, o divino nos vitupera, nos
alcana e nos molda. Imaginamo-lo como distante e inacessvel, ao passo que, na verdade, vivemos imersos em suas camadas mais ardentes."

      Dillard reabre o texto como um manuscrito do esprito. Ela escreve sobre a natureza como sendo uma obra de Deus, enquanto admite que a natureza nos d sugestes
confusas. "Encaminho minha canoa para longe da borda do mistrio, onde as palavras e a razo falham", diz ela. Sua viso traz  mente, mais uma vez, a prpria abordagem
de Deus no Livro de J. A um homem sofredor, carregado de perguntas existenciais urgentes, Deus responde com um atordoante discurso sobre o mundo natural. "Considere
o avestruz", disse ele a J, "as cabras monteses dando  luz, o boi selvagem, os cavalos, os sublimes falces, o hipoptamo e o crocodilo". Olhe para o texto; o
que ele lhe diz? Assim como o sentido contido nele, requer f: voc precisa ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Nem mesmo Deus reduziu a mensagem da Criao.
Ele simplesmente apontou para ela como um item de seu currculo.

      Annie Dillard comea com as ms notcias sobre o mundo porque naquele dia, diz ela, quando voc for dar as boas notcias, elas tero um impacto mais convincente.
O leitor precisa confiar que o escritor sabe at onde o leitor pode se irritar, mas, ainda assim, acreditar no que est escrito. Seu mais recente livro, For the
Time Being (Para o tempo presente), chuta o balde mais uma vez. Ele relata quantos suicdios acontecem por dia e qual porcentagem da populao  mentalmente retardada.
Descreve defeitos de nascimento em mincias clnicas e detalha tcnicas de assassinato praticadas por tiranos por toda a Histria. Nota que existem nove galxias
para cada pessoa viva na terra. D quase a mesma ateno aos segredos do p, s ondas do mar e  vida do paleontlogo e telogo catlico Teillard de Chardin.
      Viajando por um territrio desconhecido, localizado entre o ceticismo e a crena, Dillard volta constantemente  linguagem comum da natureza. Aponta de volta
para a prtica hassdica 66 de um observador que "reverencia" a Criao ao reconhecer nela as "fagulhas divinas". Como uma artista, ela imagina um mundo que contenha
muito mais do que se pode ver, um mundo sacramentai. Enquanto telogos debatem os milagres e o sobrenatural, ela se rende ao esplendor das coisas comuns.
      "No tenho problemas com milagres", diz Dillard. "Estou bem longe do agnosticismo, nem lembro mais onde foi parar uma srie de coisas que costumavam ser um
problema para mim. Mas esta no  a questo com a qual luto. Para mim, a verdadeira pergunta : como podemos nos lembrar de Deus? Gosto daquela parte da Bblia que
traz os nomes dos reis como sendo bons ou maus. De repente, aparece um como o rei Josias, que manda limpar o Templo e, sem querer, descobre a Lei. Isto acontece
depois de muitas geraes de governantes e do tempo em que os israelitas seguiam a Deus durante o xodo. De alguma maneira, eles haviam se esquecido da coisa toda,
pea por pea. Uma nao inteira simplesmente esqueceu-se de Deus. A orao que diz 'no decorrer deste dia, no me esquecerei de ti; no te esqueas tu de mim' ,
s vezes, vista como uma espcie de piada crist sem importncia. No creio que ela seja assim to pouco importante. Acho que ela  muito profunda." Como membro
da academia ps-moderna, ela percebe que, com a viso mundial que temos hoje, anos-luz  frente da dos hasidim, uma civilizao inteira corre o risco de se esquecer
de Deus.
      Parte do apelo de Dillard reside em sua capacidade de enriquecer a f de cristos devotados, enquanto se mantm crvel para os cultos que desprezam a religio.
Nos Estados Unidos, os cristos tendem a criar subculturas, lendo seus prprios livros, ouvindo sua prpria msica e educando seus filhos em suas prprias escolas.
Pouca fertilizao mtua ocorre entre a subcultura crist e a cultura maior e secular. Por meio da combinao de uma dvida teimosa com uma igualmente teimosa insistncia
na f, Dillard serve como uma ponte entre dois mundos: o ambiente literrio e os cristos conservadores.
      Ler alguns livros religiosos s vezes me lembra uma viagem atravs de um longo tnel sob uma montanha. Dentro do tnel, os faris do carro provem uma iluminao
importantssima. Sem eles, eu poderia bater nas paredes do tnel. Mas prximo  sada do tnel, um conjunto de luzes brilhantes parece engolfar as luzes dos meus
faris e os torna completamente desnecessrios, de modo que, quando saio do tnel, uma placa dizendo "verifique seus faris" me avisa que  hora de deslig-los.
Em comparao com a luz do dia, eles so to fracos que perco a noo de sua existncia. Os livros cristos geralmente so escritos a partir da perspectiva da luz
do dia, exterior ao tnel. Cercado de luz, o autor se esquece da profunda escurido do interior do tnel por onde muitos leitores caminham. Annie Dillard se lembra,
e direciona seus faris de maneira correta.Ela escreve tendo em mente um agnstico intelectual, esperando lev-lo a considerar "que os cristos no so apenas pessoas
estpidas". Ela entende que uma de suas tarefas  "tentar mediar um pouco cristos e humanistas - especialmente cristos evanglicos e meus colegas da academia e
os humanistas que acham que um cristo  um louco com um papel e uma arma na mo". De maneira quase singular, ela trata os evanglicos, at os fundamentalistas,
com respeito e bondade. Enquanto lecionava na Faculdade Hollins, em Virgnia, no comeo de sua carreira, ela passou bastante tempo lendo para os cegos da Faculdade
Bblica Shenandoah, onde aprendeu o lado mais compassivo do fundamentalismo. Atualmente ela  voluntria em um programa de alimentao de pessoas carentes.
      "Sei o suficiente sobre Deus para querer ador-lo a todo instante", escreveu Dillard em Holy the Firm. Ela nunca deixa de identificar-se abertamente como sendo
crist, apesar de confessar que as experincias com manifestaes divinas sejam mais raras hoje em dia. H poucos anos, ela tomou o passo pblico de se converter
ao catolicismo romano. Como ela explicou ao New York Times, "o que gosto nos catlicos  o jeito desarrumado deles. Voc vai a uma igreja episcopal, e as pessoas
so muito parecidas. Vai a uma igreja catlica, e h pessoas de todas as cores e idades, bebs chorando.  uma vitrina de gente. E voc diz: 'Olha eu aqui. Sou uma
das pessoas que amam a Deus'".
      Assim como a natureza tanto revela quanto esconde Deus, assim  a Igreja, e Dillard escreve cada vez mais diretamente sobre sua comunidade de f. Ela comentou,
numa reunio de artistas cristos: "Sinto que fui colocada aqui na Terra para descrever os cultos das igrejas, e h alguma coisa intrinsecamente hilariante sobre
eles.  comum eu quase morrer sufocada dentro de uma igreja, segurando o riso. Escrevi sobre isto em Uma expedio ao plo. O que h de to engraado nisto?  a
distncia entre o que estamos fazendo e o que estamos procurando fazer. O relacionamento entre a incongruncia de quem somos e quem estamos tentando mover em nossas
oraes. Parece um quadro da dana do urso".
      O ensaio a que ela se refere contm o seguinte lamento:

   Tenho freqentado a missa catlica por quase um ano. Antes disso, a igreja mais  mo era a congregacional (...) Semana aps semana, fui tocada pelo
   estado lastimvel da sacristia com piso de linleo que nenhuma flor era capaz de saudar ou amenizar, pelo terrvel canto que eu tanto amava, pelas entediantes
leituras bblicas, pela diluio vazia e demorada da liturgia, pela terrvel falta de contedo do sermo e pela nvoa da lgubre insensatez que a tudo permeava,
que existia ao lado e, provavelmente, causava a maravilha do fato de que ns vnhamos; ns voltvamos; aparecamos semana aps semana, passando por ali.
   (Extrado de Teaching a Stone to Talk)

      Em Puget Sound, freqentava uma pequena igreja na qual ela normalmente era a nica pessoa com menos de 60 anos, sentindo-se como numa viagem arqueolgica pelo
sul da Rssia Sovitica. A Igreja catlica mostrou-se mais inovadora. Em certa ocasio, os paroquianos participaram da missa ao som de msicas do filme A novia
rebelde ao piano. Dillard suspira, dizendo: 'Acho que preferiria submeter-me  famosa noite escura da alma a encontrar a novia rebelde na igreja". Ela completa:
"Dois mil anos se passaram, e ainda no resolvemos isto. Semana aps semana, testemunhamos o mesmo milagre: Deus  to poderoso que pode reprimir seu sorriso".

      Alguns cristos realmente no sabem o que fazer com Annie Dillard. . Escrevendo livros de arte, e no de Teologia, ela usa linguagem indireta e dissimulao.
"Se eu quisesse fazer uma afirmao teolgica ou uma declarao daquilo que penso, teria contratado um skywriter" 67 diz ela. "Em vez disto, tento tirar de mim mesma
arte - no que seja to boa, mas porque, por sua prpria natureza, ela no reduz tudo a um sistema fechado. Ela no  to sufocante. As pessoas podem me perguntar
o que acho sobre isto, e eu direi: 'No sei; aqui esto 271 pginas, e voc vai ter de ler todas elas'."
      Soren Kierkegaard descrevia-se como um espio, um homem mpio que fica de olho em vrios personagens suspeitos, inclusive ele mesmo. A polcia, dizia ele,
faz um bom uso de pessoas astutas que podem descobrir qualquer coisa, seguir uma pista e revelar segredos. Em certo sentido, todo escritor trabalha na espionagem,
tomando notas, observando particularidades que todo mundo despreza, escarafunchando o mundo em busca de pistas. Para um escritor de assuntos de f, trabalhar numa
cultura secular complica muito esta tarefa. Escrever livros que aparecem em livrarias crists para serem lidos apenas por membros de igrejas exige pouca astcia;
escrever livros de f para leitores que possuem apenas vestgios de rgos sensoriais, isto sim, requer um tipo particular de perspiccia.
      Annie Dillard nunca nega sua identidade, mas tambm no conta a histria inteira. Ela conhece seu pblico e a si mesma. Lembrei-me da analogia que Kierkegaard
fez de um espio no muito tempo atrs, quando encontrei um artigo que Dillard escreveu para o The Yale Review, nos idos de 1985. "Cantando com os fundamentalistas"
recorda o tempo quando ela lecionou na universidade em Bellingham, Washington. Bem cedo, certa manh, ela ouviu um canto e olhou por sua janela, vendo um grupo de
alunos reunidos em volta de uma fonte.

   Sei quem so esses alunos: so os fundamentalistas. Este campus tem uma poro deles. De manh, eles cantam na praa, e esta  sua nica atividade perceptvel.
O que eles esto cantando? Seja o que for, quero me juntar a eles, pois adoro cantar. No importa o assunto, pois quero estar ao lado deles, pois sou atrada pelo
prprio absurdo de v-los no se importando com o que as pessoas pensam. Meus colegas e alunos daqui, alm de amigos de todo lugar, no gostam dos cristos fundamentalistas
e at os temem. E possvel que voc nunca se encontre com algum deles, mas certamente j ouviu falar sobre o que eles fazem. Guardam dinheiro, votam em bloco e elegem
aqueles direitistas malucos. Fazem censura a livros, carregam armas. So contra o flor na gua potvel e a Teoria da Evoluo nas escolas.  bem possvel que eles
linchassem pessoas, se pudessem ficar impunes diante deste ato. No estou certa de que meus amigos ajam corretamente. Deixo minha caneta de lado e uno-me aos meus
colegas na praa.

      No resto do artigo, Dillard relata o que aprendeu cantando com os fundamentalistas s 8h45 durante todas as manhs da primavera. Ela estuda as revistas que
esses alunos lem - Christianity Today, Campus Life, Eternity - e descreve aqueles que conhece. So alunos brilhantes, longe de serem ignorantes. Lem a Bblia,
assim como livros sobre teorias da Literatura. Alguns apiam os democratas modernos; outros, os republicanos modelados. No meio do artigo, Dillard reproduz a letra
das msicas que eles cantam, entre elas:

   Dai louvores ao Rei
   Cantando aleluia
   Ele  o Rei dos reis

      E

   Ele  a minha paz,
   Aquele que derrubou todos os muros (...)
   Lance sobre ele seus cuidados,
   Pois ele cuida de voc---

      E

   Seja glorificado, Senhor
   Em minha vida, em minha vida hoje

      E

   Fartar-me-ei da abundncia de tua casa
   Descansarei ao lado dos ribeiros da justia
   Tu s o meu Rei
   Entrai por suas portas com aes de graas
   e nos seus trios, com hinos de louvor
   Ele  o Rei do reis
   Tu s o Senhor

      Dillard revela por que gosta de cantar com os fundamentalistas por toda a primavera: "Eles vm praticamente pela mesma razo que eu: cada um tem uma relao
particular com o Senhor, e, por causa disto,  capaz de suportar um monte de coisas".
      Mesmo para um espio,  uma enorme proeza trabalhar a letra de oito diferentes canes de louvor num jornal intelectual publicado pela Universidade Yale. "Quase
desmaiei quando eles viram o trabalho", disse-me Dillard, mais tarde. "Na verdade, a cada dia estou me revelando um pouco mais."A partir das cartas que recebo e
dos comentrios que ouo em festas e lanamentos de livros, chego  concluso de que as pessoas tm uma viso romntica da vida de um escritor. Essas pessoas nunca
estiveram ao lado de um escritor que fica parado 15 minutos diante de um dicionrio de sinnimos em busca de uma nica palavra. Devido ao prprio trabalho, os escritores
levam uma vida solitria. Trabalhamos sozinhos, fugindo de qualquer distrao, e criamos nossa prpria realidade particular, explorando-a e domesticando-a at que
chega o momento quando o editor comea a instigar outras pessoas a trabalhar conosco -momento em que, naturalmente, estamos felizes, construindo outra realidade
falsa. Na maior parte das vezes, o mundo que criamos  muito mais interessante do que aquela triste realidade na qual vivemos.
      s vezes, tenho a impresso de que minha vida de escritor se sobressai  minha vida real. Fico pensando: Se eu no escrevesse, ser que eu chegaria mesmo a
existir? Como posso saber o que penso ou sinto sem abrir meu computador e comear a escrever sobre aquilo? Lembro-me de um dia em que trabalhava em uma pequena histria
numa manh bem cedo. Por trs horas, esforcei-me para desenvolver personagens tridimensionais, tirando todos os clichs de seus dilogos. Iniciante na fico, estava
ficando com uma terrvel dor de cabea por causa do esforo. Naturalmente, usava isto como desculpa para parar de escrever, atravessar a rua e tomar um caf. Imagine
minha surpresa ao descobrir que todas as pessoas da cafeteria eram personagens bidimensionais, que falavam usando clichs! Nenhuma daquelas pessoas parecia-me to
interessante quanto as pessoas que povoavam minha histria. Corri de volta para a segurana de minha falsa realidade que me esperava (e somente a mim) no meu escritrio
no poro.
      Annie Dillard conhece esta sndrome muito bem. Ela prefere trabalhar em escritrios com paredes de concreto sem janelas - ambientes inertes a tal ponto que,
como diz ela, mudar a cor da caneta torna-se uma experincia empolgante.

   Ningum deveria se surpreender ao saber que a vida de um escritor - como  -  incolor a ponto da privao sensorial. Muitos escritores fazem pouco mais do que
apenas sentar-se em pequenas salas, lembrando-se do mundo real. Isto explica por que tantos livros descrevem a infncia do autor. Para muitos escritores, a infncia
pode muito bem ter sido a ocasio de suas nicas experincias inditas. Os escritores lem biografias literrias e se cercam de outros escritores, deliberadamente
forando-se a aceitar a noo burlesca de que a opo racional de ocupar-se neste planeta at que o curso de sua vida chegue  totalidade  sentar-se numa sala pequena
durante todo este tempo, na companhia de pedaos de papel.
   (Extrado de The Writing Life)

      Dillard entende que aqueles de ns que escrevem sobre a vida ficam praticamente sem energia para viver a vida real. A verdade  que a maioria de ns no est
bem equipada para viver, e genuinamente prefere sentar-se em salas pequenas na companhia de pedaos de papel. Porm, nos primeiros anos de sua vida, ela repentinamente
emergiu de sua sala para se ver diante de gravadores que comeavam a funcionar to logo ela abria sua boca, alm de leitores do mundo inteiro pedindo seus conselhos.
Para Dillard, ganhar o Prmio Pulitzer mudou tudo da noite para o dia. "Eu estava na casa dos 20 anos e ganhei um Pulitzer. Isso no estava nos planos; eu no estava
buscando algo assim, foi um acidente, uma dessas coisas que caem na sua cabea. Fiquei terrivelmente sem graa, e me escondia o quanto possvel." Enquanto ela procurava
ser uma peregrina, o mundo continuava tentando transform-la numa santa.
      Toda aquela ateno era terrivelmente confusa para ela, no incio. Recebia ofertas para dar seu aval a livros e produtos, escrever roteiros para Hollywood,
criar bals e canes. Convites para falar e dar aulas entupiam sua caixa de correio. Durante algum tempo, ela conseguiu fugir, atravessando o pas, quando se mudou
da Virgnia para Puget Sound. Fez um voto que honra at hoje: fazer apenas duas palestras por ano. "Ser que Cristo teria ido  televiso?", perguntou Dillard, certa
vez. Preteriu uma apario no programa Today, mas concedeu uma entrevista aos jornalistas da imprensa escrita.
      Entrevistas a angustiam, especialmente aquelas que tratam de sua vida pessoal. Quando um reprter do New York Times passou um fim de semana inteiro com Dillard
em Connecticut, Annie ficou acordada metade da noite, chorando incontrolavelmente, perturbada com as perguntas que o entrevistador fizera sobre sua f. Ainda assim,
ela cooperou, como uma espcie de peregrina se submetendo a um martrio emocional.
       certo que os anos sob os holofotes cobraram um preo pessoal. Ela j se casou trs vezes. Sua voz revela as vrias dcadas de fumante.Sua figura demonstra
uma estranha fragilidade, sendo que sua fina sobrancelha, os cabelos ralos e sua pele muito clara apenas corroboram essa imagem. Dillard tem deixado transparecer
suas lutas pessoais: com a fama, com as terrveis exigncias da vida de escritora, com suas dvidas e sua f. Diante da incansvel mquina de fazer celebridades
dos Estados Unidos, um escritor srio tem poucas opes: pode se render, como Truman Capote, Norman Mailer e Gore Vidal, ou simplesmente desaparecer, como J. D.
Salinger e Thomas Pynchon. Dillard optou por algo no meio do caminho. A palavra "peregrina", extrada do ttulo de sua obra principal, nos d uma pista de como ela
se v.
      Meu ltimo encontro com Dillard ocorreu numa conferncia em Kansas, onde ela recebeu do Milton Center um prmio de dez mil dlares pela qualidade na literatura
crist. Ela contou piadas, fez uma engenhosa brincadeira com a platia e cativou sua ateno como se fosse uma humorista. Seus fs, a maioria escritores iniciantes,
beberam de todas as suas palavras. Hoje, na faixa dos 50 anos, com um corpo de obras bastante maduro em seu currculo, Dillard se tornou parte do grupo literrio
que um dia deu-lhe as boas-vindas como uma novata deslumbrante. Em alguns aspectos, ela cumpriu o prometido; em outros, como dizem os crticos, no. O que fazer
para repetir o sucesso de um livro que alcana sucesso mundial?
      Milhares de leitores escrevem para Dillard. Alm do mais, Pilgrim at Tinker Crcek surgiu numa poca em que a espiritualidade no tinha espao no campo literrio
e, neste deserto, Pilgrim destacava-se como um osis para a alma. Ele fez para alguns leitores o que a literatura fantstica faz para outros: apresentou um mundo
futuro de maneira convincente. Ainda que involuntariamente, Annie Dillard se tornou uma santa moderna, um cone.
      Uma universitria escreveu, perguntando: "O que  transcendncia e como posso ter mais disto em meus textos?" Um sacerdote enviou a ela um envelope que, colocado
contra a luz, revelava a silhueta de uma cruz. Quando abriu o envelope, "em vez de uma cruz, um Cristo agonizante caiu na palma de minha mo. Pulei para trs. Ele
deve ter cado dessa cruz no correio". Freiras enviaram medalhas e pedaos do tecido do vu de Vernica.68  Uma mulher, sentada ao lado do leito de morte de seu
neto, pedia que Dillard respondesse: os Estados Unidos agiram certo ou errado quando lanaram a bomba atmica sobre Hiroshima?
      Um famoso artista perguntou: "No quero atrapalh-la, mas voc poderia me dizer se Deus est olhando para sua Criao, decidindo quem vive e quem morre, ou
j foi embora?" O filho do artista havia morrido enquanto velejava num pequeno barco.
      H alguma surpresa em v-la se mudando para um lugar a quase cinco mil quilmetros de distncia? Ela se mudou para o Estado de Washington sem conhecer ningum
ali, e custou a acostumar-se. "As mulheres de l tinham uma cultura com a qual no me acostumei. Usavam correntes, comiam coisas enlatadas e davam o peito a seus
filhos. Eu achava que era uma espcie de hippie, at que sa. L fora, transformei-me, de repente, numa especialista em Literatura."
      Ela sentiu muito mais do que uma ponta de culpa sobre o tipo de texto que produzia, o que, admitia ela,  "espantosamente isolado de questes polticas, sociais
e econmicas". Quando uma pessoa escreve sobre f religiosa, em especial, as complicaes aparecem, pois escrever exige uma autoconscincia que destri a sublime
rendio de si mesmo que todo peregrino busca. Todo escritor que aborda a espiritualidade pode se identificar com a preocupao de Thomas Merton de que seus livros
expressassem a vida espiritual de um modo to confiante e firme quando, na verdade, ele era assolado por inseguranas, dvidas e at mesmo terrores. H lugar para
um peregrino - simplesmente isto, um peregrino, no um especialista ou um santo?
      Em Holy the Firm, Dillard at mesmo insere uma retratao: "No vivo bem. Apenas aponto para a viso". Certa vez, ela me explicou que "pessoas santas me pedem
para falar em seus mosteiros e respondo que no, pedindo que elas mantenham sua viso. Em O mgico de Oz, existe uma enorme mquina, e, por trs da cortina, um homem
baixinho gira uma manivela e aperta botes. Quando o cachorro puxa a cortina e expe o pequeno homem, a mquina diz: 'No preste ateno no homem por trs da cortina!
Olhe para o show de luzes!' Por isso, peo aos monges que mantenham sua viso de poder, santidade e pureza. Todos ns temos vislumbres dessa viso, mas a verdade
 que ningum jamais a viveu".
      H cerca de 20 anos, disse que oraria por ela uma vez por semana porque imaginava o tipo de presso que ela enfrentaria. "Ningum jamais disse que oraria por
mim", disse-me ela, recentemente. "Por conseguinte, senti-me obrigada a ser digna de suas oraes por mim, para continuar sendo uma escritora crist, fazendo isto
da melhor maneira que eu pudesse."
      Quando um escritor alcanava sucesso inesperado e escrevia para Dillard pedindo conselhos, sua resposta era: "Tenho uma mensagem urgente para voc: todo mundo
se sente como se fosse uma fraude (...) Separe voc de seu trabalho. Um livro que voc escreve no  voc, assim como uma cadeira que voc constri ou uma sopa que
prepara tambm no  voc.  apenas uma coisa que voc fez em determinado momento. Se quiser fazer outra coisa, ela ser apenas mais um fato, mais uma oferta da
viva, outra pequena ddiva que Deus v como o melhor que ns, humanos, podemos fazer - e pela qual somos antecipadamente perdoados".
      A prpria obra de Dillard contm seu conselho. Na alquimia das palavras escritas, as lutas de uma peregrina fiel tm se transformado numa fonte de conforto
para outras pessoas, e suas dvidas fortalecem a f de outros. Como escritor, tambm consciente de meus prprios fracassos na vida, essa misteriosa alquimia oferece-me
esperana. "O que  um poeta?", perguntou Kierkegaard. "Um poeta  um ser infeliz cujo corao est partido por sofrimentos secretos, mas cujos lbios foram to
estranhamente formados que, quando um suspiro ou um lamento escapa deles, soam como uma bela msica."

ANNIE DILLARD PARA INICIANTES
      Pilgrim at Tinker Creek, um dos livros mais recentes de Annie Dillard, ainda oferece a melhor apresentao de seu estilo e pensamento. Como escritora, ela
est disposta a experimentar praticamente tudo. The Writing Life e Living by Fiction oferecem um rico material para aqueles que esto interessados na confeco de
textos. An American Childhood satisfaz os leitores interessados na vida da prpria Annie Dillard. Ela tambm publicou um longo romance intitulado The Living, que
recebeu crticas diferenciadas, alm de vrios volumes de poesia. The Annie Dillard Reader rene excertos de vrias obras - uma amostragem escolhida pela prpria
autora, na qual leitores dedicados podero beber em suas fontes originais.

11. Frederick Bueghner
O Movimento das Asas
      Lembro-me do primeiro dia em que peguei um livro de Frederick Buechner. Ele veio em um monte de livros que recebi de presente de um amigo, e o escolhi dentre
os outros especialmente por sua brevidade (pouco menos de 100 pginas). Era um livro que, entre outras coisas, continha sermes que Buechner havia pregado. Estes,
porm, tinham muita semelhana com um sermo comum, como os sermes que representavam o Natal nas peas de Shakespeare.

   Nos bancos da frente, as senhoras de idade ligam seus aparelhos de surdez e uma jovem senhora entrega  filha de seis anos um livro e um marcador. Um calouro
universitrio, em casa devido s frias e levado ali  fora, est inclinado para a frente, com a mo no queixo. O vice-presidente de uma empresa que, naquela semana,
havia pensado seriamente em suicdio por duas vezes, coloca o hinrio no encosto do banco da frente. Uma garota grvida sente a vida se mexendo dentro dela. Um professor
de Matemtica do segundo grau que, por 20 anos, conseguiu manter sua homossexualidade oculta para a maioria das pessoas, inclusive ele mesmo, dobra o programa do
culto ao meio com seu polegar e o coloca embaixo da perna (...) O pregador puxa a pequena corda que acende a luminria do plpito e revira as notas feitas em cartes,
como se fosse um jogador de cassino. As apostas nunca foram to altas.

      O livro se parece mais com um romance do que com um sermo, o que faz sentido, pois, como eu viria a descobrir, Buechner era romancista muito antes de se tornar
pregador. Independentemente do assunto que abordasse, ele fazia uso das tcnicas da fico: detalhes sensoriais, uma histria intrigante, a tenso caracterstica
do suspense. Em meu primeiro encontro, porm, prestei pouca ateno na tcnica da prosa, sendo, sim, cativado pela forma completamente nova de contar aquela velha
histria. Aquele fino livro, chamado Telling the Truth, tinha como subttulo The Gospel as Tragedy, Comedy and Fairy Tale (O evangelho como tragdia, comdia e conto
de fadas), e se dividia em trs partes, nas quais Buechner recapitulava toda a histria do Natal. Ele cita Rei Lear e O mgico de Oz com a mesma freqncia que se
refere a Isaas e Mateus, e, por alguma razo, achei que isto fazia o evangelho ainda mais crvel.
      Walker Percy costumava dizer que a boa fico nos conta aquilo que sabemos sem saber que sabemos. A boa Teologia faz a mesma coisa. Frederick Buechner lembrava-me
que o evangelho no  uma camada colocada sobre a vida, mas, ao contrrio, um resumo de tudo que  mais verdadeiro sobre ela. A vida  to trgica quanto os ltimos
e tristes dias do rei Lear e de Jesus; to engraada quanto um tatu ou a gravidez de uma senhora judia de idade avanada chamada Sara. Se a histria de Jesus contm
alguma promessa, a vida tambm  um conto de fadas, uma histria com um final bom demais para ser verdade, uma "brisa de alegria que sopra para alm dos muros do
mundo, mais pungente que o pesar".
      Buechner tornou-se para mim um mentor na redescoberta de um evangelho com o qual eu era familiar desde pequeno. Ao contrrio de mim, ele no precisou reaprender
aquilo que havia aprendido na igreja, uma vez que nunca aprendeu muito ali. Sua peregrinao foi iniciada voluntariamente, j como adulto, uma jornada perigosa e
arriscada, muito diferente de um passeio em grupo com um itinerrio predeterminado. O resultado  que ele faz os fatos bsicos do evangelho brilharem como se tivessem
sido descobertos recentemente, em um jarro de cermica no Oriente Mdio. A f crist o atinge como boas novas porque apresenta a verdade do mundo do modo como ele
tem experimentado, transformando em palavras as coisas mais profundas que ele sente enquanto vive neste planeta.

      Buechner diz que um pastor tem duas histrias para contar: a histria de Jesus e a do prprio pastor. No caso de Buechner, a prpria histria do pastor ilumina
o modo como ele conta a outra, pois alguns eventos importantes de sua vida fornecem a iluminao necessria para virtualmente tudo o que Buechner tem escrito. Aos
dez anos, Fred e seu irmo mais novo, Jamie, assistiram da janela de seu quarto, no andar superior, a sua me e sua av, descalas e com suas roupas de dormir, tentarem
reanimar o corpo inerte de um homem vestido com calas cinza e suter castanho, estirado com o rosto para cima na calada. Era o pai dos garotos, morto por envenenamento
com dixido de carbono, proveniente de um carro ligado em uma garagem fechada. Poucos anos depois, o irmo mais novo de seu pai - portanto, tio de Fred - tambm
deu fim a sua prpria vida.
      Em suas prprias palavras, Fred era "uma criana louca por livros, com olhar introspectivo e amante da chuva". As mortes de seu pai e de seu tio despertaram
nele uma conscincia de sua prpria mortalidade que nunca mais o abandonou. Durante algum tempo, ficou pensando se a famlia no era afetada por uma espcie de gene
do suicdio. Enquanto crescia, as tragdias da famlia tambm ajudaram a convenc-lo de que a maioria de ns  moldada menos pelas foras globais descritas todas
as noites nos programas jornalsticos da televiso do que pelas foras ntimas da famlia, dos amigos e dos segredos compartilhados. Como todo bom romancista, aprendeu
que o comportamento humano no pode ser explicado ou predito, somente observado.
      Um tipo bastante diferente de ruptura aconteceu quando ele chegou aos 27 anos. Com dois romances no currculo, sendo um deles, A Long Day's Dying, grandemente
aclamado pelos crticos, Buechner mudou-se para a cidade de Nova York para se lanar numa empreitada de escritor em tempo integral. Ele se viu num bloqueio de criao,
incapaz de escrever qualquer coisa. Foi ficando deprimido e comeou a pensar em outra carreira - na propaganda, talvez, ou ento trabalhando para a CIA. Decidiu
fazer algo incomum. Simplesmente pelo fato de o imponente prdio da Igreja Presbiteriana da Avenida Madison ficar a apenas um quarteiro de seu apartamento, Buechner
comeou a freqentar aquela igreja, conduzida pelo clebre pregador George Buttrick. Em 1953, na poca da coroao da rainha Elizabeth II da Inglaterra, Buechner
ouviu um sermo que mudaria sua vida. Buttrick estava contrastando a coroao de Elizabeth com a coroao de Jesus no corao do cristo, o que, como disse o pregador,
deveria acontecer em meio  confisso e s lgrimas. At a, tudo bem.

   Ento, com sua cabea se mexendo para cima e para baixo, de modo que seus culos brilhavam com o reflexo das luzes, com sua voz singular e triste, como a de uma
enfermeira idosa, ele falou que a coroao de Jesus havia ocorrido em meio  confisso e s lgrimas. Logo, com Deus como minha testemunha, um grande riso surgiu,
por razes que nunca entendi completamente. A Grande Muralha da China ruiu e Atlntida surgiu do mar. Ali, na Avenida Madison, esquina com a rua 73, as lgrimas
escorreram de meus olhos como se eu tivesse sido golpeado na face.
   (Extrado de The Alphabet of Grace)

      Uma semana depois, o jovem romancista estava perguntando a Buttrick que seminrio ele deveria freqentar. Buttrick o levou ao Union Theological Seminary, onde,
no outono seguinte, Buechner se matriculou como aluno para aprender com Reinhold Niebuhr, James Muilenburg e Paul Tillich, vindo a ser ordenado, mais tarde, ministro
presbiteriano. Sua famlia e seus colegas chamaram-no tolo por estar abdicando de uma promissora carreira de escritor. "Freddy, voc tomou esta deciso por si ou
algum o induziu a fazer isto?", perguntou a me, condescendente, durante um coquetel.
      H momentos em que Buechner ainda  tentado a interpretar sua experincia de converso em termos freudianos, como uma busca por um pai ausente, ou sob a tica
do existencialismo, como uma reao do tipo "salto de f" diante da ansiedade de um fracasso na carreira. Ele resiste  tentao, vendo, de outro lado, como um antigo
exemplo da "velha e louca graa" que brota de tempos em tempos "atravs das falhas e fissuras das speras pedras da vida".
      Muitos escritores modernos procuram medir o desespero de um mundo em que Deus est praticamente ausente, mas poucos tentam lidar com a realidade do verdadeiro
significado da presena de Deus. Buechner nunca se esqueceu de que Cristo foi coroado num esprito de alegria. Ele escreve sobre um reino mgico, sobre um fim de
nossa exaustiva jornada, de um lar que vai saciar a falta que sentimos tanto em nossos dias. Como pregador e escritor, ele tenta despertar novamente a criana que
existe nas pessoas: aquela que acredita inocentemente, que ao menos sai para ver o lugar mgico, que no tem vergonha de no saber as respostas porque no se espera
que realmente saiba. Dada minha melancolia, minha obsesso pelo problema da dor e por minha infncia emocionalmente truncada, foi uma mensagem que soprou vida em
mim.
      "Tenho sido poupado do olhar profundo e visceral do abismo", diz Buechner. "Talvez seja verdade que Deus reserva seu profundo silncio para seus santos, e,
se  assim, eu no mereo tal silncio. Tenho dvidas intelectuais,  claro. Mas, como disse John Updike, se Deus no existe, ento o universo  um show de aberraes.
Eu no o vejo assim. Embora eu no tenha a viso malfica nem a beatfica, ouo o som de asas batendo no palco."

      Encontrei-me pela primeira vez com Buechner em 1979, quando ele decidiu doar sua correspondncia e seus originais para a Faculdade Wheaton para que eles repousassem
ao lado dos textos de C. S. Lewis, G. K. Chesterton, Charles Williams, J. R. R. Tolkien e Dorothy L. Sayers. Buechner no conhecia praticamente nada daquela entidade
- durante nossos contatos telefnicos, ele dizia "Faculdade Wheatland" -, mas a escola que cursou (Princeton) mostrou pouco interesse, ao passo que as pessoas da
Coleo Wade foram solcitas e carinhosas. Depois de visitar a escola e o campus de Wheaton, perguntei o que ele achava de sua deciso. "Bem, parece um bom lugar
para meus originais se desfazerem", comentou. "Um lugar seguro, em que eles, pelo menos, vo estar em boa companhia."
      Ele voltou ao campus vrias vezes nos anos seguintes, como professor visitante. Pela primeira vez, estava sendo exposto de maneira regulara cristos evanglicos,
um tipo de pessoas com as quais ele nunca havia se encontrado antes. Ele me disse, depois, que alguns o faziam lembrar um grupo de turistas americanos na Europa
que, sem conhecer a lngua de seus interlocutores, simplesmente falam mais alto. Tais cristos falavam de maneira confiante sobre assuntos que Buechner imaginava
estarem cercados de mistrios. Esta firmeza tanto o fascinava quanto o perturbava. "Estava pasmo por ouvir os alunos mudarem rapidamente de uma conversa sobre o
tempo para uma discusso sobre o que Deus estava fazendo em suas vidas. Eles falavam de 'dirios de orao' e usavam frases como 'Deus me disse que...' Se algum
dissesse alguma coisa assim em qualquer parte do meu mundo,  bem provvel que o teto casse, que a casa pegasse fogo e os olhos das pessoas revirassem."
      Buechner contrasta o ambiente com aquilo que ele descobriu como orador convidado em lugares como a Harvard Divinity School. "Ali voc encontra alunos militantes
homossexuais ou ateus orgulhosos, e alguns que so bruxos fora da capela. Certa vez, iniciei uma aula sobre pregao fazendo uma orao simples, e os alunos ficaram
chocados. Obviamente, ningum ora na Harvard Divinity School."
      Embora tenha aprendido a apreciar o fervor dos evanglicos, Buechner fala de sua f em tons mais brandos. Ele verdadeiramente cr que Deus est vivo e presente
no mundo, mas no  surpresa para ele que Deus nos d somente "alguns vislumbres temporrios do mistrio de tal profundidade, poder e beleza, pois, se o vssemos
frente a frente ou de qualquer outra maneira que no fosse atravs de vislumbres, seramos aniquilados".
      H duas maneiras de entender como Deus interage com a Histria. O modelo tradicional nos mostra um Deus que vive l no cu e que periodicamente envia um trovo
como interveno: o chamado de Moiss diante da sara ardente, as dez pragas, os profetas, o nascimento de Jesus. A Bblia realmente retrata esse tipo de interveno,
embora elas sejam acompanhadas de anos de espera e de dvidas. O outro modelo mostra Deus embaixo da Histria, sustentando-a continuamente, e eventualmente rompendo
a superfcie com um ato visvel que emerge de maneira visvel, como a ponta de um iceberg. Qualquer um  capaz de notar essa dramtica erupo - o Fara do Egito
certamente no teve nenhum problema em notar cada uma das dez pragas -, mas a vida de f tambm envolve uma busca abaixo da superfcie, com um ouvido afinado para
perceber os rumores da transcendncia.
      Buechner costuma falar desta busca pela presena subterrnea da graa no mundo. Ele escreve sobre um momento de ansiedade no aeroporto (ele luta contra o medo
de avio) quando repentinamente nota um prendedor de gravata com suas iniciais gravadas: C. F. B. Tambm fala de um bom amigo que morre durante o sono e visita Buechner
num sonho, deixando atrs de si um fio de l azul de seu suter que Buechner acha sobre seu carpete no dia seguinte. Ou ento, de um momento em que est sentado
 beira do caminho e v um carro passando pela rua com uma placa na qual se l: "Confie".
      Buechner admite que cada uma dessas ocorrncias permite uma interpretao mais abreviada. Talvez no tenha acontecido nada alm de um gato brincando com um
novelo de l, ou que um passageiro tenha esquecido o prendedor de gravata no balco ou que um funcionrio de uma empresa de segurana tenha passado com seu carro
por aquela rua. Contudo, Buechner prefere ver nessas ocorrncias - ou erupes -uma notvel providncia. Com relao ao carro, por exemplo: "De todas as palavras
possveis, "confie" era a que eu mais precisava ouvir. Foi um acaso, mas tambm uma epifania' - uma revelao -, dizendo-me: 'Creia em seus filhos, creia em voc
mesmo, creia em Deus, simplesmente creia'".
       assim, de maneiras ambguas, difceis de compreender e sujeitas a diferentes interpretaes, que Deus molda nossa vida. Para Buechner, tais eventos aleatrios
apresentam um tipo de jogo pascaliano:2 pode-se tanto apostar num Deus que d  vida o mistrio e o sentido ou ento concluir que o que acontece acontece e pronto,
sem qualquer outro significado. Seja como for, a evidncia continua fragmentria e inconclusiva, exigindo f. Onde no houver espao para a dvida, tambm no haver
espao para a f.

   F  nostalgia.  um n na garganta. A f  mais um passo adiante do que uma posio, mais um pressentimento do que uma certeza. A f  espera. Ela est caminhando
no tempo e no espao.
   Portanto, se algum se achega a mim e me pede (o que acontece com freqncia) para falar sobre minha f,  exatamente sobre essa jornada no tempo e no espao
que falo. Os altos e baixos das lgrimas, os sonhos,os momentos particulares, as intuies. Falo sobre a sensao ocasional que tenho de que a vida no  uma seqncia
de eventos que gera outros eventos to a esmo, quanto uma tacada no jogo de bilhar faz que as bolas se afastem em diferentes direes, mas que a vida tem um roteiro,
assim como num romance - aqueles eventos que, de algum modo, nos levam a algum lugar.
   (Extrado de Going on Faith)

      Encontro conforto nos textos de Buechner porque, para mim, a f tambm  um jogo pascaliano. Embora passe a vida  busca de Deus, com freqncia sinto que
Deus est na prxima curva do caminho, ali atrs da prxima rvore na floresta. Continuo andando porque gosto de onde a jornada me levou at agora, pois outros caminhos
parecem ainda mais problemticos do que o meu prprio e porque anseio pela concluso do plano. Conheo pouco das tragdias da vida. Provei de sua comdia. Continuo
andando porque creio no conto de fadas de que um Deus forte e sbio o suficiente para criar um mundo marcado por tal beleza e bondade ser fiel em restaurar sua
aparncia original. Com Buechner, eu coloco minhas fichas na firme promessa de Deus de que, no final, tudo sair bem.

      Durante uma das visitas de Buechner a Wheaton, conversei com ele sobre uma possvel ida  minha igreja no centro de Chicago. Fiquei cada vez mais ansioso 
medida que o dia se aproximava. Nossos cultos eram planejados por uma comisso de leigos, com o estilo musical variando de msica gospel negra, violino clssico
e uma barulhenta banda de rock - ou talvez os trs no mesmo culto. As leituras bblicas geralmente eram feitas em linguagem contempornea, com oraes pelos desabrigados
e as escolas de Chicago entremeadas com textos elaborados do Livro de Orao Comunitria. Era comum vermos moradores de rua nos cultos, e devido ao conforto que
encontravam dentro do templo, aproveitavam para se esticar nos bancos e tirar um cochilo. Duvido que a comunidade de Buechner, na rea rural de Vermont, oferecesse
qualquer coisa semelhante a esta nossa cena urbana.
      Certamente, o comit de adorao se superou na honra a Buechner. Novas faixas pendiam do teto. Uma mulher gorda e vestida informalmente nos conduziu em animadas
leituras, oraes e cnticos. Durante a msica do ofertrio, uma jovem esguia vestida de chiffon apresentou uma dana sacra. Depois de ver tudo isso a partir da
cadeira do plpito, do mesmo modo que um turista assistiria a um ritual num templo hindu, Buechner se levantou e pregou um eloqente sermo. Mais tarde, Buechner
tinha dois comentrios a fazer. Sobre a mulher que liderou a adorao, ele disse: "Como algum pode se deixar engordar daquele jeito?" Sobre a dana, suas palavras
foram: "Sei que aquilo deveria incrementar minha adorao. Porm, passei a maior parte do tempo pensando se ela usava alguma roupa por baixo daquilo". Daquele momento
em diante, passei a gostar ainda mais da figura, o nico a se sentir livre para dizer o que todo o mundo estava pensando.
      No demorei muito a descobrir que Buechner tinha opinies firmes sobre quase tudo - poltica, filmes, outros escritores, sua prpria profisso como pastor
e escritor -, e as proclamava sem qualquer impedimento. "Estou cheio dessa linguagem religiosa", disse ele, certa vez, a um reprter. "Agora mesmo estou cansado
desses sermes." Pelo fato de ele continuar pregando, apesar de sua indisposio, procurava novos meios de levar sua mensagem. Buscou ajuda em Dostoievski e Henry
James, assim como em Jac e Paulo. Mais importante que tudo, ele se prendia a uma lio aprendida na criao de textos ficcionais: nada afasta mais rapidamente o
pblico do que o menor vestgio de falsidade e falta de realismo. Ele precisava falar ou escrever sobre a f com total honestidade.
      Criado num lar no cristo, Buechner foi batizado "mais por achar que aquilo era algo que se fazia naturalmente, como tomar vacinas ou ir  escola, do que
por um sentido religioso". O batismo teve um efeito paradoxal, vacinando-o contra um cristianismo de smbolos e sem substncia, contra o aconchegante visual dos
vitrais e esttuas, contra os adornos sem razo, contra a repetio de palavras antiquadas que h muito no faziam mais sentido. Quando finalmente alcanou sua f
pessoal, precisou encontrar um novo vocabulrio por meio do qual pudesse express-la.
      Este estilo cheio de frescor tempera os textos de Buechner. Quando escreve sobre personagens bblicos ou Teologia Abstrata, ele luta para evitar o bolor e
o excesso de piedade.  preciso escolher uma imagembrilhante, uma mudana de palavras ou uma frase que fique no ar para que o leitor pare e preste ateno. Alguns
exemplos:

    Um cristo  algum que est no caminho, embora no seja necessrio que tenha ido muito longe, e que tenha pelo menos uma vaga idia de a quem ele deve agradecer.
    A luxria  o clamor por sal vindo de algum que est morrendo de sede.
    Deus no explica. Ele explode. Ele pergunta a J quem ele pensa que . Diz que tentar explicar o tipo de coisas que J quer ver explicadas  como tentar ensinar
Einstein a uma ostra.
    E quem poderia reconhecer o Rei daquele reino? Ele no tem formosura nem beleza. Suas roupas so aquelas que encontramos num brech. No faz a barba h semanas.
Cheira a mortalidade. Temos romantizado tanto seu estado deplorvel que a nica coisa que conseguimos captar so ecos da maneira como ele escandalizou seu tempo,
de como os discpulos de Joo Batista estavam horrorizados quando perguntaram: " voc aquele que deveria vir?"; ou na pergunta de Pilatos: "Voc  o Rei dos judeus?",
numa roupa larga, de boca aberta, ou no humor negro da placa pregada sobre sua cabea, escrita em trs idiomas para que ningum dissesse que no entendeu.

      O romancista Buechner tem criado, em muitos aspectos, um novo gnero com seus textos de no-fico. Com algumas excees, os textos no ficcionais escritos
por cristos tendem a cair em algumas poucas categorias muito bem definidas. Literatura persuasiva, como sermes, exortaes, estudos ou apologtica racional, 
um gnero muito bem explorado pelos estimados amigos de Buechner presentes na Coleo Wade na Wheaton. Outros escrevem biografias ou testemunhos pessoais, sempre
tocantes, mas com o inconveniente de um fim previsvel: o pecador  salvo. O estilo nico de Buechner combina as habilidades aprendidas como romancista com a disciplina
crist da reflexo interior. Um romance e uma vida de f - a concluso de Buechner  que os dois tm muito em comum. Tanto a f quanto a fico baseiam-se no concreto
e no particular muito mais do que no abstrato e no cerebral; ambas lidam com aparentes contradies e envolvem um processo sustentado de reordenao desses particulares
e contradies em algum tipo de padro de significado. Encontrar a voz adequada leva algum tempo. Mesmo depois dessa ordenao, Buechner achou difcil escrevei sobre
sua f pessoal. Criado num lar no cristo, numa parte do pas no afeita  religio, ele se sentia reticente e sem jeito, como se a f precisasse permanecer trancada
numa sala como um daqueles segredos de famlia que ningum menciona em pblico. A mudana aconteceu, convenientemente, a partir de uma estranha coincidncia.
      Buechner estava passando por momentos difceis, algo muito prximo de um colapso nervoso. Ele acabara de se mudar para uma fazenda isolada em Vermont, deixando
um timo cargo de diretor de escola particular para ser um escritor de tempo integral. No demorou muito e ele se viu num beco sem sada, olhando para paredes nuas
todos os dias. A inspirao no vinha como ele havia imaginado. Tudo aquilo que escrevia o deixava to deprimido que ele no conseguia continuar. Ento, chegou uma
carta de Harvard, convidando-o a participar da srie de conferncias Noble sobre Teologia. A sugesto do capelo era que Buechner falasse alguma coisa sobre "religio
e as letras".
      Sem dvida, o sentido que o capelo quis dar  palavra "letras" era "literatura" ou "aprendizado". Enquanto lia a carta, porm, Buechner viu a palavra em seu
sentido mais bsico e literal: as letras do alfabeto, os blocos bsicos de construo de qualquer lngua. Quanto mais pensava naquilo, mais via que a f consistia
na utilizao, por parte de Deus, dos eventos mais corriqueiros de nossas vidas como um tipo de alfabeto, os fragmentos de uma linguagem que, se fossem ouvidos de
maneira adequada, poderiam servir de revelao do prprio Deus a ns. Seu olhar voltou-se para dentro. Daquela inspirao surgiu The Alphabet of Grace, uma adaptao
das Conferncias Noble nas quais Buechner trabalha passo a passo os fragmentos de um dia: fazer a barba, trocar de roupa, olhar no espelho, tomar caf, trocar as
crianas, fugir das desculpas para no escrever, almoar com um amigo, assistir ao noticirio, ficar com sono, apagar as luzes de um dia.
      Buechner havia, pelo menos, encontrado uma voz para sua no-fico. Ele no precisava ser um telogo como seus mestres do seminrio. No precisava ser um pregador
de sermes. Poderia simplesmente criar histrias a partir de sua prpria vida, como ele j havia feito em suas obras de fico. Comeou a produzir suas prprias
"letras" de f,mais sutis e tranqilas (The Alphabet of Grace, Telling the Truth, A Room Called Remembvr), bem como uma srie de biografias. s vezes ele experimentava
outras formas, como os sermes reunidos nos "livros teolgicos ABC" (Peculiar Treasures, Wishful Thinking, Whistling in the Dark). Todos eles trazem a voz pessoal,
sua busca deliberada pela mensagem de Deus no substrato subterrneo. Tal qual as ondas, ele volta repetidas vezes ao mesmo espao de areia para procurar tesouros
escondidos.
      "A Literatura trabalha com o comum", disse James Joyce. "O incomum e o extraordinrio pertencem ao jornalismo." A partir dessa definio, o trabalho de Buechner
se encaixa na categoria Literatura. Annie Dillard escolheu a natureza como seu texto; Buechner escolheu sua prpria vida. Para ele, escrever  uma forma de autodescobrimento,
uma "lembrana consciente", como ele mesmo disse certa vez. Ele no escreve sobre o Iraque, a China ou a crise do ps-modernismo, preferindo abordar uma leve lembrana
de sua av Naya, ou um velho moinho na estrada, ou os galhos de duas macieiras que se entrelaavam no quintal de sua casa.
      Sua abordagem remete  Idade Mdia, aos msticos que se sentavam em suas salas o dia todo, fazendo uma anlise introspectiva e explorando as profundezas da
alma. Buechner ao menos caminha ao ar livre, conversa com pessoas, tem uma famlia para se preocupar e viaja ocasionalmente. A partir dessa matria-prima, ele forja
biografias em processo. O leitor no tem idia de at onde as palavras esto indo, e, s vezes, tem a impresso de que o prprio Buechner tambm no sabe. Ele assume
o papel de um observador discreto que aparece no mundo - em alguns momentos, estupefato; em outros, desnorteado e sempre surpreso -, em vez de um contra-regra que
manipula objetos para que se encaixem em seu ponto de vista.
       esse mesmo estilo de observador silencioso que Buechner afirma que dirige sua fico. "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus'  o conselho do salmista, e
sempre achei que este  um bom conselho para a Literatura tambm. Aquiete-se do mesmo modo que Tolstoi se aquieta, ou como Anthony Trollope se aquieta, de modo que
seus personagens possam falar por si e ganhem vida em sua prpria maneira imortal. Se voc  um escritor como eu, d menos importncia a tentar impor uma forma no
caos do que ver qual  o formato que emerge dele, que est oculto dentro dele. Se personagens menores mostram sinais de se tornarem personagens principais, voc
pode, pelo menos, dar uma chance a eles, pois no mundo da fico voc pode precisar de algumas pginas para descobrir quem realmente so os verdadeiros personagens.
 como na vida real. Pode ser que voc leve alguns anos para descobrir que aquele estranho com quem conversou por meia hora numa estao de trem fez muito mais ao
apontar a direo correta do que seus amigos mais prximos ou seu terapeuta."
      Em seu livro recente, The Longing for Home, Buechner apresenta um contraste entre as notcias do dia, apresentadas todas as noites na televiso - guerras,
eleies, desastres naturais -, e as notcias do dia que surgem em nossos mundos privados. Algumas das coisas que acontecem ali so to pequenas que mal percebemos,
mas elas ajudam a compor a histria diria daquilo que somos. "Aquelas notcias so as notcias daquilo que estamos nos tornando ou do que no estamos nos tornando",
diz, o que pode ser a notcia mais importante do dia.
      Na mesma linha de pensamento, Buechner acredita que, se Deus fala a este mundo, ele o faz s nossas vidas pessoais dirias. Na busca por Deus, muitas pessoas
tendem a procurar pelo miraculoso e o sobrenatural. Em vez disso, deveramos prestar ateno no comum: despertar, dormir e, acima de tudo, sonhar; aquilo que lembramos
e do que esquecemos, o que nos faz sorrir e chorar, o que nos alegra e o que nos deprime. Deus fala por intermdio dos eventos mais comuns do dia, e, atravs de
seus textos, Buechner nos ensina como ouvi-los.
      Buechner recomenda que faamos a reviso dessas notcias mais ntimas durante aquele intervalo noturno entre o apagar das luzes e o sono.  nesse momento que
os acontecimentos do dia - uma carta no respondida, uma conversa telefnica, um tom de voz, um encontro casual, um n na garganta - comeam a fazer sentido, mostrando
o que h embaixo da superfcie.

   Se me pedisse para dizer em poucas palavras a essncia de tudo que estava tentando dizer, tanto como romancista quanto como pregador, seria algo assim: oua sua
vida. Veja-a como o insondvel mistrio que ela . Nos aborrecimentos e na dor, assim como na alegria e na felicidade. Toque, sinta, prove seu caminho para seu santo
e oculto corao.porque, em ltima anlise, todos os momentos so importantes, e a prpria vida  graa.
   (Extrado de Now and Then)

      A prpria viso de Buechner levou-me a atravessar o pas inteiro. Vivi muito feliz por 13 anos no centro de Chicago, um lugar vivo e desprezado. Fui a concertos,
cinemas e peas de teatro, podia escolher entre uma dzia de restaurantes tnicos distantes poucos metros de minha casa. Escrevi em cafeterias e nos bancos do Parque
Lincoln. Conhecia os vizinhos, os donos de lojas e at mesmo os mendigos. A vida era rica - to rica, na verdade, que suprimiu qualquer voz interior. Na cacofonia
dos alarmes de carros, das buzinas dos nibus e dos fs bbados do Cubs, o time de beisebol, no consegui mais ouvir a minha vida no sentido que Buechner defende.
Chicago deu-me muitos assuntos sobre os quais escrever - s precisava caminhar um pouco para encontrar o mendigo que se auto-intitulava Tut-Uncommon (uma brincadeira
com o nome do fara Tutancamon) e ver a dona da loja que ficava no fim da rua, a qual, como descobri mais tarde, era a famosa Rosa de Tquio3 -, mas as histrias
eram sempre as de outras pessoas, nunca as minhas.
      Mudei para o Colorado para, como Buechner sugeriu, explorar a vida comum que se oculta dentro de cada um de ns. Entre o tdio e a dor, reside o mistrio e
a graa que precisam ser garimpados. Quero descobrir minha prpria voz, olhar para dentro, em vez de para fora, e para fazer isto preciso de um ambiente mais propcio,
um lugar de quie-tude e solido.
      Nos dias normais de hoje, vejo mais animais do que pessoas. Quando a criao literria empaca, dou uma caminhada, em vez de sofrer a sobrecarga visual da Clark
Street. Ando sobre um macio carpete de ramos de pinheiros ou pela neve no pisada. Entendo a mudana que Buechner descreve depois que se mudou de Nova York para
Vermont. Depois de oito anos, comeo a aprender como ouvir.

      Uma coisa  contar seus prprios segredos. Outra bem diferente  contar os de outra pessoa. Eu e Buechner discutimos vrias vezes os riscos ocupacionais de
escrever, especialmente as inevitveis feridas que provocamos nas pessoas prximas a ns.
      E por isso que apenas mais tade em sua carreira Buechner remexeu em certos segredos pessoais. Ele comeou a escrever sobre a depresso de outros membros da
famlia, depois sobre sua prpria e da batalha de vida ou morte que uma filha travou contra a anorexia. Por considerao  sua me - que, por cime, guardava os
segredos da famlia -, Buechner no escreveu diretamente sobre o suicdio de seu pai por dcadas, apesar de vermos cenas de suicdio assombrando seus romances. Sua
me reagiu com fria diante de uma dessas cenas, e ficou sem falar com ele por vrios dias. Finalmente, Buechner decidiu que tinha tanto direito de falar sobre a
histria de seu pai quanto sua me tinha de no contar a ningum a histria do marido. Assim, suas histrias comearam a contar a tragdia da famlia. Para surpresa
de Fred, sua me simplesmente recusou-se a ler os relatos sobre os quais ele temera escrever por tanto tempo.
      Janet Malcolm, escrevendo para a New Yorker, sugere que um escritor funciona primeiramente como uma me compreensiva e apoiadora. Convencemos uma pessoa a
nos contar nossos mais profundos segredos, balanando a cabea em aprovao, gentilmente pedindo por mais detalhes. "Voc pode confiar em mim", dizemos. "Conte-me
tudo." Mas, quando passamos para a fase da escrita, invertemos os papis e nos tornamos o pai autoritrio e objetivo. Fazemos julgamentos, selecionamos nosso material
at que tenhamos um todo temtico para ser apresentado. Este processo inevitavelmente distorce e, com freqncia, machuca. Senti um pouco desse expediente quando,
de fato, decidi-me a escrever sobre Frederick Buechner. Somos amigos h mais de duas dcadas, trocando cartas, ocasionalmente falando por telefone, visitando-nos
quando nossos roteiros de viagem se cruzam. De repente, deixei a amizade de lado e comecei a avali-lo como um escritor, procurando em sua vida alguns temas e padres.
Eu o coisifiquei e, naturalmente, ele discordou de alguns de meus julgamentos. Nossa amizade sobreviveu intacta, mas a experincia serviu para que eu me lembrasse
do enorme poder que os escritores empunham.
      Por que ns, escritores, fazemos isto? "No h limite para fazer livros", suspirou o Pregador no Livro de Eclesiastes (12:12), alguns milnios atrs. Somente
este ano, milhares de novos livros surgiro s em lngua inglesa. Mas ns continuamos, remexendo nas palavras, com o potencial de trazer tanto conforto quanto dano.
Creio que fazemosisto por que no temos nada mais a oferecer seno um ponto de vista vivo, que nos diferencia de qualquer outra pessoa no planeta. Precisamos contar
nossas histrias a algum.
      Pessoas  beira da morte - um passageiro de um avio da Japan Airlines, caindo do cu em 1985; um marinheiro russo de um submarino que afundou em 2000; prisioneiros
judeus nos campos de concentrao - escrevem como que por instinto, para registrar alguma coisa de suas vidas para a posteridade. Aqueles de ns que vivem disso
cultivam este instinto todos os dias. Somos chamados a sermos mordomos de nosso ponto de vista singular e mordomos do estranho poder das palavras por intermdio
das quais expressamos nossas idias.
      Todo escritor deve superar um tipo de timidez, tirando da mente o medo de estar sendo arrogante ao se lanar diante de voc, leitor, e assumindo egoisticamente
que nossas palavras so dignas do seu tempo. Por que voc deveria se importar com o que tenho a dizer? Que direito tenho eu de me impor a voc? Ainda que em outro
contexto, Simone Weil apresenta um tipo de resposta: "No consigo conceber a necessidade que Deus tem de me amar, especialmente quando sinto to claramente que at
mesmo entre seres humanos a afeio pode ser um erro. Mas posso facilmente imaginar que ele ama esta perspectiva da Criao, a qual s pode ser vista a partir do
ponto onde estou". Isto  tudo que qualquer escritor pode oferecer, especialmente um escritor da f: uma perspectiva nica da Criao, um ponto de vista visvel
somente do lugar onde ele est.
      Tudo que escrevo  tingido pelas cores dos problemas da minha famlia, minha criao no sul fundamentalista, minha peregrinao -na verdade, todo escritor
representado neste livro v o mundo atravs de um conjunto de olhos nico. Podemos escrever com paixo somente sobre aquilo que experimentamos, no sobre o que os
outros experimentam. Creio que os leitores reagem no s coisas especficas de minha experincia, mas, em vez disto, quilo que eles criam. As palavras provocam
no leitor um efeito diferente daquele que provocaram em mim enquanto as arranjava. Escrevo sobre fundamentalismo; os leitores respondem com histrias sobre criaes
estritamente catlicas romanas ou da Igreja Ortodoxa. De alguma maneira, meu relato sobre a Igreja, a famlia e meus passos em direo  f tocam um acorde conhecido:
ele provoca alguma coisa.
      Quando comparo meu passado com o de Frederick Buechner, encontro poucas semelhanas na superfcie. Ele vem de uma famlia de classe mdia alta, perdeu o pai
por suicdio, passou o inverno nas Ber-mudas, freqentou uma escola particular, alcanou sucesso imediato como romancista, mudou-se para o Estado rural da Nova Inglaterra.
Mas tal  o poder de sua evocao que, quando descreve sua vida, poderia estar tranqilamente descrevendo a minha.
      Chegou um momento, porm, quando Buechner sentiu que precisava mudar de estilo literrio. "Chega de introspeco", pensou. Chega de pessoas inclinadas ao pecado,
como ele mesmo. Sem qualquer idia do que iria escrever, pegou o Penguin Dictionary of Saints (Dicionrio Penguin dos santos) na esperana de cruzar com algum santo
histrico do passado, talvez uma pessoa verdadeiramente santa. O livro caiu em Godric, um santo ingls do sculo XI e uma figura desconhecida para ele. Conforme
foi lendo, ocorreu-lhe que Godric era Leo Bebb, um dos personagens ficcionais excntricos e terrenos de Buechner, numa encarnao anterior: sim, um homem santo,
um missionrio, um asceta autoflagelador que mantinha duas cobras de estimao, um homem bruto que se tornou talvez o primeiro grande poeta lrico da Inglaterra.
Mas tambm era um homem que levou sua prpria irm para a cama e que travou uma longa luta contra a lascvia.
      Buechner emergiu de seu livro com uma nova definio de santo um "doador de vida" que faz que os outros tenham vida de uma maneira nova; um ser humano comum,
por meio de cuja vida o poder e a glria de Deus so manifestados, mesmo que o santo esteja chafurdado at os joelhos na lama.  claro que esta definio aplica-se
potencialmente a todos ns - precisamente a razo pela qual Buechner nos pede para olhar para o comum, ouvir nossas vidas e buscar a Deus nos lugares mais inesperados,
pois h grandes chances de Deus ser encontrado neles.
      Buechner deparou-se com outro personagem semelhante, um santo irlands do sculo VI, conhecido como Brendan, o navegador, e escreveu um livro sobre ele tambm.
"Imaginei-o como um tipo selvagem de homem, pois em muitos aspectos eu tambm sou selvagem, um tipo de ruivo desajeitado, inibido, lngua solta, fazedor de milagres."
Quando, mais tarde, resolveu escrever sobre um personagem bblico (Son of Laughter - O filho do riso), optou por Jac, o inveterado cmplice que desafiouDeus para
uma luta e ganhou um novo nome na manh seguinte. Ser que  por acaso que Deus identifica seu povo escolhido como sendo os filhos de Israel, "os filhos do lutador",
a prole daquele que lutou to ferozmente por toda uma noite?
      Buechner descobriu que at mesmo os santos conhecidos por sua santidade no eram diferentes de suas prprias criaes ficcionais, e no muito diferentes das
pessoas de carne e osso que o cercavam, ou at dele mesmo. Os livros de biografias em andamento continuaram a fluir  medida que ele continuou analisando seu passado
e seu presente, em busca de graa.

   Se voc me disser que compromisso cristo  uma coisa que aconteceu com voc de uma vez por todas, como uma cirurgia plstica espiritual, vou dizer que voc est
se enganando e est tentando me enganar tambm. Voc deveria levantar-se todos os dias e fazer a seguinte pergunta: "Posso acreditar nisso tudo outra vez?" Melhor
ainda, no faa esta pergunta antes de ler o New York Times, at que tenha visto aquela notcia sobre o estado do mundo e sua corrupo, o qual deve estar o tempo
todo ao lado de sua Bblia. Ento pergunte se voc  capaz de crer no evangelho de Jesus Cristo novamente neste dia em especial. Se sua resposta for sempre "sim",
ento  bem provvel que voc no saiba o que  crer. Em pelo menos metade das vezes, sua resposta deveria ser "no", porque o "no"  to ou mais importante quanto
o "sim". O "no"  aquilo que prova que voc  humano, caso voc tenha alguma dvida. Ento, em certa manh, quando acontecer de a resposta ser um verdadeiro "sim",
dever ser cunhada a partir da confisso e das lgrimas e (...) de um grande sorriso.
   (Extrado de The Return of Ansel Gibbs)

      Trinta anos se passaram desde que a famlia Buechner se mudou para a casa na rea rural de Vermont e Fred se dedicou  rotina diria de escrever. A propriedade
 cuidada pela esposa de Fred, e ela a transformou num lugar aconchegante com coisas de fora: flores, uma enorme horta que alimenta os gamos e a famlia, cavalos,
galinhas, um porco "que cresceu tanto que ficou do tamanho de uma geladeira", cabras e algum gado. A contribuio de Fred so algumas colees de livros - "Nos quais,
ao contrrio das pessoas, sempre se pode confiar, pois contaro a mesma histria da mesma maneira. Esto sempre  mo quando voc precisa deles, e sempre podem ser
passados adiante quando voc no precisar mais deles". Ele transformou parte do celeiro num tipo de biblioteca para acomodar seus muitos volumes e, por vrios anos,
aquele celeiro serviu como refgio do escritor, onde ele podia se retirar para criar seus prprios livros.
      Finalmente, Buechner construiu um estdio nos fundos da casa, uma sala brilhante e arejada de frente para um lago, com uma enorme cerca de pedra, um bosque,
um vale e uma rea preservada de trs acres de carvalhos. "Chamo isto 'meu reino mgico'", diz ele, e no  para menos. Ali esto dispostos os mais preciosos livros
de Buechner, muitos encadernados em couro, com detalhes dourados: a primeira edio dos Sermes de John Donne; O livro dos mrtires, de John Foxe; uma cpia original
do Christmas Carol de Dickens; e outros livros de Ben Johnson, Joseph Conrad, F. Scott Fitzgerald e Oscar Wilde. S a estimada coleo de edies raras de O mgico
de Oz, inclusive em outros idiomas, ocupa vrias prateleiras. Estantes prximas s janelas sustentam objetos de satisfao e capricho: um caleidoscpio, ms idnticos
que ficam suspensos no ar, os chinelos vermelhos de Dorothy, um modelo do Humpty-Dumpty, um grgula.
      Em sua sala, ele se assenta numa poltrona de espaldar alta, junto  lareira, com os ps apoiados num tipo de pufe, escrevendo num bloco de notas no pautado
com uma caneta hidrogrfica. "Se voc fizer um filme sobre a vida de um escritor, ser extremamente chato", diz. "Sento-me nessa cadeira e fao marcaes na pgina.
 tudo o que voc pode ver. Estou afundando dentro de mim mesmo, naturalmente, no lugar de onde vm os sonhos e as intuies.  um lugar santo. Para um observador,
porm, no estou fazendo muita coisa."
      Do estdio de Buechner no se consegue ver nenhuma outra residncia. Apoiando-se num plpito invisvel, ele se dirige a uma audincia invisvel. Do mesmo modo,
os resultados do esforo de Buechner permanecem, na maioria, ocultos. Ele vende milhares de livros, mas ouve apenas uma pequena amostra de seus leitores. Alguns
dizem que seus livros salvaram sua f, ou que ele  o primeiro escritor cristo que parece autntico. Eu estava presente na Faculdade Wheaton quando um aluno bastante
agitado levantou-se num enorme teatro e, diantedo microfone, disse: "Sr. Buechner, gostaria de dizer que seus livros so mais importantes para mim do que a prpria
cruz de Cristo". Buechner ficou confuso e sem graa - como responder a um comentrio desses? O que o estudante provavelmente quis dizer  que os romances de Buechner
haviam apresentado a verdade de uma maneira to penetrante como nunca ouvira antes, especialmente na Igreja. Certa vez, quando voltava a Vermont depois das frias
de inverno, Buechner encontrou a seguinte mensagem em sua secretria eletrnica: "Voc no me conhece, mas sou seu f. Apenas gostaria de dizer-lhe que, nas ltimas
seis semanas, pensei em suicdio por duas vezes, mas por causa de seus livros, no o cometi". Em funo do histrico familiar de Buechner, aquela mensagem o atingiu
como uma flecha. Ao ouvir aquilo, ele disse: "Significou mais para mim do que ganhar o Prmio Nobel".
      Por causa de reaes como estas, Buechner no subestima seu ofcio de pastor, elevando a arte de sua fico e desprezando sua no-fico como sendo de menor
valor. Escrever  o seu ministrio: vicrio, indireto, mediano, talvez, mas certamente um ministrio. "Costumava me debruar sobre essas respostas e dizer, como
se estivesse conversando com a pessoa que me escreveu: 'Se voc soubesse quem eu sou...' Agora estou mais propenso a dizer: 'Sim, sou um tolo, hipcrita, esquisito,
mas Deus, em sua misericrdia, escolheu-me para apresent-lo a voc'. Temos estes tesouros em vasos de barro (...) Tenho este ministrio desorganizado, desestruturado,
mas, assim espero, ele  legtimo."
      Se deixarmos de lado essas poucas mensagens dos leitores, vemos que Buechner permanece bastante desconectado das pessoas a quem ele ministra. Ele no encontrou
uma igreja satisfatria nas proximidades. "Percebi que a maioria dos pastores prega mais sobre as superficialida-des do que sobre sua profundidade", diz ele. "Raramente
vou ouvi-los, e quando o fao, sinto-me culpado por minha reao negativa. H tantas igrejas que me lembram famlias disfuncionais, cheias de solido e dores enterradas,
dominadas por uma figura de autoridade. Tirando uma maravilhosa igreja episcopal que freqentei perto de Wheaton, no encontrei uma igreja que realmente ministrasse
s minhas necessidades. Os grupos de apoio da Al-Anon 69 so os que chegam mais perto daquilo que eu gostaria que a Igreja fosse."
      Portanto, Buechner luta sozinho a maioria das batalhas da f. Ele no tem nenhuma comunidade de amigos cristos nas proximidades. Escritores devocionais apreciados
pelas pessoas- Kathleen Norris, Henri Nouwen, Thomas Merton -, em sua maioria, no lhe dizem muita coisa. Ele encontra alimento espiritual em poetas como John Donne,
George Herbert e Gerard Manley Hopkins, mas na questo de fonte de inspirao artstica, ele normalmente se volta para outros romancistas: Graham Greene, William
Maxwell, Flannery O'Connor. Cada vez mais ele luta contra a melancolia.
      "Completei 70 anos, e este foi o nico que causou impresso", diz ele. "Os 40, os 50, os 60 - estes aniversrios simplesmente passaram. Os 70 fizeram me sentir
sombrio e triste, geritrico. Meu grande amigo, o poeta James Merrill, morreu. Ns nos conhecamos havia 55 anos. Escrevemos nosso primeiro livro num vero no Maine.
Mas eu ainda no quero comear a escrever sobre meu lado sombrio. Quero continuar escrevendo sobre a parte de mim que ainda  jovem e cheia de alegria. Penso nas
adorveis peas de contos de fadas que Shakespeare escreveu no fim da vida: The Winter's Tale, The Tempest. Penso nos ltimos quadros de Rembrandt, cheios de luzes
douradas."
      "Um projeto, um romance baseado em Maria Madalena, deprimiu-me tanto que o abandonei. Ento, um dia aconteceu um milagre de graa. Estava lendo o livro apcrifo
de Tobias, um conto hebreu sobre um cachorro, uma jornada e um peixe, repleto de magia. A alegria brotou novamente. Naquela noite, ou melhor, s 4h45, levantei-me
da cama e comecei a recontar a histria de Tobit e seu filho Tobias. Nada do que eu j havia escrito deu-me tanto prazer, e conclu o livro em um ms e dois dias.
O livro se chama On the Road with the Archangel (Na estrada, com o arcanjo)."
      " comum um livro surgir desta forma, como um presente da graa. Tal como um poo artesiano, praticamente tudo que voc tem a fazer  deix-lo fluir por seu
prprio poder. Pelo menos para voc, o escritor, ele vem com tanta vida dentro de si que o deixa perplexo. Quando isto acontece, sinto como se o livro estivesse
montado na palma de minha mo. Ele est l, eu o estou segurando.  claro que voc precisa trabalhar bastante para chegar  linguagem e  forma corretas, mas uma
coisa que voc no precisa fazer  lutar para traz-lo  vida. O presente vem primeiro, depois o trabalho."As crnicas de Buechner sobre uma jornada espiritual tem
conseguido, como acontece com Annie Dillard, atrair leitores de mundos opostos, a elite do Leste e os cristos conservadores. Sua obra divide-se igualmente entre
fico e no-fico (cerca de 15 livros em cada rea), e Buechner percebe que os dois gneros praticamente se encaixam em seus pblicos contrastantes: a fico fala
aos "desdenhadores aculturados" da religio, enquanto a no-fico, mais aberta, encontra sua audincia principal entre os j compromissados com a f.
      Esta faanha tem um preo, e , de fato, a ambigidade central de sua carreira. "Sou muito religioso para o leitor secular e muito secular para o leitor religioso",
lamenta Buechner. Os crticos seculares, percebendo que ele  um pastor presbiteriano, s vezes prejulgam seu trabalho. Buechner admite que buscar a ordenao talvez
tenha sido a deciso mais estpida que ele poderia ter tomado para sua carreira de escritor. "O mundo est cheio de gente - muitas dessas pessoas, infelizmente,
so crticos literrios que, quando ouvem que um pastor escreveu um romance, sentem que sabem, mesmo sem ler, que tipo de romance deve ser: essencialmente, um sermo
com ilustraes na forma de personagens e dilogos; portanto, sua viso da vida deve ser nica, simplista, inocente, tudo girando em torno do objetivo nico de atingir
uma espcie de alvo homiltico. Sou contra isto e, no meu caso, isto simplesmente no acontece."
      De outro lado, os leitores cristos conservadores se perguntam por que a mensagem crist nos romances de Buechner permanece to sutil e por que ele insiste
em retratar personagens to humanos, completos, com vida sexual e uma perturbadora inclinao para o pecado. Buechner responde dizendo que escreve sobre pessoas
com ps de barro porque elas so o nico tipo de pessoa que ele conhece, incluindo a si mesmo.
      Como os pescadores e os fazendeiros, os escritores tendem a discorrer sobre os aspectos decepcionantes de seu trabalho. Buechner no alcanou os nveis de
venda de, digamos, um Scott Peck ou um Thomas Moore. Ele entra instantaneamente em depresso quando visita uma dessas megastores e no encontra uma cpia sequer
de seus trinta e tantos livros. Ele estremece quando l no New York Times o comentrio de um crtico, descrevendo-o como "algum que eu quase nunca leio porque pensava
que ele era um propagandista". Tambm se aborrece por responder cartas de seminaristas que perguntam por que ele achou necessrio incluir a cena do incesto em Godric,
ou por que ele fez do heri-evangelista presente em seus romances de Bebb um exibicionista sexual. Alm disso, Buechner no gosta do rtulo "romancista cristo",
com freqncia colocado sobre ele, insistindo que isto somente se aplicaria no caso de um fsico escrever um romance: claro que a perspectiva do autor entraria no
romance e seu contedo poderia girar em torno do campo da fsica, mas isto dificilmente transformaria a obra num "romance de fsica", da mesma forma que um romance
escrito por uma mulher no pode ser chamado de "romance de mulher".
      Porm, em mais aspectos do que ele queira admitir, Buechner tem sido bem-sucedido em trabalhar com os dois mundos. Mantinha uma amizade estreita com o poeta
(recentemente morto) James Merrill e outros gigantes da Literatura, inclusive seu ex-aluno John Irving, que reconheceu sua dvida com Buechner no prefcio do livro
A Prayer for Owen Meany. Ele faz prelees na Biblioteca Pblica de Nova York. Seu romance Godric foi indicado para o Prmio Pulitzer. Enquanto isso, Frederick Buechner
e os cristos conservadores ficaram mais amigos. Escolas crists adaptaram seus romances e os transformaram em peas de teatro, convidando-o a apresentar palestras
em seus campi. Pastores citam suas obras no plpito, e escritores iniciantes estudam o estilo de sua prosa. Tenho o pressentimento de que Buechner tornou-se o escritor
cristo vivo mais citado e de maior influncia. A apreciao por sua obra continua a crescer. Quem consegue ter crticas positivas publicadas na Christianity Today,
na The Christian Century e no New York Times Book Review/
      Para aqueles de ns que militam na mesma seara e que, do mesmo modo, ganhamos a vida misturando palavras no papel, Buechner oferece um modelo vivo de como
escrever pode ser uma expresso de f. Tenho vrias prateleiras cheias de livros escritos por cristos. Sinto em dizer que a maioria deles teria pouco alcance fora
do meio em que as pessoas j estejam comprometidas com a f que eles expem. As pessoas de f se deparam com Deus em todo lugar: na natureza, na Bblia, nos atos
dirios da divina providncia. Deus parece bastante evidente. Mas a mente secular no v tal evidncia, e se pergunta se at mesmo  possvel encontrar Deus na loucura
do mundo competitivo. A no ser querealmente compreendamos este ponto de vista e falemos em termos que uma pessoa sem f possa entender, nossas palavras tero a
singularidade e a inutilidade de uma lngua estrangeira desconhecida.
      Aprendi com Buechner que  mais vantajoso dizer pouco do que dizer muito. Como ele mesmo disse em The Eyes of the Heart, "tenho visto com os olhos do meu corao
a grande esperana  qual ele nos tem chamado, mas, devido  timidez e  falta de confiana, raramente falo dela. Em meus livros, apresento uma tendncia de falar
nela, na maior parte do tempo, indiretamente, de maneira hesitante, ambgua, por temer no ser ouvido e prejudicar a credibilidade dos leitores para quem tal esperana
parece simplesmente uma iluso. Por temer o exagero, minha tendncia, especialmente nos livros de no-fico,  falar pela metade, pois esta me parece ser uma forma
mais estratgica de alcanar as pessoas que eu gostaria, aquelas que no do  religio algum perodo de seu dia".
      A literatura crist, com freqncia, exala o odor da racionalizao. O autor comea com uma inabalvel concluso e depois prossegue traando o caminho que
for necessrio para apoiar sua concluso. Muito daquilo que leio sobre depresso, dvida, suicdio, sofrimento e homossexualidade parece ter sido escrito por pessoas
que comeam com uma concluso crist e que nunca passaram pelos angustiantes passos, to familiares a uma pessoa que luta contra a depresso, a dvida, o suicdio,
o sofrimento e a homossexualidade. Nenhuma resoluo poderia ser to simples para uma pessoa que verdadeiramente sobreviveu a essa jornada.
      Quando comecei a escrever abertamente sobre minha f, conclu que s tinha uma coisa a oferecer: sinceridade. J tinha ouvido suficiente propaganda vinda da
Igreja. Preferi ater-me  posio de um peregrino, no de um propagandista, descrevendo a vida com Deus da maneira como ela realmente acontece, no como deveria
acontecer. Ningum concorda. Um editor, certa vez, pediu-me para mudar o ttulo de um livro de Decepcionado com Deus para algo mais agradvel, como Superando o desapontamento
com Deus. Pensei sobre o assunto e decidi manter o ttulo porque as pessoas desapontadas eram o meu pblico-alvo.
      Quase perdi a esperana de escrever qualquer coisa sobre a f at que descobri Buechner. Parecia-me, naquela poca, que os cristos estavam lendo basicamente
pela experincia de concordar com tudo - "sim,  verdade" -, ao passo que a grande Literatura faz-nos parar e pensar: "Nunca havia pensado nisto antes". Para Buechner,
a f era um ato de descoberta, no um pacote de ortodoxia mandado do alto. Ele me fez parar e prestar ateno, primeiramente s palavras; depois, aos pensamentos
por trs delas. Ele no usa a vida como uma ilustrao de suas idias; suas idias, ao contrrio,  que ilustram o que ele j havia retratado sobre a vida. Como
disse William James em The Varieties of Religious Experience, "a verdade  que, na esfera metafsica e religiosa, as razes articuladas so-nos convincentes somente
quando nossos sentimentos de realidade no articulados j foram impressos em favor da mesma concluso".
      Falar aos sentimentos de realidade no articulados do leitor  o grande desafio do escritor. Ns, escritores, vivemos vidas estranhas. Sentamo-nos em salas
pequenas com poucos atrativos sensoriais, contemplando as palavras diante de ns naquele momento. Com efeito, criamos nas palavras o semblante do tempo e da materialidade,
ao mesmo tempo que nos desconectamos de ambos. Escrever  a mais vicria das aes. Escrever sobre esqui mesmo sem estar esquiando; sobre comer quando no como;
sobre o amor quando no estou amando; e sobre adorar, quando no estou adorando.
      O primeiro livro de Buechner que li, Telling the Truth, deu-me esperana pelo fato de que, mesmo na vicariedade do ato de escrever, a verdade pode ser dita.
O entediante processo de arranjar e rearranjar as palavras em uma pgina - o alfabeto da graa - pode, como um catalisador em uma reao qumica, criar para o leitor
uma realidade espantosamente nova. Atravs da pena de Buechner, a antiga histria de Osias e Gmer torna-se primeiramente um saboroso conto de aceitao e adultrio,
e depois, uma inesquecvel parbola sobre a graa de Deus. O carter grotesco e irredutvel de Leo Bebb torna-se um lembrete de que Deus pode agir por meio de traidores
e pervertidos, e, em certo sentido, s trabalha atravs de traidores e pervertidos. O olhar introspectivo de Buechner na vida to entediante de um escritor revela
que o aborrecimento se encaixa como uma mscara sobre o in-sondvel mistrio. Ao olhar sua vida, dou ateno  minha - o ato vicrio cumprido mais uma vez.

FREDERICK BUECHNER PARA INICIANTES
      Com 30 livros para escolher, algum que no est acostumado com Buechner pode precisar de um guia. Ainda gosto de Telling the Truth como uma introduo concisa
a seu pensamento e a seu estilo. Peculiar Treasures oferece outro bom exemplo de sua prosa. Listening to Your Life rene excertos de vrias de suas obras no formato
de meditaes dirias. Buechner apresenta sua vida mais pessoalmente na srie de biografias: The Sacred Journey, Now and Then, Telling Secrets, The Eyes of the Heart.
No campo da fico, ele  mais conhecido pelos romances baseados no personagem Leo Bebb, convenientemente reunidos em um nico volume, The Book of Bebb. No deixe
de ver Godric e Brendan, os quais apresentam a habilidade estilstica de Buechner em seu esplendor, ou seu mais recente romance, The Storm, que possui ecos da obra
de Shakespeare The Tempest.

12. Shusaku Endo
Lugar de Traidores
      Duvido que algum nascido nos ltimos 30 anos possa imaginar o medo que ns passamos,
      aqueles que estavam na adolescncia durante os anos mais srios da Guerra Fria. Em nossos projetos para a escola, fazamos abrigos antibomba, cavando buracos
profundos nos quintais e armazenando nossos gibis preferidos, alm de salgadinhos. Assistamos a filmes educativos sobre os efeitos da guerra termonuclear e aprendamos,
ao som de uma vibrante trilha sonora, a tcnica do "duck and cover",70 rastejando por baixo das carteiras para diminuir a exposio s partculas nucleares. Eu vivia
em Atlanta, Gergia, na rea de alcance de Cuba. Durante a crise dos msseis cubanos, cada volta para casa comeava com uma sesso de "duck and cover".
      Meu irmo e eu lamos em voz alta, um para o outro, horrveis relatos daquilo que os comunistas faziam a seus inimigos. Eles arrancavam as unhas dos ps e
das mos, ou colocavam palitos de madeira entre a unha e a pele. Amarravam a pessoa deitada no cho e deixavam gua gotejandolentamente sobre a cabea, at que ela
ficasse louca. Colocavam aranhas, ratos e serpentes sobre o corpo nu da vtima de tortura. Cortavam os dedos, um de cada vez. Enterravam pessoas vivas. Quando invadiam
uma cidade, alinhavam todos os habitantes e faziam uma inspeo em suas mos. Se uma pessoa tinha calos, significava que pertencia  classe trabalhadora e deixavam-na
viver. Se ela falasse russo - ou chins, conforme o caso -, a pessoa tambm estava livre. Seno, seria torturada por alguns dias e, depois, executada.
      Em um esforo determinado de permanecer vivos, ns dois lanvamos contramedidas. Fazamos alguns esconderijos no bosque prximo para que os inimigos no nos
encontrassem. Alguns sulistas no haviam sobrevivido  investida do general Sherman,71 escondendo-se assim por vrios meses? Recolhamos folhas com as mos nuas
com bastante vigor, para que tivssemos feridas e calos nas nossas mos de estudantes. Ainda temerosos, decidimos estudar as lnguas comunistas. Meu irmo inscreveu-se
num curso de russo e eu, num de chins, de modo que, independentemente de onde viessem os inimigos, teramos pelo menos uma chance de falar com eles e pedir que
no nos matassem (as histrias de meu professor de chins, um refugiado de classe alta que fugiu durante o governo de terror de Mao, fizeram pouco para acalmar meus
temores).
      A igreja incrementava ainda mais o nosso medo, agregando repulsivos relatos daquilo que Stalin e Mao estavam fazendo aos cristos. Os soldados entravam marchando
em igrejas durante os cultos, faziam uma fila de todos os cristos e pediam que eles negassem a Jesus. Aqueles que concordavam eram imediatamente recompensados com
presentes e comida. Os que se recusavam eram mortos, lenta e cruelmente, diante de uma congregao aterrorizada.
      "O que voc diria?", perguntava o pastor. "Permaneceria firme na f ou trairia aquele que morreu por voc?" Era uma pergunta horrvel para ser analisada por
qualquer pessoa, ainda mais para um garoto de 14 anos assolado por dvidas quanto  sua f. Eu estudava chins e recolhia folhas como se minha vida dependesse daquilo,
pois eu realmente acreditava naquilo.72
      Muito tempo depois, quando j havia crescido e esquecido minhas aulas de chins, depois que a ameaa de guerra nuclear esmoreceu, li relatos histricos de
uma perseguio similar que aconteceu vrios sculos atrs. Em determinada poca da Histria, o Japo parecia ser o mais frutfero campo missionrio na sia. Francisco
Xavier, um dos sete jesutas originais, chegou quele pas em 1549 e passou dois anos estabelecendo uma igreja. Em uma gerao, o nmero de cristos havia aumentado
para 300 mil. Xavier chamava o Japo "alegria do meu corao (...) O pas oriental mais adequado ao cristianismo".
      Com o fim do sculo, porm, comeou a crescer a suspeita que os shoguns tinham dos estrangeiros, especialmente exacerbada pela diviso entre os cristos, o
que levou a uma mudana na poltica. Os shoguns expulsaram os jesutas e exigiram que todos os cristos renunciassem  sua f e se confessassem budistas. Ocorreram
26 crucificaes, e a era do martrio de cristos no Japo teve incio.
      O fumie - um retrato em bronze de Jesus ou de Nossa Senhora com o menino enquadrado numa pequena moldura de madeira - tornou-se o derradeiro teste de f. Os
japoneses que concordavam em pisar no fumie eram declarados cristos apstatas e eram libertados. Os que se recusavam eram perseguidos pelos shoguns e assassinados,
na mais bem-sucedida tentativa de extermnio da histria da Igreja. Alguns eram amarrados em estacas na praia, esperando a mar alta que os afogaria lentamente,
enquanto outros eram amarrados e jogados de barcos; alguns eram escaldados em fontes de guas quentes e ainda outros eram amarrados de cabea para baixo em valas
cheias de corpos mortos e excrementos. Fui criado ouvindo histrias inspiradoras de mrtires que promoviam o crescimento da causa. "O sangue dos cristos  a semente
da Igreja", disse Tertuliano. No foi assim no Japo, em que o sangue dos mrtires provocou a quase aniquilao da Igreja.
      Quase, mas no totalmente. No fim do sculo XIX, quando o Japo finalmente permitiu que uma igreja catlica em Nagasaki atendesse a visitantes ocidentais,
os sacerdotes ficaram surpresos ao ver cristos japoneses descendo das colinas. Eles eram os kakure kirishitans, ou os "cristos das catacumbas", os quais continuaram
se reunindo em locais secretos por um perodo de 240 anos. Porm, a adorao sem o benefcio de uma Bblia ou de um livro de liturgia cobrou seu preo. Sua f sobreviveu
como um curioso amlgama de catolicismo,budismo, animismo e xintosmo. Com o passar dos anos, as palavras em latim da liturgia se transformaram num tipo de pidgin,
uma mistura de lnguas. "Ave Maria gratia plena dominus tecum benedicta" tornou-se "Ame Maria karassa binno domisu terikobintsu", e ningum tinha a mnima idia
do que estas palavras queriam dizer. Os cristos reverenciavam o "deus particular", uma trouxa de panos enrolada em volta de medalhas e estatuetas crists, as quais
ficavam escondidas num pequeno cmodo disfarado de altar budista.73
      Em uma das terrveis ironias da Histria, a segunda bomba atmica explodiu exatamente sobre a maior comunidade crist do Japo, destruindo a Catedral de Nagasaki.
Nuvens haviam impedido a viso do alvo original, forando a equipe de bombardeio a se desviar para um alvo secundrio. Um museu da cidade, hoje reconstruda, traa
a histria do cristianismo no Japo, apresentando relquias da poca dos mrtires cristos japoneses.
      Na dcada de 1950, perodo no qual eu estava crescendo, cercado do medo de um holocausto nuclear, um jovem escritor chamado Shusaku Endo costumava visitar
esse museu numa das cidades que haviam experimentado esse destino. Atrado pela histria dos mrtires, ele ficou olhando para uma das caixas de vidro em particular,
dentro da qual havia um fumie verdadeiro, do sculo XVII. Manchas escuras distorciam a figura de bronze, a qual estava to usada que mal se podia ver a figura de
Maria segurando Jesus - resultado, como descobriu Endo, de dedos humanos que acumularam impresses digitais de milhares de cristos que confiavam no fumie.
      O fumie era a obsesso de Endo. "Teria eu pisado nele?", pensava. O que aquelas pessoas sentiam quando apostatavam? Que tipo de pessoas eram elas? Os livros
de histria catlica registram somente os bravos e corajosos mrtires, no os covardes que renunciaram  f. Eles foram punidos duas vezes: a primeira, pelo silncio
de Deus no momento da tortura; mais tarde, pelo silncio da Histria. Endo prometeu a si mesmo que contaria as histrias dos apstatas - e por meio de romances como
Silence (Silncio) e The Samurai (O samurai), ele cumpriu seu voto.
      Quando descobri Shusaku Endo, automaticamente senti uma ligao, pois ele havia crescido cercado pelo mesmo medo e pela mesma dvida que tanto haviam assombrado
minha juventude. Diante do Vale do Inferno, um lugar onde muitos cristos japoneses haviam sido martirizados, Endo conclui que ele mesmo provavelmente teria negado
sua f em lugar de suportar tamanha dor.

      Mais tarde, Endo percebeu o que o havia atrado to fortemente  vitrina do museu. A histria dos cristos japoneses do sculo XVII produzia ecos perturbadores
em sua prpria vida, no sculo XX. Apesar de nunca ter enfrentado a ira dos shoguns, desde sua infncia ele j havia sentido uma constante e no aliviada tenso
quanto  sua f. Externamente, ele era um cristo; mas e por dentro?
      Aos dez anos, Endo voltou da Manchria com sua me, saindo de um mau casamento. Sofrendo a dor e a rejeio social de um divrcio - uma raridade no Japo -,
sua me encontrou consolo na f devota de sua irm, e assim converteu-se ao catolicismo. Ela freqentava fielmente a missa todas as manhs. Visando alegrar sua me,
Shusaku tambm se submeteu ao batismo. Mas ele realmente queria aquilo? No seria ele um kakure ao contrrio, um cristo que vivia de aparncias, enquanto, l dentro,
traa a Cristo?
      "Tornei-me um catlico contra minha vontade", declarou ele mais tarde, comparando sua f a um casamento arranjado, uma unio forada com uma esposa escolhida
por sua me. Ele tentou deixar essa esposa, trocando-a pelo marxismo, pelo atesmo, pensando em suicdio durante algum tempo, mas suas tentativas de ruptura sempre
falharam. Ele no podia viver com essa esposa arranjada, e tambm no podia viver sem ela. Enquanto isso, ela o continuou amando e, para sua surpresa, ele mesmo
comeou a am-la em retribuio.
      Reconheo que o fato de Endo caminhar em sua f s apalpadelas tem um estranho paralelo com minha prpria vida, ainda que dentro de um contexto diferente.
Durante os anos do segundo grau, freqentei uma igreja fundamentalista que hoje vejo quase como apenas ritualstica. Fazia as oraes, ia  frente nos momentos de
apelo e recitava os testemunhos, mas minha dvida interior no desaparecia. Ser que eu realmente acreditava ou estava apenas reproduzindo o comportamento daqueles
que me cercavam? Aprendi a fazer aquilo muito bem, o que s me causou rejeio e vergonha.
      At mesmo hoje essas cenas de vergonha retornam. Ficar diante da classe numa aula de oratria, tentando explicar aos colegas por que euno os acompanharia
num passeio para assistir  verso de Otelo em filme (muito "mundano"). Falar com o malicioso professor de Educao Fsica, pedindo permisso para ser dispensado
das lies de dana de quadrilha baseado em posio religiosa (tambm muito "mundano"). Carregar uma enorme Bblia vermelha por cima de meus livros para que talvez
algum perguntasse sobre minha f. Sentar-me num espalhafatoso nibus vermelho e branco, com um piano dentro, com o nome Clube Bblico Juventude para Cristo escrito
em letras enormes, enquanto ele vagarosamente manobrava no estacionamento, arrancando piadas dos passantes. Ouvir o professor de Biologia sarcasticamente explicar
 classe por que meu trabalho de 20 pginas no havia conseguido derrubar o livro Origem das espcies, de Charles Darwin, com suas 592 pginas. Vergonha, alienao
e inferioridade definiam minha adolescncia. Como Endo, cresci sentindo-me um proscrito.
      Mais tarde, quando percebi que a Igreja havia me ensinado tanto mentiras quanto verdades, senti-me perdido, sem lar,  deriva. Pelo que havia eu sacrificado
meu orgulho e me preparado para o martrio? Por uma religio de racistas, antiintelectuais e desajustados?
      Seguindo outra analogia, Endo compara sua peregrinao de f a um jovem em dvida sobre qual roupa usar. Em vo, ele busca aquela que seja mais adequada, talvez
um quimono. Endo disse que estava constantemente "reformando, com minhas prprias mos, as roupas ocidentais que minha me colocava em mim, transformando-as numa
vestimenta japonesa que se adaptasse a meu corpo japons". Tambm experimentei diversas roupas e nunca consegui encontrar uma que substitusse as vestimentas crists
com as quais fui vestido desde criana.
      A histria da vida de Endo se desenvolve como o roteiro de um de seus romances. Durante a infncia, na Mandchria, ele viveu como um estrangeiro, um desprezado
dominador japons. Voltando ao Japo, onde a Igreja Crist representava menos de 1% da populao do pas, sofreu novamente a angstia de ser um aliengena. Colegas
de classe o ameaavam por estar associado a uma religio ocidental. A Segunda Guerra Mundial intensificou esse senso de estranhamento. Endo sempre vira o Ocidente
como sua ptria espiritual, mas era ele que agora estava vaporizando cidades japonesas.
      Depois da guerra, Endo viajou para a Frana para estudar sobre os romancistas franceses catlicos, como Franois Mauriac e George Bernanos. Mas a Frana tamm
no o fez se sentir bem-vindo. Como um dos primeiros alunos japoneses do programa de intercmbio - e o nico em Lyon -, foi rejeitado, dessa vez no pela religio,
mas pela raa. Os aliados haviam engendrado uma intensa campanha antija-ponesa, e Endo se viu como o alvo do abuso racial de seus companheiros cristos. "Gringo
de olhos puxados", diziam alguns. Como eu, ele aprendeu que os cristos tinham muitas formas de trair sua f. Alguns a rejeitavam publicamente. Outros, mais sutis,
viviam de uma maneira que a negava.
      Durante os trs anos que passou na Frana, Endo caiu em depresso. Pior, contraiu tuberculose, precisou remover um pulmo e passou vrios meses num leito de
hospital. Concluiu que, com efeito, o cristianismo o fizera adoecer. Rejeitado em sua terra natal, rejeitado por sua ptria espiritual, Endo entrou numa grave crise
de f.

      Antes de voltar ao Japo depois de seus estudos na Europa, Endo visitou a Palestina com o objetivo de pesquisar a vida de Jesus, e enquanto esteve l, fez
uma descoberta transformadora: Jesus tambm conheceu a rejeio. Mais do que isso, a vida de Jesus foi marcada pela rejeio. Seus vizinhos o expulsaram da cidade,
sua famlia questionou sua sanidade, seus amigos mais prximos o traram e seus compatriotas trocaram sua vida pela de um criminoso comum. Durante todo o seu ministrio,
Jesus propositadamente andou entre os pobres e os rejeitados. Tocou os leprosos, comeu com os impuros, perdoou ladres, adlteros e prostitutas.
      Este insight acerca de Jesus atingiu Endo com a fora de uma revelao. A partir do longnquo ponto de observao no Japo, ele vira o cristianismo como uma
f triunfante, constantiniana. J havia estudado o Sacro Imprio Romano e as resplandecentes cruzadas; admirado as grandes catedrais da Europa; sonhado com uma nao
onde pudesse viver o cristianismo sem sofrer desgraa. Agora, estudando a Bblia na terra em que ela fora escrita, Endo viu que o prprio Jesus no evitou a "desgraa".
Muitas das representaes de Jesus na cultura ocidental eram simplesmente projees de imagens romanas de glria e poder imperial. Jesus veio ao mundo como o Servo
Sofredor apresentado por Isaas: "Desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem dedores e que sabe o que  padecer; e, como um de quem os homens escondem
o rosto, era desprezado" (53:3). Certamente esse Jesus, mais do que ningum, poderia entender a rejeio que o prprio Endo estava sofrendo.
      Devo dizer que, no primeiro encontro que tive com esse Jesus, fui atingido tambm com a fora de uma revelao. Conforme estudei os evangelhos, notei um padro
to consistente que quase podia ser reduzido a uma frmula matemtica: quanto mais mpia, imoral e indesejvel era a pessoa, mais ela se sentia atrada a Jesus.
Quanto mais justa, segura de si e desejvel, mais ela se sentia ameaada por Jesus.  praticamente o oposto do que a maioria das pessoas faz. Os cristos evanglicos
se apegam ao ideal de um cidado equilibrado e slido, que cr nos valores familiares e se relaciona com o "tipo certo" de pessoas. Considere as pessoas que eram
vistas com Jesus: uma prostituta, um homem com lepra, um proscrito moral, um centurio romano, uma mulher mestia com cinco divrcios no currculo. Enquanto isso,
os fariseus - homens corretos, que estudavam as Escrituras e obedeciam rigorosamente  Lei -, a elite governante, os pilares da sociedade, todos eles viam Jesus
como uma ameaa.
      Por intermdio de Endo, descobri um Jesus ao contrrio, justamente no momento em que os evanglicos ganhavam ateno nacional e poder poltico. Ocorreu-me
que uma expresso como Maioria Arrependida ou Maioria Perdoada deveria ser uma forma mais correta de descrever os cristos do que Maioria Moral.74 Tal rtulo daria
o crdito a Deus no surgimento de qualquer trao de bondade, assegurando assim que, como disse Paulo: "ningum se glorie". Em vez disso, possumos uma espcie de
extrato que afasta as pessoas a quem a mensagem de Jesus foi dirigida: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei", disse ele
(Mt 11:28, nfase do autor). No pude encontrar qualquer incentivo ao sucesso ou  superioridade no convite de Jesus. A graa, assim como a gua, corre para as partes
mais baixas.
      Que irnico, pensei eu, ver que um homem japons rejeitado pelos cristos ocidentais estava me apresentando um Jesus como esse. Comecei a ler Shusaku Endo
em busca do Servo Sofredor, que entendia a rejeio melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. Como jovem de uma igreja fundamentalista, conheci a rejeio e
a vergonha a partir de uma cultura mais ampla. Como cristo, em minha caminhada conheci a rejeio da prpria Igreja: ela queria que eu me conformasse e no me preocupasse
com os detalhes; que cresse e no questionasse. Agora, em Jesus, encontro algum cuja mensagem concentra-se nos rejeitados.
      Jesus contou histrias sobre ovelhas perdidas e um filho prdigo, sobre banquetes bizarros dos quais somente os pobres e os doentes participariam. Verdadeiramente,
como os escravos americanos costumavam cantar, "ningum conhece o meu labutar, ningum, somente Cristo". Comecei a crer que Jesus recebeu seguidores relutantes,
at mesmo traidores, at mesmo eu. Meus livros O Jesus que eu nunca conheci e Maravilhosa graa nasceram de minha ponderao sobre esse lado novo de Jesus e a maravilhosa
graa de Deus.
      Depois de sua pesquisa na Palestina, Endo voltou  sua terra natal com a f intacta, mas sentindo a necessidade de dar-lhe uma nova forma, de atualizar algumas
roupas para que cassem melhor. "Para ser eficiente no Japo, o cristianismo deve mudar", decidiu ele. A verdade  que ele se tornou um romancista para trabalhar
essas questes na forma escrita. Um homem curvado e doente, usando culos de lentes grossas,  margem da sociedade, entrou rapidamente no estilo de vida de um escritor.
Comeou lanando romances  proporo de um por ano, e seu passo quase no diminuiu at sua morte, em 1996.
      Visitei o Japo pela primeira vez em 1997, de modo que no tive chance de entrevistar Shusaku Endo. Percebi que o paradoxo de sua vida continua at hoje. De
maneira geral, a comunidade crist no o reconhece como sendo um deles. Ele tinha dvidas sobre doutrinas fundamentais, o que fez que outros cristos duvidassem
dele. Em todas as palestras nas quais mencionei seu nome, um cristo japons veio at mim e solenemente aconselhou-me que Endo no era o melhor exemplo a ser usado.
      Em mais outra ironia, a fixao de Endo sobre a rejeio e a alienao trouxe-lhe sucesso e aclamao numa cultura mais ampla. Ele se tornou o mais conhecido
escritor vivo do Japo, seus livros foram traduzidos para 25 idiomas diferentes, seu nome faz parte da curta lista de ganhadores do Prmio Nobel de Literatura. Graham
Greene o chamava "um dos melhores romancistas vivos", e luminares como John Updike e Annie Dillard se juntavam ao coro de elogios. Em seus ltimos anos de vida,
Endo serviu como um cone cultural no Japo, destacando-se nosjornais e nas revistas. Por um tempo, dirigiu um programa de entrevistas na televiso. Numa nao em
que os cristos ainda no representam 1% da populao, parece notvel que os livros de Endo tenham chegado s listas dos mais vendidos, pois nenhum outro escritor
importante trabalhou to exaustivamente com temas abertamente cristos.
      Endo fala ao ser interior, onde esto enterrados os sentimentos de vergonha e rejeio que o japons mediano costuma enfrentar numa cultura que honra o comportamento
adequado e correto, que  infali-velmente educada e civilizada no exterior. Pergunte a qualquer japons a diferena entre honne, aquilo que acontece no interior,
e tatemae, aquilo que os outros enxergam, e eles balanaro a cabea conscientemente. Faa a mesma pergunta a um americano, ou a um europeu ou a um africano. Endo
explora as fendas do fracasso e da traio que toda pessoa da terra enfrenta e que, normalmente, procura esconder. Ao fazer isto, Endo lana uma nova luz sobre a
f crist, uma luz to reveladora que expe os cantos h muito escondidos, mas tambm to suave que acaba com as sombras.

      Desde o incio, Endo procurou apontar as diferenas entre a viso de mundo do Ocidente e do Oriente. Ele foi educado na literatura catlica do Ocidente, que
cr em um Ser Supremo separado da Criao. A maioria dos japoneses, porm, no acredita nesse Ser Supremo. Como resultado, os profundos temas sobre Deus, pecado,
culpa e crise moral, to presentes na literatura ocidental, tm pouca relevncia para o leitor japons comum.
      Em seus primeiros romances, Endo retrata o Japo como um tipo de pntano (e, s vezes, como um pntano verdadeiro) que traga tudo o que  estrangeiro, inclusive
o cristianismo. Um de seus ltimos trabalhos, Yellow Man, mostra um missionrio francs abandonando o sacerdcio com o objetivo de se casar com uma mulher japonesa
e, mais tarde, escolhendo o suicdio. O sacerdote pondera em voz alta se seu Deus "poderia lanar razes neste solo mido, nesta raa amarela". Em Volcano, escrito
poucos anos depois, o sacerdote no apenas abandona o sacerdcio, mas se torna um sedutor, atiando outros a abandonar sua f. Por trs dessas figuras, paira a silhueta
de um jovem solitrio diante de uma pea de museu na cidade de Nagasaki.
      No tempo devido, porm, o romancista Endo parece ler encotrado uma sada nesse pntano. Os escritores japoneses tm o costume de produzir obras de entretenimento
entre os lanamentos de seus livros mais srios. Em um desses entretenimentos, transformado em srie e publicado em peridicos, uma nova figura surge de Endo: o
tolo de bom corao, uma verso cmica japonesa de The Idiot, de Dostoievski. The Wonderful Fool (O maravilhoso tolo) de Endo apresenta um missionrio desajeitado,
com cara de cavalo, que facilmente ganharia um concurso de feira nos Estados Unidos, no fosse o fato de ele ser francs - Gaston Bonaparte que, para ser mais preciso,
era descendente do famoso imperador, Gaston ofende seus convidados, comete uma gafe cultural a cada instante e parece ser atrado por todo tipo de pessoa ruim: um
vira-lata vesgo, uma prostituta, um velho eremita, um assassino. Contudo, suas aes estabanadas e simpticas reacendem a vida em todos aqueles a quem toca. A cena
final acontece num pntano onde o amor de Gaston toca o assassino - que se chama Endo! - e o leva ao arrependimento.
      Em The Samurai e O silncio 75, o choque de culturas apresenta-se na forma de uma tragdia, no de comdia. Os dois romances refletem fatos reais e personagens
do incio de 1600, quando os shoguns estavam apertando o cerco em volta da comunidade crist no Japo. The Samurai acontece no exato momento em que os shoguns esto
reconsiderando sua poltica de abertura para o Ocidente. Um sacerdote leva quatro samurais numa misso comercial ao Mxico e  Europa, onde, na esperana de aumentar
o sucesso de sua tarefa, os samurais tornam-se cristos nominais. Durante o perodo que passam fora do pas, porm, o Japo fecha suas fronteiras e, em seu retorno,
eles so executados como traidores (traos da prpria vida de Endo: o batismo nominal, a viagem ao exterior, rejeio dos que professam uma f que ele mal conhece).
      Contudo, pelo menos um dos samurais foi capaz de entender o verdadeiro significado da morte de um mrtir. Seu servo Yozo fala de Jesus a ele. No o Cristo
triunfante e ressurrecto, mas o rejeitado, a quem o prprio Endo conhecera em suas visitas  Palestina.

   Creio que, em algum lugar do corao do homem, h um clamor por algum que esteja com ele por toda a vida, algum que nunca o trair, nunca o abandonar - mesmo
que este algum seja apenas um cachorro vadio e sarnento. Este homem tornou-se este co miservel por amor  humanidade.O samurai morre com as seguintes palavras
de Yozo ecoando em seus ouvidos: "De agora em diante, ele estar ao seu lado. Ele vai tomar conta de voc".

      Os crticos consideram o outro romance ambientado nesse perodo histrico, chamado O silncio, a obra-prima de Endo. Sua prosa  simples e clara. O roteiro
marcha inexoravelmente para uma concluso trgica, os personagens apresentam uma profundidade rara na fico de Endo e toda a atmosfera est repleta do poder do
mito. O silncio segue um sacerdote portugus, chamado Rodrigues, numa perigosa misso no Japo. Rumores chegaram ao comando dos jesutas na Europa dizendo que o
mais famoso missionrio no Japo, o padre Ferreira, havia apostatado. Rodrigues, que fora aluno do padre Ferreira no seminrio, no podia acreditar que aquele grande
homem, seu mentor, teria renunciado  f depois de 20 anos de corajosos servios. Decide viajar para se encontrar com Ferreira, ciente de que muito provavelmente
no retornar vivo (tudo isso foi baseado em personagens e fatos reais, ocorridos em 1635).
      Logo na chegada ao Japo, depois de uma angustiante viagem, Rodrigues ouve as confisses dos cristos secretos - membros da Igreja subterrnea dos kakure -,
os quais no viam um sacerdote havia anos. Um deles, um astuto e mercenrio pescador, entrega Rodrigues aos shoguns em troca de recompensa. Rodrigues se mantm fiel
 sua f mesmo sob tortura e diante de uma situao moral insustentvel. Grupos de cristos perfilam-se diante dele. Foi dito a Rodrigues que, se ele pisasse o fumie,
os cristos seriam libertados. Ele se recusa, e todos so mortos diante de seus olhos. "Ele viera ao pas para dar sua vida por outros homens, mas o que estava acontecendo
era que os japoneses estavam perdendo suas vidas por causa de um homem." Ainda assim, independentemente dos mtodos que os shoguns usaram, Rodrigues no renunciou
sua f.
      Como o ttulo do romance nos indica, o silncio permeia toda a obra. Por cerca de uma centena de vezes, Rodrigues v a face de Jesus, uma face que ele ama
e a quem serve. Mas a face no fala nada. Permanece silenciosa quando o sacerdote  acorrentado a uma rvore para ver cristos sendo mortos; silenciosa quando ele
quer saber se deve pisar o fumie para libert-los; silenciosa quando ele ora em sua cela,  noite.
      De incio, parece que O silncio far uma homenagem quilo que impulsionou a Igreja durante sculos: a intrpida f dos mrtires heris. Rodrigues, um sacerdote
ntegro, disps-se voluntariamente a participar de uma misso suicida. Mas em O silncio, o amor e a f de Rodrigues vo alm do martrio, alm at mesmo da apostasia.
      Certa noite, Rodrigues escuta um som semelhante a um ronco. O som, que, na verdade, eram gemidos de dor, vinha dos cristos que estavam pendurados de cabea
para baixo sobre os fossos, com suas orelhas cortadas para que o sangue se esvasse lentamente e eles morressem em grande agonia. Aqueles dois poderiam ser libertados
se Rodrigues abjurasse. Rodrigues fora alertado sobre essa tortura por Ferreira, que o visitou em sua cela. Para seu horror, descobriu naquela visita que o grande
missionrio Ferreira havia realmente negado a f, apenas cinco horas depois de ficar pendurado sobre o fosso. Ferreira implora que Rodrigues tambm pise no fumie.
 apenas um smbolo, um ato exterior. Ele no precisa realmente ter significado. Tal gesto salvar muitas vidas... E, no fim, o padre Rodrigues nega sua f pelo
amor aos outros.
      Mais tarde, Endo reclamou que O silncio foi mal interpretado por causa de seu ttulo. "As pessoas passaram a achar que Deus era silencioso", disse ele, quando,
na verdade, Deus fala no romance. Eis a cena decisiva, quando o silncio  rompido, no exato momento em que Rodrigues est olhando para o fumie:

   "E apenas uma formalidade. Para que servem as formalidades?", pergunta, nervosamente, o intrprete. "Siga adiante com o ato exterior de pis-lo."
   O padre levanta o p. Sente uma dor profunda. Aquilo no era apenas uma formalidade. Ele est prestes a pisar naquilo que considerava a coisa mais linda de sua
vida, no que acreditava ser puro, que estava cheio dos ideais e sonhos dos homens. Como seu p di! Ento, o Cristo em bronze fala ao padre: "Pise! Pise! Eu, mais
do que ningum, conheo a dor em seu p. Pise! Foi para ser pisado pelos homens que vim ao mundo. Foi para compartilhar a dor dos homens que carreguei minha cruz".
O padre colocou o p sobre o fumie. O dia amanheceu. E l, bem longe, o galo cantou.

      Quando O silncio foi lanado, em 1966, muitos catlicos japoneses reagiram com ira. Respeitosos a seus antepassados, tinham objees quanto a romancear apstatas
como Ferreira e Rodrigues. Quo facilmente esquecemos que a Igreja foi fundada por discpulos que traram seu mestre. Nenhum deles estava disposto a se colocar ao
lado de Jesus quando as autoridades polticas e religiosas o condenaram  morte.Em seu momento de maior necessidade, os discpulos se esconderam nas trevas. O mais
valente de todos, Pedro, foi o mesmo que xingou e o negou trs vezes antes que o galo cantasse. Foi por traidores que Jesus morreu.
      Em sua defesa, Endo coloca o tema central do romance como sendo a transformao da face de Jesus, no a transformao dos personagens. "Para mim, a coisa mais
significativa do romance  a mudana na imagem herica de Cristo", diz ele. Antes daquele episdio, Rodrigues acreditava num Jesus de majestade e poder. A imagem
de Jesus que aparecera mais de uma centena de vezes era pura, serena, celestial. Gradualmente, porm, a misso de Rodrigues fracassa - e, na verdade, provoca a morte
de muitos japoneses -, e a imagem de Jesus comea a se transformar, ficando marcada pelo sofrimento dos homens. Como deve ter sido para o prprio Jesus saber (e
ele sabia) que a f que ele espalharia pelo mundo resultaria na perseguio e no martrio de muitos por toda a Histria, inclusive tantos japoneses? "Um irmo entregar
 morte outro irmo, e o pai, ao filho (...) Sereis odiados de todos por causa do meu nome" (Mt 10:21, 22).
      Exausto, perseguido, prximo do desespero, Rodrigues v seu reflexo numa poa d'gua, uma viso que se transforma numa epifania:

   Ali, refletida na gua, estava a imagem de uma face cansada e deprimida. No sei por qu, mas naquele momento pensei na face de outro homem (...) a de um homem
crucificado (...) cheia de barro e detritos. Era fina e estava suja. Era a face de um homem afligido, cheio de inquietaes e, ao mesmo tempo, vazio.

      Deste ponto em diante, o romance usa palavras como "sofrido", "enfraquecido", "desgastado" e "feio" para descrever a face de Jesus. Quando o silncio  finalmente
quebrado, no momento em que Rodrigues est prestes a pisar no fumie, essa face fala com ele, do meio do fumie: "Pise", diz o rosto, j "enfraquecido e desgastado
pelas constantes pisaduras".

      O esquema por trs da imagem transformada de Jesus vem  luz no seu trabalho no ficcional chamado Uma vida de Jesus 76. O livro vendeu mais de 300 mil cpias
e, para muitos japoneses, permanece como sua introduo bsica  f crist. Shusaku Endo acredita que o cristianismo falhou em provocar um grande impacto no Japo
porque os japoneses ouviram apenas um lado da histria. Eles ouviram sobre a beleza e a majestade. Os turistas japoneses visitam Chartres e a Abadia de Westminster
com suas cmeras digitais e registram imagens de glria; corais japoneses executam as obras-primas religiosas de Handel e Bach. Mas, de alguma maneira, os japoneses
sentem falta de outra mensagem: a de um Deus que "a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo"; de um Filho de Deus que chorou, quase desesperado, quando
se aproximava de Jerusalm.
      Endo explica que esse ponto de contato com os japoneses baseia-se nas experincias de fracasso e vergonha, porque, em sua cultura, essas coisas deixam o mais
duradouro impacto na vida de uma pessoa. Endo sente que as pessoas criadas numa cultura budista podem se identificar melhor com uma pessoa que sofre com elas e que
permite que tenhamos fraquezas. Para o prprio Endo, o mais tocante legado de Jesus foi seu amor infinito, at mesmo - e especialmente - por pessoas que o traram.
Quando Judas levou o esquadro de linchamento ao jardim, Jesus referiu-se a ele como "amigo". Seu pas o executou. Quando estava ali, esti-rado e nu, numa postura
de total desgraa, Jesus reuniu foras para dizer: "Pai, perdoa-lhes". Para aqueles que ficaram escandalizados com a aparente apostasia de seus personagens Ferreira
e Rodrigues, Endo aponta para os dois principais fundadores da Igreja crist: Pedro negou a Cristo trs vezes, e Paulo liderou a primeira perseguio aos cristos.
Se a graa no tivesse alcanado aqueles dois,  bem possvel que a Igreja jamais tivesse se estabelecido.
      Por que o cristianismo  virtualmente a nica prtica ocidental que falhou em criar razes no Japo, que to rapidamente adotou o beisebol, o McDonald's e
o rock? Seguindo outra linha de pensamento, Endo liga seu fracasso  nfase ocidental na paternidade de Deus. O terapeuta Erich Fromm diz que um filho de uma famlia
equilibrada recebe dois tipos de amor. O da me tende a ser incondicional, aceitando a criana, independentemente do que ela faa ou de como se comporte. O amor
do pai apresenta a tendncia de ser mais voltado  proviso, mostrando aprovao quando a criana apresenta certos padres de comportamento. Numa situao ideal,
diz Fromm, uma criana deveria receber e internalizar os dois tipos de amor. De acordo com Endo, o Japo, uma nao de pais autoritrios, entendeu o amor de pai
de Deus, mas no o amor de me.Um velho ditado japons lista as quatro coisas mais horrveis do mundo como sendo "incndios, terremotos, relmpagos e pais". Em minhas
viagens ao Japo, muitas pessoas me falaram de seus pais autoritrios que nunca pedem desculpas, so emocionalmente distantes, no demonstram nada que se parea
com amor ou graa, que fazem muitas crticas e poucos elogios. Uma mulher chegou a dizer-me que havia planejado matar seu pai quando tinha 13 anos, depois de ter
sido sexualmente abusada por ele. Com medo da pena capital, optou por ir estudar nos Estados Unidos. Quando sua me morreu, o pai ordenou que ela voltasse para cuidar
dele e, de acordo com o costume japons, ela sentiu-se obrigada a faz-lo. "No ms passado, pela primeira vez na vida, meu pai agradeceu por algo que eu havia feito",
disse-me ela. "Considero isto uma verdadeira vitria."
      A concluso de Endo  que, para que o cristianismo apresente algum apelo ao povo japons, precisar enfatizar o amor materno de Deus, o amor que perdoa erros,
cura feridas e atrai os outros para si, em vez de for-los a vir ("Jerusalm, Jerusalm, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes
quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vs no o quisestes!" - Mt 23:37). " na religio maternal que Cristo
vai a prostitutas, pessoas deformadas e sem valor, e as perdoa", diz Endo. Segundo sua viso, Jesus trouxe a mensagem do amor materno para equilibrar o amor paterno
do Antigo Testamento. O amor de me nunca esmorece, mesmo diante de um filho que comete um crime: esse amor perdoa qualquer fraqueza. Para Endo, o que realmente
impressionou os discpulos foi a percepo de que Cristo ainda os amava, mesmo depois de eles o terem trado. Ter seu erro apontado por algum no era nada de novo;
ter seu erro descoberto e, ainda assim, ser amado era realmente novo.
      O livro Uma vida de Jesus completa o retrato do amor materno de Jesus:

   Ele era magro, no era grande coisa. Havia, porm, uma coisa sobre ele: nunca abandonou algum com problemas. Quando as mulheres vinham chorando, ele permanecia
ao seu lado. Quando idosos estavam sozinhos, ele se sentava calmamente com eles. No era nada miraculoso, mas os olhos fundos transbordavam de um amor ainda mais
profundo do que um milagre. Considerando aqueles que o traram e abandonaram, nem uma palavra de ressentimento saiu de seus lbios. No importava o que acontecesse,
ele era o homem de dores, e no orava por nada alm de sua salvao.
    isso o que se pode dizer de Jesus. Ele chama a ateno pela pureza e pela simplicidade, tal qual um ideograma chins pintado sobre uma folha de papel branco.

      Os cristos tradicionais acharo que o retrato de Jesus pintado por Endo  incompleto. Ele no fala nada sobre os milagres de Jesus, e, francamente, eles parecem
ser quase irrelevantes para seus objetivos. Ele deixa de fora cenas que mostram a autoridade e o poder de Jesus. Apresenta um Jesus com quem os japoneses podem se
relacionar e, para eles, qualquer vestgio de poder torna Jesus uma figura intimidatria e difcil de aceitar. De maneira semelhante, Endo apresenta uma verso fraca
da ressurreio, o que, para ele, serve de barreira para a crena japonesa. Para os crticos que atacaram severamente sua teologia, ele responde: "Minha forma de
retratar Jesus est baseada no fato de eu ser um romancista japons. Escrevi este livro para o bem dos leitores japoneses, que no tm tradio crist alguma prpria
e que no conhecem praticamente nada sobre Jesus".
      Ns, porm, que crescemos ouvindo sobre Jesus, tambm temos muito que aprender com Endo. Lembro-me de uma vez em que abordei o assunto "guerra cultural" diante
de um grande encontro que protestava contra a influncia da democracia liberal, e inclua uma forte minoria judaica. Fui escolhido como o representante dos cristos
evanglicos para participar de um painel que reunia os presidentes do Disney Channel e da Warner Brothers, assim como o reitor da Faculdade Wellesley e o advogado
de Anita Hill, que havia testemunhado fortemente contra Clarence Thomas, juiz da Suprema Corte.77 Senti-me como se estivesse usando uma camiseta branca com um enorme
alvo pintado nas costas, pois todos eles tinham histrias para contar sobre poderosos lobbies cristos que haviam lutado contra eles.
      Os batistas do Sul estavam boicotando a Disney, os evanglicos protestavam fortemente contra uma exposio de arte blasfema na Faculdade Wellesley e Anita
Hill ainda recebia cartas mal-humoradas de cristos conservadores, mesmo depois de vrios anos de sua apario diante do Congresso. A integrante mais jovem do painel,
Lucinda Robb, neta do presidente Lyndon Johnson e filha do senador ChuckRobb, falou de uma campanha difamatria contra Oliver North, na qual cristos direitistas
faziam piquetes em todas as suas aparies. "Achei que ramos cristos", disse-me Lucinda. "Crescemos tendo Billy Graham como visita freqente e sempre fomos ativos
na igreja. Realmente cremos. Mas estes manifestantes nos tratam como se fssemos demnios do inferno."
      Quando chegou minha vez de falar, mencionei que, em tais circunstncias, eu buscava orientao na vida de um judeu do primeiro sculo, que tambm estava envolvido
numa guerra cultural. Um rgido sistema religioso o perseguiu em todo o tempo que passou na Terra, preocupado que a mensagem daquele homem pudesse perturbar as autoridades
governantes. E certamente o imprio pago sob o qual ele vivia dava margem a crticas. Roma tinha prticas - escravido, execuo em massa, infanticdio, jogos pblicos
com gladiadores - que nenhum Estado moderno toleraria. Jesus confiava na arma principal para lutar contra a guerra cultural: o amor sacrificial. Dentre as ltimas
palavras que ele disse antes de morrer, encontramos estas: "Pai, perdoa-lhes, porque no sabem o que fazem" (Lc 23:34).
      Depois do painel, uma celebridade da televiso, algum que todo leitor saberia quem  somente pelo nome, veio at mim e disse: "Preciso falar uma coisa. Voc
me atingiu bem no corao. Eu estava pronto para no gostar de voc, pois no gosto dos cristos da direita e presumi que voc fosse um deles. Voc no pode imaginar
as cartas que recebo deles. Eu no sigo a Jesus - sou judeu. Mas quando voc falou sobre Jesus perdoando seus inimigos, percebi quo longe estou desse esprito.
Luto contra meus inimigos, especialmente os direitistas. No os perdo. Tenho muito que aprender com o esprito de Jesus". O poder do amor sacrificial de Jesus estava
atuando novamente.

      Conforme se aproximava o fim de sua carreira, Endo passou a abordar temas mais pessoais, at mesmo autobiogrficos. Em 1988, foi lanado seu romance Scandal,
que, surpreendentemente, apresenta como personagem central um famoso escritor catlico no Japo que  acusado de freqentar a regio de meretrcio de Tquio. O leitor
nunca se sente plenamente seguro se esse escritor, em sua bvia semelhana com Endo, est sendo favorecido por seus acusadores, se tem um lado sombrio ou se est
experimentando algum tipo de alucinao. Endo desnuda a traio de sua prpria alma. "No me superestimem", diz ele a seus leitores. " o mximo que posso fazer
para lidar com meus prprios problemas. No posso assumir a responsabilidade por suas vidas tambm."
      Como escritor, considero Scandal o mais corajoso e, em muitos aspectos, o mais tocante dos romances de Endo. Escritores que abordam os assuntos de f apresentam
uma tendncia de purificar seus personagens, retratando-os com um tipo de brilho sobre eles. Esta tendncia contradiz diretamente o exemplo da Bblia, que relata
as falhas de seus grandes personagens - Abrao, Moiss, Davi, Pedro, Paulo - com brutal realismo. Neste sentido, Endo  um dos mais bblicos de todos os escritores
ficcionais modernos, pois o tema da traio transparece em todos os seus principais trabalhos. Em Scandal, Endo  seu prprio traidor.
      "Um romancista no pode escrever sobre o que  santo", diz Endo. "Ele no pode retratar o santo Cristo, mas pode escrever sobre Jesus atravs dos olhos do
tipo de pessoas que pisaram o fumie, ou pelos olhos de seus discpulos, ou de outros que traram o Cristo." Ele deveria ter acrescentado que o romancista s pode
escrever sobre Jesus atravs dos olhos do prprio romancista, pois, no fim, Endo no se afastou muito da autobiografia. Por dentro, o estimado ancio das letras
ainda era um menino, lutando para fazer seu costume de roupas estrangeiras se encaixar em seu corpo japons.
      Um dos contos de Endo, chamado Mes, fala de um homem que visita um grupo de cristos kakure numa ilha remota, em busca de alguma verdade sobre si. Esses cristos
das catacumbas, devotos de Maria, com um profundo sentimento de fracasso histrico, chamam a ateno do visitante. Ele percebe neles um pouco do desejo que tinha
quando era criana, incapaz de se comunicar adequadamente com sua prpria me. "s vezes, enxergo um pouco de mim mesmo nesses kakure, pessoas que tiveram de viver
uma vida de duplicidade, mentindo para o mundo e nunca revelando seus verdadeiros sentimentos a ningum."
      Em um sonho recorrente, o narrador est numa cama de hospital, fortemente sedado. Entre os momentos de conscincia e torpor, ele v que, a seu lado, obstinadamente,
est sentada sua me - ningum mais,apenas sua me. Nos momentos de lucidez, ele pondera sobre a grande f que sua me possui e sua instabilidade. "Quanto mais ela
me compelia a compartilhar de sua f, mais eu lutava contra seu poder opressivo, do mesmo modo que uma criana que est se afogando luta contra a presso da gua."
      Enquanto o narrador tem esses pensamentos, ouvindo o rudo das mquinas que o mantm vivo, alternando misteriosamente entre o presente e o passado, preparando-se
para um futuro que no pode imaginar, sua me senta-se ao seu lado, aguardando silenciosamente.

SHUSAKU ENDO PARA INICIANTES
      Comece com O silncio, o aclamado clssico de Endo. Admiro profundamente a obra Escndalo 78. Um de seus ltimos romances, chamado Rio profundo 79, revisita
muitos dos temas dos primeiros romances: viagens ao exterior, uma f abalada, o tolo de bom corao. Mas ele explora o novo territrio da comparao de religies
atravs dos olhos de um grupo de turistas japoneses que visitam a ndia. Muitos leitores consideram a fico de Endo repetitiva ou difcil de entender, talvez pelas
diferenas culturais. Essas pessoas devem dar preferncia aos contos reunidos em The Final Martyrs. Uma vida de Jesus ajuda a explicar o ponto de vista expresso
nos romances.

13. Henri Nouwen
O Ferido Que Cura Feridas
      Em 1983, o padre e professor universitrio Henri Nou-wen viu pela primeira vez um quadro de Rembrandt chamado O retorno do filho prdigo na forma de um pster
pendurado atrs de uma porta. Talvez pelo fato de ele haver acabado de completar uma exaustiva turn de palestras sobre a questo da justia na Amrica Central e
estava prximo de um colapso emocional, aquele quadro tocou-o de uma maneira que ele nunca havia sido tocado antes. Tudo que ele queria era tomar o lugar do filho
rebelde que se ajoelhava diante do pai, ser banhado pela luz dourada, sentir o doce peso das mos do pai sobre seus ombros. Tudo que ele queria era ir para casa,
independentemente do que isto significasse.
      Por ter nascido na Holanda, Nouwen tinha uma atrao pela pintura de seus compatriotas, especialmente Rembrandt e Van Gogh. Trs anos depois, quando foi convidado
a visitar a Rssia, ele prontamente aceitou, em parte porque isto lhe dava a oportunidade de ver algumas pinturas originais de Rembrandt. Em umasemana, ele foi duas
vezes ao Museu Hermitage, em So Petersburgo, e ficou sentado vrias horas diante da obra-prima que Rembrandt pintara em enormes propores, maiores que as reais.
Sentindo-se um ano diante da pintura, Nouwen viu as mudanas que a luz do Sol provocava com o passar das horas, bebendo cada detalhe dos personagens em seu cenrio
frugal.
      Mais tarde, depois de renunciar ao magistrio e fazer uma mudana radical em sua vida, Nouwen escreveu o pequeno livro A volta do filho prdigo: A histria
de um retorno para casa 80 . Ao mudar-se para uma comunidade de pessoas com deficincias fsicas e mentais em Toronto, no Canad, ele esperava ter finalmente encontrado
seu lar. O quadro continuava a cativ-lo, e Nouwen comeou a ver sua prpria histria nos termos da parbola de Jesus sobre o filho prdigo. Dez anos depois de se
mudar, sua vida terminou num tipo de unidade potica, pois trabalhava num especial de televiso sobre o quadro, no ano de 1996, preparando-se para visitar o Hermitage
com uma equipe de filmagem holandesa, quando sofreu o ataque cardaco que tirou sua vida.
      Ao refletir sobre a parbola durante toda a sua vida, Nouwen viu-se mais naturalmente identificado com o obediente e responsvel filho mais velho. Afinal,
desde os cinco anos ele j havia decidido que seria padre e brincava disto, fazendo um altar de brinquedo, um pequeno tabernculo e criando algumas vestes. Formado
em Teologia e Psicologia na Holanda e, posteriormente, tendo sido ordenado padre, Nouwen passou os primeiros anos de sua carreira realizando ambies. Estudou na
Clnica Menninger, lecionou em Notre Dame e Yale e viajou muito como conferencista. Abertamente ecumnico, falava para esquerdistas catlicos da teologia da libertao
e acenava para evanglicos carismticos no mesmo dia (Robert Schuller, o popular pastor da televiso, entregou a ele o plpito da Catedral de Cristal por trs programas
consecutivos). Ele ignorava as recomendaes de Roma para que apenas os catlicos participassem na eucaristia, e a celebrava diariamente com amigos, alunos ou estranhos,
onde quer que estivesse.
      Depois de lecionar para alunos da elite e de escrever 16 livros, Nouwen j tinha um currculo montado e poderia morrer tranqilo. Mas este era exatamente o
problema. A agenda sempre cheia e a incansvel competio estavam sufocando sua prpria vida espiritual.
      Tirou algumas frias de seis meses, retirando-se para uma abadia no interior do Estado de Nova York, afastando-se depois em direo  Amrica do Sul, analisando
uma possvel posio para si mesmo como missionrio em algum pas em desenvolvimento. No Peru, viveu numa favela na regio norte de Lima, uma parquia de 100 mil
pessoas. A famlia com a qual morava tinha poucas posses, mas Nouwen sentia seu amor por intermdio das crianas que subiam nele, rindo, pulando e brincando com
o estranho padre que falava sua lngua como uma criana. Aquelas crianas literalmente "abraaram a vida por ele", diria mais tarde. Ele descobriu um paradoxo: os
pobres e oprimidos tinham um senso mais profundo do amor de Deus que os ocidentais, que tinham uma vida materialmente privilegiada.
      "Quo pouco ns realmente sabemos sobre o poder do toque fsico", escreveu Nouwen durante sua permanncia no Peru. Ele visitara recentemente um orfanato em
que as crianas, carentes de afeio, brigavam pelo privilgio de tocar nele. "Aqueles meninos e meninas queriam apenas uma coisa: serem tocados, abraados, afagados
e acariciados.  bem possvel que a maioria dos adultos tenha as mesmas necessidades, mas tenham perdido a inocncia e a conscincia desinteressada de express-la.
H momentos em que vejo a humanidade como um mar de pessoas famintas por afeio, ternura, carinho, amor, aceitao, perdo e bondade. Parece que todo o mundo est
dizendo: 'Por favor, ame-me'."
      Vivendo nas casas dos pobres, Nouwen aprendeu que ministramos aos necessitados no apenas para levar Jesus at eles, mas tambm para encontrar Jesus dentro
deles. Jesus disse: "bem-aventurados so os pobres", e no "bem-aventurados so os que cuidam dos pobres". Ao viver entre eles, Nouwen recebeu essa bno e comeou
a se recuperar do dano causado pelo estresse. Mesmo assim, o tempo que passou na Amrica do Sul convenceu-o de que seu chamado no estava ali. Depois de seis meses,
aceitou novo cargo na Universidade de Harvard.

      Enquanto vivia no Peru, Nouwen recebeu notcias de que sua cunhada dera  luz uma menina com Sndrome de Down. Ele escreveu as seguintes palavras a sua famlia,
sem saber que, em alguns anos, elas teriam um carter proftico:

   Laura ser muito importante para todos ns da famlia. Nunca tivemos uma pessoa fraca na famlia. Todos ns somos pessoas trabalhadoras, ambiciosas e bem-sucedidas,
que raramente tm experimentado a fraqueza. Agora Laura chega e nos mostra uma dependncia completamente nova. Laura, que sempre ser uma criana, vai nos ensinar
o caminho de Cristo como ningum ser capaz de faz-lo.
   (Extrado de Gracias!)

      As presses da fama, sua agenda de aulas em Harvard e questes pessoais que se tornaram cada vez mais pesadas combinaram-se para levar Nouwen ao ponto de um
colapso total num espao de trs anos. Finalmente, ele caiu nos braos da Comunidade L'Arche (A Arca), que trabalhava com pessoas com deficincias srias. Ele recebeu
a visita do diretor de uma das casas L'Arche, Jan Risse, numa misso do fundador do grupo. Jan visitou Nouwen por alguns dias, fez refeies para ele e o ajudou
de modo bastante prtico. Nouwen ficou esperando o inevitvel convite para dar uma palestra, escrever um artigo, oferecer abrigo. Nenhum desses pedidos foi feito.
A L'Arche estava oferecendo graa pura e simples, sem qualquer restrio.
      A visita de Jan causou uma impresso tal em Nouwen que ele pediu permisso a seu bispo para se juntar  Comunidade LArche na Frana. Pela primeira vez em sua
vida, ele sentia que Deus o estava chamando para fazer alguma coisa. Ele queria aprender "o que o seminrio e a Teologia no haviam ensinado: como amar a Deus e
descobrir a presena de Deus em meu prprio corao". O apoio que ele recebeu da comunidade na Frana foi o que o levou a se tornar o padre local de Daybreak, uma
casa afiliada em Toronto.
      Externamente, a mudana de Nouwen de um cargo numa universidade para uma casa de sade para doentes mentais parecia algo nobre, o derradeiro ato de um virtuoso
irmo mais velho. Como Nouwen deixou claro em seus textos, porm, ele tomou essa deciso em funo do fracasso, da escurido espiritual e de feridas profundas. Ele
foi para l no para dar, mas para receber; no por causa de excesso, mas por falta. Foi para conseguir sobreviver. Sempre colocado na posio do responsvel irmo
mais velho, ele havia se tornado presa das mesmas tentaes que afligiram seu prottipo na parbola de Jesus. "A perdio do ressentido 'santo'  to difcil de
se alcanar justamente porque est por demais ligada ao desejo de ser bom e virtuoso", concluiu ele.

   Eu sei, a partir de minha prpria vida, quo diligentemente tentei ser bom, aceitvel, merecedor de estima e um exemplo digno para os outros. Sempre havia o esforo
consciente de evitar as armadilhas do pecado e o constante temor de ceder  tentao. Mas com isso veio uma seriedade, uma intensidade moralista - e at mesmo um
toque de fanatismo - que dificultou muito me sentir  vontade na casa do Pai. Fiquei menos livre, menos espontneo, menos alegre (...)
   Quanto mais refletia sobre o filho mais velho dentro de mim, mais percebia quo profundamente enraizada esta forma de perdio estava e quo difcil era voltar
para casa a partir daquele ponto. Retornar depois de uma escapada luxuriosa parece muito mais fcil do que voltar para casa depois de uma amargura que se enraizou
nos profundos meandros do meu ser.
   (Extrado de The Return of Prodigal Son)

      No quadro de Rembrandt, o irmo mais velho est longe do pai, friamente observando o abrao de seu irmo irresponsvel. Olhando para aquela imagem, Nouwen
ficou pensando se Rembrandt no deveria ter chamado o quadro O retorno dos filhos perdidos, pois o filho mais velho estava, em muitos aspectos, mais perdido do que
o prdigo, incapaz de superar seu prprio orgulho e seu ressentimento e participar da festa pela volta de seu irmo.
      "Amo Jesus, mas...", escreveu Nouwen em seu dirio, em relao  deciso de se mudar para Daybreak. "Amo Jesus, mas quero apegar-me  minha prpria independncia,
mesmo quando esta independncia no traz verdadeira liberdade. Amo Jesus, mas no quero perder o respeito de meus colegas de profisso, muito embora seu respeito
no me faa crescer espiritualmente. Amo Jesus, mas no quero abdicar de meus planos de escrever, viajar e fazer palestras, mesmo que esses planos muitas vezes sejam
mais para minha glria do que para a glria de Deus."
      No fim, Nouwen afrouxa as correntes da independncia, do respeito e da ocupao e muda-se de uma instituio de prestgio para outra sobre a qual poucas pessoas
haviam ouvido falar, para trabalhar nocom os lderes da nao, mas com os rejeitados pela sociedade. Ele fez isto, em parte, por causa de um detalhe facilmente
ignorado na histria de Jesus: o pai abre os braos para os dois filhos. Ele no apenas d boas-vindas ao filho desobediente, mas tambm sai de casa para se encontrar
com o filho responsvel que ouviu o som da msica e da dana. Os mesmos braos que abraaram o prdigo esperavam para abraar e receber seu irmo ressentido. Nouwen
ansiava por esse abrao.

      Meu primeiro contato com Henri Nouwen se deu em sua fase de irmo mais velho. Topei com seu pequeno clssico The Wounded Healer no incio de minha carreira,
quando fazia pesquisas sobre o sofrimento, e achei suas idias notveis. Li muitos outros livros durante os anos que antecederam meu encontro com ele. Nouwen tem
sido acusado de no ter deixado de publicar nenhum de seus pensamentos e, de fato, algumas de suas idias foram publicadas mais de uma vez em diferentes formatos,
como livretos disfarados de livros comuns. Contudo, ele foi para mim um sbio irmo mais velho, um pioneiro que sabiamente explorou linhas de pensamento que eu
mesmo estava ansioso por seguir.
      "De alguma maneira, eu achava que escrever era uma forma de deixar que alguma coisa de valor duradouro emergisse de minha vida curta e passageira", escreveu
certa vez, um sentimento que expressa o que todo escritor sente. Escrever foi um ato de descoberta tanto para ele quanto para seus leitores:

   A maioria dos estudantes pensa que escrever  colocar idias, insights e vises no papel. Acham que, primeiramente, precisam ter alguma coisa a dizer antes que
possam efetivamente escrev-la. Para eles, escrever  um pouco mais do que registrar um pensamento preexistente. Porm, com esta abordagem, o verdadeiro ato de escrever
torna-se impossvel. Escrever  um processo no qual descobrimos aquilo que vive dentro de ns. O prprio escrever revela o que est vivo (...) A mais profunda satisfao
ao escrever  exatamente que este ato abre novos espaos dentro de ns dos quais no tnhamos conscincia antes de comear a escrever. Escrever  embarcar numa jornada
cujo destino final no sabemos.
   (Extrado de Reflections on Theological Education)

      Conheo bem o curso interior da jornada de se escrever. A maioria dos escritores  introspectiva, introvertida e est bem longe do tipo de pessoa que voc
convidaria para uma noite animada. Prefere se relacionar com um processador de textos a ter relao com uma pessoa de verdade. Nouwen no era assim. Enquanto preparava
um livro ou mais por ano, ele tambm mantinha uma rotina frentica como orador internacional, professor e padre, convidando alegremente outros a participarem de
sua jornada.
      Certa vez, quando jantava com um grupo de escritores, a conversa se encaminhou para as cartas que recebamos de leitores. Richard Foster e Eugene Peterson
citaram um jovem ativo que buscara direo espiritual nos dois autores. Responderam educadamente, tanto escrevendo uma carta quanto recomendando livros sobre a espiritualidade.
Foster descobriu que o mesmo leitor havia entrado em contato com Henri Nouwen. "Voc no vai acreditar no que Nouwen fez", disse ele. "Convidou este estranho para
viver em sua comunidade por um ms de modo que pudesse ter orientao espiritual diretamente dele."
      Voc precisaria ser um escritor para apreciar totalmente a ao de Nouwen. Ns, escritores, temos muito cime de nossa agenda e nossa privacidade, e as protegemos.
Alguns anos atrs, mudei do centro de Chicago para uma rea rural no Colorado especificamente para criar um distanciamento entre mim e o mundo louco l fora. Sim,
aceitamos compromissos para apresentar palestras, responder cartas e at mesmo retornar ligaes telefnicas de leitores curiosos, mas sempre cultivamos um domnio
particular no qual ningum entra. Henri Nouwen quebrou essas barreiras do profissionalismo. Ele mantinha um esquema ativo de correspondncia com cerca de 500 pessoas
e encorajava muitos deles a lhe fazerem uma visita pessoalmente.
      Conheo muitas pessoas que vem Nouwen como seu guia espiritual a distncia. Ele respondia s suas dvidas com cartas extensas, nunca dando a impresso de
que as pessoas estavam interrompendo sua vida ou impedindo que ele fizesse coisas mais importantes. Bob Buford, uma dessas pessoas, relembra: "Ele se aproximou de
mim, assim como de todas as outras pessoas, como se eu fosse a pessoa mais interessante com quem conversara". Ele tinha o dom de dar total ateno, tudo de si, a
qualquer pessoa que estivesse com ele.Atualmente, quando vejo pessoas recordando Nouwen, sou consumido pela culpa. Quando algum liga e fala demais, ligo meu computador,
cubro o fone para que a pessoa no oua o rudo do boto do mouse, e comeo a ver os compromissos que tenho no Microsoft Outlook. Minha esposa conta-me uma histria
durante o jantar e eu pergunto um detalhe que, como gentilmente me diz, ela falou dois minutos atrs. Como acho difcil sair da vida interior, onde a vida da maioria
dos escritores acontece, para o mundo das outras pessoas. Em contraste a isso, Nouwen vagueava ao lado das pessoas. Seus textos podem ter sofrido as conseqncias
disto, mas muitas pessoas se beneficiaram.
      Nouwen definiu, certa vez, a tarefa de um guia espiritual: "Voc est numa grande sala com uma plataforma de 15 centmetros de largura no centro. Ela est
a apenas 30 centmetros do cho acarpetado da sala. Muitos de ns agimos como se estivssemos vendados, tentando andar sobre esta plataforma, e temos medo de cair
dela. Mas no percebemos que estamos a poucos centmetros do cho. O guia espiritual  algum que pode tir-lo desta plataforma e dizer: 'Viu? Tudo bem. Deus ainda
ama voc'".
      Nouwen fez isto para mim em muitos aspectos. Comecei a assumir riscos em minha produo literria porque ele me mostrou esse caminho, falando abertamente de
suas neuroses e fracassos ao mundo inteiro. Comecei a ver as pessoas no como uma interrupo de meu trabalho, mas como a razo dele. Passei a ver a mim mesmo, com
Nouwen, como o irmo mais velho esperando do lado de fora da festa, ressentido pelos convidados que no lhe prestaram honras. Com esse incentivo, tambm vi as mos
do pai se estendendo em minha direo.
      J no fim da vida, Nouwen escreveu sobre a dificuldade que tinha para retornar  sua famlia na Holanda. Eles eram catlicos devotos na poca de sua adolescncia,
e ficaram felizes com sua deciso de ser padre. Agora, porm, a maioria dos membros da famlia havia perdido o interesse nas coisas espirituais. Se ele batizava
algum sobrinho durante suas visitas, os adultos diziam com condescendncia: "Para voc, isto  bom, mas  claro que no acreditamos nisto". Ele se sentia como um
artista que no agradava sua platia.
      Ao ler tais relatos, entendi por que Nouwen fez to poucas crticas contra uma Igreja que o irritava com suas polticas. Para ele, a Igreja, mesmo com todas
as suas falhas, representava um porto de esperana e conforto. Ele via os resultados da falta de f em sua famlia, materialmente prspera, mas espiritualmente vazia,
e nos alunos das universidades de elite, angustiando-se com a falta de resposta a seus questionamentos sobre o sentido da vida. Nouwen nunca se tornou um propagandista
da Igreja, mas certamente apontou o caminho na direo de uma comunho com Deus. A f era por demais importante para ele, o porto seguro de seu mundo atribulado.
      Somente aps sua morte, as pessoas conheceram a histria completa do burburinho que era sua vida. Seus textos possuem muitos indcios, e isto pode explicar
sua extraordinria recepo tanto entre catlicos quanto no meio dos protestantes, sem mencionar os incrdulos. Ele dava a impresso de abrir seu corao, no retendo
nada. Conseguiu nutrir a f das pessoas enquanto lidava com seus prprios problemas - na verdade, justamente porque ele escreveu to abertamente sobre suas dificuldades.
      Citando Gordon Allport,81 Nouwen certa vez descreveu a "f heurstica", ou a f que considera um fato vlido at que possa ser confirmado. Nouwen apresentou-me
um exemplo de f heurstica. Ele se apegava quilo que acreditava, mesmo quando todas as circunstncias de sua vida eram desfavorveis. Ele confiava no carter de
Deus, mesmo quando sua vida ficava cada vez mais escura e a mo de Deus parecia invisvel. Ele continuava agindo como o responsvel irmo mais velho, mesmo quando,
olhando para dentro de si, via-se como um prdigo.

   Assim, estou orando, mesmo sem saber como orar. Descanso, mesmo quando me sinto impaciente; tenho paz quando estou sendo tentado; sinto-me seguro em meio  ansiedade;
cercado de uma nuvem de luz, mesmo quando estou no meio das trevas; em amor, enquanto ainda tenho dvidas.
   (Extrado de The Road to Daybreak - Estrada para a paz 82)

      Um ex-membro da comunidade Daybreak disse: "Quando penso em Henri, penso em dois livros: um  o livro que Henri escreveu 40 vezes, mas que no podia viver.
O outro  o livro que Henri viveu por quase 65 anos, mas que no podia escrever. O segundo espera ser escrito, agora que o significado da vida de Henri e a sabedoria
so revelados,depois de sua morte". O prprio Nouwen lamentou: "As pessoas que lem sua idia tendem a pensar que seus textos refletem sua vida".
      Michael Ford, o bigrafo de Nouwen, entrevistou mais de uma centena de pessoas que conheciam bem o padre. Muitas delas voltaram ao tema da dissonncia em sua
vida, especialmente entre o que ele dizia nos livros e falava nas palestras e como ele agia em pessoa. Ele era capaz de abordar temas inspirativos sobre a vida espiritual
e, ento, cair em profundo pavor. Falava da fora que obtivera ao viver na comunidade para, ento, s duas horas da manh, visitar um amigo e, soluando, pedir ajuda.
Suas contas telefnicas normalmente eram mais altas do que o valor do aluguel, pois ele ligava para o mundo inteiro, desconsiderando fusos horrios, na desesperada
busca por companhia. Se um amigo deixava de cumpriment-lo, demorava muito a responder a uma carta ou no o convidava para tomar um caf depois de uma palestra,
ele ficava amuado por vrios dias, quase imobilizado pela rejeio. Em resumo, ele se sentia chamado a apresentar uma mensagem de paz interior e aceitao que ele
mesmo nunca sentiu.
      Ford conclui que Nouwen era "um homem inteligente, cheio de generosidade, graa e viso pastoral, mas tambm uma pessoa profundamente insegura, cheia de angstia,
dor e ansiedade". Sua biografia revela um segredo que ele ocultou de todos, exceto algumas poucas pessoas, durante toda sua vida: o padre era celibatrio homossexual.
Como resultado, ele ansiava por relacionamentos ntimos, mas se afastava deles em funo do medo de aonde eles poderiam lev-lo. Ford diz: "Percebi quanto o desejo
homossexual h muito reprimido na vida de Nouwen significava para suas lutas, e como provavelmente fora o estmulo para seus poderosos textos sobre solido, intimidade,
marginalidade, amor e posse".
      Conheci vrias pessoas no ministrio que lutam com questes relativas  identidade sexual, sabendo que so gays e sentindo-se presas numa armadilha, sem nenhuma
maneira aceitvel de admitir a situao, e muito menos express-la. No conheo um caminho mais difcil para ser trilhado por uma pessoa de integridade. Agora, releio
os textos de Nouwen e vejo a profunda e oculta agonia que reside naquilo que ele escreveu sobre rejeio, sobre a ferida da solido que nunca se cura, sobre amizades
que nunca satisfazem.
      Nouwen buscou ajuda num centro que trabalhava com mulheres e homens homossexuais, e ouviu seus amigos gays apresentarem vrias opes. Ele poderia continuar
como um padre celibatrio e "sair do armrio" como um gay, o que, pelo menos, liberaria o segredo que ele mantinha com tamanha angstia. Poderia se declarar, deixar
o sacerdcio e buscar um companheiro. Ou poderia continuar publicamente como um padre e procurar, secretamente, desenvolver um relacionamento homossexual. Nouwen
pesou cuidadosamente cada opo e rejeitou todas. Qualquer confisso pblica de sua identidade atingiria seu ministrio, temia ele. As duas ltimas opes pareciam
impossveis para algum que havia feito um voto de celibato e que tinha procurado orientao sobre imoralidade sexual na Bblia e em Roma. Ele optou, assim, por
continuar vivendo com sua ferida. Optou por esta sada muitas e muitas vezes.
      O padre ou o pastor  constantemente tentado a ver-se como aquele que d as respostas, a autoridade espiritual, o despenseiro da graa, no seu receptor. Para
lutar contra essa tentao, a tentao do irmo mais velho, Nouwen concentrou seus textos nos fracassos e nas imperfeies. Ele normalmente expressava a ferida em
termos de solido, desassossego e rejeio, em vez de trat-la como sexualidade. Arriscando-se a gerar comentrios, ele escreveu sobre laos emocionais com amigos
que somente seus votos sacerdotais o impediram de consumar. Falou da alienao que sentiu quando deixou sua famlia e seu pas, mudando-se para os Estados Unidos,
depois para a Amrica do Sul, e ento para o Canad. Considerado um desajustado dentro de sua prpria famlia na Holanda, buscou constantemente um verdadeiro lar.
      Certa vez, ele descreveu a ferida da solido como algo que lembrava o Grand Canyon: uma profunda inciso na superfcie da existncia que se transforma numa
inextinguvel fonte de beleza e autocompreenso. Esse insight tipifica a abordagem de Nouwen com relao ao ministrio. Ele no promete uma sada para a solido,
tanto para si quanto para os outros. Em vez disto, ele apresentava a promessa de redeno atravs da solido. Para os leitores e ouvintes, talvez a ferida tenha
se tornado uma fonte de beleza e compreenso. Para o prprio Nouwen, ela raramente representava alguma coisa que no fosse dor.
      Apesar de jamais resolver seu desassossego, ele aprendeu a control-lo do mesmo modo que algumas pessoas aprendem a lidar com uma dor crnica. "Voc no foge
dela, mas passa por ela, se levanta e a encara bem nos olhos." Se assim fizer, voc poder encontrar, no meio da dor,algum dom oculto, uma fonte de esperana. Nouwen
confessou que, em sua prpria vida, os verdadeiros dons eram concedidos nas reas de maior sofrimento. A dor o forou a se aproximar de Deus, em quem ele descobriu
e redescobriu uma fonte de fora "de algum que me ampara, que me ama desde antes de eu ter nascido e que me amar muito depois de eu ter morrido".
      A obra The Road to Daybreak comenta a deciso de Nouwen de mudar para Daybreak em busca de um verdadeiro lar. Um crtico (Harold Fickett) escreveu que ficou
desapontado ao ver que os mesmos problemas descritos uma dcada antes, em The Genesee Diary (O dirio de Genesee) - amizades deficientes, amores no correspondidos,
mgoas e desprezo -, continuavam a assolar a vida de Nouwen. Fickett prosseguiu: " desanimador, do mesmo modo que  decepcionante, sermos ns mesmos - a mesma pessoa,
com os mesmos problemas, que aprende e precisa aprender novamente, e mais uma vez, as lies bsicas da f religiosa. Nouwen no poupa a si mesmo nem a ns do embarao
dessa verdade perene".
      Fickett colocou o dedo numa caracterstica marcante de Nouwen: ele realmente no poupa nem a si nem aos leitores o embarao da verdade, independentemente da
aparncia que a verdade lhe d. Muito de nosso sofrimento, dizia Nouwen, vem de nossas lembranas, enterradas profundamente dentro de ns, as quais liberam um tipo
de toxina que ataca o centro de nosso ser. Mostramos as boas lembranas atravs de trofus, diplomas e lbuns de recortes. As outras, as lembranas ruins, permanecem
ocultas de nossa viso, de onde escapam da cura e causam dano permanente.
      Nossa reao instintiva a essas lembranas lesivas  agir como se aquilo no tivesse acontecido, no falar sobre elas e, em vez disto, pensar em coisas mais
alegres. Porm, por meio da iniciativa de no nos lembrarmos, permitimos que as lembranas suprimidas ganhem fora e prejudiquem nosso funcionamento como seres humanos.
Nouwen teve a coragem de lanar luz sobre alguns desses lugares profundos, de expor as lembranas lesivas dentro de si mesmo. "Aquele que efetivamente cura feridas
 o ferido", disse ele, numa frase memorvel.
      Minha nica conversa longa com Nouwen ocorreu logo depois de ele ter voltado de So Francisco, onde havia trabalhado por uma semana numa clnica para doentes
de Aids. Naquela poca, eu no sabia nada sobre as questes sexuais de Nouwen. Ele me contou o que vira no distrito de Castro. A palavra gay 83 parecia totalmente
fora de lugar naquele local, bem no apogeu da crise da Aids. Rapazes morriam todos os dias, e milhares andavam apavorados, sem saber se eram portadores do vrus.
Mesmo nas lojas em que eram vendidas camisetas espalhafatosas e objetos que beiravam o obsceno, o medo pairava como um denso nevoeiro sobre as ruas. No apenas o
medo, disse ele, mas tambm o sentimento de culpa, o dio e a rejeio.

      Na clnica, Nouwen ouvia histrias pessoais. "Sou um padre, este  meu trabalho. Ouo as histrias das pessoas. Elas se confessam a mim." Ele me contou de
jovens banidos de suas prprias famlias, forados a se prostituir nas ruas. Alguns deles tinham centenas de parceiros com quem haviam se encontrado em casas de
banho, cujos nomes nunca souberam, sendo que, de um desses parceiros, eles haviam contrado o vrus que agora os estava matando.
      Nouwen olhou para mim com seus olhos penetrantes, brilhando de compaixo e dor. "Philip, aqueles rapazes estavam morrendo - literalmente - por causa de sua
sede de amor." Ele prosseguiu, contando-me histrias individuais que ouvira ali. Todos os relatos tinham em comum a busca por um lugar seguro, por um relacionamento
estvel, por um lar, por aceitao, por amor incondicional, por perdo - a prpria busca de Nouwen, percebo hoje.
      Os comentrios de Nouwen sobre sede me tocaram fundo e, com o passar do tempo, realizaram uma transformao em meu esprito. Como escritor associado da revista
evanglica Christianity Today, tinha contato regular com pessoas que lideravam a direita religiosa. Com um grupo de 12 evanglicos, fui convidado a ir  Casa Branca
para responder a uma pergunta do presidente Bill Clinton: "Por que os cristos me odeiam?" Alguns de meus colegas se viram como cruzados numa imensa guerra cultural.
Eles descreviam vividamente essa ameaa como tendo sido feita por pessoas "imorais e mpias".
      Atravs dos olhos de Nouwen, passei a olhar essas pessoas com outros olhos. No como imorais e mpias, mas como sedentas, como pessoas que morriam por amor.
Como a mulher samaritana no poo, elas haviam bebido uma gua que no as satisfazia. Precisavam da gua Viva. Depois de conversar com Nouwen, todas as vezes que
encontrava algum cujo comportamento me ofendia ou revoltava,eu orava, dizendo: "Deus, ajude-me a ver esta pessoa no como algum repulsivo, mas como uma pessoa
sedenta".
      Quanto mais orava assim, mais me via do mesmo lado da pessoa que me causava repulsa. Eu tambm no tinha nada a oferecer a Deus, seno minha sede. Como o irmo
mais velho da parbola, nunca poderei experimentar a graa de Deus limpando minha vida ou participar da festa da famlia, se ficar do lado de fora da sala do banquete,
de braos cruzados, numa postura de superioridade moral. A graa de Deus vem como um presente gratuito, mas somente aquele que estiver com os braos abertos poder
receb-la.
      No fim de tudo, a contribuio de Henri Nouwen como sacerdote e escritor ficou em minha mente. Ele no oferece nada novo sobre a personalidade humana, nenhuma
sabedoria que no pudesse ser superada por qualquer outra autoridade. Ao contrrio, ele oferece a postura humilde do filho prdigo.
      A prpria ferida profunda exps a hipocrisia da posio natural de filho mais velho. Solido, tentao, rejeio, alienao - tudo isso cooperou para produzir
nele uma sede inegvel. Ele precisa acertar-se consigo, como o prdigo na busca incansvel pelo lar.

   A f  a confiana radical de que a casa sempre esteve naquele lugar e sempre estar. As mos estendidas do pai descansam sobre os ombros do prdigo com a duradoura
bno divina: "Tu s o meu Amado, meu favor  por ti". Mas muitas e muitas vezes eu deixei meu lar. Fugi das mos abenoadoras e corri para lugares distantes em
busca de amor! Esta  a grande tragdia de minha vida e das vidas de tantas pessoas que encontro em minha jornada. De algum modo, tornei-me surdo  voz que me chama
"amado", deixei o nico lugar em que poderia ouvir esta voz e corri desespe-radamente, esperando encontrar, em algum outro lugar, aquilo que no mais podia ver em
minha casa.
   (Extrado de The Return of the Prodigal Son)

      Desde criana, sinto uma forte e, sem dvida, injusta resistncia aos evangelistas itinerantes, pregadores e autores devocionais que carregam dentro de si
um tom de superioridade moral. Em muitos momentos, eles me conduziram por caminhos errados; em muitas ocasies, caram do pedestal no qual eu os havia colocado.
Ouo, porm, algum que se apresenta como um pecador falando a outro. Dou ouvidos quele que comea com uma confisso de sede, de saudade de casa.
      Em Making All Things New (Renovando todas as coisas 84, Henri Nouwen escreveu aquilo que pode ser colocado como o epitfio de sua jornada:

   Pobreza, dor, luta, angstia, agonia e at mesmo escurido interior podem continuar a fazer parte de nossa experincia. Tudo isso pode at mesmo ser a maneira
de Deus nos purificar. Mas a vida deixa de ser maante, rancorosa, depressiva ou solitria porque passamos a entender que tudo que acontece faz parte do caminho
que trilhamos rumo  casa do Pai.

      Em incontveis aparies pessoais, em mais de 40 livros e, acima de tudo, em sua vida pessoal, Nouwen demonstrou que defeitos e fidelidade no suplantam um
ao outro, mas coexistem. Todos ns temos feridas. A de Nouwen vinha da ansiedade sobre sua identidade sexual e a hipersensibilidade  rejeio. A minha vem, basicamente,
da famlia e da Igreja. As de outros podem vir de doenas crnicas e de dores profundas. Podemos viver como vtimas, culpando a Deus ou algum mais por nosso infortnio.
Ou, ento, seguindo Nouwen, podemos deixar que essas feridas nos levem a Deus. Depois de passar seis meses entre os monges trapistas na abadia em Nova York, Nouwen
perguntou a si mesmo se os momentos intensos com Deus haviam resolvido seu problema, se ele fora transformado numa pessoa diferente, mais espiritual. Ele precisava
responder que no. Percebeu que um mosteiro no foi construdo para resolver problemas, mas para que Deus seja louvado ali.
      Certa vez, enquanto servia como capelo na Comunidade L'Arche, na Frana, Nouwen ouvia o dia inteiro pessoas confessando suas vidas secretas no sacramento
da reconciliao. Conforme ouvia suas histrias de culpa e vergonha, sentia-se sobrepujado por seu senso de isolamento. Ele queria reunir todos aqueles que haviam
se confessado e pedir que compartilhassem suas histrias uns com os outros, de modo que pudessem descobrir quanto tinham em comum. Cada um achava que era o nico
a lidar com uma dor ou dvida em particular. Na realidade, eles estavam confessando uma humanidade compartilhada por todos. O padre Nouwen, sem ningum com quem
compartilhar seus segredos interiores, correu o risco de revel-los - ou, pelo menos, a maioria deles - para o resto de ns. Ele sabia que, por escondermos nossa
dor, tambm estamos escondendo nossa capacidade de curar. "Ningum pode satisfazer todas as suas necessidades", lembrava ele a si mesmo, num dirio mantido durante
os anos de maior tenso na rea sexual. "Voc precisa gradualmente sair do choro exterior, clamando por algum que voc acha que pode satisfazer suas necessidades,
para o choro interior, no lugar em que voc pode se deixar ser seguro e amparado por Deus, que se encarnou na humanidade daqueles que o amam na comunidade."
      Daybreak, o lugar em que passou a ltima dcada de sua vida, tornou-se essa comunidade para Nouwen. Foi uma transio muito difcil, num primeiro momento.
Acostumado a se dirigir a grandes platias de admiradores, achava irritante falar para pessoas que no compreendiam palavras muito compridas, que roncavam, babavam
e faziam movimentos espasmdicos durante suas homilias. Se um dos internos no gostasse do sermo do padre, interrompia a missa para diz-lo. Nouwen descobriu que
suas palavras bonitas e sua argumentao tinham pouca relevncia para aquilo que os internos estavam sofrendo. Para aqueles corpos e mentes danificados, o rico currculo
do escritor no significava nada. Eles sequer podiam ler seus livros. Tudo que importava era se ele os amava.
      Sendo um sacerdote que no sabia nada sobre as tarefas domsticas comuns - cozinhar, passar, cuidar de crianas -, viu-se completamente desajeitado quando
lhe foi pedido que cuidasse dos doentes. Com o tempo, porm, ele passou a amar aquelas pessoas. E no nascimento da compaixo por aquelas pessoas com corpos defeituosos
ao seu redor, ele comeou, pelo menos, a perceber quanto Deus poderia amar uma pessoa ferida como ele mesmo.

   Precisei de muito tempo para sentir-me seguro neste clima imprevisvel, e ainda h momentos nos quais sou severo e digo a todos para ficarem calados, formarem
fila, me ouvirem e acreditarem naquilo que digo. Mas tambm tenho contato com o mistrio de que a liderana significa, em grande parte, ser conduzido. Descobri que
estou conhecendo uma srie de coisas novas, no apenas as dores e as lutas das pessoas, mas tambm sua graa e seus dons nicos. Eles me ensinam sobre alegria, paz,
amor, cuidado e orao, coisas que eu jamais poderia aprender nos meios acadmicos. Eles tambm me ensinam o que ningum mais poderia ter-me ensinado: coisas sobre
a tristeza e a violncia, o medo e a indiferena. Acima de tudo, eles me do uma viso do primeiro amor de Deus, especialmente nos momentos em que me sinto deprimido
e desencorajado.
   (Extrado de In the Name of Jesus)

      Nouwen ligou-se de tal modo quelas pessoas, tornou-se to dependente delas que comeou a lev-las consigo quando viajava para fazer alguma conferncia. Enquanto
palestrantes conhecidos cobravam honorrios de cinco mil a dez mil dlares, Nouwen pedia apenas 500 dlares (os quais eram entregues  Daybreak) e uma passagem de
avio para ele e seu acompanhante. Um reprter do The Wall Street Journal lembra-se de sua participao numa dessas reunies na Carolina do Norte. Quando Nouwen
convidou seu amigo Bill - o mesmo que interrompeu a missa -para falar ao microfone, o reprter pensou consigo mesmo que as pessoas viajaram de longe para ouvir Henri
Nouwen, e no a Bill.
      Nouwen ficou ao lado de Bill para lhe dar apoio. Bill olhou para a platia, e as palavras lhe fugiram. Ele ficou paralisado. Simplesmente colocou a cabea
no ombro de Nouwen e chorou. Muito do que Nouwen disse foi esquecido por seus ouvintes na Carolina do Norte; a lembrana de Bill descansando sua cabea nos ombros
do padre, no. "Em verdade vos digo: quem no receber o Reino de Deus como uma criana, de maneira nenhuma entrar nele", disse Jesus. "Ento, tomando-as nos braos
e impondo-lhes as mos, as abenoava" (Mc 10:15, 16).
      Daybreak designou uma pessoa em especial da qual Nouwen deveria tomar conta: Adam (seu relacionamento  celebrado no livro de Nouwen chamado Adam: God's Beloved
- Adam: o amado de Deus -, publicado postumamente, em 1997). Adam era a pessoa mais fraca e incapacitada da comunidade. Apesar de estar na casa dos 20 anos de idade,
Adam no podia falar, vestir-se e caminhar sozinho, nem sequer se alimentar sem ajuda. Em vez de aconselhar estudantes das escolas mais prestigiadas dos Estados
Unidos ou de administrar uma agenda superlotada, Nouwen precisou aprender uma srie de novas habildades: dar comida a algum; trocar a roupa e dar banho em Adam;
segurar seu copo enquanto ele bebia gua; empurrar sua cadeira de rodas por um caminho esburacado. Ele ministrou no a lderes e intelectuais, mas aum jovem que,
para muitos, era considerado apenas um vegetal, uma pessoa intil que no deveria ter nascido. Mas Nouwen gradualmente aprendeu que ele, no Adam, era o maior beneficirio
daquela estranha e desajustada relao.
      Das horas passadas com Adam, Nouwen obteve uma paz interior que fez que suas outras tarefas, mais intelectuais, parecessem desinteressantes e superficiais.
Sentado ao lado daquela criana adulta e silenciosa, ele percebeu quo obsessiva e marcada pela competio e pela rivalidade era sua busca pelo sucesso no meio acadmico.
De Adam, ele aprendeu que "o que faz de ns humanos no  nossa mente, mas nosso corao; no nossa habilidade de pensar, mas nossa capacidade de amar. Todo aquele
que se refere a Adam como sendo um vegetal ou uma criatura semelhante a um animal deixa de ver o sagrado mistrio de que Adam  plenamente capaz de dar e receber
amor".
      Veja o que Nouwen aprendeu com Adam:

   Mantenha seus olhos naquele que se recusa a transformar pedras em po, que no pula de uma grande altura e abdica de governar com grande poder temporal. Mantenha
seus olhos naquele que diz: "Bem-aventurados so os pobres, os mansos, os que choram e aqueles que tm fome e sede de justia; bem-aventurados so os misericordiosos,
os pacificadores e aqueles que so perseguidos por causa da justia" (...) Mantenha seus olhos naquele que  pobre com os pobres, fraco com os fracos e rejeitado
com os rejeitados. Aquele que fez essas coisas  a fonte de toda a paz.
   (Extrado da revista World Vision)

      Enquanto estava sentado no Museu Hermitage, em So Petersburgo, Rssia, meditando no grande quadro de Rembrandt, Nouwen no teve problemas para se identificar
com o irmo mais velho, pois aquela fora sua posio natural na vida, treinado desde jovem para ser um padre virtuoso. Tambm no tinha problemas para se identificar
com o prprio filho prdigo, pois uma inquietao interna o levava a confrontar seu prprio "eu" profundamente carente e a lanar-se sobre a misericrdia do Pai.
Foi ao se projetar na figura do pai que ele se recolheu. Para ele, o pai sempre foi um personagem poderoso e distante, algum que inspirava temor.
      No no quadro de Rembrandt, porm. A mo direita colocada sobre o ombro do prdigo  macia e carinhosa, a mo feminina. A cabea do pai est carinhosamente
inclinada para o lado, e ele se curva para encurtar a distncia entre ele e seu filho. Ao faz-lo, sua confortvel capa vermelha estende-se como as asas de um pssaro
protetor. Nouwen se lembra da imagem feminina que Isaas teve sobre Deus: 'Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que no se compadea
do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, no me esquecerei de ti" (49:15). Tambm se lembrou do clamor maternal de Jesus
como o de uma galinha que rene os pintinhos debaixo de suas asas (Mt 23:37). Ele percebeu que a imagem que tinha de Deus Pai precisava de grande correo.
      Enquanto meditava mais sobre isso, teve um grande insight sobre aquela parbola: o mistrio de que o prprio Jesus havia se tornado uma espcie de prdigo
por nossa causa. "Ele deixou a casa de seu Pai celestial, veio a um pas estranho, deu tudo o que tinha e, atravs da cruz, voltou  casa de seu Pai. Tudo isso ele
fez no como um filho rebelde, mas como o filho obediente, enviado para trazer de volta todos os filhos perdidos de Deus... Jesus  o filho prdigo do Pai prdigo,
que abdicou de tudo que o Pai lhe confiara para que eu pudesse ser como ele e voltasse para a casa de seu Pai."
      Finalmente, Nouwen encontrou uma maneira de se identificar com o pai da pintura de Rembrandt. As pessoas o chamavam "pai"85 o tempo todo, especialmente quando
ele usava a batina e o colar clerical. Ele podia aceitar esse ttulo da maneira como a parbola retratava, o pai como aquele que acena tanto para o filho mais velho
quanto para o prdigo. "No posso ser filho para sempre", pensava Nouwen. "Deus est me chamando para ser como ele, para mostrar aos outros a mesma compaixo que
ele est mostrando a mim. Ele est me chamando para alcanar os feridos e necessitados, para dar-lhes boas-vindas  famlia de Deus." Foi esta percepo que motivou
a difcil deciso de deixar Harvard e se transferir para Daybreak.
      Nouwen foi a primeira pessoa que vi usar a expresso "mobilidade descendente". Em um artigo de 1981, publicado na Sojouners, Nouwen escreveu contra a incontrolvel
busca pelo prestgio, pelo poder e pela ambio - em outras palavras, a mobilidade ascendente -, to caracterstica da cultura americana. "O grande paradoxo que
as Escriturasnos revelam  que liberdade real e total s pode ser alcanada por meio da mobilidade descendente. A Palavra de Deus veio a ns e viveu entre ns como
um escravo. O jeito divino  realmente o caminho para baixo."
      Quando mudou-se para Daybreak, Nouwen agiu de acordo com o padro divino da mobilidade descendente. Tudo isso aconteceu contra todos os instintos, admitiu
ele. Deixar um cargo estvel numa das mais importantes escolas do mundo para se estabelecer numa comunidade de deficientes mentais no fazia sentido, de acordo com
os padres modernos de medida de sucesso. Quando ouvi a notcia, dei risada ao pensar sobre a deciso de Nouwen de ser um santo tolo. Quo errado eu estava. Ele
no tomou a deciso como um ato de auto-sacrifcio. Optou por causa dele mesmo.
      Na verdade, o que os outros viram como um padro de mobilidade descendente em sua carreira, Nouwen via como uma forma de mobilidade interior. Ele se afastou
com o objetivo de olhar para dentro de si, para aprender como amar a Deus e ser amado por ele de modo que pudesse chamar os outros a esse amor. Ele descreveu sua
inteno citando uma passagem do livro Zen and the Art of Motorcycle Maintenance (Zen e a arte da manuteno de motos), de Robert Pirsig:

   Pirsig descreve dois tipos de alpinistas. Ambos colocam um p na frente do outro, respiram na mesma freqncia, param quando esto cansados e seguem adiante quando
esto descansados. Mas aquele que escala egos no tira proveito desta experincia. Ele no nota a beleza da paisagem proporcionada pela luz do Sol em meio s rvores.
Busca a trilha para ver o que est adiante, muito embora tenha feito a mesma coisa dois segundos atrs. "Sua conversa  sempre sobre algum outro lugar, alguma outra
coisa. Ele est ali, mas no est ali. Aquilo que ele busca est ao redor dele, mas ele no quer simplesmente porque aquilo est ao redor dele."
   (Extrado de The Genesee Diary)

      Nouwen estava vivendo sua vida espiritual como um alpinista de egos. Livros para ler, habilidades a desenvolver, palestras a apresentar, cartas para responder
- estas coisas o pressionavam de tal modo que ele no notava a presena de Deus ao seu redor, e enquanto isso, esforava-se para ver o que havia adiante, mais 
frente na trilha. Quando pediu conselhos a Madre Teresa de Calcut, ela disse: "Passe uma hora por dia em orao contemplativa e no cometa nenhum pecado de conscincia".
Nouwen tinha dificuldades para separar uma hora por dia, mas em Daybreak ele conseguiu arrumar meia hora diariamente. Comeou a pensar na orao de maneira diferente,
no apenas como um tempo de conversar, mas de ouvir; um momento tranqilo e atencioso para "ouvir a voz que diz coisas boas sobre mim". Para algum inseguro e assolado
por dvidas como Nouwen, esta foi uma difcil disciplina.
      Quando se mudou para Daybreak, Nouwen comeou a ponderar sobre os efeitos do afastamento. Ser que sofreria por viver fora do turbilho? Em vez disto, do mesmo
modo que Thomas Merton, ele descobriu que a cidade de recolhimento no leva necessariamente ao isolamento. Um escritor que j escreveu bastante sobre os eremitas
traa um paralelo entre eles e os cientistas que trabalham sozinhos na busca da cura de algumas doenas, o que, por fim, ajudar muitas pessoas. A maioria dos seguidores
de Nouwen acha que sua obra cresceu e ficou mais relevante, no menos, durante o tempo que viveu em Daybreak.
      Encontrei-me pessoamente com Henri Nouwen apenas uma vez, numa visita que fiz a Daybreak. Primeiramente, conversamos em seu escritrio, compartilhando histrias
sobre editores e comparando alguns dos tpicos sobre os quais queramos escrever. Sentindo-me um pouco sem jeito, mencionei que estava terminando um livro intitulado
Decepcionado com Deus. Em vez de franzir a testa ao ouvir o ttulo, ele ficou cada vez mais entusiasmado, gesticulando sem parar, e contando-me suas prprias experincias
de decepo. Em dado momento, ele se levantou, correu at a parede e tirou uma reproduo de um quadro de Van Gogh. "Aqui,  isto o que quero dizer", disse ele.
"Isto captura o esprito.  seu. Aceite-o como um presente."
      Quando chegou a hora do almoo, coloquei minha recm-adquirida obra de arte embaixo do brao e o segui por um caminho de madeira que levava ao lugar em que
ele vivia. Tinha uma cama de solteiro, uma prateleira e algumas peas de moblia do estilo shaker.86  As paredes no tinham nenhum adorno, a no ser uma reproduo
de outro quadro de Van Gogh - Nouwen havia contribudo para a elaborao de um livro chamado Van Gogh e Deus - e alguns poucos smbolos religiosos. Uma pessoa da
cozinha trouxera, havia pouco tempo, uma tigela com salada csar, uma jarra de vinho e um pedao de po. Nada de aparelho de fax, computador, calendrio pendurado
na parede - nessa sala, ao menos, Nouwen encontrara serenidade. A indstria da igreja parecia estar bem longe dali.
      Thoreau escreveu que "a maioria dos luxos e muitos dos assim chamados confortos da vida no so apenas dispensveis, mas se colocam como impedimentos  elevao
da raa humana. Com respeito aos luxos e confortos, o mais sbio viveu uma vida mais simples e escassa do que os pobres (...) Ningum pode ser um observador sbio
ou imparcial da vida humana se no estiver no vantajoso ponto de observao que deveramos chamar pobreza voluntria". Olhando em volta e comparando mentalmente
o ambiente de Nouwen com meu escritrio cheio de mquinas, livros e coisas, senti uma ponta de inveja. Sim, ele tinha secretrias que cuidavam da correspondncia
e uma irm religiosa que preparava suas refeies. Sim, um voto de pobreza eliminava preocupaes com o imposto de renda e a negociao de royalties, e um voto de
obedincia simplificava o processo de tomada de decises. Mas no era exatamente isso o que importava? Ele havia se livrado daquele estorvo para se comprometer com
algo mais elevado.
      Mas o que era aquilo mais elevado? Nouwen havia passado a manh inteira com seu amigo Adam. "Voc chegou aqui num momento muito especial", disse-me ele, bastante
entusiasmado. "Hoje  o aniversrio de Adam [com seu sotaque holands, o que ouvi foi "anifersrio"]. Ele est fazendo 26 anos, e seus pais e irmos estaro aqui
para uma celebrao muito especial da eucaristia."
      Naquele mesmo dia, disse-me Nouwen, ele j havia passado quase duas horas preparando Adam. Li a descrio daquele dia feita pelo prprio Nouwen:

   Levo quase uma hora e meia para acordar Adam, dar-lhe os remdios, lev-lo para tomar banho, barbe-lo, limpar seus dentes, vesti-lo, caminhar com ele at a cozinha,
dar-lhe seu caf da manh, coloc-lo na cadeira de rodas e lev-lo ao lugar em que passa a maior parte do dia fazendo fisioterapia (...) Ele no ri nem chora. Apenas
ocasionalmente faz algum contato visual. Suas costas so tortas. Os movimentos dos braos e das pernas so irregulares. Ele sofre de epilepsia severa, e, apesar
da forte medicao, passa poucos dias sem que tenha srios ataques. s vezes, quando fica repentinamente enrijecido, solta um grito muito forte. Em algumas poucas
ocasies, vi uma grande lgrima escorrendo por sua face.
   (Extrado da revista World Vision)

      Depois do almoo, fomos a uma pequena capela para o servio religioso. Com solenidade, mas tambm com um brilho nos olhos, Nouwen dirigiu a liturgia em honra
ao aniversrio de Adam. Incapaz de falar e profundamente retardado, Adam no deu qualquer sinal de compreenso, apesar de parecer estar reconhendo que sua famlia
viera para compartilhar com ele aquele momento. Ele babou durante toda a cerimnia e soltou gritos altos em alguns momentos.
      Devo admitir que fiquei com uma dvida passageira se aquela era realmente a melhor maneira de usar o tempo daquele sacerdote ocupado. J ouvira palestras de
Nouwen e lera vrios de seus livros. Sabia tudo que ele tinha a oferecer. Ser que no havia ningum mais que poderia assumir a tarefa de cuidar de Adam? De volta
a seu escritrio, quando mencionei cuidadosamente o assunto com o prprio Nouwen, ouvi-o dizer que eu havia feito uma interpretao completamente errada dele. "No
vou abandonar nada", insistiu ele. "Sou eu, e no Adam, o maior beneficirio de nossa amizade."
      Nouwen passou o resto da tarde respondendo s minhas perguntas, como se no acreditasse que pudesse perguntar tais coisas. Ficou citando vrias maneiras pelas
quais fora beneficiado por seu relacionamento com Adam. Ele estava verdadeiramente desfrutando de um novo tipo de graa espiritual, alcanado no formalmente, em
Yale ou em Harvard, mas ao lado de Adam. Ao ouvi-lo, fiquei convencido de minha prpria pobreza espiritual, eu que to cuidadosamente arranjava minha vida de escritor
para torn-la mais eficiente e concentrada.
      Nouwen admitiu que foi muito difcil, no comeo. O toque fsico, a afeio e a confuso que  cuidar de uma pessoa totalmente sem coordenao no chegam com
facilidade. Mas ele havia aprendido a amar Adam verdadeiramente. No processo, aprendeu como deve ser para Deus amar a ns - espiritualmente descoordenados, retardados
e capazes de reagir com aquilo que, para Deus, so apenas gemidos e grunhidos desarticulados. Trabalhar com Adam havia ensinado a ele a humildade e o vazio alcanado
pelos monges somente depois de muito sacrifcio. O tempo que ele passou cuidando de Adam se tornou um inestimvel perodo de meditao.Nouwen disse que, em toda
sua vida, duas vozes compeliam entre si dentro dele. Uma o encorajava a ter sucesso e alcanar posies, enquanto que a outra o chamava simplesmente ao descanso
e ao conforto de saber que ele era o amado de Deus. Somente na ltima dcada de sua vida ele deu ouvidos, de fato, a essa segunda voz. J no fim de tudo, Nouwen
concluiu que "o objetivo da educao e da formao para o ministrio  reconhecer continuamente a voz do Senhor, sua face e seu toque em cada pessoa que voc encontre".
Lendo esta descrio, compreendo por que ele no considerava uma perda de tempo convidar um estranho para viver com ele durante um ms, ou dedicar vrias horas do
dia para o cuidado servil de Adam.
      Recentemente, quando verificava os livros de Nouwen em minha biblioteca, deparei-me com trs livros que ele havia autografado para mim depois de minha visita.
"Obrigado por dar-me a coragem de continuar escrevendo", escreveu ele num dos livros. Sa de Daybreak sentindo-me convicto e envergonhado, como um jornalista intrometido
que estava tomando o tempo de um sacerdote. Nouwen, porm, nutriu uma lembrana bastante diferente, a de um companheiro de busca, algum amado por Deus. Como um
pai, ele me deu as boas-vindas  comunidade de Deus. Mesmo hoje, depois de sua morte, ele continua me dando esse dom renovado.
      Como Nouwen destaca: "Deus se alegra. No porque os problemas do mundo tenham sido resolvidos, no por causa do fim da dor e do sofrimento humano, nem porque
milhares de pessoas se converteram e agora esto louvando sua bondade. No, Deus se regozija porque um de seus filhos que estava perdido foi achado".
      Sinto falta de Henri Nouwen. Para alguns, seu legado consiste de seus muitos livros; para outros, seu papel como uma ponte entre os catlicos e protestantes;
para outros ainda, sua brilhante carreira entre as maiores universidades americanas. Para mim, porm, uma imagem simples captura o melhor de Nouwen: o sacerdote
enrgico, cabelos desgrenhados, usando suas mos incansveis como que para forjar uma homlia no ar, celebrando uma eloqente eucaristia de aniversrio para um homem-criana
incapaz de reagir, to defeituoso que seus pais prefeririam t-lo abortado. No posso imaginar um smbolo melhor para a encarnao.

      O legado de Henri Nouwen permanece vivo. Enquanto estava no processo de reunir todas essas reflexes, deparei-me com duas outras que incluo como um tipo de
ps-escrito de sua vida.
      A primeira ocorreu durante um discurso que ele fazia numa feira internacional em Frankfurt, Alemanha. Um editor holands veio a mim depois da programao e
disse: "Ah! mas voc no sabe o resto da histria. Voc mencionou como Henri se sentia deslocado em sua famlia e como seu vazio espiritual o chateava. Mesmo agora,
depois de sua morte, isto est mudando. Seu irmo, que por muitos anos dirigiu a maior associao turstica da Holanda, esteve diante de uma reunio de diplomatas,
embaixadores, membros do parlamento e outros dig-nitrios. Ele contou a experincia de estar presente no enterro de Henri e ouvir a palavra de pessoas vindas de
diversos pases, como Canad, Estados Unidos, Frana, Blgica e Holanda. Elas falaram do impacto de Henri em suas vidas. Seu irmo disse: 'Percebi que, comparado
a Henri, no tenho nada. Sentado ali, ouvindo, a diferena ficou ainda mais clara: Henri tinha Deus, e isto fazia toda a diferena'. Ele prosseguiu, falando da morte
de sua esposa por causa de um cncer, e tambm da morte de seu pai, que viveu um pouco mais que Henri. Ento, num esprito humilde, ele falou das mudanas que estava
fazendo agora em sua prpria vida, preparando-se melhor para a morte, restaurando seu relacionamento com o Deus a quem Henri conhecia to bem. Como voc pode perceber,
talvez Henri no tenha sido algo to estranho dentro de sua famlia".
      A segunda lembrana ocorreu em um culto do qual participei numa cidade litornea da Califrnia. O termo "informal" descreve perfeitamente sua cultura de adorao:
um lder vestido com roupas de surfis-ta (para pegar algumas ondas depois do culto) coloca sua guitarra no suporte, sobe ao plpito e pergunta: "E a, algum tem
alguma coisa para compartilhar com a gente hoje?"
      Naquela manh em particular, conforme aconteceu, trs jovens vieram preparadas para relembrar Henri Nouwen, cujo livro Life of the Beloved haviam lido juntas
num pequeno grupo.
      A primeira a falar, chamada Elizabeth, tinha um monte de anotaes, as quais seguiu estritamente. Falou de seus esforos para se tornar uma superempreendedora.
No segundo grau, lutava para sempre tirar A, para vencer o campeonato estadual de tnis, para liderar o ConselhoEstudantil e para fazer parte de todos os clubes
que pudesse. Ganhou o prmio Super Seahawk na escola. Lendo o livro de Nouwen, viu se na mesma fase de superempreendedor do autor. Percebeu que, assim como Nouwen,
estivera sedenta pelo amor de Deus o tempo todo, tentando desesperadamente alcan-lo. Ela conseguiu perceber o que o autor quis dizer sobre ver-se como a filha
querida de Deus, como uma pessoa que fora amada desde o princpio dos tempos, sem necessidade de se mostrar digna desse amor.
      A outra moa que falou, Kate, levou um computador porttil para o plpito e comeou a mexer com o mouse em busca de suas anotaes. Sua impressora se recusara
a funcionar naquela manh. "Este  um tipo de sintoma de minha vida", disse ela. "Tudo sempre d errado comigo." Ao contrrio de Elizabeth, ela no tinha um currculo
de grandes feitos. Na verdade, seu conselheiro lhe disse certa vez: "Kate, s vezes vejo pessoas com um complexo de Messias, pessoas que acham que podem salvar o
mundo. Voc tem um complexo de Satans. Acha que  capaz de destruir o mundo inteiro sozinha". Ela realmente se sentia amaldioada, incapaz de receber bondade. Estava
aprendendo com Nouwen a, pela primeira vez, ver-se abenoada, e no amaldioada.
      Kate fez outros comentrios depreciativos sobre si e fechou seu computador no momento em que todos comearam a rir. Ento Cathy se levantou. Seus lbios tremiam
e lgrimas comearam a se formar no canto dos olhos. A congregao ficou em silncio. "A maioria de vocs no conhece minha histria. Fui molestada quando era criana.
Na faculdade, droguei-me e fui violentada. Ficava perguntando: 'Por que eu?' Eu havia tentado ser boa. Ia  igreja todos os domingos e tudo o mais. Ento eu simplesmente
desisti. Voltei-me para o lcool, querendo diminuir minha dor.  claro que isto s me trazia mais dor ainda, e ento, eu bebia mais. Estava numa espiral que no
levava a lugar algum, sentin-do-me velha antes de deixar de ser jovem. Certo dia, parei diante de minha velha igreja s para ver o que havia mudado l dentro. No
prdio vazio, sem qualquer planejamento, comecei a orar. Comecei a berrar feito uma criana.
      " claro que nem tudo se resolveu naquele dia. A dor no foi embora. Era meu estado que eu estava confrontando na igreja, no minha cura. Mas, por intermdio
de Henri Nouwen, aprendi que sofrimento e alegria podem caminhar juntos, que Deus pode usar todas as situaes de nossa vida, at mesmo a dor que nunca vai embora.
Comecei a clamar por quebrantamento.
      "Fico feliz por essas coisas ruins terem acontecido em minha vida? No. Mas realmente percebo que elas me ajudaram a fazer de mim a pessoa que sou hoje. Posso
ser uma amiga verdadeira para outras pessoas. Posso oferecer um lugar seguro para as pessoas se refugiarem nos momentos difceis."
      Cathy encerrou sua palavra com sua prpria parfrase de Lucas 4, uma cena dramtica na qual Jesus entra na sinagoga e anuncia: "O Esprito do Senhor est sobre
mim. Ele me enviou para proclamar libertao aos cativos" (nfase do autor).
      Por vrios minutos, ningum se mexeu, a no ser para pegar os lenos. O trfego l fora, o dia ensolarado, os planos para o domingo na praia - nada disso importava
mais. Deus estava naquele lugar.
      Ento, as trs moas que haviam falado se levantaram e ofereceram os elementos da ceia umas s outras. "Este  o corpo de Cristo, partido por voc", disse
Kate, dando o po a Elizabeth. "O sangue de Cristo, derramado por voc", falou Elizabeth, estendendo o copo a Cathy. E o resto de ns formou duas filas desiguais
no corredor central, para comer e beber do quebrantamento de Deus.

HENRI NOUWEN PARA INICIANTES
      Seeds of Hope rene, em um nico volume, uma seleo de leituras das obras de Nouwen e fornece uma boa introduo queles que no se importam em ler passagens
fora do contexto. Recomendo A volta do filho prdigo e Life of the Beloved como introduo  sua introspectiva porm confortante obra. The Genesee Diary, Uma estrada
para a paz 87 e Sabbatical Journey trazem reflexes mais pessoais e autobiogrficas. Dos muitos outros livros de Nouwen, gosto particularmente de Gracias! e Intimidade
88 . Nouwen Then e Wounded Prophet trazem reflexes sobre Nouwen feitas por aqueles que o conheceram.

Eplogo
      Os escritores tm a prerrogativa de se concentrar em um nico assunto por vrios meses ou at anos. Recentemente, estive pensando em poucas outras coisas alm
das 13 pessoas presentes neste livro e como elas me afetaram. Fazer isso foi um tnico maravilhoso, que eu recomendaria, em doses menores, a qualquer pessoa. Faa
uma lista das pessoas que mudaram sua vida para melhor e procure descobrir por qu.
      Quando fiz uma reviso da lista como um todo, vi pessoas defeituosas, no perfeitas. Vrias delas seriam diagnosticadas por psiclogos como "instveis". Cada
uma delas teve desejos que no foram satisfeitos, sonhos que nunca se tornaram realidade. Aprendi com elas a lidar com meus prprios desejos. Ser que elas me fazem
seguir adiante, na direo da pessoa que eu gostaria de ser e ainda no sou, em direo ao Deus que quero conhecer? Ou ser que me deprimem, fazendo com que eu parea
cnico e cansado? Desses mentores, aprendi a ver os desejos como intimaes de algo maior, digno de minha incansvel e talvez ftil procura. Tambm aprendi a resistir
 tentao de me contentar com pouco.
      Soren Kierkegaard disse: "Com a ajuda do espinho em meu p, pulo mais que qualquer pessoa com um p sadio". Algumas das pessoas retratadas nesta coletnea
demonstram este provrbio muito bem. S complementaria dizendo que tambm precisamos da ajuda daqueles que nos mostram para onde pular. Para mim, essas pessoas apontam
o caminho.
      Tratei de muitas partes do meu passado neste livro, pois aqueles guias me mostraram a rota de minha peregrinao num momento crtico, quando minhas crenas
estavam se formando. Com relao ao presente, bem, este  o assunto da maioria dos meus outros livros.

***
         1 A maneira correta pela qual os americanos se referem aos indivduos da raa negra (nota do tradutor).
2 Publicado no Brasil pela Editora Francisco Alves.
3 Cntico Cristo ama as criancinhas, da srie "Cnticos de Salvao" (nota do tradutor).
4 Tordo: ave norte-americana, do mesmo gnero do melro.
5 Autor: John Howard Griffin.
6 Autor: Alex Haley, a partir de depoimentos. Publicado no Brasil pela Editora Record.
7 Escritora americana (1925-1964), conhecida pela maneira como combinava comdia e tragdia em suas histrias. Pertenceu  chamada "tradio gtica sulista", que
descrevia a decadncia do povo do sul dos Estados Unidos. Escreveu apenas dois romances, 31 histrias e alguns discursos e cartas.
8 Emprego temporrio, apenas durante o perodo das frias de vero, comum entre os estudantes norte-americanos.
9 Dixie: forma como os norte-americanos referem-se aos Estados do Sul que se uniram contra os ianques (soldados do Norte) na Guerra de Secesso, em 1861. , tambm,
o nome de uma cano tradicional daquela parte dos Estados Unidos. O nome vem do fato de se situarem ao sul da Linha Mason-Dixon.
10 Organizao secreta do sul dos Estados Unidos, formada por protestantes brancos depois da Guerra Civil para combater a emancipao da populao negra, usando
inclusive a violncia. Judeus e outras minorias tambm so alvos da Ku Klux Klan.
11 Poltico norte-americano do Alabama, cujo discurso era favorvel  segregao racial. No fim de sua carreira poltica, na dcada de 1980, mudou de posio e buscou
reconciliao.
12 Diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI), a polcia federal norte-americana, de 1924 a 1972.
13 National Association for the Advancement of Colored People (Associao Nacional para o Avano das Pessoas de Cor)..
14 Student Nonviolent Coordinating Committee (Comit Coordenador da No Violncia Estudantil)
15 Em maio de 1954, uma famlia negra de Topeka, no Estado do Kansas, entrou na Justia - e venceu - pelo direito da menina Linda Brown, de oito anos, de estudar
numa escola de brancos. A deciso da Suprema Corte dos Estados Unidos foi importante para determinar o fim da segregao racial no sistema educacional do pas.
16 A caminho da liberdade.
17 Eugene Connor (1897-1973), policial norte-americano que se notabilizou pela defesa da segregao racial e pelo uso de mtodos violentos para reprimir aes dos
movimentos de direitos civis.
18 Xerife do condado de Dallas, no Alabama, que se ops  marcha dos negros norte-americanos pela liberdade.
19 Publicado no Brasil pela Editora LTR.
20 O que vi na Amrica.
21 Jean-Paul Sartre (Frana,  1905-1980) e Albert Camus (Arglia/ Frana, 1913-1960), filsofos existencialistas.
22 Publicado pela Editora Germinal.
23 Publicado pela Editora Ediouro.
24 Campo de prisioneiros polticos na Rssia.
25 Escritor ingls e organizador de um dos mais famosos dicionrios da lngua inglesa (1709-1784).
26 Publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira.
27 Publicado no Brasil pela Editora Record.
28 Publicado no Brasil pela Editora Ediouro.
29 Ianque (yankee): forma como os norte-americanos referem-se a quem nasceu ou vive nos Estados do Norte.
30 Uma referncia a Franz Kafka (1883-1924), escritor tcheco que criticava um mundo de pessoas egostas e perturbadas.
31 Escritor, radialista e militante pelos direitos civis nos Estados Unidos.
32 Psiquiatra austraco naturalizado norte-americano (1903-1990), notabilizou-se por seus textos sobre complexidade psicolgica nos campos de concentrao nazistas.
33 Corrente da psicologia que se concentra na filosofia do comportamento humano, idealizada pelo norte-americano B.F. Skinner (1904-1990).
34 Referncia a Soren Kierkegaard (1813-1855), filsofo dinamarqus, fundador do existencialismo.
35 Empresa de nibus norte-americana.
36 Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) foi o 32 presidente dos Estados Unidos.
37 Publicado no Brasil pela Editora LP&M.
38 Publicado no Brasil pela Editora Ediouro.
39 Publicado no Brasil pela Editora Campus.
40  "What Would Jesus Do?", em ingls.
41 Publicado no Brasil pelas editoras Abba Press e Hagnos.
42 Malcolm Muggeridge (1903-1990), jornalista ingls, foi correspondente internacional e trabalhou para o servio de inteligncia britnico durante a Segunda Guerra.
Escreveu vrios livros sobre o cristianismo.
43 Publicado no Brasil pela Editora Ediouro como O que  arte?
44 Figura do folclore judaico, o dyhbuk  um demnio que entra no corpo de uma pessoa e controla seu comportamento.
45 Publicado no Brasil pela Editora Ediouro.
46 Em 2001, a Igreja Ortodoxa Russa recusou um pedido feito pelo tri-neto de Tolstoi para que os escritos do escritor fossem revistos, num processo de reconsiderao
de sua excomunho (nota do autor).
47 Premiao anual concedida a personalidades que ofereceram algum tipo de contribuio ao progresso humano.
48 Irmandade Huteriana, tambm conhecida como Os Anabatistas, grupo evanglico conservador sediado nos Estados Unidos.
49 Robert Coles recorda uma cena dos dias em que estudava e era voluntrio no movimento dos Obreiros Catlicos. Um colega de trabalho havia pichado alguns garranchos
na parede lateral do prdio que abrigava os pobres: "Sr. Gandhi, o que o senhor acha da civilizao ocidental?" Gandhi respondeu: "Acho que seria uma grande idia"
(nota do autor).
50 Benigno Aquino (1932-1983), poltico e militante de oposio nas Filipinas, foi assassinado pela ditadura de Ferdinand Marcos.
51 Nos ltimos anos de sua vida, Gandhi tornou-se absolutamente inflexvel nesta questo. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele aconselhou primeiramente os etopes
invadidos pelos exrcitos nazistas, depois os judeus e, por fim, a Gr-Bretanha a receber seus inimigos e se postarem diante dos algozes com serenidade e uma conscincia
limpa. Disse a seus seguidores que, se uma bomba atmica fosse jogada sobre a ndia, eles deveriam olhar para cima, "assistir sem medo e orar pelo piloto" (nota
do autor).
52 Retiro religioso ou comunidade em que vivem homens hindus considerados santos.
53 John Ruskin (1819-1900), crtico de arte e escritor britnico.
54 Militante negro sul-africano, libertado da priso para se tornar o primeiro presidente democraticamente eleito do pas, em 1994.
55 Fruta ctrica de casca fina e polpa levemente cida.
56 Exibidos no Brasil pela MTV e por canais por assinatura.
57 "Pai."
58 Cargo equivalente ao de ministro da Sade, no Brasil (nota do tradutor).
59 Perodo da histria recente dos Estados Unidos durante o qual foi exercida uma forte poltica conservadora e anticomunista, influenciada pelo general Douglas
MacArthur.
60 Personagem principal do romance Moby Dck.
61 Em ingls, "King James", monarca responsvel pela mais tradicional verso da Bblia em lngua inglesa.
62 Canoagem em rios turbulentos.
63 Corrente segundo a qual toda ordem e beleza do universo tem origem numa Inteligncia Criadora.
64 Modalidade literria na qual o escritor especializa-se na observao e descrio da natureza e da vida natural.
65 Pierre Teillard de Chardin (1881-1955), padre, pensador e paleontlogo francs.
66 Relativa aos hasidim, seita judaica ortodoxa que segue a lei mosaica literalmente.
67 Aviador acrobtico que forma letras ou figuras no cu ao soltar fumaa durante o vo.
68 Segundo a tradio catlica, Vernica enxugou o rosto de Jesus durante a caminhada pela Via Dolorosa, e o rosto do Senhor ficou estampado no leno.
69 Referncia  Moral Majority, grupo conservador evanglico norte-americano com forte influncia na poltica.
70 "Mergulhe no cho e se cubra", foram as primeiras reaes sugeridas em caso de um ataque com bomba, inclusive nuclear.
71 William Tecumseh Sherman (1820-1891), general norte-americano, comandante das tropas da Unio no Oeste, liderou um ataque que dividiu e desmobilizou o exrcito
confederado durante a Guerra Civil.
72 Hoje, os pastores fazem a mesma pergunta aos adolescentes, citando Cassie Bernall, assassinada no massacre da escola Columbine. como o modelo de f corajosa.
Somente agora a ameaa vem do inimigo interno, em vez do exterior (nota do autor).
73 Cerca de 30 mil desses cristos kakure ainda cultuam hoje em dia, e 80 igrejas caseiras conservam a tradio do "deus particular". Os catlicos romanos tentaram
receb-los e traz-los de volta  linha principal da f, mas os kakure resistiram. "No temos qualquer interesse em nos juntarmos a esta igreja", disse um de seus
lderes, depois de uma visita ao papa Joo Paulo II. "Ns, e ningum mais, somos os verdadeiros cristos" (nota do autor).
74 Referncia  Moral Majority, grupo conservador evanglico norte-americano com forte influncia na poltica.
75 Publicado no Brasil pela Editora Civilizao Brasileira.
76 Publicado no Brasil por Edies Asa.
77 Clarence Thomas, conservador contrrio s reivindicaes dos movimentos feministas nos Estados Unidos, nomeado por George Bush (pai) para a Suprema Corte, ficou
em situao embaraosa quando Anita Hill veio a pblico dizendo ter sido vtima de abuso sexual por parte do juiz.
78 Publicado no Brasil por Edies Asa.
79 Publicado no Brasil por Edies Asa
80 Publicado no Brasil pela Editora Paulinas.
81 Gordon Willard Allport (1897-1967), psiclogo norte-americano que pesquisou a personalidade humana.
82 Publicado no Brasil pela Editora Loyola.
83 A palavra gay era usada antigamente no sentido de "alegre", "vivo", sendo depois adotada pelo movimento homossexual (nota do tradutor).
84 Publicado no Brasil pela Editora Cultrix.
85 Em ingls, a palavra "father" significa tanto "pai" quanto "padre".
86 Referncia aos shakers, grupo cristo ultraconservador que rejeita a modernidade e vive em comunidades isoladas.
87 Publicado no Brasil por Edies Asa.
88 Publicado no Brasil pela Editora Loyola.
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